{"id":498,"date":"2010-03-14T07:46:00","date_gmt":"2010-03-14T10:46:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=498"},"modified":"2017-11-02T14:10:03","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:03","slug":"seja-um-tarado","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/03\/seja-um-tarado\/","title":{"rendered":"Seja um Tarado"},"content":{"rendered":"<p>Quando eu era moleque o terror de todo mundo era o &#8220;tarado&#8221;, esse estranho e incompreens\u00edvel ser que habitava os romances de N\u00e9lson Rodrigues e Adelaide Carraro. As pessoas usavam a palavra como se fosse um codinome do capeta: &#8220;Fulano \u00e9 um tarado&#8221; era uma ofensa pior do que dizer que era comunista. Ali\u00e1s, os comunistas eram vistos como dem\u00f4nios exatamente por serem tarados (&#8220;comem criancinhas&#8221;, &#8220;amor livre&#8221;, etc.). Quando algu\u00e9m mencionava a palavra, instintivamente punha as m\u00e3os para tr\u00e1s, num singelo gesto de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje em dia a palavra est\u00e1 meio esquecida, ningu\u00e9m mais tem medo de &#8220;tarados&#8221;. Eu mesmo j\u00e1 ouvi mulheres dizerem que preferem encontrar um tarado do que um assassino pela frente (quando eu era menino  era o contr\u00e1rio: todo mundo jurava que preferia morrer do que perder para o tarado alguma coisa que n\u00e3o se devia falar).<\/p>\n<p>O tarado ficou at\u00e9 romantizado: n\u00e3o foi uma louca, mas uma psic\u00f3loga que se apaixonou pelo man\u00edaco do parque e casou com ele dentro da cadeia. No Par\u00e1 um desses grupos tecnobregas decretou: &#8220;Sou um psicopata mas tenho muito amor para dar&#8221;. Desde que o tarado n\u00e3o desfigure nem mate ele \u00e9 visto apenas como um pobre ser carente em busca de pregas desavisadas para afogar dramas existenciais e traumas de inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Na verdade \u00e9 at\u00e9 desej\u00e1vel ser tarado. Quantas mo\u00e7as n\u00e3o matam de inveja as amigas dizendo: &#8220;meu namorado \u00e9 um tarado&#8221;. Nos anos setenta at\u00e9 as prostitutas tinham medo dos tarados, hoje as mo\u00e7as de fam\u00edlia sonham com um, de prefer\u00eancia que tenha emprego est\u00e1vel e cara de ator da Globo. O tarado est\u00e1 para a imagina\u00e7\u00e3o feminina assim como a mulher ninfoman\u00edaca bissexual est\u00e1 para a do homem, e em ambos os casos a realidade n\u00e3o \u00e9 exatamente como a imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma era de extremos, a mesma juventude que gosta de tarados exige um cervej\u00e3o gelad\u00e3o e vai descendo at\u00e9 o ch\u00e3o na rebola\u00e7\u00e3o exagerada do \u00faltimo ritmo do ver\u00e3o. Ser tarado deixou de ser caso de pol\u00edcia e virou obriga\u00e7\u00e3o. Seja um tarado voc\u00ea tamb\u00e9m ou v\u00e3o achar que voc\u00ea \u00e9 <em>gay<\/em>, como aconteceu comigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando eu era moleque o terror de todo mundo era o &#8220;tarado&#8221;, esse estranho e incompreens\u00edvel ser que habitava os romances de N\u00e9lson Rodrigues e Adelaide Carraro. As pessoas usavam a palavra como se fosse um codinome do capeta: &#8220;Fulano \u00e9 um tarado&#8221; era uma ofensa pior do que dizer que era comunista. Ali\u00e1s, os comunistas eram vistos como dem\u00f4nios exatamente por serem tarados (&#8220;comem criancinhas&#8221;, &#8220;amor livre&#8221;, etc.). Quando algu\u00e9m mencionava a palavra, instintivamente punha as m\u00e3os para tr\u00e1s, num singelo gesto de prote\u00e7\u00e3o. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[81,39,114],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/498"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=498"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/498\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5345,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/498\/revisions\/5345"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=498"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=498"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=498"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}