{"id":48,"date":"2013-05-01T17:03:00","date_gmt":"2013-05-01T20:03:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=48"},"modified":"2020-06-09T20:50:29","modified_gmt":"2020-06-09T23:50:29","slug":"a-ficcao-de-clark-ashton-smith","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/05\/a-ficcao-de-clark-ashton-smith\/","title":{"rendered":"A Fic\u00e7\u00e3o de Clark Ashton Smith"},"content":{"rendered":"\n<p>Clark Ashton-Smith (\u2730 13\/01\/1893 \u2013 \u271e 14\/08\/1961) nasceu e viveu at\u00e9 a morte em um pequeno trecho da costa da Calif\u00f3rnia, n\u00e3o muito distante da Ba\u00eda de S\u00e3o Francisco. Filho de pais muito pobres (m\u00e3e inglesa e pai origin\u00e1rio da Nova Inglaterra, ambos refugiados econ\u00f4micos), n\u00e3o p\u00f4de estudar al\u00e9m do prim\u00e1rio, devido \u00e0 sua personalidade t\u00edmida e \u00e0 fragilidade de sua complei\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Ao longo da vida desenvolveu uma fobia de multid\u00f5es, que o levou a se isolar com seus pais at\u00e9 a morte destes, quando ent\u00e3o se casou com a vi\u00fava Carolyn Jones Dorman, sua amiga de muitos anos, que dele cuidou no final da vida. Embora tenha sempre se dedicado \u00e0 arte, como poeta e ficcionista, mas principalmente como escultor e desenhista, sempre teve de trabalhar para se sustentar, pois jamais ganhou o suficiente para se dedicar integralmente \u00e0 produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<h2>O Cen\u00e1rio das Revistas &#8220;Pulp&#8221;<\/h2>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.eldritchdark.com\/files\/galleries\/of-cas\/cas-conte.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"401\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>H\u00e1 momentos na hist\u00f3ria da lite\u00adratura em que os ve\u00ed\u00adculos mais inusi\u00adtados d\u00e3o vaz\u00e3o ao talento de autores competentes, resultando em obras de insus\u00adpeita quali\u00addade que, infeliz\u00admente, tardam em receber o devido reco\u00adnhe\u00adci\u00admento devido ao precon\u00adceito moti\u00advado justamente pelos ve\u00edculos em que foram publicadas. Um desses momentos foi o per\u00edodo entre-guerras nos Estados Unidos, quando floresceram revistas mensais de folhetim conhecidas como &#8220;pulp fictions&#8221;. Impressas em papel barato e vendidas a pre\u00e7o baixo, destinadas \u00e0 classe oper\u00e1ria, n\u00e3o deixaram, por isso, de contar com autores de primeira grandeza porque ofereciam um ve\u00edculo para a profissionaliza\u00e7\u00e3o de quem desejasse come\u00e7ar na literatura.<\/p>\n\n\n\n<p>Grandes nomes da literatura <i>mainstream<\/i> em algum momento de sua car\u00adreira escre\u00adve\u00adram &#8220;pulp fictions&#8221;: Isaac Asi\u00admov, Ray Brad\u00adbury, Robert A.\u00a0Heinlein, William S.\u00a0Burroughs, Upton Sin\u00adclair, Tennessee Williams, F.\u00a0Scott Fitzgerald, Joseph Conrad, Sax Rohmer, Agatha Christie, Phillip K.\u00a0Dick e Arthur C.\u00a0Clarke. Alguns autores n\u00e3o che\u00adga\u00adram ao mesmo reco\u00adnhe\u00adci\u00admento, mas se tor\u00adnaram, pelo menos, refe\u00adr\u00ean\u00adcia nos nichos de lite\u00adratura poli\u00adcial ou de fic\u00ad\u00e7\u00e3o cien\u00adt\u00ed\u00adfica e fan\u00adtasia: Jack Vance, Robert Silver\u00adberg, Poul Ander\u00adson, Robert Bloch, Raymond Chandler, Edgar Rice Burroughs, Dashiell Hammett, Frank Herbert, L.\u00a0Ron Hubbard, Robert E.\u00a0Howard, E.\u00a0Hoffman Price, H.\u00a0P.\u00a0Lovecraft e Louis L&#8217;Amour. Auto\u00adres de qua\u00adli\u00addade, per\u00adten\u00adcentes a uma \u00e9poca ime\u00addiata\u00admente anterior, foram republicados e chegaram a novas gera\u00e7\u00f5es de leitores gra\u00e7as a estas revistas: Johnston McCulley, Rudyard Kipling, H.\u00a0G.\u00a0Wells, Jack London, Lord Dunsany, Arthur Conan Doyle, H.\u00a0Rider Haggard e Mark Twain. Alguns destes autores criaram personagens maiores do que eles pr\u00f3prios, como Tarzan (Edgar Rice Burroughs), Cthulhu (H.\u00a0P.\u00a0Lovecraft) e Conan (Howard).<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isto nos d\u00e1 a dimens\u00e3o da quantidade de talentos que costumavam frequentar as despretensiosas p\u00e1ginas destas revistas, explicando porque muitos autores de qualidade passaram despercebidos. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil se sobressair quando na p\u00e1gina ao lado est\u00e1 um texto de Ray Bradbury e na outra, um de Tennessee Williams. Clark Ashton-Smith padeceu com isso durante toda a sua vida, nunca obtendo o reconhecimento ou o est\u00edmulo que o seu talento teriam justificado.<\/p>\n\n\n\n<h2>Uma Vida Humilde<\/h2>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.eldritchdark.com\/files\/galleries\/by-cas\/young_ghoul.jpg\" alt=\"&quot;Jovem Dem\u00f4nio&quot; -- escultura de Clark Ashton-Smith\" width=\"262\" height=\"400\"\/><figcaption>&#8220;Jovem Dem\u00f4nio&#8221; &#8212; escultura de Clark Ashton-Smith<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A biografia do autor em pouco confere com o padr\u00e3o normalmente associado a autores e artistas. Com uma educa\u00e7\u00e3o rudimentar e dedicado a servi\u00e7os bra\u00e7ais, Ashton-Smith foi um autodidata e um \u00e1vido missivista, que se correspondeu com autores e artistas de todo o mundo. Sem curso superior, Smith trabalhava bra\u00e7almente, colhendo laranjas, cortando lenha ou, no final da vida, fazendo jardinagem. Devido \u00e0 sua pobreza, desconex\u00e3o da realidade pol\u00edtica e econ\u00f4mica e falta de boas rela\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o, Asthon-Smith acabou perdendo a propriedade herdada de seus pais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vida, H. P. Lovecraft foi um dos poucos a elogiar seu tra\u00adba\u00adlho \u2014 e o pr\u00f3\u00adprio Lovecraft nunca obteve em vida o reco\u00adnhe\u00adci\u00admento que a sua pr\u00f3\u00adpria obra mere\u00adcia. Isto teve impacto n\u00e3o somente sobre a vida pes\u00adsoal de Ashton-Smith, que viveu e mor\u00adreu na pobreza, mas sobre a qua\u00adli\u00addade de sua obra, que, por conse\u00adqu\u00ean\u00adcia da falta de est\u00ed\u00admulo, foi menos volu\u00admosa do que poderia ter sido e de qua\u00adli\u00addade irregular. A partir de 1940, o autor se desinteressou gradualmente da literatura e passou a se dedicar quase exclusivamente \u00e0 escultura, hobby que iniciara muito cedo em sua vida, antes mesmo de come\u00e7ar a escrever. N\u00e3o \u00e9 absurdo dizer que o desafortunado californiano foi um talento liter\u00e1rio desperdi\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<h2>O Trabalho de Clark Ashton-Smith <g class=\"gr_ gr_32 gr-alert gr_spell gr_inline_cards gr_run_anim ContextualSpelling\" id=\"32\" data-gr-id=\"32\">na<\/g> Fic\u00e7\u00e3o Fant\u00e1stica<\/h2>\n\n\n\n<p>A fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica de Clark Ashton-Smith apresenta v\u00e1rias caracter\u00edsticas que a diferem da maioria do g\u00eanero. N\u00e3o s\u00f3 pelo passado do autor como poeta, mas tamb\u00e9m por seu interesse nas artes pl\u00e1sticas. N\u00e3o s\u00f3 ele desenvolveu um gosto pelas descri\u00e7\u00f5es detalhadas dos personagens como conseguiu, em certos momentos, torn\u00e1-las concretas e intelig\u00edveis. Em certos casos, os personagens haviam sido antes criados como pe\u00e7as de escultura. Foi de seus sonhos e pesadelos, bem como dos del\u00edrios de sua doen\u00e7a, que extraiu as imagens que compuseram os personagens e enredos, os segundos t\u00e3o importantes quanto os primeiros para a maioria delas.  Sua arte atravessa tr\u00eas per\u00edodos:<\/p>\n\n\n\n<ul><li><b>Per\u00edodo Po\u00e9tico: at\u00e9 1925<\/b> Nesta fase Ashton-Smith pratica\u00admente s\u00f3 escre\u00adveu ver\u00adsos (mas na ado\u00adles\u00adc\u00ean\u00adcia escre\u00advera seus pri\u00admei\u00adros con\u00adtos fan\u00adt\u00e1s\u00adti\u00adcos), ainda n\u00e3o fazia escul\u00adtura e se dedi\u00adcava ao estudo da pin\u00adtura e da culi\u00adn\u00e1\u00adria. Suas pri\u00admei\u00adras publi\u00adca\u00ad\u00e7\u00f5es foram bem rece\u00adbi\u00addas pela cr\u00ed\u00adtica, que che\u00adgou a cham\u00e1-lo &#8220;Keats do Pac\u00edfico&#8221;. Foi nessa \u00e9poca que fez a maior parte de suas ami\u00adza\u00addes lite\u00adr\u00e1\u00adrias, che\u00adgando a corresponder-se com Ambrose Bierce e Jack London. Esta fase foi caracterizada pela sua p\u00e9ssima sa\u00fade. <\/li><li><b>Per\u00edodo de Predom\u00ednio da Fic\u00e7\u00e3o Fant\u00e1stica: 1929 \u2013 1937<\/b> Com a sa\u00fade dos pais declinando, e cada vez mais for\u00e7ado a trabalhar para sustentar a casa, Ashton-Smith come\u00e7ou a escrever contos do g\u00eanero fant\u00e1stico, visando vend\u00ea-los para as revistas. N\u00e3o se sabe se ele tomou esta decis\u00e3o aconselhado por algu\u00e9m ou se recorreu a este expediente por se lembrar de quando, ainda adolescente, vendera contos para revistas. Neste per\u00edodo Smith chegou a terminar mais de <b>cem<\/b> contos, muitos dos quais se perderam por n\u00e3o terem sido preservados em seus arquivos pessoais e nem terem sobrevivido os exemplares das revistas onde foram publicados. <\/li><li><b>Per\u00edodo de Predom\u00ednio das Artes Pl\u00e1sticas: a partir de 1937<\/b> A doen\u00e7a de H.&nbsp;P.&nbsp;Lovecraft (manifestada em 1935) coincide com o in\u00edcio do desinteresse de Ashton-Smith pela fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica, ao perceber que n\u00e3o conseguiria obter atrav\u00e9s dela o sonhado acesso ao mundo da literatura profissional. A partir de 1937, o autor escreve cada vez menos prosa, retorna \u00e0 poesia (mas sem a qualidade de sua produ\u00e7\u00e3o inicial) e mergulha fundo na escultura, que pode ser considerada a sua maior paix\u00e3o em vida, e a arte na qual foi mais completamente artista.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Entre os cen\u00e1rios fant\u00e1sticos concebidos pelo autor, alguns s\u00e3o particularmente interessantes:<\/p>\n\n\n\n<ul><li><b>Aihai<\/b> O planeta Marte, conforme a l\u00edngua de seus habitantes nativos. Ali vive uma civila\u00e7\u00e3o muito antiga e decadente. H\u00e1 in\u00fameras ru\u00ednas, abismos perigosos, cavernas sem fim. Principais obras: <em>Vulthoom, O Habitante do Habismo, As Criptas de Yoh-Vombis<\/em>. <\/li><li><b>Averoigne<\/b> Uma prov\u00edncia fict\u00edcia da Fran\u00e7a medieval. Principais obras: <em>O Fazedor de G\u00e1rgulas, A Besta de Averoigne, A M\u00e3e dos Sapos, A Exuma\u00e7\u00e3o de V\u00eanus, A Encantadora de Sylaire, O Colosso de Ylourgne, Um Encontro em Averoigne, O Fim da Hist\u00f3ria, As Mandr\u00e1goras, A Santidade de Az\u00e9darac, O S\u00e1tiro<\/em>. <\/li><li><b>Hiperb\u00f3rea<\/b> A Groenl\u00e2ndia pr\u00e9-hist\u00f3rica, antes do avan\u00e7o da calota polar. Uma regi\u00e3o j\u00e1 fria, por\u00e9m ainda habitada por v\u00e1rias civiliza\u00e7\u00f5es, que se dedicavam principalmente \u00e0 pesca e ao com\u00e9rcio mar\u00edtimo. Principais obras: <em>A Chegada do Verme Branco, A Porta Para Saturno, Ubbo-Sathla, A Hist\u00f3ria de Satampra Zeiros, O Dem\u00f4nio do Gelo, As Sete Obriga\u00e7\u00f5es<\/em>, <em>O Roubo das Trinta e Nove Cintas, A Sibila Branca, A Casa de Haon-Dor, O Testamento de Athammaus, A Maldi\u00e7\u00e3o de Avoosl Wuthoqquan<\/em>. <\/li><li><b>Posidonis<\/b> A &#8220;\u00faltima massa de terra que restava da Atl\u00e2ntida&#8221;. Uma inveross\u00edmil civiliza\u00e7\u00e3o de tecnologia muito avan\u00e7ada, mas presa a uma massa de terra que afundava lentamente. Principais obras: <em>A Viagem Para Sfanomo\u00eb, A Morte de Malygris, O \u00daltimo Encantamento, A Sombra Dupla<\/em> \u2014 Tamb\u00e9m mencionada indiretamente em <em>Uma Vindima da Atl\u00e2ntida<\/em>. <\/li><li><b>Zothique<\/b> O \u00faltimo continente da Terra. Em um futuro muito distante (milh\u00f5es de anos), os continentes voltaram a se reunir em uma massa \u00fanica e descendentes dos seres humanos ainda existem. Estas hist\u00f3rias pertencem ao g\u00eanero &#8220;terra moribunda&#8221;. Principais obras: <em>O Imp\u00e9rio dos Necromantes, A Ilha dos Torturadores, O Deus Carniceiro, O \u00cddolo Negro, A Viagem do Rei Euvoran, O Tecel\u00e3o na Cripta, A Bruxaria de Ulua, Xeethra, O \u00daltimo Hieroglifo, Necromancia em Naat, O Abade Negro de Puthuum, A Morte de Ilalotha, O Jardim de Adompha, O Senhor dos Caranguejos, Morthylla e A Prole da Tumba<\/em>. <\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos cen\u00e1rios acima citados, que foram utilizados em v\u00e1rias hist\u00f3rias, Ashton-Smith ainda concebeu outros mundos fant\u00e1sticos, que n\u00e3o chegou a aproveitar em mais do que uma hist\u00f3ria: <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/10\/traducao-uma-noite-em-malneant-c-a-smith\">Maln\u00e9ant,<\/a>, a terra on\u00edrica onde as pessoas expurgam culpas reais ou imagin\u00e1rias, <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/05\/traducao-as-abominacoes-de-yondo-clark-ashton-smith\">Yondo<\/a>, um deserto localizado &#8220;\u00e0 borda&#8221; de um mundo e sujeito \u00e0 queda de rochas e seres espaciais, <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/03\/traducao-o-demonio-da-flor-c-a-smith\">Lophai<\/a>, o planeta onde a forma de vida dominante \u00e9 a vegetal, Ydmos, a cidade da chama cantante, e um mundo \u00e1rabe baseado nas Mil e Uma Noites. <\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente devemos lembrar que algumas das melhores hist\u00f3rias do autor est\u00e3o ambientadas em cen\u00e1rios modernos e nada ex\u00f3ticos, que apenas encontram momentaneamente uma intersec\u00e7\u00e3o com o alien\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<h2>Ashton-Smith e o Mito de Cthulhu<\/h2>\n\n\n\n<p>Os principais temas da fic\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica de Ashton-Smith s\u00e3o os comuns a Robert E. Howard, H.\u00a0P.\u00a0Lovecraft e alguns outros autores que s\u00e3o comumente considerados como parte do &#8220;Mito de Cthulhu&#8221;: o conceito de antigas civiliza\u00e7\u00f5es terrestres, inclusive algumas anteriores ao ser humano, em contato com malignas civiliza\u00e7\u00f5es alien\u00edgenas. Tal mito come\u00e7ou a se formar a partir de 1926, quando H.\u00a0P.\u00a0Lovecraft publicou <i>O Chamado de Cthulhu<\/i> e incluiu, da parte de Ashton-Smith, a cria\u00e7\u00e3o de personagens como o mago Eibon e seu Livro de feiti\u00e7arias e do &#8220;deus&#8221; Zatthoqqua (ou Tsathoggua). <\/p>\n\n\n\n<p>As men\u00e7\u00f5es de Lovecraft a Ashton-Smith s\u00e3o in\u00fameras, seja transformando-o em personagem (o Mago &#8220;Klarkash Ton&#8221;) seja referenciando cria\u00e7\u00f5es suas, como o <em>Livro de Eibon <\/em>e o deus Tsathoggua, seja elogiando-o profusamente no ensaio <em>O Horror Sobrenatural na Literatura.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o podemos reduzir sua obra a este \u00fanico aspecto, de fato, a maior parte da obra de Ashton-Smith quase n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com as de Lovecraft ou Howard. Isso porque, ao contr\u00e1rio da maioria dos autores das revistas &#8220;pulp&#8221;, tinha um grande interesse por sexo e muitas vezes deixava que suas obras resvalassem para o lado sat\u00edrico, chegando a escrever obras que tiram muito sarro do horror c\u00f3smico que tantos levavam a s\u00e9rio. Entre essas obras de jeito sat\u00edrico, <em>Ubbo-Sathla<\/em>, <em>Esquizofr\u00eanico Criador <\/em>e <em>A Chegada do Verme Branco <\/em>se destacam.<\/p>\n\n\n\n<h2>O Sexo e o Alien\u00edgena<\/h2>\n\n\n\n<p>S\u00e3o v\u00e1rias as obras de Smith nas quais o sexo, se n\u00e3o aparece de forma expl\u00edcita (devido ao puritanismo da \u00e9poca), pelo menos fica subentendido sem possibilidade de outra interpreta\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio dos her\u00f3is masculinos mis\u00f3ginos ou assexuados que frequentam os trabalhos de autores como H. P. Lovecraft, os personagens de Ashton-Smith se interessam bastante por sexo, sejam eles protagonistas, como o poeta que se apaixona pela prosituta que finge ser a l\u00e2mia <i>Morthylla<\/i>, ou antagonistas, como <i>A M\u00e3e dos Sapos<\/i>. As rela\u00e7\u00f5es podem ser consumadas, como a do arque\u00f3logo de <i>A V\u00eanus dos Azombeii<\/i>, que se torna amante de uma rainha africana, ou idealizadas (<i>O Fazedor de G\u00e1rgulas<\/i>), podem ser fruto do amor (<i>Os Ca\u00e7adores do Al\u00e9m<\/i>) ou da viol\u00eancia (<i>O Beijo de Zora\u00efda<\/i>), pode ser um amor pecaminoso, como o dos pr\u00edncipes d<i>O Terceiro Epis\u00f3dio de Vathek<\/i>, ou pode ser uma a\u00e7\u00e3o deliberada para destruir o amor alheio (<i>O Labirinto de Ma\u00e2l-Dweb<\/i>). O fato \u00e9 que o sexo; desejado, consumado ou evitado; \u00e9 parte significativa dos temas de Ashton-Smith. Isto torna algumas de suas hist\u00f3rias mais modernas do que a m\u00e9dia do que foi escrito nas revistas pulp da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.eldritchdark.com\/files\/galleries\/of-cas\/smith_firebreak.jpg\" alt=\"Ashton-Smith, j\u00e1 idoso, praticando jardinagem.\" width=\"230\" height=\"224\"\/><figcaption>Ashton-Smith, j\u00e1 idoso, fazendo jardinagem.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do sexo, outro tema muito pre\u00adsente na obra de Ashton-Smith \u00e9 o con\u00adceito da via\u00adgem no tempo-espa\u00e7o, que est\u00e1 de acordo com o tipo de a\u00e7\u00e3o que \u00e9 nelas encon\u00adtrado. Tal\u00advez para com\u00adpen\u00adsar nunca ter tido ele mesmo a opor\u00adtu\u00adni\u00addade de via\u00adjar, o autor fez de seus per\u00adso\u00adna\u00adgens gran\u00addes via\u00adjan\u00adtes. Rara \u00e9 a his\u00adt\u00f3\u00adria em que o pro\u00adta\u00adgo\u00adnista per\u00adma\u00adnece im\u00f3\u00advel: em regra ele viaja,  geral\u00admente por meios inco\u00admuns (naves espa\u00adciais, m\u00e1qui\u00adnas do tempo, m\u00e1qui\u00adnas voa\u00addo\u00adras m\u00e1gi\u00adcas) ou por cen\u00e1rios incomuns (tr\u00e2nsito interdimensional). Isso quando o personagem j\u00e1 n\u00e3o come\u00e7a a hist\u00f3ria dizendo que est\u00e1 em viagem por um lugar distante. <\/p>\n\n\n\n<h2>A Viol\u00eancia e Sua Descri\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Seus contos se caracterizam, em sua maioria, pela a\u00e7\u00e3o e pela viol\u00eancia. Para al\u00e9m das mortes de natureza sobrenatural ou de outra forma extraordin\u00e1ria, s\u00e3o in\u00fameras as mortes ocasionadas por acidentes ou pela m\u00e3o material do homem. Mas Ashton-Smith n\u00e3o se det\u00e9m a descrever muito os detalhes desta viol\u00eancia: interessa-lhe mais o meio pelo qual ela \u00e9 executada do que as peculiaridades do ato em si. Mesmo assim, a presen\u00e7a da viol\u00eancia f\u00edsica \u00e9 mais latente em sua obra do que na de Lovecraft. Por exemplo, diferente do mestre do horror, os carni\u00e7ais das hist\u00f3rias de Ashton-Smith devoram cad\u00e1veres em primeiro plano, ainda que os protagonistas humanos queiram fugir, tendam a desmaiar ou olhem para outro lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre Clark Ashton-Smith se pode, por\u00e9m, fazer a mesma cr\u00edtica do que a direcionada a Lovecraft: a de que seus protagonistas frequentemente s\u00e3o alter egos do autor. Se em Lovecraft, um amante dos livros e das antiguidades, os personagens vasculham bibliotecas ou ru\u00ednas arqueol\u00f3gicas, em Ashton-Smith, um artista pl\u00e1stico, os personagens muito frequentemente s\u00e3o artistas pl\u00e1sticos ou possuem um temperamento fortemente art\u00edstico. Se Lovecraft estava interessado em palavras poderosas e abstratas para expressar o &#8220;inomin\u00e1vel&#8221;, Ashton-Smith estava interessado em adjetivos precisos, em um contexto sinest\u00e9sico, para transmitir a impress\u00e3o fragment\u00e1ria de uma realidade incompreens\u00edvel. Lovecraft parece um fil\u00f3logo que escreve, Ashton-Smith um pintor que desenha com a linguagem.<\/p>\n\n\n\n<h2>O Racismo &#8212; Ou a Falta Dele<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar de toda a amizade que uniu, \u00e0 dist\u00e2ncia, os dois autores, a verdade \u00e9 que existem algumas diferen\u00e7as de temperamento entre os dois que s\u00e3o muito pronunciadas. Al\u00e9m da j\u00e1 mencionada diversidade de abordagem do sexo (Lovecraft, um puritano que mal tomava conhecimento da figura da mulher em suas hist\u00f3rias, e Ashton-Smith, um ing\u00eanuo que tinha fantasias de todo tipo com o sexo feminino), os dois autores divergem tamb\u00e9m em sua opini\u00e3o das ra\u00e7as estrangeiras. <\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto Lovecraft temia o contato com o estranho, a ponto de supor que a simples presen\u00e7a do estrangeiro era uma fonte de corrup\u00e7\u00e3o, Smith via no contato com a diversidade uma oportunidade de romper com a mesmice de sua vida chata e era receptivo, atrav\u00e9s de seus protagonistas, a todo tipo de contato com o alien\u00edgena, mesmo quando isso era obviamente perigoso. O protagonista d<i>A V\u00eanus dos Azombeii<\/i> se torna amante (no sentido sexual) de uma rainha africana e deseja fugir com ela, em <i>Mudan\u00e7a de Estrela<\/i> o protagonista aceita, embevecido, um convite para mudar-se para outro planeta, o astr\u00f3logo Nushaim, d<i>O \u00daltimo Hier\u00f3glifo<\/i>, tem por melhor amigo um velho negro, que por piedade comprou de um mercador de escravos, os astronautas punidos com o ex\u00edlio, de <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/05\/traducao-abandonados-em-andromeda-clark-ashton-smith\">Abandonados em Andr\u00f4meda<\/a>, n\u00e3o hesitam em comer das plantas e animais de um planeta estranho, da mesma forma que o infeliz explorador terr\u00e1queo que tenta fugir d<i>Os Imortais de Merc\u00fario<\/i>. Diante de uma tr\u00e1gica mudan\u00e7a para outro planeta, como em <i>A Porta Para Saturno<\/i>, os personagens n\u00e3o enlouquecem, mas tentam se adaptar. <\/p>\n\n\n\n<p>Ra\u00e7as diferentes tampouco s\u00e3o vistas como um perigo corruptor, exceto, claro, quando se tratam de ra\u00e7as monstruosas. A miscigena\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre mostrada como algo neutro. Marta, a amante &#8220;meio irlandesa e meio italiana&#8221; do escultor Cyprian Sincaul, de <em>Ca\u00e7adores do Al\u00e9m<\/em>, n\u00e3o parece ser mencionada com qualquer aspecto negativo de personalidade e ainda \u00e9 descrita como uma mulher extraordinariamente bela. Se \u00e9 verdade que a escravid\u00e3o aparece como tema em v\u00e1rias de suas hist\u00f3rias, ela \u00e9 sempre vista como um sinal de decad\u00eancia do povo que a pratica, geralmente trazendo o seu fim ou causando grandes sofrimentos.<\/p>\n\n\n\n<h2>O Reconhecimento, ou a Falta Dele<\/h2>\n\n\n\n<p>Infelizmente, apesar de toda a originalidade de sua concep\u00e7\u00e3o e da qualidade, embora irregular, de sua prosa, o Clark Ashton-Smith, infelizmente nunca teve o reconhecimento que o seu talento merecia, e ainda n\u00e3o o tem. Talvez por ter sido contempor\u00e2neo de tantos monstros sagrados da literatura de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e fantasia em sua era dourada, talvez por seu perfil discreto, ou o seu isolamento no interior da Calif\u00f3rnia, alguma coisa sempre lhe impediu de chegar a ter o renome dos companheiros que com ele dividiam as p\u00e1ginas das revistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns cr\u00edticos alegam que isto se deveu ao peso excessivo de sua linguagem, muito preciosa e carregada de termos arcaicos ou raros. Seja isto verdade ou n\u00e3o, tal defeito n\u00e3o transparece nas tradu\u00e7\u00f5es porque a maior parte dos termos ex\u00f3ticos empregados pelo autor s\u00e3o de origem greco-latina e soam naturais em portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pretendo traduzir algumas de suas obras mais significativas a fim de trazer ao conhecimento do p\u00fablico brasileiro um trabalho que, pelo que sei, n\u00e3o foi at\u00e9 agora disponibilizado em portugu\u00eas. <a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/portfolio\/traducoes\">Esta p\u00e1gina<\/a> ficar\u00e1 como permanente introdu\u00e7\u00e3o e \u00edndice a esse trabalho sem pressa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 momentos na hist\u00f3ria da lite\u00adratura em que os ve\u00ed\u00adculos mais inusi\u00adtados d\u00e3o vaz\u00e3o ao talento de autores competentes, resultando em obras de insus\u00adpeita quali\u00addade que, infeliz\u00admente, tardam em receber o devido reco\u00adnhe\u00adci\u00admento devido ao precon\u00adceito moti\u00advado justamente pelos ve\u00edculos em que foram publicadas.  Um desses momentos foi o per\u00edodo entre-guerras nos Estados Unidos, quando floresceram revistas mensais de folhetim conhecidas como &#8220;pulp fictions&#8221;. Impressas em papel barato e vendidas a pre\u00e7o baixo, destinadas \u00e0 classe oper\u00e1ria, n\u00e3o deixaram, por isso, de contar com autores de primeira grandeza porque ofereciam um ve\u00edculo para a profissionaliza\u00e7\u00e3o de quem desejasse come\u00e7ar na literatura.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[25,24,148,31],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48"}],"version-history":[{"count":37,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7220,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48\/revisions\/7220"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}