{"id":487,"date":"2010-08-01T22:20:00","date_gmt":"2010-08-02T01:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=487"},"modified":"2017-11-02T14:10:00","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:00","slug":"dislexopolis","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/08\/dislexopolis\/","title":{"rendered":"Dislex\u00f3polis"},"content":{"rendered":"<p>Com toda a equipe do <em>Laboratorium<\/em> reunida no <em>Sanctum sanctorum<\/em> do <em>Magisterium universalis<\/em>, o <em>Magister maximus<\/em> tomou a palavra no tom pausado e pastoral que a todos fascinava e irritava e come\u00e7ou a decretar.<\/p>\n<p>&#8212; <em>Ausculta fili<\/em> &#8212; ele se dirigia a Ignatius, novamente envolto em conspira\u00e7\u00f5es e guerras &#8212; temos de ser justos e temos de permanecer justos diante das tribula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8212; Sim, mestre.<\/p>\n<p>&#8212; Temos tido sucesso em permanecer isentos de toda culpa por tudo o que fizemos nos \u00faltimos s\u00e9culos e mil\u00eanios, gra\u00e7as \u00e0 arg\u00facia e a compet\u00eancia de todos que nos lideraram no passado.<\/p>\n<p>Acenos de aprova\u00e7\u00e3o silenciosa foram feitos por dezenas de cabe\u00e7as grisalhas e rostos inexpressivos.<\/p>\n<p>&#8212; Infelizmente, <em>Libera nos Domine<\/em>, algo aconteceu que nos est\u00e1 a expor a um risco muito grande.<\/p>\n<p>Um coro de vozes graves ecoou &#8220;Libera nos Domine&#8221; t\u00e3o baixo quanto poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8212; Temo n\u00e3o ter sido um l\u00edder t\u00e3o bom quanto meus antecessores, para hoje ver um de meus filhos queridos cometer tal ato que a todos exp\u00f5e.<\/p>\n<p>As faces antes inertes pareceram ganhar vida.<\/p>\n<p>&#8212; Nunca, mestre. V\u00f3s sois justo e perfeito &#8212; respondeu um indistinto coro que poderia estar localizado em qualquer lugar, ou em toda parte.<\/p>\n<p>&#8220;Justus inter hominis, justus inter pares.&#8221; O coro seco e monoc\u00f3rdico refor\u00e7ou a afirma\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Ignatius ergueu-se, l\u00edvido e grave.<\/p>\n<p>&#8212; <em>Mea culpa, mea grand\u00edssima culpa.<\/em><\/p>\n<p>Dezenas de rostos aquilinos se voltaram contra ele, como c\u00e3es que farejam sangue no deserto. Ele mesmo se assustou com a prontid\u00e3o com que o fitaram.<\/p>\n<p>O rito era sum\u00e1rio. Diante da admiss\u00e3o de culpa, que ali\u00e1s apenas formalizava o que todos j\u00e1 sabiam sobejamente, Ignatius viu abrir-se entre si e os seus companheiros a dist\u00e2ncia de um bra\u00e7o. O recado era claro: os demais n\u00e3o estariam mais ao seu alcance. Em seguida, foi servido p\u00e3o fresco ao redor da mesa, menos para ele. J\u00e1 n\u00e3o era um &#8220;companheiro&#8221;. Por fim, entregaram-lhe uma moeda inteira.<\/p>\n<p>Devia valer-se s\u00f3, n\u00e3o haveria algu\u00e9m a quem recorrer para completar seus recursos.<\/p>\n<p>Todo o rito durou apenas dois minutos. Minutos que correram mais r\u00e1pido que uma folha soprada de vento.<\/p>\n<p>&#8212; <em>Ite, fili.<\/em><\/p>\n<p>Ser tratado de filho, em vez de irm\u00e3o. Denegrido \u00e0 humildade dos leigos. As portas duplas se abriram, puxadas pelos servi\u00e7ais dos graus inferiores. Ao passar pela porta retiram-lhe a t\u00fanica e o barrete. Vestido apenas de cal\u00e7as comuns e uma prec\u00e1ria camisa de flanela xadrez, deixava a sede do Magist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Ao longo dos corredores, In\u00e1cio, agora reduzido a um nome vern\u00e1culo, passou por todos os membros do cen\u00e1culo perfilados, todos olhando fixamente a parede, fingindo ignor\u00e1-lo, mas prontos para apunhal\u00e1-lo ali mesmo se n\u00e3o mantivesse o passo rumo ao sagu\u00e3o de entrada.<\/p>\n<p>L\u00e1 estava o Porteiro, como sempre. O homem a quem tantas vezes ele mesmo humilhara, e que agora podia extrair sua vingan\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas Frater Petrus n\u00e3o se aproveitou. Manteve seu rosto de madeira envernizada e seus olhos de conta de vidro. Sua voz, azeda e rangente como engrenagens enferrujadas.<\/p>\n<p>&#8212; <em>Mens tua alienandus est, quod servare sallus vestri et animae tuam.<\/em><\/p>\n<p>Era uma amea\u00e7a clara. Seria vigiado de perto, e seria executado \u00e0 menor tentativa de revelar aos profanos qualquer segredo do Magist\u00e9rio. A \u00fanica raz\u00e3o pela qual lhe davam aquela chance era para preservar o pr\u00f3prio pr\u00e9dio sagrado do derramamento do sangue de um expulso. Preferiam mat\u00e1-lo pelas ruas, diante de qualquer desculpa, a faz\u00ea-lo ali. E nem era tanto por temor ritual, mas para preservar a imagem da Institui\u00e7\u00e3o. <em>Institutio in primus.<\/em><\/p>\n<p>Quando saiu \u00e0 rua estava frio e chovia e ventava. Outro agosto detest\u00e1vel em sua vida.<\/p>\n<p>Retirou do bolso a moeda de ouro que lhe haviam dado: primeira tenta\u00e7\u00e3o. Vend\u00ea-la renderia dinheiro suficiente para algumas semanas. Mas seria facilmente interpretado como uma tentativa de expor a exist\u00eancia do Magist\u00e9rio. Preferiu deix\u00e1-la cair em uma lixeira \u00e0 porta da pr\u00f3pria Sede.<\/p>\n<p>Estava no mundo, com a roupa do corpo, e com a amea\u00e7a imperiosa da morte no caso de tentar recorrer aos segredos e conhecimentos que um dia estivera autorizado a manipular. Teria de descobrir, aos trinta e cinco anos, algum meio de vida, alguma maneira de ganhar dinheiro, de ficar respirando mesmo contra a adversidade.<\/p>\n<p>Nunca poderia confiar plenamente em ningu\u00e9m. Nenhum membro do Magist\u00e9rio conhecia mais do que uns vinte ou trinta outros. E eles poderiam facilmente sair ou chegar de uma cidade, visto que n\u00e3o tinham la\u00e7os nem com fam\u00edlia e nem com empregos.<\/p>\n<p>Felizmente ainda conservava a caderneta de poupan\u00e7a que abrira antes de entrar para o Magist\u00e9rio, e na qual depositara o fruto da venda de todos os seus bens terrenos. Isso era permitido, de certa forma, embora n\u00e3o fosse bem visto. Certamente a sua relut\u00e2ncia em livrar-se dessa \u00e2ncora do passado lhe causara muitos empecilhos, mas naquele dia estava grato a si mesmo por nunca ter se rendido completamente, nunca ter entregue o dinheiro.<\/p>\n<p>Sacou cem reais em um caixa eletr\u00f4nico. Apenas notas de dez. Tomou um t\u00e1xi para a rodovi\u00e1ria. N\u00e3o dormiria nenhuma noite em S\u00e3o Paulo. Era perigoso demais. N\u00e3o tinha h\u00e1bitos seguros, n\u00e3o tinha guarda-costas e nem poderia recorrer aos seus conhecimentos para manter-se a salvo mesmo de bandidos comuns. Seguiria para algum lugar distante, no interior, onde fosse f\u00e1cil conhecer todas as pessoas, onde fosse improv\u00e1vel a presen\u00e7a do Magist\u00e9rio ou &#8212; de outro modo &#8212; fosse poss\u00edvel que eles tivessem apenas um informante.<\/p>\n<p>Desceu na rodovi\u00e1ria apreensivo. Felizmente n\u00e3o tinha malas. Guardava o cart\u00e3o eletr\u00f4nico e a identidade como seus \u00fanicos tesouros.<\/p>\n<p>No quadro de hor\u00e1rios, para abreviar o sofrimento de ficar sozinho em um local t\u00e3o cheio de gente, comprou a passagem para o primeiro lugar desconhecido que tinha \u00f4nibus saindo: Muria\u00e9, Minas Gerais.<\/p>\n<p>Entrou no coletivo ainda ressabiado, olhando para os lados como se a morte estivesse num dos assentos. Poderia estar.<\/p>\n<p>Um menino de cabelos empoeirados passou vendendo jornais. &#8220;Um real, um real&#8221;. Estendeu a m\u00e3o pela janela e entregou ao pivetinho a moeda de borda dourada. Pegou de volta o peri\u00f3dico popularesco e se sentou para ler, na esperan\u00e7a de esquecer um pouco da tens\u00e3o incr\u00edvel que o repisava. As manchetes, por\u00e9m, eram ainda piores do que imaginava.<\/p>\n<p><em>Pol\u00edcia Federal Investiga Misterioso Fen\u00f4meno em Campinas<\/em>. Por alguma raz\u00e3o se arrependia de ter come\u00e7ado aquilo. Ou teria sido instado a come\u00e7ar por algu\u00e9m que j\u00e1 sabia que tinha de terminar mal? &#8220;Justo entre os homens, justo entre seus pares&#8221; uma ova!<\/p>\n<p>Os detalhes eram vagos, certamente porque a Censura estaria agindo nos bastidores para tentar contornar ao m\u00e1ximo a a\u00e7\u00e3o que o povo exigia. O povo deveria ser menos cordeiro e exigir menos respostas. O mal do cordeiro \u00e9 que quando se rebela, \u00e9 sempre sozinho e s\u00f3 d\u00e1 cabe\u00e7adas.<\/p>\n<p>O \u00f4nibus partiu.<\/p>\n<p>Quando acordou era dia antigo e estava vendo as montanhas redondas de Minas Gerais pela janela. Recomp\u00f4s-se como deu, n\u00e3o deixando de notar que se despenteara e estava mais amarrotado que um maracuj\u00e1 velho.<\/p>\n<p>Ao seu lado estava o rosto quadrado e terroso de Frater Patricius.<\/p>\n<p>&#8212; O que est\u00e1 fazendo aqui, irm\u00e3o? &#8212; perguntou, com cuidado.<\/p>\n<p>&#8212; Uma miss\u00e3o, como sabes.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o questionou ser tratado como irm\u00e3o, embora provavelmente a expuls\u00e3o de In\u00e1cio fosse not\u00edcia velha, e mesmo antes de ser velha fora esperada, favas contadas, durante dias. Era um mau sinal.<\/p>\n<p>&#8212; O que est\u00e1 acontecendo de importante em Muria\u00e9?<\/p>\n<p>&#8212; Um assassinato em circunst\u00e2ncias estranhas.<\/p>\n<p>&#8212; Tem algo a ver com Campinas?<\/p>\n<p>&#8212; Ningu\u00e9m aventou a possibilidade.<\/p>\n<p>&#8212; O caso de Campinas ainda est\u00e1 ecoando.<\/p>\n<p>&#8212; E vai ecoar enquanto aquele palha\u00e7o da televis\u00e3o ficar repetindo a piada de &#8220;Dislex\u00f3polis&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; Deviam matar aquele cara.<\/p>\n<p>&#8212; Por que? Ele est\u00e1 apenas fazendo bem aquilo que \u00e9 o seu trabalho.<\/p>\n<p>&#8212; Detesto gente que apenas &#8220;faz bem&#8221; o seu trabalho.<\/p>\n<p>&#8212; Eu tamb\u00e9m, mas detesto ainda mais os que nem conseguem faz\u00ea-lo bem.<\/p>\n<p>Definitivamente um p\u00e9ssimo sinal.<\/p>\n<p>&#8212; Devia ter comprado uma passagem para Ubatuba &#8212; disse Patr\u00edcio.<\/p>\n<p>E come\u00e7ou a cantar a can\u00e7\u00e3o do Caymmi.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com toda a equipe do Laboratorium reunida no Sanctum sanctorum do Magisterium universalis, o Magister maximus tomou a palavra no tom pausado e pastoral que a todos fascinava e irritava e come\u00e7ou a decretar. &#8212; Ausculta fili &#8212; ele se dirigia a Ignatius, novamente envolto em conspira\u00e7\u00f5es e guerras &#8212; temos de ser justos e temos de permanecer justos diante das tribula\u00e7\u00f5es. &#8212; Sim, mestre. &#8212; Temos tido sucesso em permanecer isentos de toda culpa por tudo o que fizemos nos \u00faltimos s\u00e9culos e mil\u00eanios, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[24,32,41],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/487"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=487"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/487\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5335,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/487\/revisions\/5335"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=487"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=487"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=487"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}