{"id":470,"date":"2010-08-17T07:59:00","date_gmt":"2010-08-17T10:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=470"},"modified":"2017-11-02T14:09:27","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:27","slug":"historia-de-amor-sem-amor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/historia-de-amor-sem-amor\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria de Amor Sem Amor"},"content":{"rendered":"<p>Augusta estava deitada quieta, nua, olhando para o teto, com o suor do corpo ainda evaporando ap\u00f3s o amor, aquela sensa\u00e7\u00e3o fresca, aquela pregui\u00e7a, aquele formigamento\u2026<\/p>\n<p>&#8212; Venha morar comigo.<\/p>\n<p>Assim, de repente, foi que Humberto p\u00f4s no ar a frase, solta e s\u00fabita. Mesmo a princ\u00edpio se sentindo agredida, ela reagiu com modera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 assim, Humberto. N\u00e3o faz ainda nem cinco meses que a gente se conheceu.<\/p>\n<p>&#8212; Por que n\u00e3o? Cinco meses me bastaram para querer voc\u00ea. N\u00e3o devemos nada a ningu\u00e9m. Tenho minha casa, minha vida. Voc\u00ea tem a sua vida, falta sua casa. Venha dividir a minha!<\/p>\n<p>&#8212; Mas o que meus pais v\u00e3o pensar? Minha fam\u00edlia \u00e9 daquelas que ainda espera que algum dia eu me case na igreja, com v\u00e9u, grinalda e flor de laranjeira.<\/p>\n<p>&#8212; Augusta, voc\u00ea n\u00e3o nasceu ontem! Voc\u00ea j\u00e1 sabe que o pr\u00edncipe encantado n\u00e3o vai chegar em seu cavalo branco. Nem eu e nem voc\u00ea temos mais tempo para cumprir longos rituais. Seus pais j\u00e1 devem ter percebido h\u00e1 muito tempo que as coisas n\u00e3o v\u00e3o ser do jeito que eles sempre sonharam. Est\u00e1 na hora de largar a barra da saia da m\u00e3e e correr atr\u00e1s de seus sonhos.<\/p>\n<p>&#8212; Seria mais f\u00e1cil se a gente primeiro noivasse e depois se casasse.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea est\u00e1 realmente pensando que \u00e9 uma boa ideia gastar milhares de reais em uma festa para pessoas que n\u00e3o nos amam ou at\u00e9 nos desprezam, fazer toda aquela pompa simplesmente porque queremos ver se podemos ser felizes juntos? E por que precisamos esperar meses fingindo que somos namorados?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o consigo aceitar com naturalidade a ideia de sair de minha casa e ir para a sua, assim simplesmente.<\/p>\n<p>&#8212; Pois eu acho o contr\u00e1rio. Por que \u00e9 que em tudo na vida temos de ter uma festa de inaugura\u00e7\u00e3o? N\u00e3o seria mais certo simplesmente fazer o que queremos?<\/p>\n<p>Augusta riu sem nada dizer e se levantou da cama para ir tomar um banho quente, eram tr\u00eas e tanto da manh\u00e3, hora de ir embora. Humberto a acompanhou ao banheiro, tamb\u00e9m nu. Augusta espirrou-lhe \u00e1gua, reclamou que a droga do chuveiro n\u00e3o estava esquentando direito e que aquele sabonete tinha um cheirinho filho da m\u00e3e de ruim.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o se preocupe que amanh\u00e3 o cheiro saiu. O tempo apaga tudo, at\u00e9 mesmo cheiro de sabonete de motel\u2026<\/p>\n<p>Augusta espirrou-lhe \u00e1gua outra vez enquanto se lavava e veio espiar, de brincadeira, enquanto Humberto urinava e retirava os restos de s\u00eamen com o chuveirinho.<\/p>\n<p>Um olhou para a cara do outro no intervalo de um suspiro e o rel\u00f3gio em algum canto do quarto soou a hora de voltarem para as respectivas casas.<\/p>\n<p>No momento em que o carro cruzava o port\u00e3o do motel em dire\u00e7\u00e3o ao asfalto, come\u00e7ando o n\u00e3o t\u00e3o longo caminho de volta, Humberto voltou ao assunto:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o disse se aceita ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Por mim eu aceitava, n\u00e3o estou esperando um pr\u00edncipe encantado que chegue num cavalo branco e me despose numa linda cerim\u00f4nia para cinco mil convidados. Meu conto de fadas pode, de repente pode ser o do pr\u00edncipe-sapo\u2026<\/p>\n<p>Humberto fingiu ofender-se. Sabia que n\u00e3o era nenhum deus grego, mas era evidente que ela n\u00e3o estava querendo dizer que fosse t\u00e3o feio. E mesmo que estivesse, ele se sentia meio culpado pela rudeza com que introduzira o assunto e estava disposto a aceitar certos desaforos para compensar:<\/p>\n<p>&#8212; Estou lendo uma pontinha de reprova\u00e7\u00e3o no que voc\u00ea disse. Falei alguma besteira grande hoje?<\/p>\n<p>&#8212; Nada que a manh\u00e3 n\u00e3o cure.<\/p>\n<p>E o tempo passou. Como se ele nada tivesse dito. Continuaram se encontrando, continuaram bebendo, contando hist\u00f3rias e terminando as noites de sexta e s\u00e1bado variando de motel.<\/p>\n<p>Um belo dia o celular tocou na hora do almo\u00e7o. Do outro lado algu\u00e9m tentava aparentar descontra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Ol\u00e1 amor, como est\u00e1?<\/p>\n<p>&#8212; Melhor agora. E voc\u00ea, \u2018t\u00e1 legal?<\/p>\n<p>&#8212; Mais ou menos. Preciso de um favorz\u00e3o seu.<\/p>\n<p>&#8212; Quem eu tenho que matar?<\/p>\n<p>Humberto ouviu uma risadinha presa, ou talvez um solu\u00e7o. No momento era dif\u00edcil distinguir.<\/p>\n<p>&#8212; Posso te esperar na sa\u00edda do trabalho hoje? Precisamos ter uma conversa.<\/p>\n<p>&#8212; Tudo bem, saio \u00e0s cinco.<\/p>\n<p>Despediram-se e Humberto tomou o caminho do trabalho pensando consigo: &#8220;Mulheres! Por que ela n\u00e3o deixou, ent\u00e3o, para ligar \u00e0s quinze para as cinco? Vai me fazer passar a tarde inteira pensando o que, diabos, pode ser?&#8221;<\/p>\n<p>E \u00e0s cinco horas Augusta lhe contou que havia tido uma discuss\u00e3o em casa. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil uma mulher ter trinta anos e uma vida sexual ativa ainda vivendo com pais conservadores e irm\u00e3os adolescentes, especialmente sem ter emprego fixo. Um bom sal\u00e1rio moraliza muitas atitudes de outro maneira indesculp\u00e1veis, mesmo em fam\u00edlias cat\u00f3licas bicenten\u00e1rias.<\/p>\n<p>Mas como lhe faltava essa b\u00ean\u00e7\u00e3o do destino, Augusta acabou ficando sem defesas quando os irm\u00e3os resolveram lhe atingir com adjetivos mal-educados. Tentou o apoio dos pais e sentiu aquele gelo que caracteriza muito bem o desprezo. Por isso decidira jogar tudo para o alto e tentar na loteria do amor o sucesso que as muitas escolhas erradas lhe haviam negado em oportunidades de independ\u00eancia e profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Humberto leu em seus olhos uma m\u00e1goa, e um sentimento de desencanto que ela n\u00e3o estava nem tentando reprimir.<\/p>\n<p>&#8212; Como voc\u00ea est\u00e1? &#8212; perguntou numa tentativa desajeitada de simpatia.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o muito bem. Minha vida virou de cabe\u00e7a para baixo de uma hora para outra. Aquilo tudo perdeu um pouco do sentido. Tudo em que eu acreditava mais por querer sonhar do que por realmente crer\u2026<\/p>\n<p>Ele concordou num movimento de olhos, guardou um sil\u00eancio oportuno, disse-lhe palavras am\u00e1veis e depois aproveitou para adicionar um coment\u00e1rio que ela j\u00e1 provavelmente j\u00e1 previa ou &#8212; ou tentava provocar:<\/p>\n<p>&#8212; O convite est\u00e1 de p\u00e9. Venha morar comigo.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou a longa e lac\u00f4nica negocia\u00e7\u00e3o. De um lado Humberto argumentando as vantagens de traz\u00ea-la para dividir seu lar. De outro Augusta resistindo, ele n\u00e3o sabia se por sinceridade ou se apenas para salvar restos de apar\u00eancias. N\u00e3o quis arriscar o clima impondo um ultimato. Deixou que as negocia\u00e7\u00f5es seguissem no ritmo proposto por ela at\u00e9 que, finalmente, ela disse que voltaria em casa para fazer as malas.<\/p>\n<p>Humberto disse neutramente:<\/p>\n<p>&#8212; Posso busc\u00e1-la quando?<\/p>\n<p>E Augusta o abra\u00e7ou com a sinceridade de um n\u00e1ufrago que se agarra ao mastro da jangada no meio da tempestade.<\/p>\n<p>Naquela mesma tarde ventosa Humberto estacionou a velha picape vermelha \u00e0 porta da casa dos pais de Augusta e a ajudou a retirar as bolsas e mochilas que continham os poucos bens e direitos que acumulara.<\/p>\n<p>Ao fim de tudo, ela fechou a porta, p\u00f4s a chave sob o capacho, sorriu e entrou na picape sem olhar para tr\u00e1s. E foi a\u00ed que Humberto, puxando a gola da camisa e limpando a poeira dos sapatos no estribo para assumir seu lugar \u00e0 dire\u00e7\u00e3o, percebeu o peso que jogava sobre os ombros: &#8220;Eu n\u00e3o posso simplesmente mandar essa mulher embora um dia!&#8221;<\/p>\n<p>A picape deslizou pela rua abaixo, silenciosa como um lagarto, e ganhou a larga avenida de onde j\u00e1 n\u00e3o havia mais como voltar.<\/p>\n<p>Augusta n\u00e3o trouxe muito, n\u00e3o o suficiente para abarrotar o enorme e mal-cuidado apartamento em que Humberto vivia sozinho e que tinha ainda muito espa\u00e7o sem uso, quartos meio vazios e paredes sem nenhum adorno a n\u00e3o ser manchas e mofo. Estabeleceu-se l\u00e1 e come\u00e7ou a impor sua ordem feminina, sua presen\u00e7a limpa e perfumada naquele lugar t\u00e3o carente de cuidados cujo dono passava dez horas por dia fora.<\/p>\n<p>E assim, a ex-vendedora, ex-costureira e ex-tecel\u00e3 vestiu seu papel de dona-de-casa e come\u00e7ou a engordar e a preparar-se para a maternidade. Cumprira o ciclo da mulher cataguasense de antigamente. Fora adolescente vi\u00e7osa e enfeitara balc\u00e3o de loja. Fora jovem fogosa e saud\u00e1vel e produzira nas f\u00e1bricas seu ganho. Passada a plenitude do vigor, no momento logo antes de murchar-se a flor, deixara a Popula\u00e7\u00e3o Economicamente Ativa para ser uma mulher \u00e0 procura de marido, que no fim das contas achou tarde mas ainda teve sorte, apesar de nunca ter vestido o branco de seus sonhos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o um belo dia Humberto abriu os olhos e se surpreendeu com a calmaria instalada na manh\u00e3. Deitado ainda em sua cama, \u00e0s sete horas e vinte e cinco minutos da sexta-feira, procurou as familiares manchas de umidade do teto e as conhecidas teias de aranhas que se acumulavam nos cantos e sentiu no ar um cheiro distante de lavanda. Seu corpo nu ainda estava estendido no colch\u00e3o escandalosamente macio e sentia o calor penetrante das cobertas de l\u00e3.<\/p>\n<p>De repente &#8212; surpresa! &#8212; eis que havia outro corpo ao lado do seu sobre aquela mesma cama! Fra\u00e7\u00f5es de segundo depois reconectou os fios da mem\u00f3ria e se rep\u00f4s no controle de suas emo\u00e7\u00f5es. Ainda n\u00e3o havia se acostumado a n\u00e3o dormir mais sozinho.<\/p>\n<p>Ao seu lado Augusta ainda estava imersa nos seus sonhos, relaxada e indefesa. Humberto sorriu de pensar que na semana anterior sonhava intensamente algo como aquilo. Todos os instantes vividos a dois desde o dia memor\u00e1vel em que a conhecera surgiram de volta \u00e0 lembran\u00e7a desbotados como se fossem fotografias do s\u00e9culo XIX e de repente as certezas ficaram tamb\u00e9m nubladas como uma imagem em tons de s\u00e9pia.<\/p>\n<p>O desajeito do primeiro encontro, depois daquela troca de olhares. Humberto andara a esmo pelas ruas da cidade por muitos anos e muitas vezes encontra companhias tempor\u00e1rias de variadas dura\u00e7\u00f5es. Naquela noite a seguira at\u00e9 o bar onde come\u00e7ou timidamente a primeira de muitas boas noites de conversa e sexo instintivo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, por um momento, teve dentro de si o calor do desejo que o levara a formalizar, num instante de loucura, o convite fatal que mudara suas vidas. A febre do ver\u00e3o na alma, o cio do corpo cansado, a \u00e2nsia angustiada por paz e domingos tranquilos.<\/p>\n<p>Enquanto contempla o rosto \u00e1lgido e abrupto da mulher que escolheu para si, Humberto se pergunta quem \u00e9 ela. Que sabe ele dessa vida que veio habitar junto da sua? Debaixo deste rosto n\u00e3o h\u00e1 muitas pistas &#8212; e ele \u00e0s vezes acha melhor assim; ou descobriria verdades inc\u00f4modas e saberia de coisas que s\u00f3 fariam sofrer.<\/p>\n<p>Nessas horas em que a raz\u00e3o n\u00e3o tem respostas, as cavidades obscuras da alma regurgitam f\u00e9rteis em numerosas alternativas. Por um momento breve e \u00e1rido a sombra do arrependimento agride suas emo\u00e7\u00f5es com d\u00favidas e medos.<\/p>\n<p>Mas a curva dos trinta anos traz consigo preocupa\u00e7\u00f5es capazes de vencer as precau\u00e7\u00f5es comuns. N\u00e3o confiar no desconhecido se torna perigoso depois que os horizontes seguros j\u00e1 manifestaram sua completa e decepcionante esterilidade.<\/p>\n<p>Ter receios de ser abandonado deixa de fazer sentido depois que a vida se revelou um abandono e sentimos uma vontade imensa de confiar. N\u00e3o ter amor nem filhos para aliviar a solid\u00e3o da meia-idade e ficar mofando em casa ao lado dos progenitores \u00e9 algo que definitivamente n\u00e3o soava como uma promessa de felicidade para o futuro e tampouco \u00e9 doce olhar para as paredes nuas de um apartamento cavernoso onde a voz de um solit\u00e1rio parece o grito de um alpinista nas montanhas.<\/p>\n<p>Homens ou mulheres, todos estamos propensos a derrapagens abalroamentos quando sentimos pulsar o desejo de ir r\u00e1pido e al\u00e9m. Quando aceitamos e at\u00e9 desejamos fazer o que n\u00e3o far\u00edamos ainda aos vinte e seis. O ser humano confia porque a confian\u00e7a tem sentido para quem ama, porque amar \u00e9 uma esp\u00e9cie de esp\u00edrito que nos traduz em credulidade e paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Augusta lhe faz bem. Cozinha e mant\u00e9m em bom estado o apartamento que antes parecia um chiqueiro. Humberto j\u00e1 n\u00e3o precisa comer no restaurante barato do centro da cidade e aos poucos est\u00e1 descobrindo o prazer de fazer compras e organizar um belo almo\u00e7o de domingo para depois ir passear no parque. Dentro de algumas semanas os choques iniciais ter\u00e3o sido superados e a fam\u00edlia de Augusta talvez queira aparecer para o almo\u00e7o. Principalmente porque j\u00e1 aceitaram que o casamento, que ocorrer\u00e1 dentro de tr\u00eas meses, ser\u00e1 apenas civil, mas ser\u00e1 suficiente para que a sua filha seja esposa e n\u00e3o am\u00e1sia.<\/p>\n<p>Augusta lhe d\u00e1 amor sem culpa e sem pre\u00e7o, aceita sua aten\u00e7\u00e3o cansada quando chega do trabalho, j\u00e1 pela noitinha, magoado e triste. Vivem um amor sem pressa e vazio de aventura.<\/p>\n<p>Ela se sente melhor, apesar das manchas de umidade do teto. H\u00e1 mais espa\u00e7o para distribuir suas coisas, as que j\u00e1 tem e as que vai come\u00e7ando a comprar. Tem com quem conversar de noite na cama enquanto o sono n\u00e3o vem. Como sai menos, usa menos roupas novas e sobra mais dinheiro para comprar melhores, e tamb\u00e9m para outros luxos antes menos frequentes.<\/p>\n<p>Para Humberto o apartamento parece ter ganhado vida. J\u00e1 n\u00e3o existe mais aquela opress\u00e3o dos c\u00f4modos vazios e das paredes nuas ao voltar para casa no final da tarde, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 o aterrorizante fog\u00e3o frio nas manh\u00e3s de domingo.<\/p>\n<p>Quando chega e toma seu banho quente para ver o Jornal Nacional, Augusta vem sentar ao seu lado, terna e morna. Ela parece gostar de t\u00ea-lo. Deixa-se levar por seu carinho paciente, habilita-se a discutir as not\u00edcias do dia e juntos t\u00eam uma opini\u00e3o formada sobre os melhores programas humor\u00edsticos. Compartilham o gosto pela m\u00fasica de antigamente e colecionam discos e livros fora de moda.<\/p>\n<p>Augusta parece haver se conformado ainda mais rapidamente que ele. Quando saiu de casa, diante da reprova\u00e7\u00e3o dos pais e da inveja das irm\u00e3s, sabia que n\u00e3o devia almejar a muito. Estava saindo de uma vida des\u00e9rtica que conduzia a lugar nenhum, levando consigo algumas bolsas e a roupa do corpo.<\/p>\n<p>A \u00fanica exig\u00eancia, o respeito de n\u00e3o ser posta na rua de uma hora para outra sem tempo de buscar um rumo. Mas sabe que ser\u00e1 melhor depois de uns anos, especialmente se vierem filhos. N\u00e3o se engana querendo enxergar al\u00e9m de cada dia, embora \u00e0s vezes se surpreenda numa ternura quase boba, numa vontade desesperada de que seja para sempre.<\/p>\n<p>Ser acordada com beijos, adormecer ao seu lado a cada noite. Tudo se reveste de s\u00edmbolo. S\u00e3o manias que se transformam em maneiras de tentar agrilhoar o presente na eternidade. Passar as tardes de s\u00e1bado juntos ouvindo m\u00fasica deitados nus na cama e fitando o teto \u00e9 um modo de se rebelar contra o tempo e o destino &#8212; na pior das hip\u00f3teses faz o domingo ser melhor.<\/p>\n<p>Se Augusta se perguntar\u00e1 em algum momento pela tal felicidade, palavra cruel que \u00e0s vezes nos leva a desistir do que faz bem para ir em busca do indefin\u00edvel imposs\u00edvel, isso \u00e9 algo que nem importa agora. Humberto faz quest\u00e3o de evitar a qualquer custo esta e outras das palavras que tiram o sono. \u00c0 medida em que o tempo passa, toma consci\u00eancia do abismo entre sua vida e a dela, essa estranha que aportou em seu futuro. \u00c9 in\u00fatil ter ci\u00fames de algu\u00e9m assim. Que a vida seja um fato consumado e a felicidade, um estado provis\u00f3rio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o as divaga\u00e7\u00f5es terminam. Ela acorda um pouco assustada, com olhos de pregui\u00e7a perguntando por que. Sem que palavras ditas sejam, os dois se levantam, se banham, se vestem.<\/p>\n<p>\u00c0 mesa para o caf\u00e9, Humberto a observa com uma ternura entediada e estende a m\u00e3o para brincar com seus cabelos. O cachorro do vizinho late invis\u00edvel, a t\u00eanue neblina matinal se dissipa rapidamente e j\u00e1 se pode ver a torre de televis\u00e3o no horizonte. Sempre \u00e9 assim. Augusta aceita o carinho e depois o v\u00ea partir sentindo dentro um conforto impreciso e inseguro. Sabia que ele voltar\u00e1 pela tarde com o mesmo jeito doce e previs\u00edvel &#8212; e por um momento se pergunta onde foi que deixou-se perder da estrada reta que leva aonde todos v\u00e3o. Ou se finalmente a encontrou.<\/p>\n<p>Reduzida a ser feliz, afastou essas ideias perigosas lavando as vasilhas do caf\u00e9 e preparando-se para sair tamb\u00e9m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Augusta estava deitada quieta, nua, olhando para o teto, com o suor do corpo ainda evaporando ap\u00f3s o amor, aquela sensa\u00e7\u00e3o fresca, aquela pregui\u00e7a, aquele formigamento\u2026 &#8212; Venha morar comigo. Assim, de repente, foi que Humberto p\u00f4s no ar a frase, solta e s\u00fabita. Mesmo a princ\u00edpio se sentindo agredida, ela reagiu com modera\u00e7\u00e3o. &#8212; N\u00e3o \u00e9 assim, Humberto. N\u00e3o faz ainda nem cinco meses que a gente se conheceu. &#8212; Por que n\u00e3o? Cinco meses me bastaram para querer voc\u00ea. 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