{"id":523,"date":"2009-05-07T14:00:00","date_gmt":"2009-05-07T17:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=523"},"modified":"2017-11-02T14:10:06","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:06","slug":"o-salario-da-perseveranca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/05\/o-salario-da-perseveranca\/","title":{"rendered":"O Sal\u00e1rio da Perseveran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Rosana se sentia enterrada cada vez que penetrava o recinto ass\u00e9ptico e formal daquele imenso edif\u00edcio de cimento e vidro em que trabalhava. Para entrar ali tinha de se vestir com a formalidade que n\u00e3o se usa mais nem para ir a casamentos: terninho, len\u00e7o ao pesco\u00e7o, maquiagem, cabelo preso, sapatos pretos de salto, joias de prata discretas e \u00f3culos sem aro. Depois que entrava e mostrava seu crach\u00e1 na portaria, deixava de ser a Zaninha do Andr\u00e9 e passava a ser Dona Rosana Couto, gerente do setor de an\u00e1lise de cr\u00e9dito do Banco V\u00eanus. Esta outra pessoa n\u00e3o era m\u00e3e de uma crian\u00e7a e nem mulher de um poeta, n\u00e3o tocava guitarra el\u00e9trica e nem gostava de equita\u00e7\u00e3o. Era, em vez disso, uma fera capitalista temida por suas decis\u00f5es, sempre precisas, e por seu rigor no cumprimento das metas e das normas. Ela detestava ser a Dona Rosana Couto, mas essa era a \u00fanica de suas pessoas que tinha um sal\u00e1rio de quatro mil reais por m\u00eas e, por essa monet\u00e1ria raz\u00e3o, Zaninha vivia com uma enorme m\u00e3o suja de dinheiro amorda\u00e7ando sua boca e um pesado p\u00e9 de sapato preto sufocando seu peito.<\/p>\n<p>Antes de entrar, limpou qualquer resto de sorriso com o len\u00e7o engomad\u00edssimo, verificou a precis\u00e3o do delineamento do batom no l\u00e1bio, raspou a garganta pela \u00faltima vez e pisou no sagu\u00e3o de ard\u00f3sia preta encerado. O Luiz Ant\u00f4nio, um Silva que trabalhava na portaria, olhou-a receoso, como sempre faz quando chega algum dOs Que Trabalham de Terno, mas assentiu, vencido, diante da exibi\u00e7\u00e3o do crach\u00e1 laranja e branco. Zaninha talvez tivesse gostado do Luiz Ant\u00f4nio, que era sambista e tocava viol\u00e3o, mas Rosana detestava seu jeito risonho e considerava uma grave falta de car\u00e1ter a falha que tinha na denti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entrou pelo corredor cheio de portas e fez o salto do cal\u00e7ado ressoar como os cascos de um dem\u00f4nio que vasculha as senzalas do Orco. Ao passar por uma porta entreaberta teve tempo de causar o engasgo de uma estagi\u00e1ria que tomava caf\u00e9 e conversava com um cont\u00ednuo, ambos sorridentes e de camisas meio desabotoadas. Tomou o elevador, endurecendo ainda mais o rosto e desceu at\u00e9 o terceiro piso subterr\u00e2neo onde ficava seu pequeno feudo naquele imenso aparato de trucidar n\u00fameros e emprestar dinheiro. Rosana Couto ainda n\u00e3o havia chegado a nenhum lugar em termos de carreira. Ainda tinha muitos patamares de pessoas acima de si, gente com gravatas coloridas penduradas no pesco\u00e7o, quanto mais cores diferentes, mais um degrau, como se cada cor fosse uma medalha de guerra. Muita gente com abotoaduras douradas, dentes clareados, sotaque cada vez mais descuidado e menos papel para ler e catalogar. Ali em seu cub\u00edculo de nove por quatro metros ela ainda estava pr\u00f3xima demais da base da &#8220;cadeia alimentar&#8221;, tinha apenas nove miser\u00e1veis escritur\u00e1rios para torturar.<\/p>\n<p>Empertigou-se, assustada pela concess\u00e3o de um pensamento ir\u00f4nico. Repetiu sete vezes &#8220;organograma institucional&#8221; e tentou esquecer quaisquer termos sobreviventes de uma quase pr\u00e9-hist\u00f3rica gradua\u00e7\u00e3o em Biologia. Dona Rosana Couto chegava aos seu c\u00edrculo. Perseveran\u00e7a do g\u00eanio, insist\u00eancia do med\u00edocre, teimosia do incompetente. Infelizmente, s\u00f3 o tempo diz qual \u00e9 qual. E qualquer das tr\u00eas pode ser recompensada bem ou mal.<\/p>\n<p>Daniel conseguira o milagre de ser o primeiro a chegar. Logo ele, quase sempre o \u00faltimo, tivera o desplante de chegar antes de Dona Rosana Couto. Como castigo, distribui-lhe uma por\u00e7\u00e3o dobrada do servi\u00e7o do dia, de forma que a Ana Mamede pudesse ser isenta de pelo menos metade do seu. Precisava da companhia da horrorosinha para uma visita a um cliente suspeito, por volta do fim da tarde. Daniel resignou-se e come\u00e7ou a destrinchar d\u00fazias de dossi\u00eas de documentos e propostas de financiamentos. Logo em seguida entraram Marlene, Qu\u00e9sia (nome pavoroso, de pobre morta de fome) e Francisco. Este avisou que Benedito n\u00e3o viria: sofrera uma disenteria.<\/p>\n<p>Ligou o terminal, n\u00e3o sem antes ter feito notar que percebera que algu\u00e9m ousar usar a sua esta\u00e7\u00e3o de trabalho em sua aus\u00eancia, algo que expressamente proibira.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Foi o Jo\u00edlson &#8212; denunciaram, como em um coro de galinhas de angola, algumas vozes femininas desafinadas.<\/p>\n<p>Jo\u00edlson chegou tarde, com olhos fundos e vermelhos. Dante e Pedro Lu\u00eds tamb\u00e9m tinham os mesmos caracter\u00edsticos ind\u00edcios de festa, o que era um mau sinal para todos, pois Dona Rosana costumava ficar ainda mais rigorosa em cobran\u00e7as quando suspeitava que algum dos funcion\u00e1rios ousara reservar algumas das horas de necess\u00e1rio descanso para o trabalho em alguma finalidade f\u00fatil. N\u00e3o havendo motivos para distribuir advert\u00eancias, era f\u00e1cil produzir algum. Sempre tem uma coisa qualquer errada, uma assinatura faltando ou um carimbo de cabe\u00e7a para baixo. Nunca faltam desculpas para punir um funcion\u00e1rio que chega para trabalhar com olhos fundos e vermelhos, mesmo que para isso seja preciso come\u00e7ar punindo algum outro.<\/p>\n<p>A manh\u00e3 de trabalho, como sempre, foi agressivamente ruim. Continuavam chegando pilhas e pilhas de propostas, que precisavam ser checadas e financiadas. Empresas que queriam obter cr\u00e9ditos, folhas de pagamento que migravam, inadimplentes a serem cobrados. Cento e sessenta dedos teclavam quase sem parar, digerindo aquelas montanhas de papel em um banco de dados que logo cuspia limites de cr\u00e9dito, autoriza\u00e7\u00f5es de d\u00e9bito, formul\u00e1rios a preencher e a arquivar.<\/p>\n<p>\u00c0s dez horas e trinta minutos tocou o ramal telef\u00f4nico. Era do d\u00e9cimo-segundo andar: Helv\u00e9cio Guedes, Diretor de Cr\u00e9dito Rural. Com as pernas nervosas querendo tremer e os dedos endurecidos para que n\u00e3o batucassem no tampo da mesa, ouviu-o cobrar sua imediata presen\u00e7a na sala n\u00famero 1313 para uma reuni\u00e3o com um misterioso Vice-Presidente cujo nome nem conseguiu lembrar.<\/p>\n<p>Levantou-se incontinenti, despejou algumas ordens e saiu trotando pelos corredores luminosos como a\u00e7o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta dupla do elevador expresso. Acariciou o crach\u00e1 pendente de seu peito e pela primeira vez na vida apertou o bot\u00e3o 13.<\/p>\n<p>Subir 17 pisos em um \u00fanico dia era o tipo de coisa que nenhum funcion\u00e1rio jamais fizera, n\u00e3o que ela soubesse. Funcion\u00e1rios dos n\u00edveis subterr\u00e2neos nunca, jamais, em hip\u00f3tese alguma, eram admitidos al\u00e9m do s\u00e9timo piso, geralmente apenas para fins de demiss\u00e3o ou de grave humilha\u00e7\u00e3o. O tipo de coisa que ocorria com os traidores que, mesmo sendo funcion\u00e1rios do Banco V\u00eanus, ousavam tornar-se inadimplentes com ele. N\u00e3o conseguia imaginar nenhuma raz\u00e3o pela qual pudesse estar sendo convocada ao d\u00e9cimo terceiro, mas sabia que era algo muito grave.<\/p>\n<p>As portas se abriram e ela viu uma luz forte, sob a qual um homem de uniforme negro trabalhava por detr\u00e1s de um balc\u00e3o azul-marinho, usando \u00f3culos espelhados. Sim, era verdade, j\u00e1 lhe haviam dito, quase em tom de segredo, que al\u00e9m do s\u00e9timo andar a decora\u00e7\u00e3o n\u00e3o era nos berrantes tons de laranja e verde escuro a que estava acostumada, mas sim em preciosos tons de azul-escuro, prateado e bege. Sentiu-se uma intrusa ali, o seu espalhafatoso crach\u00e1 cheio de detalhes em vistoso laranja parecia como uma den\u00fancia inclemente de seu indefens\u00e1vel plebe\u00edsmo, que a obrigava a policiar-se na gram\u00e1tica, a cumprir os rituais e a conservar um rosto eternamente vincado de seriedade.<\/p>\n<p>Exibiu envergonhada o mesmo crach\u00e1 que, na portaria dos escritur\u00e1rios, usava para humilhar o pobre silva de dentes falhados e sorriso torto. O porteiro do d\u00e9cimo-terceiro piso teve quase nojo de tocar aquele artefato subterr\u00e2neo, examinou-o apressadamente e denunciou, em uma voz cava e sem brilho: &#8220;<em>voc\u00ea<\/em> \u00e9 esperada na sala 1313.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Arquimedes Albano de Brito &#8212; Vice-Presidente de Cr\u00e9dito Rural&#8221; a recebeu por interm\u00e9dio de sua secret\u00e1ria, uma semi-boneca infl\u00e1vel que sabia falar rudimentos de frases feitas e ser sensualmente atraente. Decorava muito bem aquele ambiente, sua pele e olhos combinando com os tons dos tapetes e sua voz rouca harmonizando com a m\u00fasica baixa e convenientemente angustiante que perpassava o lugar. Indicou-lhe um sof\u00e1 enorme, de couro natural e retornou para seu lugar \u00e0 frente de um moderno computador impecavelmente limpo. Dona Rosana Couto percebeu que o espa\u00e7o em que se movia a secret\u00e1ria sem crach\u00e1 tinha nove por cinco metros.<\/p>\n<p>Pegou uma das revistas para tentar ler, mas percebeu, de cara, que seria in\u00fatil. Havia publica\u00e7\u00f5es estrangeiras: Newsweek, The Economist, Focus, Der Spiegel, Bild am Zeitung, La Stampa, Bunte, Time\u2026 For\u00e7ou os ouvidos para tentar entender a m\u00fasica que incomodava o ambiente e apenas percebeu uma voz anasalada tentando cantar algumas vogais concatenadas, certamente em japon\u00eas ou alguma l\u00edngua incomum. Era definitivamente uma estrangeira.<\/p>\n<p>O ru\u00eddo de uma pesada porta se abrindo a fez levantar-se. O Doutor Brito veio ao seu encontro e a cumprimentou secamente, pelo nome de guerra, isentando-a do t\u00edtulo. Mas n\u00e3o a convidou para entrar em sua sala: n\u00e3o atingira tal privil\u00e9gio. Conversariam ali mesmo, na ante-sala, diante da secret\u00e1ria.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Rosana, eu a chamei aqui por causa disto.<\/p>\n<p>A um gesto do Doutor Brito a boneca falante desfilou de seu recinto trazendo um dossi\u00ea. Ele o abriu e folheou como se fosse algo pornogr\u00e1fico, arregalando os olhos em cada p\u00e1gina.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0De que se trata?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Calma, Rosana. Calma\u2026 &#8212; pediu o burocrata enquanto saboreava o ato.<\/p>\n<p>Rosana se sentia quase despida ao imaginar que aquele pervertido estava escrutinando um trabalho seu daquela forma ir\u00f4nica. Por fim, ele passou-lhe a pasta e decretou:<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Isto foi uma fraude.<\/p>\n<p>Zaninha fez um esfor\u00e7o amaz\u00f4nico para tentar arrancar a manopla que cobria sua boca, mas Rosana Couto ainda teve for\u00e7as para questionar:<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Fraude? Mas eu segui todos os procedimentos e pol\u00edticas do Banco?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Exatamente. Eis a beleza de tudo. Voc\u00ea conseguiu fazer com que uma \u00f3bvia fraude se travestisse de ares de verdade, impolutos ares de sinceridade. Nem mesmo a m\u00e3e desse mutu\u00e1rio desconfiaria de qualquer coisa. Acredito que se ele tivesse analisado a documenta\u00e7\u00e3o toda que a\u00ed est\u00e1 ele mesmo se convenceria de que n\u00e3o estava fraudando o Banco.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Doutor Brito, n\u00e3o entendo o que o Senhor quer dizer. Da forma como fala at\u00e9 parece que foi algo de bom eu ter deixado passar uma fraude.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Mas \u00e9 claro que foi, claro que foi. Voc\u00ea ajudou um de nossos melhores clientes a obter empr\u00e9stimo subsidiado pelo governo, e fez isso de uma forma t\u00e3o competente que n\u00e3o h\u00e1 como, legalmente imputarem qualquer responsabilidade ao Banco V\u00eanus. N\u00f3s cumprimos as regras, como sempre. N\u00e3o temos culpa se as regras s\u00e3o fal\u00edveis\u2026<\/p>\n<p>Rosana ainda n\u00e3o sabia se estava sendo elogiada ou se estava prestes a ser mandada embora.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Muito bem, e o que eu devo fazer agora?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Agora? Nada. Saia para almo\u00e7ar que j\u00e1 est\u00e1 na hora. Mas ainda esta semana eu quero que voc\u00ea nomeie algu\u00e9m para sua comiss\u00e3o e se apresente no sexto andar, onde voc\u00ea vai assumir uma ger\u00eancia de cr\u00e9dito n\u00edvel tr\u00eas. Quero que saiba que uma promo\u00e7\u00e3o assim t\u00e3o r\u00e1pida, queimando um degrau do organograma, \u00e9 algo que normalmente n\u00e3o fazemos. Mas voc\u00ea \u00e9 um talento especial, que precisamos preservar.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Sinto-me muito honrada por receber essa promo\u00e7\u00e3o, Doutor Brito. Mesmo ainda n\u00e3o tendo entendido muito bem o que especificamente eu fiz para merec\u00ea-la. Mas prometo dar o melhor de mim para, inclusive, merecer outras, em breve.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Assim \u00e9 que se fala, Rosana. Agora me diga com sinceridade? Voc\u00ea quer o meu cargo?<\/p>\n<p>Rosana respondeu sem pestanejar que queria.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Ent\u00e3o voc\u00ea precisa me empurrar para cima ou me derrubar. Lembre-se disso. Tenha uma boa tarde. Ah, a prop\u00f3sito. A partir de agora voc\u00ea deixar\u00e1 de ser efetiva em cargo de oito horas e passar\u00e1 a ser comissionada em car\u00e1ter extraordin\u00e1rio. Queremos mais de voc\u00ea, e pagaremos muito bem por isso.<\/p>\n<p>E tendo dito isto, girou nos calcanhares e adentrou de novo sua imperscrut\u00e1vel sala.<\/p>\n<p>Rosana saiu de l\u00e1 sentindo-se ainda a\u00e9rea, sabia que sua remunera\u00e7\u00e3o mais que dobraria, mas sabia tamb\u00e9m que teria imensas responsabilidades, seis andares e tr\u00eas subsolos de responsabilidade sob si, al\u00e9m do t\u00e9rreo, aquele in\u00fatil espa\u00e7o onde vagavam sem rumo os malditos clientes pessoa f\u00edsica com seus min\u00fasculos problemas.<\/p>\n<p>Chegou em seu setor a tempo de ver a horrorosinha da Ana Mamede saindo para almo\u00e7ar, trotando suas pernas tortas e sua bunda fl\u00e1cida. Entrou na sala e contemplou todos aqueles terminais executando a prote\u00e7\u00e3o de tela institucional, todas aquelas pilhas de pap\u00e9is cuidadosamente desordenados e tomou consci\u00eancia do cheiro de resina e de fungos que tomava aquilo ali: cheirou a si mesma e quase n\u00e3o acreditou que tivesse podido suportar trabalhar em lugar t\u00e3o detest\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sentou-se em seu trono elevado, no \u00e2ngulo nordeste da sala retangular e come\u00e7ou a chorar. Rosana, a impass\u00edvel, se comovia diante da iminente agonia, agora definitiva, da pobre Zaninha amorda\u00e7ada e triste. Rosana antevia, impiedosa, um classificado de jornal &#8220;vende-se guitarra el\u00e9trica&#8221;. Levantou-se tr\u00eamula e olhou de novo seu pequeno feudo de computadores, papel, gavetas e escritur\u00e1rios. &#8220;Qual dos idiotas vou nomear para meu lugar?&#8221; Resolveu o \u00f3bvio: o maldito do Dante, aquele empertigado de uma figa que tinha tanta dificuldade em sorrir quanto tinha em fazer com m\u00e9todo as coisas que lhe mandava executar. Apesar de distra\u00eddo e carrancudo, era o \u00fanico que conhecia o servi\u00e7o de cabo a rabo e tinha compet\u00eancia suficiente para mandar cada um fazer o que devia.<\/p>\n<p>Em algum lugar de sua mente morriam os \u00faltimos acordes de &#8220;Purple Haze.&#8221; Ent\u00e3o notou um quadro torto na parede, justo o que expressava a miss\u00e3o da empresa. &#8220;Malditos faxineiros porcos&#8221;, xingou e foi at\u00e9 l\u00e1 retificar sua posi\u00e7\u00e3o. Notou ent\u00e3o que havia algo por tr\u00e1s. Movida pela curiosidade, deslocou o quadro e viu uma portinhola de cofre.<\/p>\n<p>N\u00e3o tinha segredo, apenas uma fechadura grosseira, do tipo que se usava no s\u00e9culo XVII ou antes. Com o grampo de cabelo e a experi\u00eancia de l\u00edder estudantil que j\u00e1 fora presa em greve, abriu em dois segundos e viu o que havia dentro: uma moeda. Pegou a moeda, fechou o cofre, arrumou o quadro, foi sentar-se outra vez.<\/p>\n<p>Era uma moeda curiosa, com uma ef\u00edgie indistinta de um lado e um desenho emaranhado do outro. Nenhuma indica\u00e7\u00e3o de origem ou valor, apenas uma inscri\u00e7\u00e3o <span style=\"font-variant: small-caps\">a.d. mccc &#8230; taxis et tass princ. hanseat.<\/span> Era de prata, obviamente, prata de lei. Seu formato ligeiramente irregular sugeria muita antiguidade. De posse da moeda Rosana Couto perdeu a vontade de ir em casa comer. Ligou para a empregada que n\u00e3o almo\u00e7aria com a fam\u00edlia e depois pediu uma marmita no restaurante da esquina. Ficou sentada na penumbra daquele cub\u00edculo subterr\u00e2neo adorando a possibilidade de subir para o sexto andar.<\/p>\n<p>Comeu na cantina do subterr\u00e2neo, revendo planos, sonhando com f\u00e9rias sempre adiadas usando as gordas reservas que teria gra\u00e7as ao sal\u00e1rio de oito mil reais por m\u00eas (&#8220;quanto mesmo ganha um gerente de n\u00edvel tr\u00eas?&#8221;). Em algum lugar Zaninha chorava, Rosana por\u00e9m se enrijecia cada vez mais. &#8220;Ser\u00e1 por pouco tempo, em quatro anos no m\u00e1ximo j\u00e1 terei um bom p\u00e9-de-meia e ent\u00e3o vou poder reunir de novo as meninas e tentar gravar nosso disco&#8221; &#8212; mentia para si enquanto Zaninha morria.<\/p>\n<p>Quando terminou de comer, contemplou a moeda e viu, espantada, que a ef\u00edgie ali estampada era parecid\u00edssima com a sua pr\u00f3pria. Guardou de novo a moeda no bolso pensando em mostr\u00e1-la para o Roberto. Zaninha tentava respirar, mas uma manopla quebrava seus dentes.<\/p>\n<p>Quando Dante chegou para o turno da tarde, chamou-o a um canto e comunicou-lhe sua decis\u00e3o. Deu-lhe insinceros parab\u00e9ns, pensando apenas na pr\u00f3pria ascens\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Deixo-o com a responsabilidade de continuar com compet\u00eancia o trabalho que era feito aqui, compet\u00eancia que me levou a subir. Siga firme e venha para cima junto comigo.<\/p>\n<p>Dante assentiu com a cabe\u00e7a e Rosana saiu mais cedo para compensar a hora de almo\u00e7o n\u00e3o vivida.<\/p>\n<p>No dia seguinte, pela manh\u00e3 do cent\u00e9simo quarto dia sem sexo no casamento, ap\u00f3s uma noite infernal de c\u00f3licas, beijou maquinalmente a face do pequeno Artur e despediu-se secamente do Roberto. Sequer tivera tempo de mostrar-lhe a maldita moeda.<\/p>\n<p>Chegando ao pr\u00e9dio, certificou-se de que tudo n\u00e3o fora um sonho: sobre sua mesa jazia um envelope pardo contendo seu novo crach\u00e1: branco, n\u00e3o mais laranja. Galeno Borges, um dos gerentes do s\u00e9timo andar veio dar-lhe boas vindas e uma recomenda\u00e7\u00e3o segura:<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Leva apenas objetos pessoais. Esta fase de sua vida morre aqui.<\/p>\n<p>Subir o elevador naquela manh\u00e3 foi como abandonar cinco anos de sua vida, ao pre\u00e7o de quatro mil reais e uma guitarra por m\u00eas.<\/p>\n<p>Ao lado de sua mesa agora havia uma janela, fosca mas ainda assim transparente o bastante para que ela pudesse contemplar a paisagem m\u00f3rbida do formigueiro humano de onde imergia cada manh\u00e3, maquiada e vestida. De vez em quando via o dorso de um p\u00e1ssaro que passava voando e sentia um desconforto no bra\u00e7o, uma tosse no peito, uma vontade incongruente de ter sido outro o rumo de sua vida.<\/p>\n<p>Tomou um anti-\u00e1cido e come\u00e7ou a manipular canhestramente o terminal, mas o desconforto n\u00e3o cedia, parecia confundido com as c\u00f3licas e com a morte de Zaninha, finalmente. At\u00e9 que, de repente, sem outro aviso al\u00e9m dos que tivera ao longo de cinco anos e uma guitarra de vida, uma dor pungente apertou seu peito e os olhos come\u00e7aram a faiscar como se mil dem\u00f4nios riscassem o ar no meio de uma noite escura. Quando gritou, n\u00e3o conseguiu saber se ouviram. N\u00e3o havia equipe de primeiros socorros a tempo, Rosana Couto virou uma estat\u00edstica m\u00e9dica, uma ap\u00f3lice que sofreu sinistro, um processo por danos morais, uma pens\u00e3o da previd\u00eancia privada e um pote de cinzas espargidas, conforme o confuso desejo de um testamento redigido nove anos antes e quase esquecido em um tabeli\u00e3o suburbano, sobre as \u00e1guas de um regato rural desconhecido do Doutor Brito, um lugar onde certa noite dois jovens fizeram amor sob o luar e se apaixonaram tocando m\u00fasicas dos Beatles em um viol\u00e3o empenado, av\u00f4 de uma guitarra que ficara por tr\u00eas anos sem dar ao mundo um acorde.<\/p>\n<p>Mas o Doutor Brito, que de nada disso poderia saber, teve a iniciativa inteligente de homenagear a valorosa funcion\u00e1ria falecida nomeando no cargo que deixava vago o seu designado bra\u00e7o direito, Dante Flores da Costa, um jovem que exemplarmente mostrava a cara de um novo Banco V\u00eanus, um funcion\u00e1rio que, por sua compet\u00eancia e dedica\u00e7\u00e3o, atingia uma ger\u00eancia de n\u00edvel tr\u00eas com meros doze anos de casa, tendo recebido em dois dias seguidos duas promo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rosana se sentia enterrada cada vez que penetrava o recinto ass\u00e9ptico e formal daquele imenso edif\u00edcio de cimento e vidro em que trabalhava. Para entrar ali tinha de se vestir com a formalidade que n\u00e3o se usa mais nem para ir a casamentos: terninho, len\u00e7o ao pesco\u00e7o, maquiagem, cabelo preso, sapatos pretos de salto, joias de prata discretas e \u00f3culos sem aro. Depois que entrava e mostrava seu crach\u00e1 na portaria, deixava de ser a Zaninha do Andr\u00e9 e passava a ser Dona Rosana Couto, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[63,88,89,47],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/523"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=523"}],"version-history":[{"count":7,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/523\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5365,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/523\/revisions\/5365"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=523"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=523"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=523"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}