{"id":491,"date":"2010-06-03T10:11:00","date_gmt":"2010-06-03T13:11:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=491"},"modified":"2019-06-06T23:53:47","modified_gmt":"2019-06-07T02:53:47","slug":"o-sabio-louco-e-o-ignorante-vigoroso","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/06\/o-sabio-louco-e-o-ignorante-vigoroso\/","title":{"rendered":"O S\u00e1bio Louco e o Ignorante Vigoroso"},"content":{"rendered":"\n<p>Eu n\u00e3o sei se existem realmente homens s\u00e1bios das letras que leram pouco ou quase n\u00e3o leram \u2014 como os exemplos citados, que v\u00e3o de Paul Val\u00e9ry a Raduan Nassar. H\u00e1 uma diferen\u00e7a sutil entre o que as pessoas realmente s\u00e3o e o que elas dizem ser ou parecem ser. Chico Xavier foi mostrado como um quase analfabeto por ter apenas a quarta s\u00e9rie prim\u00e1ria, mas era um leitor voraz e possu\u00eda uma biblioteca imensa em sua casa. Sem falar que \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel uma pessoa se passar por s\u00e1bia sem ser, desde que me\u00e7a bem suas palavras. Como diz a B\u00edblia, em Prov\u00e9rbios 17:28, at\u00e9 um tolo pode se passar por s\u00e1bio se souber ficar calado.<sup name=\"1\"><a href=\"#fn1\" rel=\"footnote\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Tendo feito essas duas importantes ressalvas, passo ao tema principal.<\/p>\n\n\n\n<p>O homem s\u00e1bio que n\u00e3o l\u00ea, o escritor que n\u00e3o l\u00ea, o ignorante que ensina o doutor, etc. s\u00e3o personagens antigos em nossa cultura. S\u00e3o arqu\u00e9tipos milenares. J\u00e1 entre os gregos e romanos voc\u00ea encontrar\u00e1 esta figura. Este personagem \u00e9 o profeta usado por deuses para comunicar sabedoria aos homens, como o cego Tir\u00e9sias (um vision\u00e1rio cego, veja s\u00f3) da trag\u00e9dia de \u00c9dipo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por ser um arqu\u00e9tipo, \u00e9 uma figura poderosa e inspiradora. E por isso mesmo \u00e9 <strong>suspeito<\/strong>. Tal como voc\u00ea n\u00e3o deve acreditar em her\u00f3is (embora ocasionalmente alguma pessoa real cometa atos heroicos), n\u00e3o deve acreditar em <em>s\u00e1bios ignorantes<\/em> (embora ocasionalmente algum ignorante pare\u00e7a s\u00e1bio).<\/p>\n\n\n\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o desse arqu\u00e9tipo serve a um objetivo. \u00c9 uma maneira de dar a cada um seu papel em uma sociedade. Se nem todos podem estudar, \u00e9 preciso que o povo acredite que o estudo n\u00e3o ensina sabedoria, que existe um idealismo desej\u00e1vel na ignor\u00e2ncia, uma sabedoria que vem diretamente de deus, e n\u00e3o dos livros.<\/p>\n\n\n\n<p>O s\u00e1bio que n\u00e3o l\u00e9 est\u00e1 em uma face da mesma moeda que cont\u00e9m outro arqu\u00e9tipo igualmente antigo e igualmente poderoso: o do estudo que destr\u00f3i. Do mesmo modo que s\u00e3o saudados com o vigor de sua sabedoria direta os autores que n\u00e3o leem, s\u00e3o execrados os que por excesso de leitura se tornam pretensiosos, <em>livrescos<\/em>, loucos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fica evidente, quando voc\u00ea analisa por esse lado, que existe um fen\u00f4meno cultural acontecendo. Dizer que \u00e9 uma conspira\u00e7\u00e3o para manter o povo sem controle seria um reducionismo idiota, digno de marxistas de botequim (somente depois da quinta dose de <em>schnapps<\/em>, logicamente). N\u00e3o \u00e9 isso que estou sugerindo: fen\u00f4menos culturais n\u00e3o s\u00e3o guiados conscientemente, s\u00e3o fruto de coisas profundas que jazem no inconsciente coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>O mito do autor que pouco l\u00ea, com seu oposto, o s\u00e1bio louco de tanto estudar, expressam o desprezo das massas pela cultura. O povo, de um modo geral, teme e odeia os seus l\u00edderes desde milhares de anos atr\u00e1s. Desde a Sum\u00e9ria e o Egito, quando os livros foram inventados, os homens que leem e escrevem s\u00e3o vistos como controladores de for\u00e7as terr\u00edveis, MAL\u00c9FICAS. S\u00e3o for\u00e7as mal\u00e9ficas porque a elite oprime o povo. Logo, as tecnologias da elite, entre elas a escrita e a leitura, s\u00e3o contr\u00e1rias ao bem do povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o povo precisa de autoestima, n\u00e3o pode se aceitar como gado. Por isso desenvolve-se a ideia do &#8220;pre\u00e7o que a bruxaria cobra&#8221;. Inicialmente isso era visto como literal: os que se dedicavam aos mist\u00e9rios deste e de outro mundo eram pessoas distantes, isoladas, malcheirosas devido \u00e0s experi\u00eancias que conduziam em suas alcovas. Envelheciam cedo devido \u00e0s priva\u00e7\u00f5es de sono e de alimento, enxergavam mal devido a &#8220;for\u00e7ar a vista&#8221; em seus livros, diante de velas e cadinhos. Hoje j\u00e1 n\u00e3o se faz alquimia, mas persiste a ideia de que o homem dedicado ao solit\u00e1rio prazer da cultura seria um ser infeliz, amaldi\u00e7oado. Salutar e bom \u00e9 o vigoroso homem do povo, isento da corrup\u00e7\u00e3o do passado, cheio da verdade simples e direta que brota da terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis um mito poderoso.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"footnote\">\n<p><a name=\"#fn1\" href=\"#1\">1<\/a>R\u00e9plica em um debate no qual se defendia que certos grandes escritores n\u00e3o eram leitores frequentes e que, portanto, ler n\u00e3o \u00e9 um requisito para escrever bem.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu n\u00e3o sei se existem realmente homens s\u00e1bios das letras que leram pouco ou quase n\u00e3o leram \u2014 como os exemplos citados, que v\u00e3o de Paul Val\u00e9ry a Raduan Nassar. H\u00e1 uma diferen\u00e7a sutil entre o que as pessoas realmente s\u00e3o e o que elas dizem ser ou parecem ser. 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