{"id":5161,"date":"2017-10-30T16:58:53","date_gmt":"2017-10-30T19:58:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5161"},"modified":"2019-06-05T22:23:29","modified_gmt":"2019-06-06T01:23:29","slug":"a-guerra-contra-a-cultura-nacional","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/10\/a-guerra-contra-a-cultura-nacional\/","title":{"rendered":"A Guerra Contra a Cultura Nacional"},"content":{"rendered":"\n<p>A revista &#8220;Veja&#8221;, talvez movida pelo inc\u00f4modo que causa o fato de que a maior figura de nossa literatura \u00e9 um negro, Machado de Assis, resolveu se lembrar esta semana que o conceito de &#8220;genialidade&#8221; \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que esta preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria necess\u00e1ria se Joaquim Maria Machado de Assis tivesse melenas castanhas e olhos azuis, ou se o movimento negro n\u00e3o resolvesse reivindic\u00e1-lo. A prolifera\u00e7\u00e3o de imagens nas quais o grande &#8220;bruxo&#8221; aparece com seus tra\u00e7os afro devidamente enfatizados come\u00e7ou a incomodar a revista que \u00e9 praticamente a porta-voz de nossa elite escravocrata. O fato de que o autor come\u00e7ou, tamb\u00e9m, a despertar a aten\u00e7\u00e3o de leitores e cr\u00edticos estrangeiros, com a sa\u00edda das primeiras boas tradu\u00e7\u00f5es de sua obra para o ingl\u00eas, deve ter desempenhado tamb\u00e9m um papel nessa preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Veja&#8221; iniciou ent\u00e3o um projeto de desconstru\u00e7\u00e3o de Machado de Assis enquanto \u00eddolo nacional. Podem escrever o que digo, n\u00e3o vai parar por aqui. Ainda veremos muitos artigos assinados por expoentes da &#8220;nova&#8221; direita nacional contendo micro-ataques ao autor, enquanto literato, enquanto cidad\u00e3o e at\u00e9 enquanto homem. Talvez tenham at\u00e9 uma meta: em dez anos faremos esse mulato insolente desaparecer da lembran\u00e7a, aproveitando que os livros de Machado j\u00e1 s\u00e3o praticamente ileg\u00edveis pelas gera\u00e7\u00f5es de alunos deseducados por um sistema escolar cuidadosamente planejado para adestrar sem educar.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse projeto, claro, \u00e9 parte da estrat\u00e9gia de guerra contra a cultura nacional que \u00e9 movida por setores &#8220;globalizados&#8221; desde h\u00e1 pelo menos uns vinte anos. \u00c9 preciso destruir os la\u00e7os do povo com sua hist\u00f3ria e sua cultura, para que ele seja mais receptivo \u00e0 cultura de massas e mais f\u00e1cil de alienar.<\/p>\n\n\n\n<p>O artigo \u00e9 um primor de semi\u00f3tica, a come\u00e7ar pelo t\u00edtulo insolente, t\u00edpico da &#8220;Veja&#8221; e seus mal-educados &#8220;Guias Politicamente Incorretos&#8221;, que tasca a afirma\u00e7\u00e3o de &#8220;Machado de Assis era g\u00eanio coisa nenhuma&#8221;. Para ilustrar essa acusa\u00e7\u00e3o, a imagem escolhida foi, claro, uma em que Machado aparece com tra\u00e7os claramente miscigenados (se bem que ele n\u00e3o tinha uma carapinha, certamente tinha os l\u00e1bios largos e o cabelo mais rebelde que o gosto europeu tolerava).<\/p>\n\n\n\n<p>Com seus sete breves par\u00e1grafos (a profundidade de um pires tentando conter uma avalia\u00e7\u00e3o geral da obra de um dos maiores ficcionistas de l\u00edngua portuguesa), a mat\u00e9ria tem um subt\u00edtulo que deveria causar riso, mas o leitor t\u00edpico da revista n\u00e3o tem a capacidade da ironia e provavelmente o ler\u00e1 como uma afirma\u00e7\u00e3o dotada de algum valor: &#8220;O maior escritor brasileiro de todos os tempos come\u00e7ou publicando pl\u00e1gios med\u00edocres de Gon\u00e7alves Dias&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>O absurdo do subt\u00edtulo \u00e9 acintoso. D\u00e1 a entender que Machado s\u00f3 poderia ser considerado um g\u00eanio se j\u00e1 tivesse come\u00e7ado a escrever com obras de valor incontest\u00e1vel. Afinal, os g\u00eanios n\u00e3o t\u00eam o direito de ser meninos.<\/p>\n\n\n\n<p>O texto come\u00e7a com uma frase de George Bernard Shaw, a regulamentar refer\u00eancia gringa que, na \u00f3tica vira-latas dos &#8220;Guias Politicamente Incorretos&#8221;, \u00e9 sempre usada para diminuir algum aspecto da cultura nacional ou latino-americana. N\u00f3s precisamos ser explicados por ingleses, afinal.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seguida o autor comete um espantalho ousado, mas que, mais uma vez, escapar\u00e1 ao radar do t\u00edpico leitor que se apascenta nas p\u00e1ginas da revista: afirma que Machado de Assis vem sendo chamado de g\u00eanio na televis\u00e3o, na boca dos professores (essa maldita classe, culpada de tudo de ruim que acontece nesse pa\u00eds), na imprensa e at\u00e9 em artigos e livros acad\u00eamicos (onde, que absurdo, n\u00e3o se deveria discutir com seriedade, muito menos com admira\u00e7\u00e3o, um autor afro-brasileiro, claro!).<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright\"><img src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/10\/machado-de-assis-300x226.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5164\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Fica parecendo que a maneira como Machado de Assis \u00e9 visto por algumas pessoas representa o valor real do que ele escreveu e do que ele significa, para a cultura nacional e para o movimento negro. O autor n\u00e3o se d\u00e1 ao trabalho de, em suas poucas linhas, sequer citar se h\u00e1 estat\u00edsticas dessa vis\u00e3o de Machado como g\u00eanio, mas suponho que n\u00e3o o faria mesmo se as tivesse, pois o objetivo da afirma\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 meramente pregar o r\u00f3tulo no autor para arrancar com for\u00e7a e ver se d\u00f3i.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se n\u00e3o bastasse o desfile j\u00e1 extenso de absurdos, o autor recorre a um dicion\u00e1rio (!) para obter uma defini\u00e7\u00e3o corriqueira de &#8220;genialidade&#8221; a fim de atacar. Segundo a defini\u00e7\u00e3o que ele desencavou, g\u00eanio \u00e9 &#8220;pessoa que possui aptid\u00e3o <em>natural<\/em> para algo&#8221;. Aten\u00e7\u00e3o a esta palavra assinalada, pois \u00e9 com base nela que o articulista ataca Machado de Assis. &#8220;A\u00ed \u00e9 que est\u00e1 o problema;&#8221; \u2014 diz ele \u2014 &#8220;<em>dom<\/em> e <em>aptid\u00e3o natural<\/em> s\u00e3o conceitos que difundem a ideia de que Machado e outros \u00edcones j\u00e1 nasceram prontos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele poderia ter recorrido a uma enciclop\u00e9dia, mesmo \u00e0 Wikip\u00e9dia, e l\u00e1 teria encontrado uma defini\u00e7\u00e3o mais correta de &#8220;g\u00eanio&#8221;, como, por exemplo: &#8220;pessoa com grande capacidade mental. Ela pode se manifestar por um intelecto de primeira grandeza, ou um talento criativo fora do comum.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Observe nessa defini\u00e7\u00e3o que a &#8220;grande capacidade mental&#8221; n\u00e3o \u00e9 um fator dado, mas uma conclus\u00e3o a partir de manifesta\u00e7\u00f5es de &#8220;intelecto de primeira grandeza&#8221; ou de &#8220;talento criativo fora do comum&#8221;. N\u00e3o consigo imaginar nenhuma maneira atrav\u00e9s da qual se possa negar que Machado de Assis, ao escrever os livros que escreveu, ainda mais partindo da origem humilde que teve e enfrentando na vida os percal\u00e7os que enfrentou, manifestou um &#8220;talento criativo fora do comum&#8221;. No m\u00ednimo ele se encontra v\u00e1rias prateleiras acima do articulista da &#8220;Veja&#8221;, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de que a genialidade \u00e9 algo inato \u00e9 um conceito arcaico que quase ningu\u00e9m mais usa, mas que o articulista achou \u00fatil para usar como arma contra a admira\u00e7\u00e3o geral pelo nosso maior escritor de fic\u00e7\u00e3o. \u00c9 um conceito que faz parte da concep\u00e7\u00e3o vulgar de genialidade, \u00e0 qual tamb\u00e9m o artigo recorre, citando um prov\u00e9rbio (pouqu\u00edssimo conhecido) segundo o qual &#8220;o que \u00e9 bom vem do ovo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que o articulista n\u00e3o tem gabarito para atacar impunemente a Machado de Assis, ent\u00e3o ele precisa terminar o texto de forma conciliadora. Esse \u00e9, ali\u00e1s, o estilo &#8220;Veja&#8221;, morder e depois assoprar. Os par\u00e1grafos finais repetem, sem entusiasmo, alguns dos chav\u00f5es mais conhecidos, como:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Ao contr\u00e1rio do que sup\u00f5em os que acreditam em genialidades e afins, a literatura de Machado amadureceu aos poucos, com tempo, estudo e paci\u00eancia.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>ou, mais pusil\u00e2nime ainda:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Se \u00e9 verdade que possu\u00eda uma inclina\u00e7\u00e3o para a palavra escrita, n\u00e3o \u00e9 menos verdadeiro que, com muito esfor\u00e7o, fez essa inclina\u00e7\u00e3o evoluir a n\u00edveis at\u00e9 ent\u00e3o inating\u00edveis. Esse \u00e9 o maior legado de Machado aos estudantes brasileiros. Sua arte e sua hist\u00f3ria nos mostram que tudo \u00e9 poss\u00edvel, apesar das adversidades pessoais e do clima cultural pouco frut\u00edfero em que vivia\/vive o nosso pa\u00eds.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esta conclus\u00e3o come\u00e7a pondo em d\u00favida a inclina\u00e7\u00e3o de Machado para a palavra escrita, com aquele &#8220;Se&#8221; bem marotinho ali no come\u00e7o, para depois usar o caso dele como (mais um) esfor\u00e7o de propaganda da meritocriacia. &#8220;Com muito esfor\u00e7o&#8221; \u00e9 que ele se tornou quem se tornou. &#8220;Sua arte e sua hist\u00f3ria nos mostram que tudo \u00e9 poss\u00edvel, apesar das adversidades&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A caminhada do autor at\u00e9 os p\u00edncaros da literatura n\u00e3o foi favorecida por ser filho de pai branco, por ter obtido um emprego em tipografia, por ter feito amizade com o pr\u00f3prio diretor da Imprensa Nacional, Manuel Ant\u00f4nio de Almeida e por ter, posteriormente, se casado com uma mulher branca e de razo\u00e1vel status social. Tudo foi apenas &#8220;muito esfor\u00e7o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Um discurso de auto-ajuda, \u00e9 a isso que reduziram a biografia de Machado de Assis!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A revista &#8220;Veja&#8221;, talvez movida pelo inc\u00f4modo que causa o fato de que a maior figura de nossa literatura \u00e9 um negro, Machado de Assis, resolveu se lembrar esta semana que o conceito de &#8220;genialidade&#8221; \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social. Claro que esta preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria necess\u00e1ria se Joaquim Maria Machado de Assis tivesse melenas castanhas e olhos azuis, ou se o movimento negro n\u00e3o resolvesse reivindic\u00e1-lo. 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