{"id":5123,"date":"2017-09-24T17:08:11","date_gmt":"2017-09-24T20:08:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5123"},"modified":"2017-11-12T17:20:52","modified_gmt":"2017-11-12T20:20:52","slug":"os-jovens-opressores","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/09\/os-jovens-opressores\/","title":{"rendered":"Os Jovens Opressores"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o, este texto n\u00e3o citar\u00e1 Paulo Freire. Por mais presciente que o educador brasileiro tenha sido, este fen\u00f4meno que presenciamos atualmente n\u00e3o fica explicado pela tese segundo a qual \u201cquando a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 libertadora, o sonho dos oprimidos \u00e9 tornarem-se, tamb\u00e9m, opressores\u201d. Oh, n\u00e3o! Acabei citando ao Paulo Freire\u2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/\nuploads\/2017\/10\/Balilla_GM-223x300.jpg\" alt=\"\" width=\"223\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5124\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Balilla_GM-223x300.jpg 223w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Balilla_GM-111x150.jpg 111w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Balilla_GM-768x1034.jpg 768w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Balilla_GM-475x640.jpg 475w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/Balilla_GM.jpg 788w\" sizes=\"(max-width: 223px) 100vw, 223px\" \/><\/p>\n<p>Os jovens perigosamente flertam com o autoritarismo. Pode ser um tanto explosiva a combina\u00e7\u00e3o do desconhecimento hist\u00f3rico desses brasileirinhos, que n\u00e3o viveram as dores da ditadura, com a tola rebeldia que associam a tais ideias e os seus proponentes. Dizia Gessinger que \u201co fascismo \u00e9 fascinante\u201d. Parece estranho e inapropriado dizer isso, mas h\u00e1 um fundo de verdade.<\/p>\n<p>Fascismo \u00e9, mesmo, fascinante porque, ao contr\u00e1rio do socialismo e de outras ideologias iluministas, ele decorre naturalmente dos fen\u00f4menos e for\u00e7as que surgem espontaneamente na sociedade. Ou seja, caso as irrup\u00e7\u00f5es fascistas n\u00e3o sejam combatidas, elas tender\u00e3o a sempre crescer, especialmente nos momentos de crise.<\/p>\n<p>O fascismo n\u00e3o \u00e9 exatamente conservador e nem reacion\u00e1rio, e por isso \u00e9 bobagem consider\u00e1-lo circunscrito \u00e0 direita. O fascismo \u00e9 estr\u00e1bico, olha para os dois lados, pretende usurpar da esquerda o impulso civilizat\u00f3rio (mesmo deturpado)  e da direita o desejo de proteger o sagrado (que n\u00e3o deve ser amea\u00e7ado).  A combina\u00e7\u00e3o de teses mutuamente excludentes \u00e9 que d\u00e1 ao fascismo seu car\u00e1ter de <a href=\"\/lit\/2017\/11\/a-familia-duplipensare\"><em>doublethink<\/em><\/a> e o faz violento. Sendo imposs\u00edvel defender racionalmente aquilo que \u00e9 essencialmente contradit\u00f3rio, a \u00fanica maneira de \u201ctriunfar\u201d no debate \u00e9 pela supress\u00e3o deste, trocar a argumenta\u00e7\u00e3o pela propaganda e o questionamento pela obedi\u00eancia.<\/p>\n<p>Mas o que h\u00e1 de fascinante nisso? Por que os jovens brasileiros, em vez de contestadores do <em>status quo<\/em>,  resolveram aderir a um sistema ideol\u00f3gico assim?<\/p>\n<p>Penso que h\u00e1 quatro aspectos que d\u00e3o ao fascismo sua fascina\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<ol>\n<li>Rebeldia mal direcionada.<\/li>\n<li>Respostas simples para problemas complexos.<\/li>\n<li>Sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento a um grupo.<\/li>\n<li>Transfer\u00eancia de poder simb\u00f3lico.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Vou tentar explicar cada um desses itens:<\/p>\n<h3>1. Rebeldia mal direcionada.<\/h3>\n<p>O jovem n\u00e3o deseja pensar como os seus pais.  H\u00e1 uma fase do seu desenvolvimento em que passam a ver nos pais um modelo negativo, algo a n\u00e3o seguir.  Para formar uma identidade pr\u00f3pria, precisam \u201cmatar\u201d metaforicamente a opress\u00e3o patriarcal\/matriarcal.<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo j\u00e1 se percebia a \u201ccaretiza\u00e7\u00e3o\u201d dos jovens. Desde, pelo menos, a virada do mil\u00eanio j\u00e1 se falava em \u201cpais modernos e filhos caretas\u201d. Nos Estados Unidos ocorreu algo semelhante  nos anos oitenta, pais <em>hippies<\/em> com filhos <em>yuppies<\/em>.  Os primeiros determinados a mudar o sistema, os segundos focados em lucrar na explora\u00e7\u00e3o do sistema.<\/p>\n<p>Parece claro, ent\u00e3o, que essa rebeldia n\u00e3o decorre da maneira de cria\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es. Parece um fen\u00f4meno mais \u201ctect\u00f4nico\u201d, com um horizonte de mudan\u00e7a bastante longo. Uma gera\u00e7\u00e3o de mente \u201caberta\u201d parece sempre ser sucedida por uma gera\u00e7\u00e3o conservadora ou reacion\u00e1ria (a depender da percep\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as obtidas com a gera\u00e7\u00e3o anterior).<\/p>\n<p>Claramente, a esquerda consciente precisa compreender a natureza espont\u00e2nea dessas mudan\u00e7as, evitando atribu\u00ed-las meramente a uma a\u00e7\u00e3o conspirat\u00f3ria do \u201csistema\u201d, que existe sim, por\u00e9m n\u00e3o criou a base psicossocial de que se aproveita para alavancar seu poder pol\u00edtico e cultural.<\/p>\n<h3>2. Respostas simples para problemas complexos.<\/h3>\n<p>Uma das fun\u00e7\u00f5es da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 oferecer orienta\u00e7\u00e3o aos jovens que precisam aprender a decodificar o mundo em que vivem. Tal fun\u00e7\u00e3o se torna ainda mais central depois que a humanidade chegou a uma tal sofistica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que a inser\u00e7\u00e3o no mundo do trabalho nas rela\u00e7\u00f5es sociais passa a exigir conhecimentos complexos. Mas a educa\u00e7\u00e3o pode falhar em seu prop\u00f3sito, ent\u00e3o os jovens crescem desprovidos de meios intelectuais e culturais para decodificar a complexidade que os rodeia, atirando-os a uma cruel aliena\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 encararem o conhecimento como barreira, cada mudan\u00e7a como uma amea\u00e7a e cada complexidade como um inimigo a se vencer.<\/p>\n<p>Esta aliena\u00e7\u00e3o dos jovens em rela\u00e7\u00e3o ao significado da realidade e seu papel nela \u00e9 um fator que os torna presas f\u00e1ceis de muitas ideologias que pretendem \u201cmastigar\u201d a realidade para consumo das massas. Se as explica\u00e7\u00f5es corretas e l\u00f3gicas parecem absurdas ao jovem, porque est\u00e3o al\u00e9m de sua capacidade de compreens\u00e3o,  como podemos esperar que o jovem se insira nesse sistema? Parece mais f\u00e1cil buscar um \u201catalho\u201d at\u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>O fascismo oferece isso.<\/p>\n<h3>3. Sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento a um grupo<\/h3>\n<p>Press\u00e3o social \u00e9 uma das for\u00e7as mais intensas a moldar o car\u00e1ter do jovem, especialmente quando ele entra na adolesc\u00eancia e sente a necessidade metaf\u00f3rica de \u201cmatar o pai\u201d.  \u00c9 um fen\u00f4meno j\u00e1 bem conhecido essa facilidade com que os jovens entram em tribos das mais diversas, o que parece fazer parte do desejo de desenvolver uma identidade que, se n\u00e3o chega a ser, de fato, \u201cpr\u00f3pria\u201d, pelo menos \u00e9 diferente daquela com que teve contato no seio familiar. Uma identidade \u201cescolhida\u201d para substituir ou subsidiar aquela a que se sente for\u00e7ado a aderir pela sociedade.<\/p>\n<p>O fascismo \u00e9 uma entre v\u00e1rias poss\u00edveis ideologias e espa\u00e7os coletivos que oferecem a oportunidade de desenvolver uma tal identidade. Na ideologia do fascismo o jovem encontra elementos de grupo aos quais facilmente adere porque eles o tornam parte de uma nova identidade. Assim tivemos no fascismo tradicional o fasc\u00ednio dos uniformes, por exemplo, ou um estilo peculiar de vestimenta.<\/p>\n<p>O neofascismo evita ser t\u00e3o expl\u00edcito porque hoje os jovens valorizam estes aspectos exot\u00e9ricos de sua identidade e n\u00e3o aceitariam mais t\u00e3o facilmente um c\u00f3digo de vestu\u00e1rio. Mas o pensamento uniforme ainda permite a identifica\u00e7\u00e3o do jovem com o grupo ao qual adere por \u201cescolha\u201d, enquanto os acess\u00f3rios e os s\u00edmbolos menos consp\u00edcuos adquirem a fun\u00e7\u00e3o uniformizadora mais tang\u00edvel. Um exemplo disso s\u00e3o esses jovens com camisetas que estampam o rosto de um \u00edcone pol\u00edtico.<\/p>\n<h3>4. Transfer\u00eancia de poder simb\u00f3lico.<\/h3>\n<p>Ser membro de um grupo grande passa ilus\u00e3o de poder simb\u00f3lico. Isso pode ser atestado quando vemos os jovens neofascistas das redes sociais \u201ccurtirem\u201d e difundirem grupos com t\u00edtulos como \u201copressor\u201d, ou mesmo a incorpora\u00e7\u00e3o desse conceito em seu linguajar. Como, por exemplo, quando um garoto de classe baixa compra um item fetichista de consumo (t\u00eanis caro, por exemplo) e o ostenta nas redes sociais dizendo que \u00e9 \u201cmuita opress\u00e3o\u201d.<\/p>\n<h3>Conclus\u00f5es<\/h3>\n<p>Acredito que j\u00e1 \u00e9 tarde para se prevenir o surgimento do neofascismo no Brasil. Ele j\u00e1 existe e j\u00e1 chegou \u00e0 maturidade, o que se pode averiguar pela facilidade com que viralizam conte\u00fado de interesse da extrema direita (moralismo, teorias econ\u00f4micas) e da tend\u00eancia generalizada no sentido de <em>combater<\/em> as pessoas de quem discordamos, em vez de combater ideias que nos parecem incorretas.<\/p>\n<p>Diante do cen\u00e1rio l\u00fagubre que temos \u00e0 frente, a esquerda deveria interromper sua autocr\u00edtica (principalmente a autocomisera\u00e7\u00e3o) e come\u00e7ar a planejar-se para as conting\u00eancias do futuro. \u00c9 dif\u00edcil dizer que caminho trilharemos para que o tempo perdido possa ser recuperado e a mar\u00e9 retorne. Uma coisa \u00e9 certa, por\u00e9m, n\u00e3o adianta tentar evitar o confronto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o, este texto n\u00e3o citar\u00e1 Paulo Freire. 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