{"id":5081,"date":"2019-01-18T19:34:06","date_gmt":"2019-01-18T22:34:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5081"},"modified":"2019-06-05T19:41:10","modified_gmt":"2019-06-05T22:41:10","slug":"sofredores-enxergam-sofredores","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/01\/sofredores-enxergam-sofredores\/","title":{"rendered":"Sofredores Enxergam Sofredores"},"content":{"rendered":"\n<p>O sofrimento n\u00e3o parece ser algo t\u00e3o comum quanto realmente \u00e9. Uma poss\u00edvel raz\u00e3o disso \u00e9 que sofrer n\u00e3o \u00e9 socialmente aceit\u00e1vel, \u00e9 quase uma falha de car\u00e1ter ou um tipo de imund\u00edcie. A etiqueta nacional prescreve que o bom brasileiro deve estar sempre com um sorris\u00e3o bonito e uma carinha luminosa, porque somente assim voc\u00ea merece o qualificativo de &#8220;simp\u00e1tico&#8221;; que \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio em certas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">A verdade \u00e9 que quase ningu\u00e9m sai pela rua&nbsp;<i>exibindo a sua dor.&nbsp;<\/i>A norma \u00e9 que se saia de casa com uma fantasia de felicidade e perfei\u00e7\u00e3o, conforme poss\u00edvel. Ningu\u00e9m v\u00ea, por\u00e9m, o que realmente sentem, por detr\u00e1s dos olhos, dentro de quatro paredes, quando voltam para casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nestas \u00faltimas f\u00e9rias eu passei por uma esp\u00e9cie de ilumina\u00e7\u00e3o que me permitiu um vislumbre da onipresen\u00e7a da dor. N\u00e3o creio que algum dia eu consiga esquecer esses dias em que tive tal superpoder.&nbsp;A alegria onipresente deve ser uma grande ilus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Tudo come\u00e7a porque&nbsp;<i>eu estava sofrendo.&nbsp;<\/i>Quando voc\u00ea compartilha de uma condi\u00e7\u00e3o com algu\u00e9m, \u00e9 mais prov\u00e1vel que ambos se reconhe\u00e7am. Assim como o amante se espelha na amada (e vice-versa), o sofredor reconhece outros sofredores, mesmo que o tipo de sofrimento seja diferente. Mas&#8230; esse neg\u00f3cio de &#8220;sofrer f\u00e9rias&#8221; n\u00e3o \u00e9 apenas uma ironia?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Em 16 de dezembro, mediante grande insist\u00eancia de minha mulher, pois n\u00e3o viaj\u00e1vamos de f\u00e9rias h\u00e1 quase cinco anos, reservei quatro dias em um hotel de Cabo Frio, Rio de Janeiro, para ali gozarmos de alguns dias de merecido passeio. Os termos da reserva, para fazer jus ao descont\u00e3o que eu tive, eram draconianos: 50% pagos previamente e apenas 10% desse valor seria devolvido se eu desistisse. No fim de semana seguinte compramos quase tudo o que era preciso e come\u00e7amos a esperar pelo dia 7 de janeiro, em que chegar\u00edamos ao hotel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Em 24 de dezembro, por\u00e9m, eu tive uma crise renal. Desde outubro de 2015 eu n\u00e3o tinha disso&#8212;e antes de ent\u00e3o eu tivera mais de quarenta c\u00e1lculos expelidos, cinco deles atrav\u00e9s de cirurgias e um primeiro, h\u00e1 muitos anos, por meio de uma nefrolitotripsia externa, procedimentos bastante desagrad\u00e1veis, todos eles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Depois de tr\u00eas anos mantendo uma dieta rigorosa eu havia h\u00e1 menos de seis meses come\u00e7ado a cometer irresponsabilidades, como Coca-Cola e hamb\u00fargueres, e eis que eu voltava a ter c\u00f3licas. Isso me derrubou psicologicamente, me incapacitou para pensar com clareza. Eu temia fortemente a possibilidade de ter que me operar novamente, tomar anestesia raquidiana, ficar dias com sonda uretral. Tudo horr\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Depois de cinco dias a c\u00f3lica passou e em 31 de dezembro eu j\u00e1 me sentia quase bem, imaginei at\u00e9 que tinha expelido o c\u00e1lculo. Ent\u00e3o continuamos os preparativos e \u00e0quela altura n\u00e3o era mais poss\u00edvel cancelar a viagem sem perder bastante dinheiro. Em 2 de janeiro, j\u00e1 de f\u00e9rias, tudo piorou de novo e eu comecei a sentir a pedra movimentando-se dentro de mim.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Viajei em crise, mas escondi isso de minha mulher e de minhas filhas, para n\u00e3o estragar as f\u00e9rias delas. N\u00e3o tomei analg\u00e9sicos, simplesmente fingi que estava bem e tentei segurar as caretas o melhor que pude. Meu plano era aguentar o quanto pudesse e, no retorno, me internar depressa para os exames e, se fosse preciso, como das cinco vezes anteriores, operar. Passar as f\u00e9rias com a perspectiva de uma cirurgia era uma sensa\u00e7\u00e3o horr\u00edvel. De impot\u00eancia, de fatalidade. Eu sei que algum dia morrerei em uma mesa de opera\u00e7\u00e3o, porque meu corpo vai aos poucos se exaurindo, parando de funcionar direito. Algum dia, mas eu n\u00e3o quero que seja em breve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Nem preciso dizer que os quatro dias em Cabo Frio foram quase um pesadelo. N\u00e3o s\u00f3 pela dor e pela necessidade de escond\u00ea-la, mas porque a minha mulher e as minhas filhas, n\u00e3o sabendo o que eu passava, inventavam programas que envolviam caminhar, dirigir longas dist\u00e2ncias, caminhar de novo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Alternando c\u00f3licas brandas e moderadas com momentos (a maioria) em que eu n\u00e3o tinha c\u00f3lica alguma, mas sentia a pedra \u201carranhando\u201d por dentro, fui tentando levar como poss\u00edvel, ficando im\u00f3vel sempre que me deixavam. N\u00e3o consegui aproveitar a praia, porque pisar na areia dura \u00e0 beira-mar me causava pontadas por dentro, depois a urina sa\u00eda com sangue, com um cheiro forte. Ficar dentro do mar me aliviava, pelo barulho e impacto das ondas, mas ficar fora d\u2019\u00e1gua era horr\u00edvel porque, como s\u00f3 quem tem c\u00f3licas sabe, a \u00fanica posi\u00e7\u00e3o realmente confort\u00e1vel \u00e9 enquanto voc\u00ea est\u00e1 <em>mudando de posi\u00e7\u00e3o<\/em>. Tive duas noites sem dormir, mas resisti at\u00e9 o \u00faltimo dia. Dizia que era dor nas costas. Minha mulher desconfiou, mas nada disse.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/01\/vendedores-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6284\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">O fato de eu sentir dor parece ter aberto a minha percep\u00e7\u00e3o da dor alheia. Ao olhar no rosto os vendedores ambulantes da praia eu enxerguei, sei l\u00e1, um pouco da dor que eles tamb\u00e9m sentiam. Seus p\u00e9s queimados de sol e areia, j\u00e1 dessensibilizados de tanto andarem para l\u00e1 e para c\u00e1. Seus rostos besuntados inutilmente com protetor solar, mas ainda marcados. Uma vendedora, negra, tinha tanto creme na cara que ela parecia uma dessas guerreiras massai do Qu\u00eania. Outra mantinha os cabelos presos para proteger da maresia, decerto porque n\u00e3o tinha como comprar bons xampus. Um homem de dentes amarelados pelo longo tempo sem escova\u00e7\u00e3o. Uma mo\u00e7a com os dentes cheios de c\u00e1ries. Gente de costas curvadas de carregar fardos em posi\u00e7\u00f5es desconfort\u00e1veis. Um dos caras que me trazia cerveja me causou impress\u00e3o particular. Era um negro t\u00e3o queimado de sol que at\u00e9 seus l\u00e1bios estavam retintos. A sua pele descamava nos bra\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Todas essa gente passava sorridente, gritando preg\u00f5es engra\u00e7ados. A julgar por seus rostos e vozes, todos adoravam a praia, eram anjos voando pelo \u00c9den, levando recados de Deus a Ad\u00e3o e Eva. Mas a minha dor manchou a sua alegria aparente, escavou a superf\u00edcie de seus sorrisos e revelou que eles, quase todos, viam na praia apenas um local de trabalho insalubre. Eles sentiam o corpo arder \u00e0 noite, mesmo depois de v\u00e1rios banhos frios, inutilmente tentando lavar de si o calor do sol. Eram gente que sabia que sofreria com c\u00e2nceres de pele na meia idade, com rugas precoces ainda no fim da juventude, com problemas de coluna na maturidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Na pra\u00e7a, uma senhora que vendia cachorros-quentes deixou a filha tomando conta do estande enquanto ligava para a companhia el\u00e9trica. Estavam sem \u00e1gua pot\u00e1vel em casa desde 24 de dezembro e sem energia desde 20 de dezembro. Ela se exasperava com a atendente, dizendo que fazia uma semana que as contas estavam pagas, mas que n\u00e3o acontecia a religa\u00e7\u00e3o. O marido doente precisava fazer nebuliza\u00e7\u00f5es. N\u00e3o tinham \u00e1gua limpa e nem eletricidade. Tivera de levar o marido para a casa da vizinha, onde havia eletricidade, e estavam buscando \u00e1gua de caminh\u00e3o pipa. A liga\u00e7\u00e3o terminou com a promessa da atendente de que a religa\u00e7\u00e3o ocorreria dentro de vinte e quatro horas, mas que \u201cn\u00e3o podia prometer\u201d porque o volume de religa\u00e7\u00f5es a fazer era grande.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">A mulher desistiu de brigar porque, nesse momento, a filha deixou a barraquinha de cachorros quentes, sentou-se no meio fio e come\u00e7ou a vomitar. A \u00e1gua de caminh\u00e3o pipa lhe havia, decerto, feito mal. A senhora correu at\u00e9 l\u00e1, para contornar a situa\u00e7\u00e3o. Os fregueses se afastavam enojados, era preciso limpar o cal\u00e7amento para o mau cheiro n\u00e3o atrapalhar os neg\u00f3cios. Enquanto gastava preciosa \u00e1gua doce na faxina, ela resmungava: \u201cSe eu n\u00e3o vender toda essa salsicha hoje, n\u00e3o tenho geladeira onde guardar, amanh\u00e3 tudo vai estragar e o preju\u00edzo vai ser grande.\u201d A menina mal se punha de p\u00e9, mas n\u00e3o tinha para onde ir: naquele dia ainda era preciso ganhar o dinheiro com que, talvez, comprar \u00e1gua melhor para o dia seguinte e pagar uma consulta m\u00e9dica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Tudo isso aconteceu a uns oito metros de mim, em uma pra\u00e7a ruidosa. Minha esposa n\u00e3o ouviu nada disso, a n\u00e3o ser um pouco da briga da mulher com a atendente, pelo telefone. Ela achou engra\u00e7ada a voz esgani\u00e7ada e as g\u00edrias ex\u00f3ticas que a mulher empregava ao reclamar com a companhia el\u00e9trica. Normalmente eu n\u00e3o teria ouvido tampouco, mas eu estava com a minha percep\u00e7\u00e3o agu\u00e7ada para a dor alheia. As pessoas que passavam pela pra\u00e7a quase n\u00e3o se deram conta. Vinte minutos depois, enquanto eu terminava o crepe franc\u00eas que comprara em outra barraquinha, o cheiro de v\u00f4mito j\u00e1 fora lavado do ch\u00e3o e a mulher, e a filha, j\u00e1 atendiam a pr\u00f3xima leva de fregueses. Com sorrisos de cart\u00e3o postal e vozes firmes de quem n\u00e3o padece do est\u00f4mago nem bebe \u00e1gua salobra sa\u00edda de um carro pipa. Olhei para a garrafa de \u00e1gua mineral que eu comprara por quatro reais e me dei conta do privil\u00e9gio tempor\u00e1ria de que eu desfrutava &#8212; e ainda assim os meus rins se recusavam a funcionar direito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"ui_qtext_para\">Continuei a reparar os rostos das pessoas nas ruas, mesmo depois que voltei. A maioria, depois que se fecha o sorriso fabricado que os encontros sociais exigem, retorna a cara amarrada, a express\u00e3o riscada de quem est\u00e1 se segurando. Mas todos continuam tocando esse teatro tropical t\u00e3o antigo, que os gringos tanto apreciam.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sofrimento n\u00e3o parece ser algo t\u00e3o comum quanto realmente \u00e9. Uma poss\u00edvel raz\u00e3o disso \u00e9 que sofrer n\u00e3o \u00e9 socialmente aceit\u00e1vel, \u00e9 quase uma falha de car\u00e1ter ou um tipo de imund\u00edcie. A etiqueta nacional prescreve que o bom brasileiro deve estar sempre com um sorris\u00e3o bonito e uma carinha luminosa, porque somente assim voc\u00ea merece o qualificativo de &#8220;simp\u00e1tico&#8221;; que \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio em certas condi\u00e7\u00f5es. 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