{"id":459,"date":"2010-08-23T19:37:00","date_gmt":"2010-08-23T22:37:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=459"},"modified":"2017-11-02T14:09:26","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:26","slug":"ode-ao-palhaco","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/ode-ao-palhaco\/","title":{"rendered":"Ode ao Palha\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p>Um homem extremamente infeliz n\u00e3o consegue nunca crer na profundidade do abismo. A infelicidade necessariamente induz ignor\u00e2ncia: somente esquecendo um pouco \u00e9 que se pode tolerar a press\u00e3o das l\u00e1grimas que a alma exige, mas que os olhos n\u00e3o querem dar. Melancolia \u00e9 diferente, h\u00e1 uma tristeza pouco aparente entre n\u00e3o ser alegre e n\u00e3o ser feliz. Pouca gente sabe, mas existem infelicidades muito alegres.<\/p>\n<p>O homem vivendo no extremo da felicidade aprende a fingir: somente quem finge consegue sobreviver ao espelho quando ele \u00e9 sincero demais. Ausentando-se da sabedoria do mundo, o parvo n\u00e3o percebe sua dor. Dan\u00e7a o palha\u00e7o em meio \u00e0 culpa e o abandono. Dan\u00e7a, triste palha\u00e7o, dan\u00e7a e chora por detr\u00e1s de tuas gargalhadas e de teu nariz vermelho.<\/p>\n<p>A dan\u00e7a dos tolos \u00e9 uma arte, uma arte de sobreviv\u00eancia. Nas maiores trag\u00e9dias surgem os maiores humoristas, nos abismos mais profundos da alma nascem as mais delicadas estrelas bailarinas. A alegria \u00e9 a vingan\u00e7a do infeliz contra o mundo: atrav\u00e9s de seu doce \u00f3pio ele se liberta, transcende-se. Somente os que fingem conseguem ser livres: os sinceros s\u00e3o escravos da pr\u00f3pria coer\u00eancia.<\/p>\n<p>Tu que te tornaste s\u00e1bio nesta arte de dan\u00e7ar diante das trevas, fazendo dos fantasmas a plateia de teus passos, dan\u00e7a! Dan\u00e7a e s\u00ea feliz, porque n\u00f3s n\u00e3o somos. A tua dor n\u00e3o rouba de tuas m\u00e3os isso que trazes da inf\u00e2ncia. Dan\u00e7a, palha\u00e7o. Dan\u00e7a, que te aplaudimos e admiramos enquanto miramos al\u00e9m da janela a paisagem cinza que constru\u00edmos. Colore de vermelho e de esperan\u00e7a esta paisagem de cimento. Precisamos de ti.<\/p>\n<p>Tu que te tornaste rid\u00edculo, somente tu enxergas os caminhos destas almas verdes que fenecem cedo. Ris para eles, eles n\u00e3o entendem, eles te enxotam. Somente os velhos, somente os que entenderam a dor, somente eles s\u00e3o capazes de rir de ti, palha\u00e7o das ruas, poeta das nuvens.<\/p>\n<p>Tu, somente tu, enxergas ao redor. Tua capacidade de enxergar a dor alheia e trat\u00e1-la, mesmo sendo sem rem\u00e9dio, torna-te melhor. Mira os erros e defeitos da alma vagabunda que verga sob o peso da modernidade. Mira, mas n\u00e3o erra! Que \u00e9 preciso matar esse mostro que se chama m\u00e1goa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um homem extremamente infeliz n\u00e3o consegue nunca crer na profundidade do abismo. A infelicidade necessariamente induz ignor\u00e2ncia: somente esquecendo um pouco \u00e9 que se pode tolerar a press\u00e3o das l\u00e1grimas que a alma exige, mas que os olhos n\u00e3o querem dar. Melancolia \u00e9 diferente, h\u00e1 uma tristeza pouco aparente entre n\u00e3o ser alegre e n\u00e3o ser feliz. Pouca gente sabe, mas existem infelicidades muito alegres. O homem vivendo no extremo da felicidade aprende a fingir: somente quem finge consegue sobreviver ao espelho quando ele \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[99,39],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/459"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=459"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/459\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4510,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/459\/revisions\/4510"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=459"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=459"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=459"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}