{"id":476,"date":"2010-08-12T07:13:00","date_gmt":"2010-08-12T10:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=476"},"modified":"2017-11-02T14:09:59","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:59","slug":"carta-a-jose","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/carta-a-jose\/","title":{"rendered":"Carta a Jos\u00e9"},"content":{"rendered":"<p>As li\u00e7\u00f5es que voc\u00ea ensina, Jos\u00e9,<sup id=\"fnref:1\"><a href=\"#fn:1\" rel=\"footnote\">1<\/a><\/sup> h\u00e1 outros professores para ensinar, inclusive melhor que voc\u00ea e sem essa necessidade de autoafirma\u00e7\u00e3o que o leva a ofender os outros. O verdadeiro mestre n\u00e3o \u00e9 o que humilha o seu aluno, mas aquele que faz o ignorante se sentir \u00e0 vontade para aprender. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um mestre, \u00e9 um perdedor que se agarra a migalhas de conhecimento que obteve, procura fazer com que pare\u00e7am maiores do que s\u00e3o (independente do tamanho real que tenham) a fim de se autopromover.<\/p>\n<p>No fundo, Jos\u00e9, eis o que voc\u00ea \u00e9: um perdedor. Digo isso porque sei reconhecer um perdedor quando o vejo, visto que tenho andado no fio da navalha de ser um. A diferen\u00e7a \u00e9 que, ao inv\u00e9s de me render \u00e0 amargura e me tornar uma metralhadora de merda, preferi tentar controlar o lado escuro, concentrar-me mais no meu objetivo e conservar as esperan\u00e7as de que um dia chego l\u00e1.<\/p>\n<p>Isso porque percebi que n\u00e3o adianta chegar l\u00e1 de qualquer maneira: \u00e9 preciso chegar inteiro, e bem. N\u00e3o quero chegar l\u00e1 e descobrir que me tornei como voc\u00ea. Sinceramente, se para aprender for necess\u00e1rio tolerar um bo\u00e7al, eu prefiro continuar ignorante. Porque quem aprende com um bo\u00e7al se torna um pouco bo\u00e7al tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Talvez a maior li\u00e7\u00e3o que voc\u00ea tenha a nos ensinar \u00e9 seu exemplo: <em>n\u00e3o se tornem essa figura triste e detest\u00e1vel que me tornei, n\u00e3o se transformem em algu\u00e9m t\u00e3o carente de aten\u00e7\u00e3o que precisa de angariar inimigos a fim de gerar assunto.<\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o quero ser como voc\u00ea. Eu n\u00e3o vou usar qualquer migalha de gl\u00f3ria que tenha obtido ou venha a obter como plataforma para encarar os outros de cima e distribuir ofensas. Quem faz isso s\u00f3 demonstra que n\u00e3o merece estar onde chegou.<\/p>\n<p>N\u00e3o falo de ter ou n\u00e3o sucesso, mas de ser essa pessoa abomin\u00e1vel que voc\u00ea <em>propaga<\/em> ser. Se voc\u00ea \u00e9 o que transparece nos escritos, ent\u00e3o voc\u00ea s\u00f3 mereceria a minha pena, muito embora a rejeite. <em>N\u00e3o ter consci\u00eancia do pr\u00f3prio estado \u00e9 caracter\u00edstico de quem est\u00e1 sob o dom\u00ednio de uma ilus\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 ilus\u00f5es para todos os gostos. H\u00e1 os que se iludem com psicotr\u00f3picos (legais ou n\u00e3o). H\u00e1 os que se iludem com ideais. H\u00e1 os que se iludem com amores. E h\u00e1 os que, como voc\u00ea, se iludem com os pequenos avan\u00e7os que obt\u00eam. Quem se ilude com coisas pequenas torna-se t\u00e3o pequeno quanto elas. Melhor iludir-se com coisas grandes, pois quem mira na lua, mesmo que erre o alvo, no m\u00ednimo aparece entre as estrelas. Mas quem mira no vaga-lume do brejo, termina na lama, mesmo que acerte.<\/p>\n<p>Voc\u00ea publicou? Beleza. Vende alguma coisa? Beleza. Grande, campe\u00e3o. Agora, sinceramente, foda-se. Os livros que vende v\u00e3o passar. Voc\u00ea vai passar. O que importa n\u00e3o \u00e9 vender, nem ser reconhecido e nem n\u00e3o ser. O importante \u00e9 ser feliz enquanto isso. E felicidade \u00e9 incompat\u00edvel com o grau de amargura que destila. H\u00e1 tanto veneno no que diz, que as suas mordidas n\u00e3o ferem somente aos outros, mas tamb\u00e9m a voc\u00ea mesmo.<\/p>\n<p>Voc\u00ea se acha o tal, o fod\u00e3o, o tem\u00edvel, o cara que intimida. N\u00e3o \u00e9. Voc\u00ea \u00e9 s\u00f3 um cara que esconde atr\u00e1s de uma tela de computador uma vida vazia, que voc\u00ea tenta sublimar em livros, que precisam vender alguma coisa a fim de que voc\u00ea se sinta aceito.<\/p>\n<p>Sim, aceito. Embora jure que n\u00e3o. voc\u00ea n\u00e3o quer ser aceito pelas pessoas com quem interage, mas por quem n\u00e3o o conhece diretamente. O seu leitor an\u00f4nimo n\u00e3o discute com voc\u00ea, ele compra o livro. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o isolada, \u00e9 uma aceita\u00e7\u00e3o unilateral. Voc\u00ea n\u00e3o quer ser aceito pelo que voc\u00ea \u00e9, mas pelo que faz, voc\u00ea n\u00e3o quer interagir, mas impor.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma forma de timidez. No fundo voc\u00ea n\u00e3o quer que as pessoas saibam quem voc\u00ea \u00e9, voc\u00ea tem vergonha de ser quem \u00e9 ou o que \u00e9. Ent\u00e3o constr\u00f3i essa carapa\u00e7a grossa de improp\u00e9rios e agressividade. Mas ao mesmo tempo faz livros e os quer vender. Assim voc\u00ea consegue massagear o seu ego, sem ter que se revelar, sem se expor \u00e0 curiosidade do povo. O seu autoritarismo \u00e9 uma defesa para um forte complexo de inferioridade.<\/p>\n<p>Voc\u00ea diz &#8220;eu publico e voc\u00ea n\u00e3o&#8221;. H\u00e1 cem anos voc\u00ea estaria dizendo &#8220;eu sou branco e voc\u00ea n\u00e3o&#8221;. Quando crian\u00e7a voc\u00ea talvez dissesse &#8220;meu pai \u00e9 melhor que o seu&#8221; ou, na adolesc\u00eancia, &#8220;meu pau \u00e9 maior que o seu&#8221;. Na falta de um m\u00e9rito intr\u00ednseco e pessoal, voc\u00ea se agarra a algo secund\u00e1rio. N\u00e3o lhe importa se o livro \u00e9 bom ou ruim ou se voc\u00ea \u00e9 admirado ou n\u00e3o: publicar lhe basta. Tal como no importava nos tempos da escravid\u00e3o, voc\u00ea poderia ser uma nulidade, um merda, mas &#8220;ser branco&#8221; o fazia se sentir melhor que algu\u00e9m de maior m\u00e9rito que fosse negro. \u00c9 assim que a mediocridade se justifica: agarrando-se a diferen\u00e7as pequenas, para rebaixar as coisas que realmente fazem diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>\u00c9 uma competi\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea precisa mostrar que \u00e9 melhor do que os outros. N\u00e3o se trata de publicar, mas de auto afirmar-se. E voc\u00ea quer se afirmar porque? Considerando sua timidez, a carapa\u00e7a protetora que constr\u00f3i em torno de si atrav\u00e9s de sua agressividade, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil entender que, no fundo, voc\u00ea mesmo n\u00e3o se acha melhor do que ningu\u00e9m, talvez se ache pior do que a maioria. Mas quando voc\u00ea <em>publica<\/em> voc\u00ea se eleva um degrau acima do &#8220;resto&#8221;, dos que n\u00e3o publicam. E do alto desse degrau, que voc\u00ea acha que tem um quil\u00f4metro de altura, mas pode ser da altura de um tamborete, dependendo do livro publicado, voc\u00ea insulta os outros, voc\u00ea se encontra capaz de superar o pr\u00f3prio complexo de inferioridade e afirmar para si mesmo que \u00e9 especial.<\/p>\n<p>Tudo isso que voc\u00ea diz n\u00e3o \u00e9 dirigido aos outros. Seus <em>posts<\/em> s\u00e3o sempre um mon\u00f3logo. Voc\u00ea fala consigo mesmo, masturbando-se verbalmente, confortando-se.<\/p>\n<p>No fundo, eu desejo que voc\u00ea supere isso e seja mais feliz, mais humano. Temo, por\u00e9m, que somente com ajuda profissional isso ser\u00e1 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Atenciosamente,<br \/>\nJos\u00e9 Geraldo Gouv\u00eaa<\/p>\n<div class=\"footnotes\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li id=\"fn:1\">\n<p>Este texto foi postado no Orkut em resposta a uma s\u00e9rie de agress\u00f5es verbais recebidas do lend\u00e1rio e finado Jos\u00e9 Roberto Pereira.&#160;<a href=\"#fnref:1\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As li\u00e7\u00f5es que voc\u00ea ensina, Jos\u00e9,1 h\u00e1 outros professores para ensinar, inclusive melhor que voc\u00ea e sem essa necessidade de autoafirma\u00e7\u00e3o que o leva a ofender os outros. O verdadeiro mestre n\u00e3o \u00e9 o que humilha o seu aluno, mas aquele que faz o ignorante se sentir \u00e0 vontade para aprender. Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um mestre, \u00e9 um perdedor que se agarra a migalhas de conhecimento que obteve, procura fazer com que pare\u00e7am maiores do que s\u00e3o (independente do tamanho real que tenham) a fim [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[33,55,99],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/476"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=476"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/476\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5328,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/476\/revisions\/5328"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=476"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=476"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=476"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}