{"id":526,"date":"2009-03-30T07:27:00","date_gmt":"2009-03-30T10:27:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=526"},"modified":"2017-11-02T14:10:06","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:06","slug":"os-jovens-johnnies","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/03\/os-jovens-johnnies\/","title":{"rendered":"Os Jovens Johnnies"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Eis que bem sabemos que certas pessoas, menores de idade no caso, s\u00e3o boas na escrita, desenvolvem bons textos. Por\u00e9m, ser\u00e1 que as editoras aceitariam obras destas? Eis a simples quest\u00e3o&#8221; \u2014 perguntou no Orkut um jovem que acha que escreve os <em>best-sellers<\/em> do futuro.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simples, n\u00e3o. As editoras n\u00e3o tem qualquer preconceito espec\u00edfico contra menores de idade: as mesmas dificuldades enfrentadas por um petiz para publicar seu livro ser\u00e3o enfrentadas por um adulto. Mas eu n\u00e3o acredito que seja f\u00e1cil para ningu\u00e9m, especialmente se voc\u00ea n\u00e3o reside num grande centro e n\u00e3o tem algum contato com o meio.<\/p>\n<p>A primeira coisa a se considerar \u00e9 que \u00e9 uma excepcionalidade que algu\u00e9m t\u00e3o jovem escreva realmente bem, talentos do quilate de Rimbaud n\u00e3o d\u00e3o em \u00e1rvore. Depois, mesmo escrevendo bem, dificilmente algu\u00e9m t\u00e3o jovem est\u00e1 pronto para publicar. N\u00e3o sem a influ\u00eancia e a revis\u00e3o de um Verlaine.<\/p>\n<p>Mas abstraindo totalmente a quest\u00e3o objetiva da idade e a subjetividade da &#8220;qualidade&#8221; (coisa que todo mundo acha que tem e fica ofendido se algu\u00e9m diz que n\u00e3o), entra em quest\u00e3o como ter acesso ao mercado editorial. Embora eu n\u00e3o tenha a m\u00ednima ideia de como esse \u00e9 mercado \u00e9 visto de dentro para fora, ou seja, pelas equipes das editoras, o que eu vejo de fora para dentro \u00e9 preocupante.<\/p>\n<p>Existe por parte do p\u00fablico brasileiro um fasc\u00ednio pelo estrangeiro, que faz com que os escritores jovens cheguem a adotar pseud\u00f4nimos estrangeiros e batizem seus personagens de Johnnies e Steves. Entre publicar uma obra de um jovem brasileiro que imita Stephen King ou J. K. Rowling as editoras sempre preferir\u00e3o publicar os originais. Sabe por que? Os johnnies tupiniquins podem vender ou n\u00e3o, mas os originais estrangeiros j\u00e1 venderam, j\u00e1 provaram que s\u00e3o bons e podem ser rapidamente traduzidos a tempo de serem anunciados como &#8220;os mais vendidos na Lista do New York Times&#8221;.<\/p>\n<p>H\u00e1 editoras que at\u00e9 d\u00e3o certo apoio aos novatos (no sentido de que publicam se eles pagarem), mas o p\u00fablico tamb\u00e9m \u00e9 arredio. O p\u00fablico desconfia. Eu ainda n\u00e3o vi nenhum <em>johnnie<\/em> chegando ao estrelato liter\u00e1rio \u2014 e duvido que veja \u2014 porque \u00e9 mais barato em termos de custo e oportunidade para uma editora pegar o mais recente sucesso liter\u00e1rio americano, alem\u00e3o ou ingl\u00eas. H\u00e1 menos investimento em uma republica\u00e7\u00e3o do que na publica\u00e7\u00e3o de um original de qualidade duvidosa.<\/p>\n<p>Mesmo que n\u00e3o fosse totalmente assim, eu confesso que n\u00e3o desejo nenhuma boa sorte aos <em>johnnies<\/em>. Desejo mesmo \u00e9 que eles continuem dando murro em ponta de faca, que se frustrem e desistam, que percam cada centavo que investirem em si. Eu sou um nacionalista: acredito que a \u00fanica chance de liberdade e prosperidade que temos est\u00e1 em lutarmos por nossos interesses em vez de servir aos interesses estrangeiros. Para n\u00f3s, o nosso pa\u00eds \u00e9 nossa casa. Para o estrangeiro, ele \u00e9 uma col\u00f4nia, um bordel para as f\u00e9rias ou uma praia bonita. E entre as muitas maneiras de defender nossa liberdade e nossa prosperidade est\u00e1 lutar por nossa cultura \u2014 que inclui nossa l\u00edngua, essa mesma que hoje em dia as pessoas acham que n\u00e3o precisa escrever direito nem falar bem.<\/p>\n<p>Muitos desses que acham que escrever bem \u00e9 elitismo estudam ingl\u00eas e aprendem um padr\u00e3o liter\u00e1rio muito mais conservador do que a norma culta do portugu\u00eas, a odiosa <em>Received Pronunciation<\/em>, um instrumento da centraliza\u00e7\u00e3o cultural e pol\u00edtica do Reino Unido e uma das armas que mataram l\u00ednguas milenares, como o ga\u00e9lico-escoc\u00eas, o c\u00f3rnico, o manqu\u00eas e que quase mataram o gal\u00eas e o irland\u00eas. Esses mesmos que adoram a &#8220;espontaneidade&#8221; da l\u00edngua do povo aprendem ingl\u00eas com regras derivadas de manuais de reda\u00e7\u00e3o muito mais normativos do que a gram\u00e1tica do Napole\u00e3o.<\/p>\n<p>Vivemos hoje um processo de assimila\u00e7\u00e3o semelhante ao vivido por pa\u00edses que sofriam violentos processos de coloniza\u00e7\u00e3o. Processos que resultaram, em lugares como Irlanda, Gales, \u00c1frica do Sul e Canad\u00e1, na morte de l\u00ednguas regionais e no estabelecimento impositivo do ingl\u00eas como &#8220;l\u00edngua civilizada&#8221;. Muito j\u00e1 se escreveu sobre o estupro da Irlanda e do Pa\u00eds de Gales nas m\u00e3os dos ingleses, mas pouca gente l\u00ea. \u00c9 curioso que tanta gente aceite a hegemonia do ingl\u00eas, considerando que h\u00e1 bem pouco tempo odiar os ianques era uma esp\u00e9cie de esporte nacional por estas bandas (ou seja, como esporte, n\u00e3o era levado realmente a s\u00e9rio).<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a \u00e9 que o Brasil n\u00e3o est\u00e1 sendo submetidos a um processo de &#8220;doma e castra\u00e7\u00e3o&#8221; semelhante ao executado pela Espanha na Gal\u00edcia ou pela Inglaterra no Pa\u00eds de Gales. N\u00e3o \u00e9 pela for\u00e7a que o ingl\u00eas se imp\u00f4s, mas pelo fasc\u00ednio. Somos tolerantes demais \u00e0 influ\u00eancia estrangeira. N\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de ser xen\u00f3fobo, \u00e9 quest\u00e3o de ser realista.<\/p>\n<p>E o que isso tem a ver com os jovens talentos? Muito. Os jovens talentos nascem nesse cen\u00e1rio de imposi\u00e7\u00e3o do ingl\u00eas, nascem sem auto-estima, condicionados a pensar que n\u00e3o se consegue escrever uma boa hist\u00f3ria de terror ambientada no Brasil ou que personagens brasileiros n\u00e3o funcionam em hist\u00f3rias de suspense.<\/p>\n<p>Eles sentem isso porque antes de terem qualquer &#8220;odiado&#8221; escritor brasileiro eles leram tradu\u00e7\u00f5es baratas de <em>best-sellers<\/em> americanos.<\/p>\n<p>Desta forma, mesmo que tenham talento, ser\u00e1 apenas por exce\u00e7\u00e3o que algum deles ter\u00e1 maturidade e cultura para produzir uma obra relevante, dotada de identidade pr\u00f3pria, desimpedida de tapa-olhos. E se produzirem, ser\u00e1 ignorada em um cen\u00e1rio onde caracter\u00edsticas brasileiras s\u00e3o vistas como mau gosto ou caricatura no texto liter\u00e1rio. Tal como tenho notado nas rea\u00e7\u00f5es das pessoas ao meu projeto &#8220;Serra da Estrela&#8221;: personagens e lugares s\u00e3o todos inspirados no interior de Minas Gerais, mas as rea\u00e7\u00f5es das pessoas que leem os primeiros cap\u00edtulos avulsos que andei mostrando s\u00e3o de estranhamento; tendo havido j\u00e1 quem disse que gostou por causa do &#8220;exotismo&#8221;. Para a juventude brasileira, o Brasil \u00e9 ex\u00f3tico.<\/p>\n<p>Os pobres <em>johnnies<\/em> que sonham em ser escritores ainda padecem de uma ilus\u00e3o cruel: a de que bastar\u00e1 escrever bons livros. O conceito de &#8220;bom&#8221; \u00e9 relativo. Um livro escrito por um adolescente de quatorze anos pode ser muito &#8220;bom&#8221; considerando o que se espera que escreva algu\u00e9m dessa idade, mas n\u00e3o ter, ainda assim, nenhum valor perante o mundo liter\u00e1rio. Afinal, a obra liter\u00e1ria n\u00e3o \u00e9 avaliada em termos relativos, ou em termos de recompensa ao esfor\u00e7o, mas em termos absolutos. A conseq\u00fc\u00eancia disso? Algu\u00e9m que \u00e9 elogiado como um grande talento na adolesc\u00eancia acha que j\u00e1 est\u00e1 pronto e se decepciona quando lhe mostram as fraquezas de seu texto. N\u00e3o percebe que \u00e0 medida em que cresce (f\u00edsica e mentalmente) precisa continuar evoluindo para continuar sendo bom. Caso contr\u00e1rio, a idade o ultrapassa.<\/p>\n<p>Esses jovens, quando chegarem aos vinte e cinco anos, v\u00e3o olhar para tr\u00e1s e dizer: &#8220;mas todo mundo dizia que eu tinha talento! por que n\u00e3o deu certo?&#8221; N\u00e3o deu certo porque quando um adolescente passa a ser adulto ele precisa escrever como adulto. As pessoas fazem certos elogios a quem tem quatorze anos na esperan\u00e7a de que se animem e cres\u00e7am. Mas quando voc\u00ea tem vinte, est\u00e1 na hora de criar vergonha na cara e parar de esperar elogios para mexer seu traseiro gordo.<\/p>\n<p>Por fim, existe em nosso pa\u00eds toda uma estrutura para fabricar iludidos liter\u00e1rios. Quando voc\u00ea est\u00e1 na escola sempre tem o jornalzinho que vai publicar suas toscas quadrinhas como se fossem obras primas. Tem o professor que escreve &#8220;genial&#8221; \u00e0 margem de sua composi\u00e7\u00e3o. Tem a revista liter\u00e1ria que tem um espa\u00e7o para divulga\u00e7\u00e3o de &#8220;talentos juvenis&#8221;, tem o projeto da Prefeitura que busca escritores mirins etc.<\/p>\n<p>Mas quando voc\u00ea deixa de ser um estudante que escreve boas composi\u00e7\u00f5es, descobre que n\u00e3o h\u00e1, fora do ninho morno do sistema educacional, nenhuma estrutura para desenvolver-se. Nenhuma revista que aceite cr\u00f4nicas e contos, nenhum jornal de poesia. Apenas a internet, e seu grande sil\u00eancio digital.<\/p>\n<p>E voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais um adolescente que \u00e9 elogiado por sua iniciativa de escrever, agora as pessoas te criticam pelo que voc\u00ea realmente sabe fazer.<\/p>\n<p>\u00c9 um golpe que vitima muitos talentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Eis que bem sabemos que certas pessoas, menores de idade no caso, s\u00e3o boas na escrita, desenvolvem bons textos. Por\u00e9m, ser\u00e1 que as editoras aceitariam obras destas? Eis a simples quest\u00e3o&#8221; \u2014 perguntou no Orkut um jovem que acha que escreve os best-sellers do futuro. A quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 simples, n\u00e3o. As editoras n\u00e3o tem qualquer preconceito espec\u00edfico contra menores de idade: as mesmas dificuldades enfrentadas por um petiz para publicar seu livro ser\u00e3o enfrentadas por um adulto. 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