{"id":524,"date":"2009-04-21T08:23:00","date_gmt":"2009-04-21T11:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=524"},"modified":"2017-11-02T14:10:06","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:06","slug":"a-pilastra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/04\/a-pilastra\/","title":{"rendered":"A Pilastra"},"content":{"rendered":"<p>Fernanda recebia cada bloco de m\u00e1rmore como outro desafio. Havia muitos, mutilados, espalhados pela sua oficina. Com o tempo aprendera a emendar seus erros transformando grandes obras em pequenos objetos. Uma est\u00e1tua fracassada virava um monte de pequenos ornamentos, utens\u00edlios, pesos de papel em formatos variados. Liberta da necessidade de produzir algo grandioso, infundia ao m\u00e1rmore a inoc\u00eancia de cachorrinhos, escaravelhos, palhacinhos. Tais min\u00fasculas manifesta\u00e7\u00f5es migravam de seus sonhos para suas m\u00e3os e se instalavam na pedra como garatujas de uma adolescente em um caderno macio. A \u00fanica diferen\u00e7a era que o m\u00e1rmore era um caderno cruel, que exigia calos e perseveran\u00e7a at\u00e9 nestas pequenas travessuras inconsequentes.<\/p>\n<p>Aquele bloco era outro. Outro infeliz peda\u00e7o arrancado do seio da terra e trazido diante de uma escultora incipiente para ser retalhado por seu cinzel inseguro at\u00e9 partir-se inesperadamente e causar l\u00e1grimas de espanto e remorso na aluna inepta, mas devota. Uma outra massa a por fim jazer pelas prateleiras como uma mir\u00edade de m\u00ednimas amenidades, mercadorias almejadas por meninas tolas, mas ignoradas pelos insignes e doutos instrutores, portadores de s\u00e9culos acad\u00eamicos de f\u00f3rmulas, mas isentos de piedade em suas f\u00fateis exig\u00eancias. Mas como era belo! Os veios rosados percorriam a rudeza sem arremates da rocha. Desenhos sugeridos pelas cores povoavam os pensamentos de Fernanda enquanto acariciava a superf\u00edcie \u00e1spera e manejava amea\u00e7adoramente o martelo com a m\u00e3o sinistra.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0O que faria de voc\u00ea? &#8212; perguntou, j\u00e1 no futuro do pret\u00e9rito, plana de consci\u00eancia de que fracassaria.<\/p>\n<p>Ergueu com a m\u00e3o direita o cinzel j\u00e1 meio cego e mediu alguma coisa que estava dentro da pedra. Mirou num olho que piscava atrav\u00e9s das manchas minerais. Sopesou o martelo e tocou com o cinzel frio uma greta impercept\u00edvel. Bateu pela primeira vez e sentiu o conforto das lascas agredindo dua pele. Mas parou. Chorava. Que direito tinha de seviciar daquela forma um puro m\u00e1rmore?<\/p>\n<p>Tocou o telefone. Interrompeu sua hesita\u00e7\u00e3o e deixou que o martelo e o cinzel ca\u00edssem pelo ch\u00e3o em um estardalha\u00e7o inadequado.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Quem \u00e9?<\/p>\n<p>Algu\u00e9m do outro lado da linha se esfor\u00e7ava para cuspir uma frase que entalara na garganta.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Quem?\u2026<\/p>\n<p>De repente Fernanda se lembrou e quase que deixou cair tamb\u00e9m o telefone.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Luzimar?<\/p>\n<p>Era ele mesmo. Continuava t\u00edmido como nos tempos de segundo grau, continuava com sua voz rouca e fina, certamente continuava tamb\u00e9m com suas sardas, seu aparelho ortod\u00f4ntico e seus cabelos despenteados.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0P-preciso falar com v-voc\u00ea &#8212; gaguejou ele.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Como soube o meu n\u00famero?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0P-pelo s-seu end-dere\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0E como soube do meu endere\u00e7o?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Eu moro no m-mesmo p-pr\u00e9dio q-que v-voc\u00ea\u2026<\/p>\n<p>Fernanda quase caiu de costas ao ouvir a campainha tocar. Desligou o telefone e correu at\u00e9 a porta. Pelo olho m\u00e1gico aparecia um homem alto e moreno, de sorriso torto e triste, mas belo. Estava trajado com um terno t\u00e3o fora de moda que parecia ter sido sobra do invent\u00e1rio de um defunto. E tinha um bot\u00e3o de rosa \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<p>Talvez Fernanda n\u00e3o tivesse deixado Luzimar entrar se n\u00e3o fosse o ex-colega tolinho do segundo grau, talvez tivesse se sentido insegura por estar despenteada, interrompida que fora no meio de um estudo. Mas deixou.<\/p>\n<p>Luzimar ofereceu-lhe o bot\u00e3o de rosa e olhou-a de um jeito divertido, talvez aliviado em sua tens\u00e3o por v\u00ea-la empoeirada, desgrenhada, e com o esmalte das unhas em lament\u00e1vel decad\u00eancia. Ela sorriu e disse apenas &#8220;que surpresa&#8221;, &#8220;h\u00e1 quanto tempo&#8221;, &#8220;como voc\u00ea mudou&#8221; e todas estas frases absolutamente sem sentido que as pessoas trocam por puro costume quando encontram algu\u00e9m que n\u00e3o t\u00eam visto h\u00e1 algum tempo.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Mas a que devo a lembran\u00e7a? &#8212; teve de ousar perguntar depois que o estoque de &#8220;nada a dizer&#8221; terminou.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Eu a tenho ouvido bater. A princ\u00edpio n\u00e3o sabia que era voc\u00ea, pois esse pr\u00e9dio \u00e9 t\u00e3o grande e esse seu apartamento de subsolo fica t\u00e3o isolado. T\u00e3o isolado que eu nem sabia que havia apartamentos no subsolo.<\/p>\n<p>A fala de Luzimar havia se firmado. Ele continuava rouco, mas conseguira trazer o tom de voz para dentro da faixa de frequ\u00eancia normalmente associada ao sexo masculino. Pronunciava as palavras com uma formalidade dolorosa, como se cada uma delas tivesse sido ensaiada por semanas &#8212; e realmente Fernanda imaginava que isso devia ter acontecido.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Eu o incomodei?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0N\u00e3o porque as batidas soavam distantes. Eu mesmo s\u00f3 as ouvia quando encostava a cabe\u00e7a nesta pilastra.<\/p>\n<p>Uma das gigantescas pilastras de concreto e ferro que sustentavam o paquid\u00e9rmico espig\u00e3o formava um lado de uma das paredes da oficina de Fernanda.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Quando me mudei, h\u00e1 seis meses, pus a cabeceira de minha cama junto a esta pilastra. Logo na primeira noite eu batidas distantes, como algu\u00e9m brincando com os dentes de um pente. Depois as batidas ficaram mais n\u00edtidas, como algu\u00e9m tocando uma celesta fora de ritmo.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0O que \u00e9 uma celesta?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Ora, um daqueles pianinhos que tem barras de ferro em vez de cordas.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0E depois?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Comecei a procurar saber do que se tratava. Perguntei a muita gente. Ningu\u00e9m soube me dizer.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0N\u00e3o sei se voc\u00ea sabe, mas eu fiz quest\u00e3o de isolar acusticamente esse apartamento para evitar problemas com os vizinhos. Todas as minhas portas t\u00eam batentes de corti\u00e7a, inclusive no r\u00e9s-do-ch\u00e3o. Todas as minhas paredes receberam uma camada de isopor debaixo do reboco e todas as janelas t\u00eam caixilhos exatos e, como voc\u00ea pode ver, persianas de madeira com contatos de corti\u00e7a tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Ao falar isso Fernanda come\u00e7ou a tremer de medo. Quando fora a \u00faltima vez que ousara trazer um homem ao apartamento? Tentou lembrar e n\u00e3o conseguiu. Nunca. Sempre fizera quest\u00e3o de ir a outros lugares, mas nunca trazia ningu\u00e9m ao seu esconderijo subterr\u00e2neo. Por que? Instintivamente ela temia que seu lar herm\u00e9tico impedisse que algu\u00e9m ouvisse algum grito de socorro se alguma coisa desse errado. E Fernanda estava por demais calejada com coisas que d\u00e3o errado. Mais do que blocos de m\u00e1rmore, os homens tamb\u00e9m sempre davam errado e em vez da Grande Obra de uma fam\u00edlia eles a deixavam com miniaturas de felicidade em forma de fotos e saudades, quando n\u00e3o a abandonavam nua e s\u00f3, com gelo na alma e na pele, hematomas.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0E como voc\u00ea me descobriu aqui? E por que veio at\u00e9 aqui?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Uma dia, antes mesmo de saber que voc\u00ea era &#8220;o esp\u00edrito batedor&#8221;, eu a vi entrar. Reconheci imediatamente a Fernanda que estudara comigo no Col\u00e9gio do Carmo. Voc\u00ea, de certa forma, me fez esquecer o <em>poltergeist<\/em> do pr\u00e9dio e eu passei a pensar somente em maneiras de me aproximar de voc\u00ea.<\/p>\n<p>Fernanda come\u00e7ou a se sentir meio lisonjeada e meio apreensiva. Lembrava de Luzimar como um rapazola pobre e recalcado, que ia \u00e0 aula com sapatos formais, cal\u00e7as impecavelmente vincadas, camisas imaculadamente brancas. Ele escrevia em cadernos baratos, mas que jamais conheceram um vinco, que jamais perderam uma folha para fazer um avi\u00e3o de papel ou para um rabisco. Escrevia com canetas da pior qualidade, mas que em suas m\u00e3os duravam dolorosamente at\u00e9 o fim, sem uma mordida na tampa. Sentia sua presen\u00e7a como a de um met\u00f3dico psicopata.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0E como me descobriu, afinal! &#8212; perguntou, sofregamente.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Pela lista telef\u00f4nica.<\/p>\n<p>Fernanda desviou o olhar para a mesinha de canto, na qual estava o volume desajeitado do cat\u00e1logo. Sim, ela figurava na lista.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Seu nome estava l\u00e1, &#8220;Fernanda R Ramos&#8221;. Residente no Apartamento R-21 do subsolo.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Ent\u00e3o voc\u00ea me ligou.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Sim. Eu estava muito nervoso, porque n\u00e3o sabia como voc\u00ea reagiria, depois de tantos anos, depois de tudo.<\/p>\n<p>Fernanda se lembrava, claro. De como humilhara o pobre Luzimar lendo em voz alta para a turma os versos tortos com que ele, coitado, tentara conquist\u00e1-la.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Mas o que voc\u00ea quer de mim?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Um trabalho. Quando eu descobri que voc\u00ea era escultora, resolvi convid\u00e1-la a fazer a capa de meu livro.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Que id\u00e9ia! Como uma escultora pode fazer a capa de um livro?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Eu sou fot\u00f3grafo amador. Penso em fotografar uma escultura sua e usar a imagem como capa de meu novo livro.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0N\u00e3o seria melhor encomendar a um desenhista?<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Por mais talentoso que seja um desenhista, h\u00e1 certas sutilezas tridimensionais de luz e sombra que somente um objeto real, iluminado por uma luz real, consegue ter. Por isso eu preferiria que voc\u00ea me permitisse fotografar uma escultura sua e p\u00f4r na capa de meu livro, com o devido cr\u00e9dito, \u00e9 claro. Quanto custaria isso?<\/p>\n<p>Fernanda sentiu uma vertigem. Olhou de alto a baixo o corpo sempre esguio do Luzimar e lamentou por n\u00e3o ter mais talento. Lamentou estragar blocos de m\u00e1rmore que, no fim, resultavam em quinquilharias para vender na feira hippie em vez de em novas obras primas para as ilhas de cultura no obscuro oceano de ignor\u00e2ncia que circunda o mundo.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0N\u00e3o tenho nenhuma obra grande, no momento &#8212; admitiu, envergonhada.<\/p>\n<p>Luzimar n\u00e3o pareceu se abalar.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Mostre-me ent\u00e3o uma de suas pequenas obras primas. Ser pequena at\u00e9 facilitar\u00e1 o jogo de luzes coloridas que pretendo usar para ressaltar as sombras.<\/p>\n<p>E dizendo isso, fez sair do bolso uma c\u00e2mera digital e come\u00e7ou a inquirir com ela a personalidade do mont\u00e3o de artesanato apertado nas prateleiras.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0N\u00e3o!<\/p>\n<p>Fernanda se interp\u00f4s inutilmente entre a lente e as estatuetas e utens\u00edlios, como uma mulher nua que precariamente tapa sua vergonha com as m\u00e3os.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0Por que n\u00e3o? &#8212; impiamente ele perguntou.<\/p>\n<p>&#8212;\u00a0N\u00e3o, Luzimar. Eu n\u00e3o sou uma artista, ainda. Eu n\u00e3o quero aparecer para o mundo com uma &#8220;coisa&#8221; destas.<\/p>\n<p>E chorando, empurrou a prateleira que caiu ruidosamente sobre o bloco, fazendo espalharem-se pelo ch\u00e3o sapos, cachorrinhos, porta-j\u00f3ias, fadinhas e duendes e toda esp\u00e9cie de coisa que as pessoas compram para enfeiar suas resid\u00eancias.<\/p>\n<p>O bloco de m\u00e1rmore, esse, n\u00e3o sentiu o golpe. Ele \u00e9 do tipo de coisa que s\u00f3 se doma em pequenas agress\u00f5es cotidianas, passa ileso pelas grandes trag\u00e9dias. Luzimar contemplou, pat\u00e9tico, a cena toda. Fernanda se sentou no ch\u00e3o, com uma perna esticada e outra encolhida, e cobriu o rosto com as m\u00e3os. Ouviu ent\u00e3o um ru\u00eddo r\u00edspido e uma luz amarela apareceu no ambiente. Abriu os olhos, mas a porta j\u00e1 se fechava.<\/p>\n<p>Levantou-se, t\u00e3o r\u00e1pido quanto p\u00f4de, e descal\u00e7a mesmo saiu pelo corredor na tentativa de alcan\u00e7ar o brutal, impiedoso e frio Luzimar, que levava no ventre maldito de sua m\u00e1quina fotogr\u00e1fica a cena lament\u00e1vel de sua vergonha. Mas ele j\u00e1 dobrava a esquina e tomava a escada que levava ao t\u00e9rreo e quando l\u00e1 chegou ele j\u00e1 se mesclava \u00e0 multid\u00e3o de cabe\u00e7as pretas que desciam e subiam, abrindo caminho a cotoveladas, pela ampla rua de pedestres. Retornou, arrasada, e se trancou no apartamento. Tomou o que supunha ser uma overdose de barbit\u00faricos e foi dormir, sem banho e sem esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Acordou no dia seguinte, j\u00e1 pela uma da tarde. S\u00f3 dava para saber a hora por causa do rel\u00f3gio el\u00e9trico, visto que as persianas herm\u00e9ticas estavam cuidadosamente cerradas. Saiu da cama como uma defunta abandonando o ata\u00fade, a for\u00e7a lhe faltava.<\/p>\n<p>Chegou a sala e contemplou na penumbra o mostrengo de m\u00e1rmore aboletado ali, testemunha de seu fracasso. Um envelope pardo havia sido introduzido atrav\u00e9s do complicado mecanismo isolado de recep\u00e7\u00e3o de correspond\u00eancia que instalara ao lado da porta. Abriu-o quase com medo, mas profundamente com raiva. Imaginando o que haveria dentro.<\/p>\n<p>Era ineg\u00e1vel que a c\u00e2mara de Luzimar era de excelente qualidade. O fort\u00edssimo <em>flash<\/em> iluminara adequadamente o ambiente e a cena ali restara reproduzida com a precis\u00e3o imposs\u00edvel que s\u00f3 existe nos piores pesadelos. L\u00e1 jazia ela, descomposta, entre um mar de in\u00fateis adere\u00e7os de m\u00e1rmore e um mon\u00f3lito impiedoso e virgem.<\/p>\n<p>Ficou a contemplar aquela foto por quase meia hora. Cada detalhe novo que nela percebia era uma gota de sangue que ca\u00eda do cad\u00e1ver enforcado de sua auto-estima. Pensou na mesada que ainda recebia do rico pai ausente: por quanto tempo ainda? Teve vontade de morrer, mas principalmente de ter uma outra vida.<\/p>\n<p>Num momento raro de vontade vencendo a in\u00e9rcia, levantou-se de onde estava, cal\u00e7ou apenas um sapato velho e atravessou a rua at\u00e9 a livraria para comprar os livros com a mat\u00e9ria de um concurso de que lhe haviam falado na semana anterior.<\/p>\n<p>Resolveu dedicar-se a isso. Nunca fora afeita a afazeres dom\u00e9sticos, n\u00e3o se imaginava dona de casa e nem herdeira, pelo menos n\u00e3o se via mais assim. Estudou e conseguiu um bom emprego em uma multinacional. No dia em que recebeu seu primeiro sal\u00e1rio rasgou o cheque da mesada e depois o emoldurou, como um s\u00edmbolo. Ao lado da fotografia recebida de Luzimar. Mas como do\u00eda ter abandonado tanto.<\/p>\n<p>Nunca ouviu falar de nenhum livro dele. Nunca viu a foto em capa alguma, ou em coisa alguma. Mas a chaga daquele momento n\u00e3o cicatrizava. Era como viver com a perspectiva de ser destru\u00eddo pela humilha\u00e7\u00e3o a qualquer instante. O tipo de sentimento que s\u00f3 pode resultar\u2026 em poesia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernanda recebia cada bloco de m\u00e1rmore como outro desafio. Havia muitos, mutilados, espalhados pela sua oficina. Com o tempo aprendera a emendar seus erros transformando grandes obras em pequenos objetos. Uma est\u00e1tua fracassada virava um monte de pequenos ornamentos, utens\u00edlios, pesos de papel em formatos variados. Liberta da necessidade de produzir algo grandioso, infundia ao m\u00e1rmore a inoc\u00eancia de cachorrinhos, escaravelhos, palhacinhos. 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