{"id":536,"date":"2009-02-14T03:20:00","date_gmt":"2009-02-14T06:20:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=536"},"modified":"2017-11-02T14:10:07","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:07","slug":"o-que-seria-da-minha-rebeldia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/02\/o-que-seria-da-minha-rebeldia\/","title":{"rendered":"O Que Seria da Minha Rebeldia?"},"content":{"rendered":"<p>Em algum momento, em 1995, eu datilografei em uma p\u00e1gina de papel-of\u00edcio os seguintes versos: <q>O que seria \/ de minha rebeldia \/ se eu n\u00e3o fosse um rapaz da burguesia \/ acometido pelo t\u00e9dio da escrita \/ e um diploma superior?<\/q><\/p>\n<p>Decerto eu estava pensando nas pol\u00eamicas de Lob\u00e3o, artista cuja arte pouco me interessa, mas cuja filosofia sempre me instigou. Acho que se Jo\u00e3o Lu\u00eds W\u00f6nderbag escrevesse logo o primeiro volume de suas mem\u00f3rias produziria uma obra mais relevante que toda sua m\u00fasica junta.<\/p>\n<p>Minhas palavras tinham a ver com algo que j\u00e1 se notava em 1995, mas hoje est\u00e1 t\u00e3o escancarado que nem se pode mais deixar de ver: a rebeldia se transformou primeiro em uma est\u00e9tica, e hoje \u00e9 uma ideologia. Primeiro escavou seu nicho na cultura, hoje se tornou a face mais comum do sistema.<\/p>\n<p>Voc\u00ea sabe o que \u00e9 o &#8220;sistema&#8221;? Bem, metade dos revoltados do mundo falam mal dele mas parece que tampouco sabem. O sistema \u00e9 uma entidade abstrata, cada vez mais abstrata. Interessa-lhe que seja abstrato porque nos controla. Voc\u00ea reconhece um falso rebelde pelo simples fato de ele ter a permiss\u00e3o de ser um sucesso.<\/p>\n<p>Dia desses, enquanto lia um artigo surreal do Hermano Vianna elogiando Chimbinha e Joelma eu <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/02\/falacias-do-hermano-do-herbert-sobre-o-marido-da-joelma\/\">percebi com toda for\u00e7a<\/a> o que j\u00e1 se insinuava h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas: est\u00e1 havendo uma ideologiza\u00e7\u00e3o da arte, uma politiza\u00e7\u00e3o do fazer art\u00edstico. Trocando em mi\u00fados: as pessoas est\u00e3o analisando as obras de arte (sejam m\u00fasica, pintura, literatura ou outra coisa) n\u00e3o pelo seu valor propriamente dito, mas pela sua &#8220;postura&#8221; \u2014 real ou suposta \u2014 em rela\u00e7\u00e3o ao &#8220;sistema&#8221;.<\/p>\n<p>Hermano Vianna tece elogios quase sexualmente expl\u00edcitos a Chimbinha porque a Banda Calypso fez sucesso \u00e0 revelia do &#8220;sistema&#8221;, porque ela representa um sintoma de que a as &#8220;elites&#8221; (outra entidade abstrata que serve de Judas para o esquerdismo cultural) est\u00e3o &#8220;perdendo o controle&#8221;. A m\u00fasica da Banda Calypso n\u00e3o importa, o importante \u00e9 seu papel no combate ao sistema.<\/p>\n<p>Esse bolchevismo substituiu o coment\u00e1rio especializado sobre as caracter\u00edsticas da arte em si, vista como algo &#8220;elitista&#8221;. O pr\u00f3prio Hermano Vianna lamenta que Chimbinha n\u00e3o seja legitimado como artista, apesar dos milh\u00f5es de discos que vendeu \u2013 o tipo de discurso dos que defendem a prosa rala de Paulo Coelho. At\u00e9 mesmo o pseudo-funk \u00e9 tido por ele como um &#8220;movimento&#8221; (outro termo pol\u00edtico) que merecia ser tratado pela Secretaria de Cultura e n\u00e3o pela de Seguran\u00e7a P\u00fablica. Talvez porque na opini\u00e3o do cr\u00edtico exista algo de cultural nas mortes e na viol\u00eancia que cercam o &#8220;movimento&#8221;.<\/p>\n<p>Acontece que est\u00e1 na moda ser rebelde, embora o Brasil nunca tenha sido um pa\u00eds comunista (ou talvez exatamente por isto) as nossas elites culturais se travestem de profetas da revolu\u00e7\u00e3o pela via cultural, j\u00e1 que nunca conseguiram avan\u00e7ar na luta pela via pol\u00edtica devido \u00e0 acomoda\u00e7\u00e3o (j\u00e1 no s\u00e9culo XIX Martins Pena detectava que no Brasil ningu\u00e9m \u00e9 mais conservador que um liberal no poder). Esta revolu\u00e7\u00e3o cultural, \u00e9 claro, n\u00e3o passa de uma desculpa porque, feita pela via do popularesco, ela destr\u00f3i mais do que constr\u00f3i. Talvez alguns l\u00edderes de tal ideologia realmente achem que est\u00e3o limpando o trecho para o nascimento de uma nova cultura ou de um novo pa\u00eds, mas suspeito que muitos querem apenas ganhar dinheiro com isso. Porque hoje em dia a revolu\u00e7\u00e3o se transformou em uma lucrativa ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Desta forma, a &#8220;elite cultural&#8221; de nosso pa\u00eds resolveu se apropriar da est\u00e9tica popular e utiliz\u00e1-la como instrumento de sua influ\u00eancia sobre o pr\u00f3prio povo. Quanto mais vazia for esta est\u00e9tica popular, mais \u00fatil ela se torna como instrumento. O pseudo-funk que as elites querem que saia da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica n\u00e3o \u00e9 mais o g\u00eanero praticado por Cidinho e Doca, com sua mensagem de orgulho e amor-pr\u00f3prio (&#8220;Eu s\u00f3 quero \u00e9 ser feliz \/ andar tranq\u00fcilamente na favela em que eu nasci&#8221;), mas a trilha sonora de acasalamento de brontossauro cantada por pseudo-gente como o MC Cr\u00e9u (&#8220;Cr\u00e9u, cr\u00e9u, cr\u00e9u, cr\u00e9u, cr\u00e9u, cr\u00e9u, cr\u00e9u, cr\u00e9u, cr\u00e9u&#8221;).<\/p>\n<p>Da mesma forma, o popular por que se interessam estas elites n\u00e3o s\u00e3o artistas de talento nascidos no seio do povo, como a maravilhosa cantora baiana Virg\u00ednia Rodrigues, mas qualquer coisa que seja caricata e popularesca, que apresente o povo como uma massa desmiolada em permanente cio. E mesmo no seio do popularesco (que \u00e9 a pervers\u00e3o do popular) n\u00e3o escolhem artistas que trazem elementos de choque. N\u00e3o basta que seja ruim, \u00e9 preciso que seja um ruim sem discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Em &#8220;1984&#8221;, George Orwell predisse que no futuro as sociedades totalit\u00e1rias buscariam o controle do povo justamente pela difus\u00e3o de m\u00fasica ruim:<\/p>\n<blockquote><p>Aquela can\u00e7\u00e3o estivera assombrando Londres nas semanas anteriores. Era uma das incont\u00e1veis can\u00e7\u00f5es parecidas publicadas para benef\u00edcio dos prolet\u00e1rios por uma sub-se\u00e7\u00e3o do Departamento de M\u00fasica. As letras de tais can\u00e7\u00f5es eram compostas sem qualquer interven\u00e7\u00e3o humana em um instrumento conhecido como &#8220;versificador&#8221;.<\/p><\/blockquote>\n<p>E exatamente de que letra estamos falando? De uma que diz coisas assim:<\/p>\n<blockquote><p>Foi somente uma ilus\u00e3o sem sentido<br \/>Que passou como um dia de abril<br \/>Mas com um olhar e uma palavra<br \/>Os sonhos me agitaram<br \/>E roubaram meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n<p>E que tal compararmos isso com um dos recentes sucessos de certo cantor popular?<\/p>\n<blockquote><p>O que posso fazer<br \/>Se a vida \u00e9 assim<br \/>Apostei tudo em seus beijos<br \/>E assim mesmo te perdi<br \/>N\u00e3o me pe\u00e7a perd\u00e3o<br \/>N\u00e3o chore, por favor<br \/>Suas l\u00e1grimas s\u00e3o falsas<br \/>De mentira foi teu amor<br \/>N\u00e3o me diz mais nada<br \/>Nem sei como me enganou<br \/>Se a lua n\u00e3o \u00e9 queijo<br \/>Nem as nuvens de algod\u00e3o<br \/>Para que seguir mentindo<br \/>Com amor e ilus\u00e3o?<\/p><\/blockquote>\n<p>N\u00e3o existe rebeldia alguma nesta letra composta para emburrecer quem a ouvia e manter as massas sob controle. N\u00e3o existe rebeldia alguma nas letras da m\u00fasica popularesca que toca no r\u00e1dio hoje. E tamb\u00e9m n\u00e3o existe rebeldia alguma nas f\u00f3rmulas de rebeldia que os autores e compositores de hoje produzem.<\/p>\n<p>Em 1991 Lob\u00e3o j\u00e1 esculachara os rumos do pop nacional dizendo que num futuro n\u00e3o muito distante o r\u00e1dio estaria inteiramente ocupado por &#8220;rebeldes Barbie&#8221;: gente de pose rebelde que, no fundo, n\u00e3o t\u00eam nenhuma consci\u00eancia art\u00edstica e apenas seguem a f\u00f3rmula da moda.<\/p>\n<p>Segundo o Sr. W\u00f6nderbag estaria na moda ser rebelde, falar palavr\u00e3o, combater &#8220;o sistema&#8221;, usar drogas, fazer tatuagem, etc. Doze anos depois de suas prof\u00e9ticas palavras j\u00e1 tivemos RBD, hoje temos &#8220;Crep\u00fasculo&#8221; (com seus vampiros cuidadosamente desinfetados) e o pseudo-funk e o pseudo-calipso: o sistema abra\u00e7ou a rebeldia e a transformou em mais um departamento.<\/p>\n<p>Imagino que no futuro haver\u00e1 at\u00e9 associa\u00e7\u00f5es de anarquistas, clubes de rejeitados, vampiros que n\u00e3o chupam sangue, tarados que n\u00e3o estupram, assassinos que matam apenas em sonhos, etc. Tudo cuidadosamente planejado para que a arte seja sempre algo seguro, tal como os versos do brega Wanderley Andrade, cheios de duplo sentido e de ox\u00edmoros que fazem pensar:<\/p>\n<p><q>Sou um psicopata \/ Mas eu tenho muito amor \/ Pra dar, amor pra dar.<\/q><\/p>\n<p>Afinal, al\u00e9m dos quinze minutos de fama, todos temos o sagrado direito de sermos rebeldes dentro do curral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em algum momento, em 1995, eu datilografei em uma p\u00e1gina de papel-of\u00edcio os seguintes versos: O que seria \/ de minha rebeldia \/ se eu n\u00e3o fosse um rapaz da burguesia \/ acometido pelo t\u00e9dio da escrita \/ e um diploma superior? Decerto eu estava pensando nas pol\u00eamicas de Lob\u00e3o, artista cuja arte pouco me interessa, mas cuja filosofia sempre me instigou. Acho que se Jo\u00e3o Lu\u00eds W\u00f6nderbag escrevesse logo o primeiro volume de suas mem\u00f3rias produziria uma obra mais relevante que toda sua m\u00fasica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[20,26,114],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/536"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=536"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/536\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5375,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/536\/revisions\/5375"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=536"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=536"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=536"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}