{"id":5023,"date":"2017-09-02T22:50:35","date_gmt":"2017-09-03T01:50:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5023"},"modified":"2017-11-02T14:07:23","modified_gmt":"2017-11-02T17:07:23","slug":"o-escritor-empresario-e-o-escritor-poeta","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/09\/o-escritor-empresario-e-o-escritor-poeta\/","title":{"rendered":"O Escritor Empres\u00e1rio e o Escritor Poeta"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">\nEntrevistado na Bienal do Livro, um autor afirma que, para alcan\u00e7ar o sucesso, o escritor tamb\u00e9m precisa ser empres\u00e1rio, um empreendedor. Ou seja, decretou a extin\u00e7\u00e3o dos poetas.<br \/>\n&mdash; Alexandre Coslei.\n<\/div>\n<p>A poesia \u00e9 uma arte em extin\u00e7\u00e3o, desde mais ou menos o tempo de Plat\u00e3o, que via em Arist\u00f3fanes a decad\u00eancia do teatro grego. Dois mil e quinhentos anos em extin\u00e7\u00e3o e ela ainda incomoda o suficiente para que sua extin\u00e7\u00e3o tenha de ser decretada pelo menos uma vez em cada gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Literatura n\u00e3o \u00e9 coisa para amadores, voc\u00ea precisa aprender a vender. Precisa empreender, precisa vender. Essa situa\u00e7\u00e3o lastim\u00e1vel perdura desde os tempos do Imp\u00e9rio Romano, quando os poetas precisavam do apoio dos Senadores, passando pela Idade M\u00e9dia, em que todo mundo precisava estar de bem com o papa. <em>Ars Gratia Artis<\/em> sempre foi um slogan bonito, mas nunca passou disso.<\/p>\n<p>Os autores sempre se dividiram entre &#8220;aut\u00eanticos&#8221; e &#8220;vendidos&#8221; (ou termos equivalentes). Supostamente os segundos seriam instrumentos do Sistema, execrados pela Academia e esquecidos pela posteridade; em troca seriam mais lidos e fariam mais sexo. Os &#8220;aut\u00eanticos&#8221;, enquanto isso, estavam ocupados escrevendo obras que ningu\u00e9m leria e morrendo de tuberculose ou s\u00edfilis sem concluir seus grandes projetos.<\/p>\n<p>Essa briga vem sendo requentada desde h\u00e1 tanto tempo que eu nem sei contar. \u00c9 prov\u00e1vel que me desmintam com a recente tradu\u00e7\u00e3o de alguma tabuinha de argila mesopot\u00e2mica, na qual a querela da autenticidade se revela ainda mais arcana do que eu pensava. Talvez os homens de Cro-Magnon tivessem algum tipo de rusga sobre quem tinha acesso a parede da caverna para ali pintar.<\/p>\n<p>Tudo isso \u00e9 muito cansativo e muito repetitivo depois que voc\u00ea j\u00e1 leu bastante, j\u00e1 escreveu bastante e j\u00e1 desgastou as pontas dos dedos em debates na internet usando teclados de m\u00e1 qualidade.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que n\u00e3o existe um metro \u00fanico para se medir o valor da literatura e est\u00e1 errado quem acha que qualidade e popularidade s\u00e3o incompat\u00edveis. Todos os paradigmas que me pareciam seguros desmoronaram depois que Paulo Coelho n\u00e3o apenas se tornou o escritor brasileiro mais vendido do mundo mas tamb\u00e9m se elegeu \u00e0 Academia Brasileira de Letras. Isso me chamou a aten\u00e7\u00e3o para a possibilidade de n\u00e3o ser a primeira vez, pois eu sou muito c\u00e9tico quanto \u00e0 possibilidade de existirem fatos \u00fanicos. Eu estava certo em meu ceticismo: desde ent\u00e3o, quanto mais eu aprendo, mais eu entendo que n\u00e3o h\u00e1 correla\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria (nem direta e nem inversa) entre o sucesso e a qualidade de uma obra.<\/p>\n<p>O que faz decair a qualidade n\u00e3o \u00e9 a obra ser leg\u00edvel por um p\u00fablico maior, a qualidade n\u00e3o \u00e9 algo assim t\u00e3o f\u00e1cil de definir. E, claro, a obscuridade n\u00e3o \u00e9 uma qualidade. S\u00f3 que a afirma\u00e7\u00e3o rec\u00edproca \u00e9 igualmente verdadeira: o sucesso tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 marca de valor liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>O que acontece hoje em dia, e talvez seja diferente do que ocorreu no passado, \u00e9 que os autores &#8220;vendidos&#8221; j\u00e1 n\u00e3o sentem nenhum pejo nisso. N\u00e3o s\u00f3 aceitaram a ideologia do sucesso como lhe deram uma \u00e9tica. Mais do que meramente negar que fosse errado vender-se para poder vender, eles agora dizem que isso \u00e9 que \u00e9 o certo. O paradigma se inverteu: n\u00e3o s\u00e3o mais autores envergonhados do pr\u00f3prio sucesso, orgulham-se dele e procuram envergonhar quem n\u00e3o tem sucesso, inclusive negando a qualidade do que n\u00e3o vende.<\/p>\n<p>E fazem isso porque acham que inventaram a p\u00f3lvora, que &#8220;escritor empres\u00e1rio&#8221; \u00e9 uma coisa nova.<\/p>\n<div id=\"attachment_5024\" style=\"width: 287px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-5024\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/Monteiro_Lobato-277x300.jpg\" alt=\"\" width=\"277\" height=\"300\" class=\"size-medium wp-image-5024\" \/><p id=\"caption-attachment-5024\" class=\"wp-caption-text\">Muito prazer, meu nome era Monteiro Lobato. Fui empres\u00e1rio de fato e fundador da Companhia Editora Nacional, tornei-me autor infantil para suprir uma car\u00eancia do mercado e tentei a sorte nos EUA fazendo pulp-fiction. Eu tamb\u00e9m escrevia muito melhor que voc\u00ea.<\/p><\/div>\n<p>Tal como no passado os cr\u00edticos intolerantes se negavam a ver valor nas obras populares porque viam a arte como uma pr\u00e1tica elitista, agora os novos donos do &#8220;mercado&#8221; liter\u00e1rio atacam a aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade como uma afeta\u00e7\u00e3o in\u00fatil. Inverteu-se o sinal do preconceito, mas ainda se foge da verdade.<\/p>\n<p>A arte continua sendo, como sempre foi, definida como parte de uma rela\u00e7\u00e3o com o dinheiro. Quando o dinheiro estava com os nobres, os autores escreviam para agradar seus gostos. Agora o dinheiro est\u00e1 em vender para os pobres, os autores mudaram de foco. Em algum momento, no s\u00e9culo XX, apagou-se a distin\u00e7\u00e3o de classes quanto ao gosto. N\u00e3o existe mais a &#8220;sofistica\u00e7\u00e3o&#8221;, existe s\u00f3 o poder bruto do dinheiro. Os nobres n\u00e3o leem fil\u00f3sofos, colocam privadas de ouro em seus banheiros. E sentam nelas para ler obras de gente que acha mais belo um penico cravado de diamantes do que a montanha buc\u00f3lica que a minera\u00e7\u00e3o destruiu para extrair as pedras com que ele foi ornado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevistado na Bienal do Livro, um autor afirma que, para alcan\u00e7ar o sucesso, o escritor tamb\u00e9m precisa ser empres\u00e1rio, um empreendedor. Ou seja, decretou a extin\u00e7\u00e3o dos poetas. &mdash; Alexandre Coslei. A poesia \u00e9 uma arte em extin\u00e7\u00e3o, desde mais ou menos o tempo de Plat\u00e3o, que via em Arist\u00f3fanes a decad\u00eancia do teatro grego. Dois mil e quinhentos anos em extin\u00e7\u00e3o e ela ainda incomoda o suficiente para que sua extin\u00e7\u00e3o tenha de ser decretada pelo menos uma vez em cada gera\u00e7\u00e3o. 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