{"id":495,"date":"2010-03-25T14:18:00","date_gmt":"2010-03-25T17:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=495"},"modified":"2017-11-26T17:48:10","modified_gmt":"2017-11-26T20:48:10","slug":"uma-foto-infeliz","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/03\/uma-foto-infeliz\/","title":{"rendered":"Uma Foto Infeliz"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Fica proibida, por decis\u00e3o administrativa, a realiza\u00e7\u00e3o de eventos nas depend\u00eancias da empresa, a n\u00e3o ser os organizados pela dire\u00e7\u00e3o&#8221; &#8212; dizia o cartaz afixado no quadro de avisos da sala de caf\u00e9.<\/p>\n<p>Assim, seca e burocr\u00e1tica, era a rea\u00e7\u00e3o, previs\u00edvel, das inst\u00e2ncias superiores. Como todos, Geraldo j\u00e1 esperava por algo parecido, mas n\u00e3o deixava de ficar surpreso:<\/p>\n<p>&#8212; Dizem que os manda-chuvas n\u00e3o ficaram nem um pouco felizes com as imagens da festa de fim de ano que surgiram na <em>net<\/em> &#8212; observou Lula.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei porque. N\u00e3o havia nada no filme que n\u00e3o fosse normal.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos aguardar mais alguns dias, de &#8220;antenas ligadas&#8221;, para ver o que v\u00e3o fazer. Mas isso n\u00e3o cheira bem. Voc\u00ea n\u00e3o deve ter visto as mesmas fotos que eu.<\/p>\n<p>Sa\u00edram da sala de caf\u00e9, apertaram os n\u00f3s das gravatas e entraram no amedrontador sal\u00e3o de vendas, atravessado de um lado a outro por uma ventania g\u00e9lida, que destoava do sol causticante que se esgueirava pelas frestas e vidra\u00e7as.<\/p>\n<p>A manh\u00e3 transcorreu dentro das condi\u00e7\u00f5es normais de temperatura e de press\u00e3o. Ningu\u00e9m sen\u00e3o alguns dos clientes mais &#8220;descolados&#8221; pareceu ter dado pelas miser\u00e1veis fotos. Exceto por ocasionais piadinhas de sal\u00e3o, normais se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 absolutamente ass\u00e9ptico e ins\u00edpido, as fotos pareciam sem maior consequ\u00eancia. \u00c0s onze, a cabulosa Mensagem do Dia, emanada da Presid\u00eancia, n\u00e3o fez qualquer men\u00e7\u00e3o aos fatos: apenas exigindo empenho nas vendas. Todos sabem que quem vende tem o direito a certas coisas, at\u00e9 mesmo ser um mala.<\/p>\n<p>&#8212; Vou sair para almo\u00e7ar mais cedo hoje &#8212; adiantou-se Paula.<\/p>\n<p>&#8212; Sorte sua que tem uma hora cheia para almo\u00e7ar. Bom apetite.<\/p>\n<p>&#8212; Um dia vai estar no clube, gracinha. Voc\u00ea vai longe.<\/p>\n<p>Ela saiu rebolando suas formas fartas aos olhos famintos dos dois.<\/p>\n<p>&#8212; Vais \u00e0 puta que o pariu &#8212; resmungou Lula.<\/p>\n<p>&#8212; O que \u00e9 isso, meu companheiro?<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1s me saindo um belo puxa-sacos!<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o seja grosso. Paulinha \u00e9 ador\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de ser grosso: ela ainda \u00e9 a chefe.<\/p>\n<p>&#8212; Os chefes tamb\u00e9m amam.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, n\u00e3o seja por isso, macacos e pombos tamb\u00e9m amam.<\/p>\n<p>Um cliente entrou, exigindo aten\u00e7\u00e3o comercial e meticulosa. Sorrisos devidamente falsos e extr\u00ednsecos surgiram em suas caras barbeadas:<\/p>\n<p>&#8212; Bom dia, Senhora Porto.<\/p>\n<p>&#8212; Bom dia, meus queridos &#8212; ela tinha a condescend\u00eancia de uma sinh\u00e1 na senzala. T\u00e3o crist\u00e3 e t\u00e3o devidamente superior.<\/p>\n<p>&#8212; Em que vamos investir o pagamento do m\u00eas?<\/p>\n<p>Geraldo detestava atender \u00e0quela gente que aparecia com dinheiro aos montes e nenhuma hist\u00f3ria. De onde sairiam tais sal\u00e1rios milion\u00e1rios pagos por \u00f3rg\u00e3os de nomes cr\u00edpticos? Como fora poss\u00edvel que a Sinh\u00e1 Porto, t\u00e3o semianalfabeta e burra, tivesse feito jus a perceber seus doze mil reais mensais? Sal\u00e1rio que nem mesmo o Superintendente, que tinha o poder de destruir carreiras, entortar vidas e esmagar sonhos conseguia ter na conta banc\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mesmo assim sorriu profissionalmente e aguardou pacientemente que a Sinh\u00e1 Porto abrisse sua cavernosa bolsa e extra\u00edsse dela uma fieira sup\u00e9rflua de extratos de meses passados, contracheques de sal\u00e1rios e benef\u00edcios e demonstrativos de despesas. Ficou repuxando o bigodinho enquanto ela tentava descobrir que, como todos os meses, havia tido um cr\u00e9dito de R$ 12.976,42 l\u00edquidos e que deveria aplicar, como todo santo m\u00eas desde a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, exatos R$ 11.000,00 de que n\u00e3o precisava e de que nunca precisaria porque possu\u00eda plano de sa\u00fade, morava em casa pr\u00f3pria, pr\u00f3xima ao centro, n\u00e3o possu\u00eda carro e nada fazia, a n\u00e3o ser frequentar a missa para pedir perd\u00e3o de seus pecados e fofocar com as amigas.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora fazia um sol rutilante, passavam meninas de roupas justas e decotes largos, com pernas grossas e cabelos soltos, po\u00e7os de pecado e afli\u00e7\u00e3o que acenavam e desapareciam no canto da vidra\u00e7a. E Geraldo ouvia as hist\u00f3rias de Sinh\u00e1 Porto e seus queixumes de que o governo n\u00e3o tinha mais respeito pelos antigos servidores. Como todo m\u00eas ela ia embora deixando a sala nadando em seu perfume madeirado, cheiro a donzela do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Lula se engalfinhava com o telefone. Aquela besta mitol\u00f3gica atacava teimosamente, de minuto em minuto, sempre com outro problema urgente e inadi\u00e1vel. Pobre Lula, t\u00e3o grisalho aos trinta e quatro anos, t\u00e3o cheio de gastrites e d\u00edvidas. Nunca chegaria a ganhar nada parecido com o que ganhava Sinh\u00e1 Porto, que mal sabia estimar o valor de seus ardidos &#8220;caramingu\u00e1s&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; Geraldo, o Super, para voc\u00ea.<\/p>\n<p>O pobre escritur\u00e1rio agarrou o telefone como se ele fosse uma massa disforme de chumbo quente e atendeu, devidamente gaguejando, pois o Super detestava ouvir vozes que n\u00e3o transmitissem intimida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Sua ag\u00eancia est\u00e1 sendo rebaixada de n\u00edvel. Posso falar com Paula?<\/p>\n<p>&#8212; Ela saiu&#8212; confessou Geraldo, o &#8220;sub&#8221;, perguntando-se por que, com mil raios, o Super havia aventado a not\u00edcia bomba antes mesmo de querer falar com quem deveria ouvi-la.<\/p>\n<p>&#8212; Avise-a quando voltar que eu quero falar com ela pessoalmente, na sede da Regional, amanh\u00e3 \u00e0s oito da manh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8212; Pois n\u00e3o &#8212; e anotou na agenda corporativa o compromisso at\u00edpico que aguardava a loura e linda Paulinha no dia seguinte, na presen\u00e7a do irasc\u00edvel Super.<\/p>\n<p>Continuaram atendendo com sorrisos comerciais e com pernas doendo de vontade de andar pelo cal\u00e7ad\u00e3o, mas aproveitaram a tranquilidade do fim da manh\u00e3 para reparar a bunda esf\u00e9rica e rija de Marlene, que se esfregava exageradamente na nova impressora tentando fazer uma c\u00f3pia de documento, ou talvez mostrar a recente depila\u00e7\u00e3o das coxas.<\/p>\n<p>&#8212; E Paula n\u00e3o volta.<\/p>\n<p>&#8212; Aposto vinte como demora a voltar, como sempre &#8212; disse Lula.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 sei que vou perder, mas aposto.<\/p>\n<p>&#8212; Essa piranha cada dia demora mais no almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Um pigarro soou \u00e0s costas de ambos, que se viraram num susto.<\/p>\n<p>&#8212; Chamado da ger\u00eancia geral, para os dois.<\/p>\n<p>Edna e Elaine, as estagi\u00e1rias novatas, assumiriam temporariamente as mesas do atendimento, para que pudessem comparecer ao chamado de Sua Augusta Reverend\u00edssima.<\/p>\n<p>A &#8220;sala&#8221; da ger\u00eancia era em um canto do recinto ao fundo, protegida do p\u00fablico em geral por um biombo semitransparente e pelo ar teatral e antiquado de Baltazar Xavier, MBA. Sentado na sua cadeira imperial e observando agudamente o fluxo de clientes, tomava notas para suas decis\u00f5es &#8212; sempre em harmonia com os des\u00edgnios emanados da inst\u00e2ncia superior, qualquer que fosse. Os seus olhinhos de tatu vasculhavam a pilha de relat\u00f3rios despejada \u00e0 sua frente com perspic\u00e1cia de ladr\u00e3o de cinema. Era ver o contador de Al Capone, sem a metralhadora.<\/p>\n<p>&#8212; Sentem-se os dois.<\/p>\n<p>A ordem foi seguida de forma autom\u00e1tica.<\/p>\n<p>&#8212; Sabem porque est\u00e3o aqui?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, senhor &#8212; esse sufixo era imprescind\u00edvel em toda resposta, a menos que se quisesse ouvir algum discurso de \u00e9tica confuciana.<\/p>\n<p>&#8212; Os senhores teriam, por acaso, algo a dizer sobre a festa de fim de ano que a nossa empresa organizou?<\/p>\n<p>&#8212; Apenas que foi uma \u00f3tima festa &#8212; adiantou-se Lula.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 essa a opini\u00e3o da Presid\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o me interrompam, deixem-me falar!<\/p>\n<p>&#8212; Mas\u2026<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 disse, n\u00e3o me interrompam.<\/p>\n<p>Baltazar Xavier era o tipo que intimidava. N\u00e3o tanto por seu f\u00edsico, mas por seu repert\u00f3rio de gestos e pelas hist\u00f3rias que gostava muito de contar, ressaltando seus feitos de boxeador, brigador de rua e de lutador de karat\u00ea. Seus bra\u00e7os grossos davam credibilidade a essas aventuras meio criminosas de seus passado, que ele cuidadosamente s\u00f3 mencionava a s\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8212; Alguns clientes mais conservadores est\u00e3o ligeiramente incomodados com aquilo tudo. Eu imagino que voc\u00eas saibam que esta ag\u00eancia atende um p\u00fablico de alto n\u00edvel e que nos confia seus recursos esperando o m\u00e1ximo de seriedade de nossa parte.<\/p>\n<p>&#8220;Conservadores, ou conservados em formol&#8221; &#8212; pensou Geraldo. Mas s\u00f3 conseguiu dizer &#8220;sim, senhor&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; De forma que n\u00e3o lhes deve surpreender que alguns tenham entrado em contato questionando a compet\u00eancia de pessoas como voc\u00eas para t\u00e3o grande responsabilidade.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o consigo ver a rela\u00e7\u00e3o de uma coisa com outra.<\/p>\n<p>&#8212; Mas voc\u00ea n\u00e3o ter que ver merda nenhuma. O cliente viu, isso \u00e9 que importa. Se o cliente disser que est\u00e1 vendo um elefante cor de rosa voador, ent\u00e3o ele est\u00e1 vendo um elefante cor de rosa voador. E caso voc\u00ea queira ser bem-sucedido nessa carreira n\u00e3o basta voc\u00ea aceitar o que ele viu. Voc\u00ea tem que ver tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>O argumento era inquestion\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8212; Mas em que implica tudo isso?<\/p>\n<p>&#8212; Implica em que alguns dos nossos clientes mais influentes n\u00e3o se sentem \u00e0 vontade em ter seus recursos nas m\u00e3os de profissionais que enchem a cara de vodca e s\u00e3o flagrados por c\u00e2meras bolinando colegas de trabalho.<\/p>\n<p>Geraldo e Lula mantinham sil\u00eancio cadav\u00e9rico. Quanto menos falassem, mais r\u00e1pido terminava aquela agonia de enfrentar Baltazar.<\/p>\n<p>&#8212; Como consequ\u00eancia disso, terei de transferir voc\u00eas de setor. Mas, infelizmente, nesse exato momento, n\u00e3o h\u00e1 nenhum posto dispon\u00edvel em nossa empresa do mesmo n\u00edvel que voc\u00eas ocupam.<\/p>\n<p>Era uma senten\u00e7a quase capital: perda da comiss\u00e3o, com rebaixamento a uma ag\u00eancia perif\u00e9rica. Com que ganharia e o custo de deslocamento quase nem mais valia a pena o emprego. Mas Geraldo ainda pensava que o amigo Lula estaria pior: com t\u00e3o pouco tempo de carreira e t\u00e3o sem m\u00e1culas da vida, estaria, como ele, relegado a um posto indesej\u00e1vel, com uma mancha no curr\u00edculo. No segundo seguinte lembrou-se que sua pr\u00f3pria mancha seria imensamente maior, descomissionamento, aquela palavra feia normalmente associada a gente respons\u00e1vel por desfalque ou grandes cagadas. Praticamente um atestado de desonestidade ou de incompet\u00eancia.<\/p>\n<p>Geraldo agiu r\u00e1pido:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o posso aceitar.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam que aceitar ou recusar. A decis\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 tomada e os seus substitutos j\u00e1 foram convocados. Voc\u00eas t\u00eam o resto da tarde para empacotarem seus pertences\u2026<\/p>\n<p>&#8212; Mas n\u00e3o aceito. Prefiro demitir-me.<\/p>\n<p>Baltazar fora interrompido, uma forma de ousadia que nunca perdoava. Pior do que isso, o subalterno o encarava com galhardia, recusando- se a cumprir sua Palavra. Ergueu-se da cadeira, avermelhado e com os bra\u00e7os intimidadores tentando ocupar todo o espa\u00e7o do campo de vis\u00e3o dos dois:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o prefere merda nenhuma. Eu deveria t\u00ea-lo demitido por uma justa causa, mas fui bacana de lhe arranjar um lugar para trabalhar, apesar da cagada que fez!<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o acho que fiz nenhuma cagada e n\u00e3o aceito essa decis\u00e3o que voc\u00ea tomou. N\u00e3o tem merda nenhuma de cliente reclamando, voc\u00ea estava era ca\u00e7ando uma desculpa para me limar da ag\u00eancia e trazer algu\u00e9m da sua confian\u00e7a. Eu prefiro procurar outro emprego do que enfiar o meu rabo entre as pernas diante disso. Melhor demitir-me do que te dar a chance de me arranjar mesmo uma justa causa, porque errar todo mundo erra.<\/p>\n<p>Baltazar estava quase apopl\u00e9tico, espumando pelo canto da boca e sem conseguir articular a raiva. Apenas se continha para que os clientes no sagu\u00e3o n\u00e3o notassem o cabo-de-guerra que se desenrolava entre os dois. Geraldo sabia que n\u00e3o ficaria barata aquela ousadia. Mas como era maravilhoso poder dizer tudo aquilo, de boca cheia.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o \u2018t\u00e1! Saia daqui e n\u00e3o volte depois arrependido.<\/p>\n<p>Geraldo se levantou, num gesto inesperado de obedi\u00eancia residual, s\u00f3 olhando ainda para o pobre Lula, acuado na cadeira como o marinheiro que assiste em alto mar \u00e0 luta tit\u00e2nica de duas bestas mitol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Diante da in\u00e9rcia do amigo, e da perspectiva de ver a situa\u00e7\u00e3o ainda piorar, saiu da sala pisando duro e foi pegar seus objetos pessoais na escrivaninha. Edna o olhava com um ar divertido, a putinha. Podia bem estar achando que teria a comiss\u00e3o, nada que um boquete dos bem dados n\u00e3o permita sonhar.<\/p>\n<p>Baltazar veio dos fundos como Zeus Tonante, deslocando o ar com sua passagem. Parou ao lado da mesa e assistiu ao recolhimento de cada objeto. Quando Geraldo terminou, fez quest\u00e3o de sublinhar com a voz mais clara que sabia fazer:<\/p>\n<p>&#8212; Alguns objetos que voc\u00ea est\u00e1 levando s\u00e3o propriedade da empresa.<\/p>\n<p>Era o fim da picada! Ser acusado de roubo! Pior ainda, de roubar t\u00e3o insignificantes coisas.<\/p>\n<p>&#8212; Mostre-me quais s\u00e3o, ent\u00e3o, seu filho da puta!<\/p>\n<p>Baltazar j\u00e1 ia al\u00e9m do limite do aceit\u00e1vel. Dava para sentir medo de ver sua carranca e Geraldo tinha a certeza de que se n\u00e3o estivessem dentro da ag\u00eancia ele j\u00e1 teria tentado mostrar que suas hist\u00f3rias de boxe ou karat\u00ea n\u00e3o eram fantasias nem t\u00e1ticas de intimida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Grampeador, agenda, calculadora.<\/p>\n<p>&#8212; Ah, isso n\u00e3o! Voc\u00ea sabe que comprei o meu pr\u00f3prio grampeador para n\u00e3o ter de usar essas porcarias baratas xing-ling. A agenda \u00e9 a da empresa, sim, mas a empresa a deu para mim. E a calculadora \u00e9 minha, muito minha. Tenho at\u00e9 nota fiscal se voc\u00ea quiser, e ainda pus o meu nome nela!<\/p>\n<p>&#8212; Devolva essa agenda, ela tem dados sigilosos.<\/p>\n<p>Preferiu ceder. Pelo menos vencera dois ter\u00e7os da quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Saiu da ag\u00eancia levando apenas uma caixa de pl\u00e1stico contendo alguns livros, uma r\u00e9gua de alum\u00ednio, uma HP-12C, um grampeador, o pendrive que, por sorte, Baltazar n\u00e3o se lembrara de exigir que formatasse, e o jornal do dia.<\/p>\n<p>No dia seguinte levaria sua carteira de trabalho ao Departamento de Pessoal e ingressaria, oficialmente, na contagem dos desempregados, ainda por cima sem direito a seguro desemprego. Mas era uma sensa\u00e7\u00e3o louca de liberdade que o assolava, enquanto aquele vento fresco dava vontade de rir. Afrouxou a gravata, para que o vento pudesse brincar com ela, e foi descendo o cal\u00e7ad\u00e3o pensando em quantas coisas boas e ruins se negara a experimentar nos sete anos anteriores em nome de uma carreira e de um sal\u00e1rio de dois mil reais por m\u00eas.<\/p>\n<p>Paula vinha em sua dire\u00e7\u00e3o com a bolsa despreocupadamente a tiracolo e uma express\u00e3o de surpresa na cara:<\/p>\n<p>&#8212; Visita a cliente?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, rebeldia.<\/p>\n<p>&#8212; Hem?<\/p>\n<p>&#8212; Estou me demitindo.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea est\u00e1 louco?<\/p>\n<p>&#8212; Estou, claro. S\u00f3 mesmo um louco se demitiria de um emprego como o nosso. Mas eu espero que voc\u00ea consiga me entender ainda hoje.<\/p>\n<p>&#8212; O que houve?&#8212; a express\u00e3o dela mudara para uma de jornalista que vai noticiar morte de pol\u00edtico.<\/p>\n<p>&#8212; Muita coisa, mas o que me fez sair \u00e9 n\u00e3o aguentar mais o Baltazar Xavier, aquele escroto. Tem coisas que dinheiro n\u00e3o paga.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ele vai passar, e o seu emprego continuaria.<\/p>\n<p>&#8212; Temos que ter esperan\u00e7a de algo melhor, querida. Se voc\u00ea entender e quiser conversar, sabe onde me encontrar. Pelo menos para alguma coisa aquele apartamento que herdei de minha tia serve: para me dar a coragem de chamar Baltazar Xavier de filho da puta.<\/p>\n<p>Paula riu e seguiu seu caminho. Naquele momento provavelmente n\u00e3o se tocava da gravidade da situa\u00e7\u00e3o, talvez porque, devido \u00e0 alta carga de trabalho que suportava e mais faculdade, fosse a \u00fanica que ainda n\u00e3o vira o infame v\u00eddeo no qual ela, b\u00eabada, se deixava bolinar por Lula e Geraldo.<\/p>\n<p>Enquanto seguia para o ponto de \u00f4nibus, carregando os restos de sua carreira sob o bra\u00e7o, sentia pena de Paula. Ela era uma boa mo\u00e7a, s\u00f3 tinha um pequeno problema com a bebida e uma vida social restrita de trabalhar dez horas por dia e estudar cinco por noite. Sentia-se um calhorda por ser personagem do maldito v\u00eddeo, mas sabia, ainda mais, que se n\u00e3o fosse personagem n\u00e3o estaria demitindo-se, estaria pronto para julgar Paula com azedume e dificilmente deixaria seu dinheiro, se tivesse algum, nas m\u00e3os da gerente de contas que apareceu na net com o coco chapado e uma m\u00e3o de homem enconchando cada seio.<\/p>\n<p>Gostaria de poder estar l\u00e1 na ag\u00eancia para poder defender a Paula da brutalidade do Baltazar, aquele su\u00edno, mas \u00e0quela altura os guardas j\u00e1 deviam estar instru\u00eddos a n\u00e3o deix\u00e1-lo entrar. Restava esperar na cama que tivesse presen\u00e7a de esp\u00edrito para suportar toda a merda que ouviria dentro daquele purgat\u00f3rio infecto em que ia se transformando a sala da ger\u00eancia geral, depois de tantas humilha\u00e7\u00f5es que tanta boa gente passara l\u00e1.<\/p>\n<p>Eram quase cinco da tarde quando chegou em casa. Tomou um banho e se deitou para dormir. Dormir e esquecer. O que seus pais pensariam ao saber que o orgulho da fam\u00edlia se demitira ruidosamente de um \u00f3timo emprego na esteira de um esc\u00e2ndalo daqueles? Dormiu algumas horas de incerteza entre o sono e a realidade, quase tendo febre. &#8220;Acho que o diabo, para me ajudar, ainda me manda uma gripe.&#8221;<\/p>\n<p>Acordou \u00e0s oito, com o est\u00f4mago roncando de fome. Resolveu gastar os seus \u00faltimos trocados no bolso pagando-se um jantar decente no Prato Cheio, restaurante de pobre, mas com comida limpa, estava na hora de se acostumar a n\u00e3o mais comer no Elys\u00e9e por conta da empresa durante as estafantes jornadas vespertinas.<\/p>\n<p>Enquanto terminava um prato muito bem mastigado, para que a sensa\u00e7\u00e3o durasse o m\u00e1ximo, o telefone tocou: Era Paula.<\/p>\n<p>&#8212; Geraldo &#8212; o tom de voz dela era carregado de l\u00e1grimas. Sentiu-se ainda mais calhorda do que nunca.<\/p>\n<p>&#8212; Venha para c\u00e1, agora, por favor &#8212; foi a \u00fanica coisa que conseguiu dizer.<\/p>\n<p>Pagou o jantar e subiu para escovar os dentes e tentar pentear o seu cabelo anarquista, mesmo imaginando que Paula n\u00e3o apareceria em bom estado. Se soubesse onde ela vivia, certamente teria ido, mas sequer tinha ideia da dire\u00e7\u00e3o onde ficava o tal Bairro Santana. Mesmo assim sentia-se cafajeste de novo por chamar ao seu apartamento \u00e0 mulher que sofria por sua causa em vez de ir ela \u00e0 resid\u00eancia dela.<\/p>\n<p>Paulinha chegou minutos depois, enquanto ele ainda se digladiava com a escova, heran\u00e7a quase antiguidade da \u00fanica mulher que tivera sob o seu teto, numa \u00e9poca que quase parecia hist\u00f3rica. Tanta rapidez s\u00f3 significava que ela j\u00e1 devia andar perto quando ligou: a sensa\u00e7\u00e3o de ser um calhorda aliviou ligeiramente.<\/p>\n<p>&#8212; Entre, por favor.<\/p>\n<p>Ela entrou, sem dizer nada. Tinha o rosto devastado pelo carma das horas e os cabelos andavam despenteados. Um ligeiro h\u00e1lito et\u00edlico e \u00e1cido sa\u00eda de sua boca.<\/p>\n<p>Geraldo come\u00e7ou a procurar palavras que dizer, mas n\u00e3o as via. Podia apenas fazer o que fez: sentou-se com ela no sof\u00e1 e recostou a sua cabe\u00e7a em seu ombro. Deixou que ela chorasse ali, quieta, todo tempo que quis. Qualquer coisa que dissesse poderia soar como moralidade, cobran\u00e7a, julgamento ou simplesmente bobagem. Naquele gesto, por\u00e9m, o seu respeito pela colega ficava muito mais evidente. Por fim, com a surpresa j\u00e1 superada, fez a pergunta mais importante de todas:<\/p>\n<p>&#8212; Por que voc\u00ea veio at\u00e9 mim? Logo at\u00e9 mim que sou culpado de tudo?<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 culpado de tudo, n\u00e3o \u00e9 culpado de nada.<\/p>\n<p>&#8212; A diferen\u00e7a entre n\u00f3s, Paulinha, \u00e9 que eu mere\u00e7o o que me aconteceu. Se n\u00e3o estivesse na foto, eu estaria nesse exato momento julgando-a uma puta. Se al\u00e9m de n\u00e3o estar na foto tamb\u00e9m n\u00e3o a conhecesse, eu poderia estar com meus amigos num bar rindo da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Se for assim, Geraldo, todos merecemos. Eu n\u00e3o vim aqui procurar culpados, eu vim foi mesmo procurar um ombro amigo para chorar. Sei que o seu ombro \u00e9 o \u00fanico que me receberia assim, exatamente porque, como voc\u00ea disse, todos que n\u00e3o aparecem na foto est\u00e3o, nesse momento me julgando. Mas n\u00f3s, os culpados, somos solid\u00e1rios nisso.<\/p>\n<p>&#8212; Como foi com o maldito?<\/p>\n<p>&#8212; Horr\u00edvel! Ele me for\u00e7ou a pedir demiss\u00e3o dizendo que se eu n\u00e3o o fizesse arranjaria uma justa causa!<\/p>\n<p>&#8212; Engra\u00e7ado isso, for\u00e7ou-a \u00e0 demiss\u00e3o enquanto comigo foi justo por eu querer me demitir que ele virou bicho\u2026<\/p>\n<p>&#8212; Mas voc\u00ea sabe muito bem porque, Geraldo. Sobe de cargo, sobe logo a responsabilidade. E as mulheres n\u00e3o t\u00eam exatamente o mesmo direito que os homens em certas coisas\u2026<\/p>\n<p>Geraldo ficou quieto. Dizer o que? Sentia uma vontade imensa de n\u00e3o ter ido \u00e0 festa de fim de ano. Talvez assim aquela cena maldita n\u00e3o tivesse acontecido &#8212; ou talvez n\u00e3o, porque sua amn\u00e9sia alco\u00f3lica era suficiente para que com dificuldade conseguisse lembrar alguma coisa da cena. Nem sabia quem tinha come\u00e7ado a brincadeira, talvez tivesse sido uma dessas merdas espont\u00e2neas que a gente faz na vida sem imaginar que pode haver uma c\u00e2mera por perto\u2026<\/p>\n<p>Paula tentava ser forte, mas era claro que estava arrasada. N\u00e3o era nem dif\u00edcil imaginar porque: certamente vivia em apartamento alugado e gastava uma boa grana com o t\u00e1xi para estudar. Mesmo arranjando um outro emprego, dificilmente teria sal\u00e1rio equivalente &#8212; e emprego, bem, sabemos que emprego n\u00e3o d\u00e1 em \u00e1rvore.<\/p>\n<p>&#8212; Se quiser, pode ficar aqui por uns tempos &#8212; nem acreditava na oferta que estava fazendo &#8212; o apartamento \u00e9 grande e fica perto da faculdade.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o me fa\u00e7a essa oferta para se arrepender depois, na minha atual situa\u00e7\u00e3o eu sou do tipo de mulher que aceita essas ofertas.<\/p>\n<p>&#8212; E na minha atual situa\u00e7\u00e3o eu sou do tipo de homem que as faz. Aceite logo e vamos tocar a vida para a frente, ou vamos deixar que o puto do Baltazar acabe conosco.<\/p>\n<p>&#8212; Tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o pago aluguel e aqui no centro voc\u00ea n\u00e3o vai quase precisar de \u00f4nibus. O dinheiro da recis\u00e3o s\u00f3 vai ficar mesmo para a comida e para o condom\u00ednio. At\u00e9 um de n\u00f3s conseguir outro jeito de ganhar a vida isso vai ser mais que o suficiente.<\/p>\n<p>&#8212; E vamos ter que arranjar alguma coisa r\u00e1pido. N\u00e3o vamos ter muito com que viver, j\u00e1 que ambos nos demitimos.<\/p>\n<p>&#8212; A prop\u00f3sito, eu n\u00e3o lhe dei um recado hoje, porque fui demitido antes que voc\u00ea voltasse do almo\u00e7o: o Super quer falar com voc\u00ea amanh\u00e3, \u00e0s oito.<\/p>\n<p>&#8212; Ele que v\u00e1 se foder com uma lanterna para achar que \u00e9 vaga-lume.<\/p>\n<p>Os dois riram, no meio da desgra\u00e7a, sinalizando pelo menos com esperan\u00e7a. Paulinha ficou naquela noite e Geraldo dormiu no sof\u00e1. Apesar de tudo, ainda via nela a gerente de contas a que servira fielmente por dois anos e meio. Demoraria meses at\u00e9 ambos se darem conta de que haviam, de verd&#8221;Fica proibida, por decis\u00e3o administrativa, a realiza\u00e7\u00e3o de eventos nas depend\u00eancias da empresa, a n\u00e3o ser os organizados pela dire\u00e7\u00e3o&#8221; &#8212; dizia o cartaz afixado no quadro de avisos da sala de caf\u00e9.<\/p>\n<p>Assim, seca e burocr\u00e1tica, era a rea\u00e7\u00e3o, previs\u00edvel, das inst\u00e2ncias superiores. Como todos, Geraldo j\u00e1 esperava por algo parecido, mas n\u00e3o deixava de ficar surpreso:<\/p>\n<p>&#8212; Dizem que os manda-chuvas n\u00e3o ficaram nem um pouco felizes com as imagens da festa de fim de ano que surgiram na net&#8212; observou Lula.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei porque. N\u00e3o havia nada no filme que n\u00e3o fosse normal.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos aguardar mais alguns dias, de &#8220;antenas ligadas&#8221;, para ver o que v\u00e3o fazer. Mas isso n\u00e3o cheira bem. Voc\u00ea n\u00e3o deve ter visto as mesmas fotos que eu.<\/p>\n<p>Sa\u00edram da sala de caf\u00e9, apertaram os n\u00f3s das gravatas e entraram no amedrontador sal\u00e3o de vendas, atravessado de um lado a outro por uma ventania g\u00e9lida, que destoava do sol causticante que se esgueirava pelas frestas e vidra\u00e7as.<\/p>\n<p>A manh\u00e3 transcorreu dentro das condi\u00e7\u00f5es normais de temperatura e de press\u00e3o. Ningu\u00e9m sen\u00e3o alguns dos clientes mais &#8220;descolados&#8221; pareceu ter dado pelas miser\u00e1veis fotos. Exceto por ocasionais piadinhas de sal\u00e3o, normais se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 absolutamente ass\u00e9ptico e ins\u00edpido, as fotos pareciam sem maior consequ\u00eancia. \u00c0s onze, a cabulosa Mensagem do Dia, emanada da Presid\u00eancia, n\u00e3o fez qualquer men\u00e7\u00e3o aos fatos: apenas exigindo empenho nas vendas. Todos sabem que quem vende tem o direito a certas coisas, at\u00e9 mesmo ser um mala.<\/p>\n<p>&#8212; Vou sair para almo\u00e7ar mais cedo hoje&#8212; adiantou-se Paula.<\/p>\n<p>&#8212; Sorte sua que tem uma hora cheia para almo\u00e7ar. Bom apetite.<\/p>\n<p>&#8212; Um dia vai estar no clube, gracinha. Voc\u00ea vai longe.<\/p>\n<p>Ela saiu rebolando suas formas fartas aos olhos famintos dos dois.<\/p>\n<p>&#8212; Vais \u00e0 puta que o pariu &#8212; resmungou Lula.<\/p>\n<p>&#8212; O que \u00e9 isso, meu companheiro?<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1s me saindo um belo puxa-sacos!<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o seja grosso. Paulinha \u00e9 ador\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de ser grosso: ela ainda \u00e9 a chefe.<\/p>\n<p>&#8212; Os chefes tamb\u00e9m amam.<\/p>\n<p>&#8212; Ora, n\u00e3o seja por isso, macacos e pombos tamb\u00e9m amam.<\/p>\n<p>Um cliente entrou, exigindo aten\u00e7\u00e3o comercial e meticulosa. Sorrisos devidamente falsos e extr\u00ednsecos surgiram em suas caras barbeadas:<\/p>\n<p>&#8212; Bom dia, Senhora Porto.<\/p>\n<p>&#8212; Bom dia, meus queridos &#8212; ela tinha a condescend\u00eancia de uma sinh\u00e1 na senzala. T\u00e3o crist\u00e3 e t\u00e3o devidamente superior.<\/p>\n<p>&#8212; Em que vamos investir o pagamento do m\u00eas?<\/p>\n<p>Geraldo detestava atender \u00e0quela gente que aparecia com dinheiro aos montes e nenhuma hist\u00f3ria. De onde sairiam tais sal\u00e1rios milion\u00e1rios pagos por \u00f3rg\u00e3os de nomes cr\u00edpticos? Como fora poss\u00edvel que a Sinh\u00e1 Porto, t\u00e3o semianalfabeta e burra, tivesse feito jus a perceber seus doze mil reais mensais? Sal\u00e1rio que nem mesmo o Superintendente, que tinha o poder de destruir carreiras, entortar vidas e esmagar sonhos conseguia ter na conta banc\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mesmo assim sorriu profissionalmente e aguardou pacientemente que a Sinh\u00e1 Porto abrisse sua cavernosa bolsa e extra\u00edsse dela uma fieira sup\u00e9rflua de extratos de meses passados, contracheques de sal\u00e1rios e benef\u00edcios e demonstrativos de despesas. Ficou repuxando o bigodinho enquanto ela tentava descobrir que, como todos os meses, havia tido um cr\u00e9dito de R$ 12.976,42 l\u00edquidos e que deveria aplicar, como todo santo m\u00eas desde a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, exatos R$ 11.000,00 de que n\u00e3o precisava e de que nunca precisaria porque possu\u00eda plano de sa\u00fade, morava em casa pr\u00f3pria, pr\u00f3xima ao centro, n\u00e3o possu\u00eda carro e nada fazia, a n\u00e3o ser frequentar a missa para pedir perd\u00e3o de seus pecados e fofocar com as amigas.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora fazia um sol rutilante, passavam meninas de roupas justas e decotes largos, com pernas grossas e cabelos soltos, po\u00e7os de pecado e afli\u00e7\u00e3o que acenavam e desapareciam no canto da vidra\u00e7a. E Geraldo ouvia as hist\u00f3rias de Sinh\u00e1 Porto e seus queixumes de que o governo n\u00e3o tinha mais respeito pelos antigos servidores. Como todo m\u00eas ela ia embora deixando a sala nadando em seu perfume madeirado, cheiro a donzela do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Lula se engalfinhava com o telefone. Aquela besta mitol\u00f3gica atacava teimosamente, de minuto em minuto, sempre com outro problema urgente e inadi\u00e1vel. Pobre Lula, t\u00e3o grisalho aos trinta e quatro anos, t\u00e3o cheio de gastrites e d\u00edvidas. Nunca chegaria a ganhar nada parecido com o que ganhava Sinh\u00e1 Porto, que mal sabia estimar o valor de seus ardidos &#8220;caramingu\u00e1s&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; Geraldo, o Super, para voc\u00ea.<\/p>\n<p>O pobre escritur\u00e1rio agarrou o telefone como se ele fosse uma massa disforme de chumbo quente e atendeu, devidamente gaguejando, pois o Super detestava ouvir vozes que n\u00e3o transmitissem intimida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Sua ag\u00eancia est\u00e1 sendo rebaixada de n\u00edvel. Posso falar com Paula?<\/p>\n<p>&#8212; Ela saiu&#8212; confessou Geraldo, o &#8220;sub&#8221;, perguntando-se por que, com mil raios, o Super havia aventado a not\u00edcia bomba antes mesmo de querer falar com quem deveria ouvi-la.<\/p>\n<p>&#8212; Avise-a quando voltar que eu quero falar com ela pessoalmente, na sede da Regional, amanh\u00e3 \u00e0s oito da manh\u00e3.<\/p>\n<p>&#8212; Pois n\u00e3o &#8212; e anotou na agenda corporativa o compromisso at\u00edpico que aguardava a loura e linda Paulinha no dia seguinte, na presen\u00e7a do irasc\u00edvel Super.<\/p>\n<p>Continuaram atendendo com sorrisos comerciais e com pernas doendo de vontade de andar pelo cal\u00e7ad\u00e3o, mas aproveitaram a tranquilidade do fim da manh\u00e3 para reparar a bunda esf\u00e9rica e rija de Marlene, que se esfregava exageradamente na nova impressora tentando fazer uma c\u00f3pia de documento, ou talvez mostrar a recente depila\u00e7\u00e3o das coxas.<\/p>\n<p>&#8212; E Paula n\u00e3o volta.<\/p>\n<p>&#8212; Aposto vinte como demora a voltar, como sempre &#8212; disse Lula.<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 sei que vou perder, mas aposto.<\/p>\n<p>&#8212; Essa piranha cada dia demora mais no almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Um pigarro soou \u00e0s costas de ambos, que se viraram num susto.<\/p>\n<p>&#8212; Chamado da ger\u00eancia geral, para os dois.<\/p>\n<p>Edna e Elaine, as estagi\u00e1rias novatas, assumiriam temporariamente as mesas do atendimento, para que pudessem comparecer ao chamado de Sua Augusta Reverend\u00edssima.<\/p>\n<p>A &#8220;sala&#8221; da ger\u00eancia era em um canto do recinto ao fundo, protegida do p\u00fablico em geral por um biombo semitransparente e pelo ar teatral e antiquado de Baltazar Xavier, MBA. Sentado na sua cadeira imperial e observando agudamente o fluxo de clientes, tomava notas para suas decis\u00f5es &#8212; sempre em harmonia com os des\u00edgnios emanados da inst\u00e2ncia superior, qualquer que fosse. Os seus olhinhos de tatu vasculhavam a pilha de relat\u00f3rios despejada \u00e0 sua frente com perspic\u00e1cia de ladr\u00e3o de cinema. Era ver o contador de Al Capone, sem a metralhadora.<\/p>\n<p>&#8212; Sentem-se os dois.<\/p>\n<p>A ordem foi seguida de forma autom\u00e1tica.<\/p>\n<p>&#8212; Sabem porque est\u00e3o aqui?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, senhor &#8212; esse sufixo era imprescind\u00edvel em toda resposta, a menos que se quisesse ouvir algum discurso de \u00e9tica confuciana.<\/p>\n<p>&#8212; Os senhores teriam, por acaso, algo a dizer sobre a festa de fim de ano que a nossa empresa organizou?<\/p>\n<p>&#8212; Apenas que foi uma \u00f3tima festa &#8212; adiantou-se Lula.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o \u00e9 essa a opini\u00e3o da Presid\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8212; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o me interrompam, deixem-me falar!<\/p>\n<p>&#8212; Mas\u2026<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 disse, n\u00e3o me interrompam.<\/p>\n<p>Baltazar Xavier era o tipo que intimidava. N\u00e3o tanto por seu f\u00edsico, mas por seu repert\u00f3rio de gestos e pelas hist\u00f3rias que gostava muito de contar, ressaltando seus feitos de boxeador, brigador de rua e de lutador de karat\u00ea. Seus bra\u00e7os grossos davam credibilidade a essas aventuras meio criminosas de seus passado, que ele cuidadosamente s\u00f3 mencionava a s\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8212; Alguns clientes mais conservadores est\u00e3o ligeiramente incomodados com aquilo tudo. Eu imagino que voc\u00eas saibam que esta ag\u00eancia atende um p\u00fablico de alto n\u00edvel e que nos confia seus recursos esperando o m\u00e1ximo de seriedade de nossa parte.<\/p>\n<p>&#8220;Conservadores, ou conservados em formol&#8221; &#8212; pensou Geraldo. Mas s\u00f3 conseguiu dizer &#8220;sim, senhor&#8221;.<\/p>\n<p>&#8212; De forma que n\u00e3o lhes deve surpreender que alguns tenham entrado em contato questionando a compet\u00eancia de pessoas como voc\u00eas para t\u00e3o grande responsabilidade.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o consigo ver a rela\u00e7\u00e3o de uma coisa com outra.<\/p>\n<p>&#8212; Mas voc\u00ea n\u00e3o ter que ver merda nenhuma. O cliente viu, isso \u00e9 que importa. Se o cliente disser que est\u00e1 vendo um elefante cor de rosa voador, ent\u00e3o ele est\u00e1 vendo um elefante cor de rosa voador. E caso voc\u00ea queira ser bem-sucedido nessa carreira n\u00e3o basta voc\u00ea aceitar o que ele viu. Voc\u00ea tem que ver tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>O argumento era inquestion\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8212; Mas em que implica tudo isso?<\/p>\n<p>&#8212; Implica em que alguns dos nossos clientes mais influentes n\u00e3o se sentem \u00e0 vontade em ter seus recursos nas m\u00e3os de profissionais que enchem a cara de vodca e s\u00e3o flagrados por c\u00e2meras bolinando colegas de trabalho.<\/p>\n<p>Geraldo e Lula mantinham sil\u00eancio cadav\u00e9rico. Quanto menos falassem, mais r\u00e1pido terminava aquela agonia de enfrentar Baltazar.<\/p>\n<p>&#8212; Como consequ\u00eancia disso, terei de transferir voc\u00eas de setor. Mas, infelizmente, nesse exato momento, n\u00e3o h\u00e1 nenhum posto dispon\u00edvel em nossa empresa do mesmo n\u00edvel que voc\u00eas ocupam.<\/p>\n<p>Era uma senten\u00e7a quase capital: perda da comiss\u00e3o, com rebaixamento a uma ag\u00eancia perif\u00e9rica. Com que ganharia e o custo de deslocamento quase nem mais valia a pena o emprego. Mas Geraldo ainda pensava que o amigo Lula estaria pior: com t\u00e3o pouco tempo de carreira e t\u00e3o sem m\u00e1culas da vida, estaria, como ele, relegado a um posto indesej\u00e1vel, com uma mancha no curr\u00edculo. No segundo seguinte lembrou-se que sua pr\u00f3pria mancha seria imensamente maior, descomissionamento, aquela palavra feia normalmente associada a gente respons\u00e1vel por desfalque ou grandes cagadas. Praticamente um atestado de desonestidade ou de incompet\u00eancia.<\/p>\n<p>Geraldo agiu r\u00e1pido:<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o posso aceitar.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam que aceitar ou recusar. A decis\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 tomada e os seus substitutos j\u00e1 foram convocados. Voc\u00eas t\u00eam o resto da tarde para empacotarem seus pertences\u2026<\/p>\n<p>&#8212; Mas n\u00e3o aceito. Prefiro demitir-me.<\/p>\n<p>Baltazar fora interrompido, uma forma de ousadia que nunca perdoava. Pior do que isso, o subalterno o encarava com galhardia, recusando- se a cumprir sua Palavra. Ergueu-se da cadeira, avermelhado e com os bra\u00e7os intimidadores tentando ocupar todo o espa\u00e7o do campo de vis\u00e3o dos dois:<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o prefere merda nenhuma. Eu deveria t\u00ea-lo demitido por uma justa causa, mas fui bacana de lhe arranjar um lugar para trabalhar, apesar da cagada que fez!<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o acho que fiz nenhuma cagada e n\u00e3o aceito essa decis\u00e3o que voc\u00ea tomou. N\u00e3o tem merda nenhuma de cliente reclamando, voc\u00ea estava era ca\u00e7ando uma desculpa para me limar da ag\u00eancia e trazer algu\u00e9m da sua confian\u00e7a. Eu prefiro procurar outro emprego do que enfiar o meu rabo entre as pernas diante disso. Melhor demitir-me do que te dar a chance de me arranjar mesmo uma justa causa, porque errar todo mundo erra.<\/p>\n<p>Baltazar estava quase apopl\u00e9tico, espumando pelo canto da boca e sem conseguir articular a raiva. Apenas se continha para que os clientes no sagu\u00e3o n\u00e3o notassem o cabo-de-guerra que se desenrolava entre os dois. Geraldo sabia que n\u00e3o ficaria barata aquela ousadia. Mas como era maravilhoso poder dizer tudo aquilo, de boca cheia.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o \u2018t\u00e1! Saia daqui e n\u00e3o volte depois arrependido.<\/p>\n<p>Geraldo se levantou, num gesto inesperado de obedi\u00eancia residual, s\u00f3 olhando ainda para o pobre Lula, acuado na cadeira como o marinheiro que assiste em alto mar \u00e0 luta tit\u00e2nica de duas bestas mitol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Diante da in\u00e9rcia do amigo, e da perspectiva de ver a situa\u00e7\u00e3o ainda piorar, saiu da sala pisando duro e foi pegar seus objetos pessoais na escrivaninha. Edna o olhava com um ar divertido, a putinha. Podia bem estar achando que teria a comiss\u00e3o, nada que um boquete dos bem dados n\u00e3o permita sonhar.<\/p>\n<p>Baltazar veio dos fundos como Zeus Tonante, deslocando o ar com sua passagem. Parou ao lado da mesa e assistiu ao recolhimento de cada objeto. Quando Geraldo terminou, fez quest\u00e3o de sublinhar com a voz mais clara que sabia fazer:<\/p>\n<p>&#8212; Alguns objetos que voc\u00ea est\u00e1 levando s\u00e3o propriedade da empresa.<\/p>\n<p>Era o fim da picada! Ser acusado de roubo! Pior ainda, de roubar t\u00e3o insignificantes coisas.<\/p>\n<p>&#8212; Mostre-me quais s\u00e3o, ent\u00e3o, seu filho da puta!<\/p>\n<p>Baltazar j\u00e1 ia al\u00e9m do limite do aceit\u00e1vel. Dava para sentir medo de ver sua carranca e Geraldo tinha a certeza de que se n\u00e3o estivessem dentro da ag\u00eancia ele j\u00e1 teria tentado mostrar que suas hist\u00f3rias de boxe ou karat\u00ea n\u00e3o eram fantasias nem t\u00e1ticas de intimida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Grampeador, agenda, calculadora.<\/p>\n<p>&#8212; Ah, isso n\u00e3o! Voc\u00ea sabe que comprei o meu pr\u00f3prio grampeador para n\u00e3o ter de usar essas porcarias baratas xing-ling. A agenda \u00e9 a da empresa, sim, mas a empresa a deu para mim. E a calculadora \u00e9 minha, muito minha. Tenho at\u00e9 nota fiscal se voc\u00ea quiser, e ainda pus o meu nome nela!<\/p>\n<p>&#8212; Devolva essa agenda, ela tem dados sigilosos.<\/p>\n<p>Preferiu ceder. Pelo menos vencera dois ter\u00e7os da quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Saiu da ag\u00eancia levando apenas uma caixa de pl\u00e1stico contendo alguns livros, uma r\u00e9gua de alum\u00ednio, uma HP-12C, um grampeador, o pendrive que, por sorte, Baltazar n\u00e3o se lembrara de exigir que formatasse, e o jornal do dia.<\/p>\n<p>No dia seguinte levaria sua carteira de trabalho ao Departamento de Pessoal e ingressaria, oficialmente, na contagem dos desempregados, ainda por cima sem direito a seguro desemprego. Mas era uma sensa\u00e7\u00e3o louca de liberdade que o assolava, enquanto aquele vento fresco dava vontade de rir. Afrouxou a gravata, para que o vento pudesse brincar com ela, e foi descendo o cal\u00e7ad\u00e3o pensando em quantas coisas boas e ruins se negara a experimentar nos sete anos anteriores em nome de uma carreira e de um sal\u00e1rio de dois mil reais por m\u00eas.<\/p>\n<p>Paula vinha em sua dire\u00e7\u00e3o com a bolsa despreocupadamente a tiracolo e uma express\u00e3o de surpresa na cara:<\/p>\n<p>&#8212; Visita a cliente?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, rebeldia.<\/p>\n<p>&#8212; Hem?<\/p>\n<p>&#8212; Estou me demitindo.<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea est\u00e1 louco?<\/p>\n<p>&#8212; Estou, claro. S\u00f3 mesmo um louco se demitiria de um emprego como o nosso. Mas eu espero que voc\u00ea consiga me entender ainda hoje.<\/p>\n<p>&#8212; O que houve?&#8212; a express\u00e3o dela mudara para uma de jornalista que vai noticiar morte de pol\u00edtico.<\/p>\n<p>&#8212; Muita coisa, mas o que me fez sair \u00e9 n\u00e3o aguentar mais o Baltazar Xavier, aquele escroto. Tem coisas que dinheiro n\u00e3o paga.<\/p>\n<p>&#8212; Mas ele vai passar, e o seu emprego continuaria.<\/p>\n<p>&#8212; Temos que ter esperan\u00e7a de algo melhor, querida. Se voc\u00ea entender e quiser conversar, sabe onde me encontrar. Pelo menos para alguma coisa aquele apartamento que herdei de minha tia serve: para me dar a coragem de chamar Baltazar Xavier de filho da puta.<\/p>\n<p>Paula riu e seguiu seu caminho. Naquele momento provavelmente n\u00e3o se tocava da gravidade da situa\u00e7\u00e3o, talvez porque, devido \u00e0 alta carga de trabalho que suportava e mais faculdade, fosse a \u00fanica que ainda n\u00e3o vira o infame v\u00eddeo no qual ela, b\u00eabada, se deixava bolinar por Lula e Geraldo.<\/p>\n<p>Enquanto seguia para o ponto de \u00f4nibus, carregando os restos de sua carreira sob o bra\u00e7o, sentia pena de Paula. Ela era uma boa mo\u00e7a, s\u00f3 tinha um pequeno problema com a bebida e uma vida social restrita de trabalhar dez horas por dia e estudar cinco por noite. Sentia-se um calhorda por ser personagem do maldito v\u00eddeo, mas sabia, ainda mais, que se n\u00e3o fosse personagem n\u00e3o estaria demitindo-se, estaria pronto para julgar Paula com azedume e dificilmente deixaria seu dinheiro, se tivesse algum, nas m\u00e3os da gerente de contas que apareceu na net com o coco chapado e uma m\u00e3o de homem enconchando cada seio.<\/p>\n<p>Gostaria de poder estar l\u00e1 na ag\u00eancia para poder defender a Paula da brutalidade do Baltazar, aquele su\u00edno, mas \u00e0quela altura os guardas j\u00e1 deviam estar instru\u00eddos a n\u00e3o deix\u00e1-lo entrar. Restava esperar na cama que tivesse presen\u00e7a de esp\u00edrito para suportar toda a merda que ouviria dentro daquele purgat\u00f3rio infecto em que ia se transformando a sala da ger\u00eancia geral, depois de tantas humilha\u00e7\u00f5es que tanta boa gente passara l\u00e1.<\/p>\n<p>Eram quase cinco da tarde quando chegou em casa. Tomou um banho e se deitou para dormir. Dormir e esquecer. O que seus pais pensariam ao saber que o orgulho da fam\u00edlia se demitira ruidosamente de um \u00f3timo emprego na esteira de um esc\u00e2ndalo daqueles? Dormiu algumas horas de incerteza entre o sono e a realidade, quase tendo febre. &#8220;Acho que o diabo, para me ajudar, ainda me manda uma gripe.&#8221;<\/p>\n<p>Acordou \u00e0s oito, com o est\u00f4mago roncando de fome. Resolveu gastar os seus \u00faltimos trocados no bolso pagando-se um jantar decente no Prato Cheio, restaurante de pobre, mas com comida limpa, estava na hora de se acostumar a n\u00e3o mais comer no Elys\u00e9e por conta da empresa durante as estafantes jornadas vespertinas.<\/p>\n<p>Enquanto terminava um prato muito bem mastigado, para que a sensa\u00e7\u00e3o durasse o m\u00e1ximo, o telefone tocou: Era Paula.<\/p>\n<p>&#8212; Geraldo &#8212; o tom de voz dela era carregado de l\u00e1grimas. Sentiu-se ainda mais calhorda do que nunca.<\/p>\n<p>&#8212; Venha para c\u00e1, agora, por favor &#8212; foi a \u00fanica coisa que conseguiu dizer.<\/p>\n<p>Pagou o jantar e subiu para escovar os dentes e tentar pentear o seu cabelo anarquista, mesmo imaginando que Paula n\u00e3o apareceria em bom estado. Se soubesse onde ela vivia, certamente teria ido, mas sequer tinha ideia da dire\u00e7\u00e3o onde ficava o tal Bairro Santana. Mesmo assim sentia-se cafajeste de novo por chamar ao seu apartamento \u00e0 mulher que sofria por sua causa em vez de ir ela \u00e0 resid\u00eancia dela.<\/p>\n<p>Paulinha chegou minutos depois, enquanto ele ainda se digladiava com a escova, heran\u00e7a quase antiguidade da \u00fanica mulher que tivera sob o seu teto, numa \u00e9poca que quase parecia hist\u00f3rica. Tanta rapidez s\u00f3 significava que ela j\u00e1 devia andar perto quando ligou: a sensa\u00e7\u00e3o de ser um calhorda aliviou ligeiramente.<\/p>\n<p>&#8212; Entre, por favor.<\/p>\n<p>Ela entrou, sem dizer nada. Tinha o rosto devastado pelo carma das horas e os cabelos andavam despenteados. Um ligeiro h\u00e1lito et\u00edlico e \u00e1cido sa\u00eda de sua boca.<\/p>\n<p>Geraldo come\u00e7ou a procurar palavras que dizer, mas n\u00e3o as via. Podia apenas fazer o que fez: sentou-se com ela no sof\u00e1 e recostou a sua cabe\u00e7a em seu ombro. Deixou que ela chorasse ali, quieta, todo tempo que quis. Qualquer coisa que dissesse poderia soar como moralidade, cobran\u00e7a, julgamento ou simplesmente bobagem. Naquele gesto, por\u00e9m, o seu respeito pela colega ficava muito mais evidente. Por fim, com a surpresa j\u00e1 superada, fez a pergunta mais importante de todas:<\/p>\n<p>&#8212; Por que voc\u00ea veio at\u00e9 mim? Logo at\u00e9 mim que sou culpado de tudo?<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 culpado de tudo, n\u00e3o \u00e9 culpado de nada.<\/p>\n<p>&#8212; A diferen\u00e7a entre n\u00f3s, Paulinha, \u00e9 que eu mere\u00e7o o que me aconteceu. Se n\u00e3o estivesse na foto, eu estaria nesse exato momento julgando-a uma puta. Se al\u00e9m de n\u00e3o estar na foto tamb\u00e9m n\u00e3o a conhecesse, eu poderia estar com meus amigos num bar rindo da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Se for assim, Geraldo, todos merecemos. Eu n\u00e3o vim aqui procurar culpados, eu vim foi mesmo procurar um ombro amigo para chorar. Sei que o seu ombro \u00e9 o \u00fanico que me receberia assim, exatamente porque, como voc\u00ea disse, todos que n\u00e3o aparecem na foto est\u00e3o, nesse momento me julgando. Mas n\u00f3s, os culpados, somos solid\u00e1rios nisso.<\/p>\n<p>&#8212; Como foi com o maldito?<\/p>\n<p>&#8212; Horr\u00edvel! Ele me for\u00e7ou a pedir demiss\u00e3o dizendo que se eu n\u00e3o o fizesse arranjaria uma justa causa!<\/p>\n<p>&#8212; Engra\u00e7ado isso, for\u00e7ou-a \u00e0 demiss\u00e3o enquanto comigo foi justo por eu querer me demitir que ele virou bicho\u2026<\/p>\n<p>&#8212; Mas voc\u00ea sabe muito bem porque, Geraldo. Sobe de cargo, sobe logo a responsabilidade. E as mulheres n\u00e3o t\u00eam exatamente o mesmo direito que os homens em certas coisas\u2026<\/p>\n<p>Geraldo ficou quieto. Dizer o que? Sentia uma vontade imensa de n\u00e3o ter ido \u00e0 festa de fim de ano. Talvez assim aquela cena maldita n\u00e3o tivesse acontecido &#8212; ou talvez n\u00e3o, porque sua amn\u00e9sia alco\u00f3lica era suficiente para que com dificuldade conseguisse lembrar alguma coisa da cena. Nem sabia quem tinha come\u00e7ado a brincadeira, talvez tivesse sido uma dessas merdas espont\u00e2neas que a gente faz na vida sem imaginar que pode haver uma c\u00e2mera por perto\u2026<\/p>\n<p>Paula tentava ser forte, mas era claro que estava arrasada. N\u00e3o era nem dif\u00edcil imaginar porque: certamente vivia em apartamento alugado e gastava uma boa grana com o t\u00e1xi para estudar. Mesmo arranjando um outro emprego, dificilmente teria sal\u00e1rio equivalente &#8212; e emprego, bem, sabemos que emprego n\u00e3o d\u00e1 em \u00e1rvore.<\/p>\n<p>&#8212; Se quiser, pode ficar aqui por uns tempos &#8212; nem acreditava na oferta que estava fazendo &#8212; o apartamento \u00e9 grande e fica perto da faculdade.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o me fa\u00e7a essa oferta para se arrepender depois, na minha atual situa\u00e7\u00e3o eu sou do tipo de mulher que aceita essas ofertas.<\/p>\n<p>&#8212; E na minha atual situa\u00e7\u00e3o eu sou do tipo de homem que as faz. Aceite logo e vamos tocar a vida para a frente, ou vamos deixar que o puto do Baltazar acabe conosco.<\/p>\n<p>&#8212; Tem raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o pago aluguel e aqui no centro voc\u00ea n\u00e3o vai quase precisar de \u00f4nibus. O dinheiro da recis\u00e3o s\u00f3 vai ficar mesmo para a comida e para o condom\u00ednio. At\u00e9 um de n\u00f3s conseguir outro jeito de ganhar a vida isso vai ser mais que o suficiente.<\/p>\n<p>&#8212; E vamos ter que arranjar alguma coisa r\u00e1pido. N\u00e3o vamos ter muito com que viver, j\u00e1 que ambos nos demitimos.<\/p>\n<p>&#8212; A prop\u00f3sito, eu n\u00e3o lhe dei um recado hoje, porque fui demitido antes que voc\u00ea voltasse do almo\u00e7o: o Super quer falar com voc\u00ea amanh\u00e3, \u00e0s oito.<\/p>\n<p>&#8212; Ele que v\u00e1 se foder com uma lanterna para achar que \u00e9 vaga-lume.<\/p>\n<p>Os dois riram, no meio da desgra\u00e7a, sinalizando pelo menos com esperan\u00e7a. Paulinha ficou naquela noite e Geraldo dormiu no sof\u00e1. Apesar de tudo, ainda via nela a gerente de contas a que servira fielmente por dois anos e meio. Demoraria meses at\u00e9 ambos se darem conta de que haviam, de verdade, n\u00e3o de brincadeirinha, jogado pela janela duas promissoras carreiras de consultores financeiros.<\/p>\n<p>Mas quando sentavam \u00e0 mesa para comer com parcim\u00f4nia frutas e vegetais de esta\u00e7\u00e3o os dois se entreolhavam, c\u00famplices, com todo o passado perdoado. Com o tempo surgiu at\u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o de sacralidade na figura dela: n\u00e3o mais a vadia da internet, mas outra vez a mulher ador\u00e1vel que era, sem papel nenhum a cumprir. Amou essa mulher, mesmo ela sendo quatro anos mais velha, mesmo ela n\u00e3o sendo t\u00e3o bonita sem toda a maquiagem profissional que as gerentes de contas p\u00f5em pela manh\u00e3.<\/p>\n<p>Logo acabaram por perdoar-se tamb\u00e9m pelo que haviam feito um ao outro. Mas um dia a faculdade acaba, outra carreira vem e finalmente se arranjam na vida, com outras carreiras e prioridades. Nesse dia ficou mais claro do que nunca que &#8220;era apenas amizade&#8221;, claro nas palavras exatas de Paula.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Fica proibida, por decis\u00e3o administrativa, a realiza\u00e7\u00e3o de eventos nas depend\u00eancias da empresa, a n\u00e3o ser os organizados pela dire\u00e7\u00e3o&#8221; &#8212; dizia o cartaz afixado no quadro de avisos da sala de caf\u00e9. Assim, seca e burocr\u00e1tica, era a rea\u00e7\u00e3o, previs\u00edvel, das inst\u00e2ncias superiores. Como todos, Geraldo j\u00e1 esperava por algo parecido, mas n\u00e3o deixava de ficar surpreso: &#8212; Dizem que os manda-chuvas n\u00e3o ficaram nem um pouco felizes com as imagens da festa de fim de ano que surgiram na net &#8212; observou Lula. 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