{"id":442,"date":"2010-08-30T21:53:00","date_gmt":"2010-08-31T00:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=442"},"modified":"2017-11-02T14:09:25","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:25","slug":"a-guisa-de-manifesto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/a-guisa-de-manifesto\/","title":{"rendered":"\u00c0 Guisa de Manifesto"},"content":{"rendered":"<p>Uma das diferen\u00e7as entre pornografia \u2014 que n\u00e3o \u00e9 arte \u2014 e erotismo \u2014 que pode ser ou n\u00e3o \u2014 reside no tratamento do assunto. Na primeira, o conte\u00fado se resume ao tema apresentado: n\u00e3o h\u00e1 sutileza, n\u00e3o h\u00e1 enredo. Nem questionamento, nem inquietude, nem objetivos do autor. Oferece-se ao p\u00fablico exatamente aquilo que espera, sem levar de contrabando nenhuma semente de rebeldia. N\u00e3o existe manifesta\u00e7\u00e3o humana mais reacion\u00e1ria e nem mais conformista do que a pornografia. Talvez por isso, mesmo sendo severamente proibida por todos os regimes, tenha sido sempre tolerada por eles, com a chancela do &#8220;proibido&#8221;. O erotismo, por\u00e9m, ritualiza e complexifica o que, de fato, n\u00e3o \u00e9 mais do que o \u00f3bvio. O emaranhado de situa\u00e7\u00f5es que \u00e9 acrescentado no erotismo pode n\u00e3o ser artisticamente relevante, mas sempre revelar\u00e1 uma inten\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m da explora\u00e7\u00e3o do assunto.<\/p>\n<p>Sim, porque pornografia \u00e9 apenas uma das formas de explorar um assunto de forma superficial, apresentando-o como uma finalidade em si. Pode-se fazer isso com outros assuntos tamb\u00e9m. Um bom exemplo \u00e9 a &#8220;est\u00e9tica de viol\u00eancia&#8221; que est\u00e1 t\u00e3o no gosto dos jovens escritores de hoje. Apresentar a viol\u00eancia como assunto da obra (liter\u00e1ria ou outra), sem oferecer nenhuma reflex\u00e3o adicional, sem ritualiz\u00e1-la e nem complexific\u00e1-la, sem dar-lhe, enfim, uma dimens\u00e3o que a enquadre como parte de um processo ou como explica\u00e7\u00e3o de uma realidade; fazer isso \u00e9 explorar\u00e1-la de uma forma pornogr\u00e1fica. Soa ofensivo? Certamente. Saiba que uma tal abordagem ofende a muita gente. A mim, por exemplo.<\/p>\n<p>Viol\u00eancia e suic\u00eddio s\u00e3o fatos dados em uma sociedade, da mesma forma que o sexo. Apresent\u00e1-los de forma pura e simples \u00e9 como filmar um ato sexual e exibi-lo. Se n\u00e3o existe uma raz\u00e3o, uma fun\u00e7\u00e3o, uma reflex\u00e3o, uma semente de inquietude, alguma coisa, enfim, que torne a exibi\u00e7\u00e3o um feito art\u00edstico, ent\u00e3o ela est\u00e1 reduzida a uma &#8220;pornografia da viol\u00eancia&#8221;. N\u00e3o existe est\u00e9tica em puramente apresentar um assassinato, da mesma forma que n\u00e3o h\u00e1 na representa\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica de um p\u00eanis penetrando uma vagina repetitivamente at\u00e9 atingir-se um gozo fingido esquem\u00e1tico.<\/p>\n<p>Boa parte da produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u2014 e tamb\u00e9m da cinematogr\u00e1fica \u2014 padece deste exato mal: confundir uma representa\u00e7\u00e3o pornogr\u00e1fica (no m\u00e1ximo erotizada) com uma est\u00e9tica art\u00edstica. Vivemos uma era imersa em viol\u00eancia e em niilismo, na qual o sexo adquiriu uma fun\u00e7\u00e3o de v\u00e1lvula de escape das frustra\u00e7\u00f5es mais profundas do homem. Eros e Thanatos nunca estiveram t\u00e3o pr\u00f3ximos. Exibir ambos os lados, isolados de contexto e de finalidade, \u00e9 muito f\u00e1cil \u2014 exatamente por isso \u00e9 pornogr\u00e1fico. N\u00e3o \u00e9 preciso ter uma dimens\u00e3o reflexiva para ter a capacidade de representar o \u00f3bvio. S\u00e3o \u00f3bvias estas obras que partem do exibicionismo e n\u00e3o v\u00e3o a nenhum outro lugar. A arte precisa ir al\u00e9m, precisa de mais do que exibir o \u00f3bvio.<\/p>\n<p>Nas atuais circunst\u00e2ncias em que vivemos, a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o est\u00e9tica n\u00e3o est\u00e1 em atirar a realidade \u00e0 cara da burguesia. A face dos burgueses j\u00e1 est\u00e1 suja de sangue e s\u00eamen h\u00e1 tanto tempo que eles j\u00e1 se acostumaram e passaram a consumir isso. Estas formas rasas de representa\u00e7\u00e3o da realidade, tentando em v\u00e3o chocar, se massificaram. Nada seria mais pr\u00f3prio, mais realmente &#8220;chocante&#8221; do que propor o enigma, o anticl\u00edmax, a reflex\u00e3o. Fugir do \u00f3bvio, poupar a cara da burguesia de mais fluidos corporais humilhantes e tentar humaniz\u00e1-la. N\u00e3o mais transformar o nosso inimigo em um monstro, mas torn\u00e1-lo como n\u00f3s. A concilia\u00e7\u00e3o parece ser o mais radical dos caminhos no mundo de hoje. Mesmo porque o caminho do confronto produziu uma est\u00e9tica, mas n\u00e3o uma mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o prometo fugir destas formas rasas. Prometo n\u00e3o recair na servid\u00e3o ao tema. As obras que de agora em diante vou produzir n\u00e3o ter\u00e3o a inten\u00e7\u00e3o de chocar, mas de aproximar. N\u00e3o quero ofender meu leitor, mas seduzi-lo. N\u00e3o quero ser outro artista maldito e revoltado, mas um proponente de outra abordagem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das diferen\u00e7as entre pornografia \u2014 que n\u00e3o \u00e9 arte \u2014 e erotismo \u2014 que pode ser ou n\u00e3o \u2014 reside no tratamento do assunto. Na primeira, o conte\u00fado se resume ao tema apresentado: n\u00e3o h\u00e1 sutileza, n\u00e3o h\u00e1 enredo. Nem questionamento, nem inquietude, nem objetivos do autor. 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