{"id":4406,"date":"2017-08-11T21:43:45","date_gmt":"2017-08-12T00:43:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=4406"},"modified":"2017-11-02T14:07:23","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:23","slug":"um-milhao-de-motivos-para-matar-um-gatinho-ou-um-mandarim","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/08\/um-milhao-de-motivos-para-matar-um-gatinho-ou-um-mandarim\/","title":{"rendered":"Um Milh\u00e3o de Motivos para Matar um Gatinho (ou um Mandarim)"},"content":{"rendered":"<p>Perguntaram-me se eu mataria um gatinho por um milh\u00e3o de d\u00f3lares. Bem, eu mataria (intransitivamente) por um milh\u00e3o de d\u00f3lares, desde, \u00e9 claro, que o pudesse fazer de maneira limpa. N\u00e3o me critique, voc\u00ea tamb\u00e9m faria o mesmo. Todos pensamos utilitariamente, e consideramos mais as consequ\u00eancias do que os meios. O que nos impede, em geral, s\u00e3o considera\u00e7\u00f5es de ordem est\u00e9tica: matar \u00e9 um ato brutal, animalesco, e que geralmente resulta em consequ\u00eancias comprometedoras para o resto da vida. Os seres humanos normais n\u00e3o matam porque reconhecem a impureza (f\u00edsica e espiritual) resultante do ato. Afinal, \u00e9 in\u00fatil ganhar um milh\u00e3o de d\u00f3lares se formos jogados numa cadeia imunda pelo resto da vida, se corremos o risco de esse mal ganho ser levado pelo diabo, ou pelo judici\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas a grande maioria dos seres humanos mataria se as consequ\u00eancias fossem m\u00ednimas, ou inexistentes.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, considerando que a pergunta pressup\u00f5e um meio limpo para a morte, acredito que eu mataria o gatinho muitas vezes, afinal, h\u00e1 tantos gatinhos no mundo que um a menos n\u00e3o far\u00e1 grande falta. Para que a quest\u00e3o seja interessante \u00e9 preciso que ela tenha um pouco mais de gume&#8230; Refiro-me a &#8220;O Mandarim&#8221;, uma novela portuguesa do s\u00e9culo XIX, escrita por E\u00e7a de Queir\u00f3s, que aborda exatamente o tema da \u00e9tica do assassinato limpo.<\/p>\n<p>No come\u00e7o da hist\u00f3ria somos apresentados a um servidor p\u00fablico pobre (de bolso e de esp\u00edrito), que sofre de amores sem poder se casar com a mulher de seus sonhos molhados por falta de dinheiro para organizar a cerim\u00f4nia e botar uma casa decente. Pouco depois ele recebe a visita de um cavalheiro bem vestido (que o contexto sugere ser o Diabo), que lhe faz uma oferta aparentemente inocente: se concordasse em apertar o bot\u00e3o de uma campainha, herdaria a fortuna de um mandarim chin\u00eas, que instantaneamente morreria. O Diabo deixa bem claro que o mandarim em quest\u00e3o \u00e9 uma pessoa com nome, sobrenome e uma hist\u00f3ria de vida, uma pessoa real, que a sua morte seria efetiva, e n\u00e3o uma ilus\u00e3o, e que a heran\u00e7a seria a prova da veracidade do fato.<\/p>\n<p>Diante dessa proposta, o protagonista, ap\u00f3s uma breve hesita\u00e7\u00e3o \u00e9tica, resolve apertar a campainha, o que faz de maneira at\u00e9 ansiosa, apenas se assustando com o ru\u00eddo sobrenatural que ela produz. Passado o susto, por\u00e9m, o Diabo o deixa e ele passa a crer que fora v\u00edtima de uma alucina\u00e7\u00e3o, ou de uma tro\u00e7a pregada por algum de seus amigos.<\/p>\n<p>O que acontece depois eu me reservo de contar, porque o livrinho \u00e9 excelente e eu n\u00e3o quero privar o caro leitor do prazer de sua leitura. Prefiro passar adiante e analisar o simbolismo maroto que E\u00e7a estava empregando, e praticamente esfregando na cara da Europa.<\/p>\n<p>O conceito da morte do mandarim para que o jovem se torne um milion\u00e1rio \u00e9 uma s\u00e1tira velada ao colonialismo. A gente da Europa o aceitava porque se beneficiava dos efeitos imediatos, sem ver os efeitos a longo prazo ou as consequ\u00eancias que trazia para outras partes do mundo, de onde era arrancada a riqueza que financiava as metr\u00f3poles. Para o t\u00edpico cidad\u00e3o europeu da Belle \u00c9poque, a vida era como o metaf\u00f3rico apertar do bot\u00e3o de uma campainha: em cada ato de sua vida ele herdava um pouco da riqueza de algum mandarim chin\u00eas, de algum africano escravizado ou de algu\u00e9m assim. Mesmo aqueles que sabiam, ou meramente intu\u00edam, a origem sangrenta da riqueza que ornava as cidades do Velho Mundo, nada podiam fazer, nada <em>queriam<\/em> de fato fazer.<\/p>\n<p>Justificava-se isso de muitas maneiras, sendo o racismo apenas a mais brutal delas. Para muitos a justificativa era desnecess\u00e1ria: n\u00e3o se pensava no assunto e pronto! Outros at\u00e9 tomavam conhecimento do caso, mas acreditavam que n\u00e3o era algo significativo, especialmente no caso de chineses e indianos, pois havia tantos! e eram todos t\u00e3o parecidos! A nega\u00e7\u00e3o da individualidade das v\u00edtimas do colonialismo era uma forma menos brutal de desumaniz\u00e1-las, tornando-as, assim, dispon\u00edveis e descart\u00e1veis. Poucos se comprazem em matar o \u00faltimo rinoceronte negro africano, mas esmagar uma formiga entre milh\u00f5es \u00e9 um ato considerado de maneira leve. A ess\u00eancia do colonialismo inclu\u00eda apresentar os povos colonizados como formigas, n\u00e3o derradeiros rinocerontes.<\/p>\n<p>O que o Diabo n\u00e3o conta \u00e9 que os atos cometidos inconsequentemente geram consequ\u00eancias de longo prazo, pois cada coisa que fazemos gera uma outra coisa, outra categoria. A vida \u00e9 foda.<\/p>\n<p>Vivemos pela espada, metaforicamente, porque todos vivemos do benef\u00edcio da morte. N\u00e3o matamos mandarins apertando campainhas, mas tudo que vemos ao redor \u00e9 feito de metaf\u00f3ricos ossos, de gatinhos e de pessoas. N\u00e3o precisamos matar pessoalmente porque matamos por procura\u00e7\u00e3o: comemos animais que outros mataram por n\u00f3s, desfrutamos do trabalho de outros que n\u00e3o foram pagos decentemente para que pud\u00e9ssemos comprar mais barato coisas de que, muitas vezes, nem precisamos.<\/p>\n<p>Tudo isso pode ser simbolizado por um antigo mandarim chin\u00eas vestido de amarelo. Bons sonhos hoje \u00e0 noite. Quantas vezes voc\u00ea apertou a campainha hoje?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perguntaram-me se eu mataria um gatinho por um milh\u00e3o de d\u00f3lares. Bem, eu mataria (intransitivamente) por um milh\u00e3o de d\u00f3lares, desde, \u00e9 claro, que o pudesse fazer de maneira limpa. N\u00e3o me critique, voc\u00ea tamb\u00e9m faria o mesmo. Todos pensamos utilitariamente, e consideramos mais as consequ\u00eancias do que os meios. O que nos impede, em geral, s\u00e3o considera\u00e7\u00f5es de ordem est\u00e9tica: matar \u00e9 um ato brutal, animalesco, e que geralmente resulta em consequ\u00eancias comprometedoras para o resto da vida. 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