{"id":451,"date":"2010-08-26T22:06:00","date_gmt":"2010-08-27T01:06:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=451"},"modified":"2017-11-02T14:09:25","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:25","slug":"alguns-cliches","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/alguns-cliches\/","title":{"rendered":"Alguns Clich\u00eas"},"content":{"rendered":"<p>Este texto foi escrito nos tempos em que eu ainda n\u00e3o era <em>persona non grata<\/em> em certos c\u00edrculos pseudo liter\u00e1rios do Orkut, numa \u00e9poca em que ainda havia quem achasse que eu tinha conselhos a dar. Como nunca fui de bancar o padre e nem de fazer an\u00e1lise do sonho alheio, eu costumava usar de bom humor para provocar as reflex\u00f5es que me interessavam. E de quebra, para justificar que lessem, eu botava de entremeio algum conhecimento extra\u00eddo de minhas leituras ao longo da vida. Assim eu fiz esse pequeno guia sobre as conven\u00e7\u00f5es mais comuns da literatura.<\/p>\n<p>&#8220;Clich\u00eas&#8221; eram pe\u00e7as de metal gravadas com figuras usadas para ilustrar os livros impressos nos prim\u00f3rdios da tipografia. Um artista entalhava no metal os contornos da figura, que era umedecida com a mesma tinta utilizada para imprimir o corpo do texto, resultando em ilustra\u00e7\u00f5es monocrom\u00e1ticas e econ\u00f4micas. Assim eram os livros at\u00e9 bem recentemente, antes da inven\u00e7\u00e3o dessas modernas impressoras de alta tecnologia, que requerem t\u00e3o pouco artesanato.<\/p>\n<p>Produzir um clich\u00ea representava um investimento: se o livro vendesse mal, as ilustra\u00e7\u00f5es  criadas para ele se tornavam num trabalho perdido. Por esta raz\u00e3o somente livros muito populares recebiam o privil\u00e9gio de ter ilustra\u00e7\u00f5es. Livros n\u00e3o t\u00e3o populares costumavam ser enfeitados apenas com &#8220;ornamentos tipogr\u00e1ficos&#8221; (antepassados dos &#8220;dingbats&#8221;). Uma op\u00e7\u00e3o muito menos nobre e mais desagrad\u00e1vel era a utiliza\u00e7\u00e3o de ilustra\u00e7\u00f5es &#8220;gen\u00e9ricas&#8221;, que podiam ser facilmente inseridas em v\u00e1rios livros diferentes. Tais ilustra\u00e7\u00f5es &#8220;b\u00e1sicas&#8221;, de tanto serem reaproveitadas em v\u00e1rias obras, acabavam ficando mais gastas que os tipos de texto ao redor, deixando claro para o leitor que se tratava de uma edi\u00e7\u00e3o barata e descuidada.<\/p>\n<p>Se o termo perdeu a ofensa original, isto \u00e9 porque a maior parte das obras liter\u00e1rias e cinematogr\u00e1ficas de cem anos ou menos para c\u00e1 se baseia exclusivamente na reaplica\u00e7\u00e3o de clich\u00eas. Quem quiser, que os evite na tentativa de ser &#8220;art\u00edstico&#8221;, quem pensa no dinheiro, corra a enfiar o maior n\u00famero poss\u00edvel deles em seu livro para agradar o &#8220;gosto do povo&#8221;. No fundo os clich\u00eas se baseiam em arqu\u00e9tipos, e por isso se tornam t\u00e3o facilmente simb\u00f3licos. Desta forma, o uso bem dosado de clich\u00eas, em vez de ser uma pobreza, \u00e9 uma maneira de encontrar ra\u00edzes psicol\u00f3gicas profundas para seus personagens.<\/p>\n<p>A seguir vai uma lista de alguns clich\u00eas que eu reconhe\u00e7o, com alguns coment\u00e1rios engra\u00e7adinhos, totalmente sem gra\u00e7a.<\/p>\n<dl>\n<dt>Garota Branca e Indefesa em Apuros<\/dt>\n<dd>A mulher que est\u00e1 em perigo e que o her\u00f3i tenta salvar \u00e9 sempre excepcionalmente bela e normalmente branca. Raramente ela tem alguma iniciativa na hist\u00f3ria, \u00e9 apenas uma abobalhada que espera seu pr\u00edncipe encantado. Shrek, no entanto, reduziu a gr\u00e3ozinhos de rid\u00edculo este clich\u00ea, atrav\u00e9s da personagem Fiona. N\u00e3o que outros n\u00e3o o tenham feito, mas sem d\u00favida nenhuma nenhuma s\u00e1tira a este clich\u00ea foi t\u00e3o popular.<\/dd>\n<dt>Puta de Cora\u00e7\u00e3o de Ouro<\/dt>\n<dd>Um dos tipos b\u00e1sicos de personagem prostitu\u00edda que aparece nos livros \u00e9 o da puta de cora\u00e7\u00e3o de ouro, que se sacrifica pelo her\u00f3i ou que, &#8220;inesperadamente&#8221;, tem um gesto de bondade em um momento chave da hist\u00f3ria. J\u00e1 no s\u00e9culo XIX os satiristas ingleses j\u00e1 faziam tro\u00e7as com Dickens e outros autores por empregarem como recurso liter\u00e1rio uma &#8220;tart with a heart&#8221;. Ao contr\u00e1rio da Mulher Branca em Perigo, que est\u00e1 sempre no fio da navalha mas n\u00e3o morre, a Puta de Cora\u00e7\u00e3o de Ouro \u00e9 &#8220;escolada&#8221; em se livrar de perigos, mas sempre acaba assassinada, morta em acidente ou definhando at\u00e9 a morte de uma doen\u00e7a horr\u00edvel.<\/dd>\n<dt>Macho Alfa de Peito Desnudo Marcando Territ\u00f3rio<\/dt>\n<dd>O termo &#8220;macho alfa&#8221; \u00e9 usado em Etologia para descrever padr\u00f5es sociais em animais greg\u00e1rios \u2014 como lobos, hienas, elefantes, gorilas etc. Transpondo para o universo da fic\u00e7\u00e3o, voc\u00ea consegue imaginar que Rambo, Chuck Norris (na sua fase \u00e1urea) ou os personagens de Marcos Pasquim nas novelas do Carlos Lombardi sejam outra coisa que n\u00e3o machos-alfa se exibindo para as f\u00eameas?<\/dd>\n<dt>Mulher Valente Que Salva o Her\u00f3i Orgulhoso<\/dt>\n<dd>Os filmes de Hollywood, numa tentativa de agradar as feministas, est\u00e3o cheios disso de uns vinte anos para c\u00e1. Todo grande filme de a\u00e7\u00e3o tem pelo menos uma mulher de temperamento e pulso firmes fazendo coisas heroicas, sem nenhum respeito \u00e0 coer\u00eancia hist\u00f3rica ou \u00e0 l\u00f3gica interna da trama: o importante \u00e9 humilhar o macho e mostrar a for\u00e7a feminina. Em geral essas mulheres arranjam um jeito de n\u00e3o conseguir esconder seus fartos seios, suas belas pernas ou at\u00e9 outras coisas.<\/dd>\n<dt>Guerreiros que Morrem como Cartas de Baralho<\/dt>\n<dd>Muito comum no cinema, este clich\u00ea consiste, basicamente, em n\u00e3o levar em conta que soldados manejam espadas melhor do que camponeses, que bandidos atiram melhor que fazendeiros, que metralhadoras matam melhor que fuzis etc. O her\u00f3i desconhece todo obst\u00e1culo e perigo e mata todo mundo, pois todo antagonista \u00e9 uma primata antropoide com c\u00e9rebro de lesma e os seus capangas atacam um de cada vez (como nos filmes do Bruce Lee). No seriado &#8220;Buffy, a Ca\u00e7a-Vampiros&#8221; a personagem-t\u00edtulo consegue n\u00e3o apenas sovar as malditas criaturas das trevas usando golpes de karat\u00ea como ainda as mata como moscas usando qualquer coisa de madeira. Em certo epis\u00f3dio ela matou o vampiro fincando um l\u00e1pis em seu cora\u00e7\u00e3o!<\/dd>\n<dt>Mudan\u00e7a de Lado Anunciada<\/dt>\n<dd>Quantas vezes voc\u00ea n\u00e3o detecta, logo de cara, que certo personagem &#8220;bom&#8221;, na verdade \u00e9 mau ou que certo personagem &#8220;mau&#8221; na verdade \u00e9 bom? Isto acontece porque personagens clich\u00ea s\u00e3o imut\u00e1veis: eles n\u00e3o s\u00e3o de uma opini\u00e3o e depois passam para outra, eles apenas fingem ser uma coisa mas na verdade s\u00e3o outra. Sacaram? Personagens clich\u00ea n\u00e3o tem conflitos, eles nasceram sabendo o que queriam ser. A mudan\u00e7a de lado est\u00e1 anunciada pela cor da roupa, pela express\u00e3o facial, pelo tom de voz, por uma s\u00e9rie de coisas que diferenciam um personagem &#8220;bom&#8221; de um &#8220;mau&#8221; e s\u00f3 o her\u00f3i n\u00e3o percebe. Se voc\u00ea algum dia cair dentro de um filme clich\u00ea, sempre saber\u00e1 em quem confiar.<\/dd>\n<dt>O Filho Pr\u00f3digo Vingativo<\/dt>\n<dd>Ele passa a vida inteira desobedecendo e fazendo de tudo para matar o velho do cora\u00e7\u00e3o. Da\u00ed ele morre mesmo e o filho se debulha em l\u00e1grimas. Se for um personagem &#8220;macho&#8221; (o que n\u00e3o exige necessariamente o sexo masculino) a solu\u00e7\u00e3o para isso \u00e9 ir em busca de vingan\u00e7a e matar algu\u00e9m. Se for uma personagem &#8220;f\u00eamea&#8221; (idem) ela vai arranjar um macho que fa\u00e7a o servi\u00e7o e pag\u00e1-lo com servi\u00e7os sexuais.<\/dd>\n<dt>O Z\u00e9-Ningu\u00e9m que Descobre Ser Importante<\/dt>\n<dd>Todo personagem-clich\u00ea que \u00e9 ao mesmo tempo protagonista e pobre, invariavelmente fica rico ou poderoso no decorrer da hist\u00f3ria. Isto geralmente acontece quando ele recebe uma visita de um desconhecido, o que geralmente ocorre em uma fase de transi\u00e7\u00e3o em sua vida, que pode ser da inf\u00e2ncia para a adolesc\u00eancia ou da adolesc\u00eancia para a idade adulta.<\/dd>\n<dt>O Poderoso com uma Fraqueza<\/dt>\n<dd>Todo monstro poderoso ser\u00e1 derrotado por uma fraqueza absolutamente rid\u00edcula. Tolkien cometeu esse clich\u00ea (ou o inventou) duas vezes: Smaug morre porque tinha uma pequena falha em sua armadura, bem junto ao cora\u00e7\u00e3o, que foi explorada por Bilbo, que ele n\u00e3o podia ver porque era hipermetrope. Mais tarde, na Saga do Anel, um dos Nazg\u00fbl \u2013 que tinha uma prote\u00e7\u00e3o m\u00e1gica que impedia que ele fosse morto por qualquer homem \u2014 \u00e9 morto por \u00c9owyn, uma mulher. E n\u00e3o podemos esquecer do Mega-Besta Sauron, que atou sua vida a um anel de ouro e morreu quando destru\u00edram o seu anel. E nem foi por empalamento.<\/dd>\n<dt>A maldi\u00e7\u00e3o curada pelo amor<\/dt>\n<dd>Qualquer coisa que est\u00e1 numa hist\u00f3ria como &#8220;Branca de Neve e os Sete An\u00f5es&#8221; deve ser usada com extrema cautela. Mesmo assim o amor segue ressuscitando casais apaixonados em todo tipo de obra de fic\u00e7\u00e3o, de novelas da Globo a filmes de suspense. A ressurrei\u00e7\u00e3o costuma ser disfar\u00e7ada: &#8220;ele n\u00e3o estava morto, s\u00f3 desacordado, e despertou com o beijo&#8221; (mas esta \u00e9 exatamente a explica\u00e7\u00e3o dada pelo conto da Branca de Neve, que n\u00e3o estava morta, mas inanimada pelo feiti\u00e7o).<\/dd>\n<dt>O retorno do amante<\/dt>\n<dd>Sempre que uma hist\u00f3ria come\u00e7a com uma mulher infeliz no casamento, invariavelmente aparecer\u00e1 um amor do passado para tent\u00e1-la (ou consegui-la).<\/dd>\n<\/dl>\n<p>Da pr\u00f3xima vez que for escrever uma hist\u00f3ria eu vou tentar escapar desses clich\u00eas mais \u00f3bvios. Mas se n\u00e3o conseguir, pelo menos terei o consolo de que muita gente vai gostar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto foi escrito nos tempos em que eu ainda n\u00e3o era persona non grata em certos c\u00edrculos pseudo liter\u00e1rios do Orkut, numa \u00e9poca em que ainda havia quem achasse que eu tinha conselhos a dar. 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