{"id":537,"date":"2009-02-13T19:50:00","date_gmt":"2009-02-13T22:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=537"},"modified":"2017-11-02T14:10:07","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:07","slug":"falacias-do-hermano-do-herbert-sobre-o-marido-da-joelma","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2009\/02\/falacias-do-hermano-do-herbert-sobre-o-marido-da-joelma\/","title":{"rendered":"Fal\u00e1cias do Hermano do Herbert Sobre o Marido da Joelma"},"content":{"rendered":"<p>O artigo que motivou esta resposta j\u00e1 n\u00e3o se encontra on-line, apesar do <a href=\"https:\/\/www.w3.org\/Provider\/Style\/URI\">conselho de Tim Berns-Lee<\/a>, mas eu mantenho aqui o que escrevi porque ainda acredito que seja relevante.<\/p>\n<p><em>Chimbinha me deu de presente seu CD solo, chamado Guitarras que Cantam, hoje uma raridade que deveria ser relan\u00e7ada para os f\u00e3s conhecerem suas origens. Era um disco de guitarrada, claramente herdeiro das inven\u00e7\u00f5es dos mestres Vieira e Aldo Sena, que foram muito populares em toda a Amaz\u00f4nia no in\u00edcio dos anos 80, antes da febre da lambada. Sou f\u00e3 de guitarrada \u2014 ent\u00e3o foi f\u00e1cil ficar f\u00e3 do Chimbinha. As m\u00fasicas Dan\u00e7ando Calypso e Na Levada do Brega, que abrem o Guitarras que Cantam, est\u00e3o entre as minhas favoritas de todos os tempos.<\/em><\/p>\n<p>Nada como come\u00e7ar com um elogio totalmente despropositado. Quem musicalmente \u00e9 o Chimbinha para que um cr\u00edtico diga que duas de suas m\u00fasicas s\u00e3o suas &#8220;favoritas de todos os tempos&#8221;? Esse elogio n\u00e3o pode ser sincero ou ent\u00e3o o Hermano Vianna \u00e9 um imbecil que praticamente nunca ouviu m\u00fasica. Chimbinha ainda tem que comer muito pato no tucupi para p\u00f4r duas de suas m\u00fasicas entre as favoritas de todos os tempos de algu\u00e9m que entenda de m\u00fasica.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou desmerecendo o talento de Chimbinha, apenas lembrando que ele \u00e9 guitarrista no mesmo planeta onde j\u00e1 existiram ou ainda existem Jukka Tolonen, Celso Blues Boy, Jeff Healey, Steve Morse, Richie Blackmore. At\u00e9 Robertinho do Recife.<\/p>\n<p><em>O brega, se ningu\u00e9m ainda percebeu, \u00e9 rock. Digo mais: \u00e9 o mais amado e duradouro estilo do rock brasileiro. Tudo come\u00e7ou com a jovem guarda, e sua adapta\u00e7\u00e3o do rock internacional para o gosto popular nacional. Quando Roberto Carlos colocou em segundo plano as guitarras el\u00e9tricas e se transformou em cantor rom\u00e2ntico acompanhado por orquestras, a f\u00f3rmula inventada pela jovem guarda se descentralizou, primeiro passando pelo Goi\u00e1s de Amado Batista, depois pelo Pernambuco de Reginaldo Rossi, at\u00e9 chegar ao Par\u00e1 do ex-governador Carlos Santos, tamb\u00e9m cantor brega, autor de dezenas de discos.<\/em><\/p>\n<p>A Jovem Guarda foi uma porcaria melosa e sem raiz que apenas por exce\u00e7\u00e3o produziu algum artista de qualidade (mais por causa dos talentos dos artistas envolvidos do que pela qualidade do g\u00eanero). Hermano Vianna aponta com todas as letras o rumo (cada vez mais apelativo, popularesco e tosco) seguido pela degenera\u00e7\u00e3o da Jovem Guarda at\u00e9 desembocar, supostamente, no Calypso. E mesmo fazendo isso, ousa n\u00e3o botar o ded\u00e3o na ferida.<\/p>\n<p><em>Hoje Bel\u00e9m \u00e9 a capital do novo brega. Centenas de CDs s\u00e3o lan\u00e7ados anualmente, a princ\u00edpio para um consumo regional, mas que come\u00e7a a atingir tamb\u00e9m o p\u00fablico nordestino. Os m\u00fasicos locais j\u00e1 nem chamam o que fazem de brega, dizem que \u00e9 &#8220;calipso&#8221;, m\u00fasica mais &#8220;sofisticada&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Come\u00e7amos pelo tradicional &#8220;Apelo ao povo&#8221; (se o povo gosta, ent\u00e3o \u00e9 bom) com o leve suporte do &#8220;Apelo ao poder&#8221; (se lan\u00e7a centenas de CD\u2019s por ano, ent\u00e3o \u00e9 bom). A mudan\u00e7a de nome, uma decis\u00e3o de <em>marketing<\/em>, \u00e9 aceita como natural, mesmo que disfarce a origem impura do g\u00eanero.<\/p>\n<p><em>Chimbinha, com 23 anos, tocou guitarra em mais de 200 CDs, s\u00f3 em 1997. \u00c9 uma das maiores revela\u00e7\u00f5es entre novos m\u00fasicos brasileiros de qualquer estilo, sendo herdeiro direto das inven\u00e7\u00f5es de Renato dos Blue Caps \u2014 que criou o chacumdum da guitarra brega ao ser obrigado a tocar num disco de bolero, sem saber tocar bolero \u2014 e das guitarradas de Vieira.<\/em><\/p>\n<p>Ou seja, o prec\u00e1rio, o ignorante, o mal-feito, se torna uma est\u00e9tica.<\/p>\n<p><em>Posso falar alguma coisa? Legal, porque a nossa m\u00fasica paraense de hoje \u00e9 uma mesclagem do ritmo calipso com o twist, na onda de Jerry Lee Lewis. A gente deu muita sorte, porque hoje essa mesclagem, gra\u00e7as a Deus, roda em dezessete estados brasileiros. Essas ondas todas aqui n\u00e3o t\u00eam nada de rid\u00edculo. \u00c9 um papo dez, \u00e9 uma mistura de Nina Hagen, com aquela onda dos Sex Pistols, do Pink Floyd, do Dire Straits, e a\u00ed eu peguei o Pepeu Gomes daqui do Brasil e fizemos essa onda: o neg\u00f3cio \u00e9 s\u00e9rio. Sempre gostei de Elvis a Morengueira.<\/em><\/p>\n<p>Eu queria saber o que cantor quis dizer com isso. O que ele v\u00ea de Jerry Lee Lewis no brega paraense, o que v\u00ea de Nina Hagen.<\/p>\n<p>Existe uma concep\u00e7\u00e3o na &#8220;esquerda musical&#8221; brasileira segundo a qualquer tudo que seja misturado fica bom. Da\u00ed os cantores aprenderam que para ordenhar elogios da cr\u00edtica musical basta introduzirem elementos aleat\u00f3rios em suas m\u00fasica e citarem algumas refer\u00eancias cultas.<\/p>\n<p>Este trecho \u00e9 particularmente interessante porque embora Hermano Vianna tenha cultura musical suficiente para tra\u00e7ar a rota correta que liga a Jovem Guarda ao brega paraense, ele \u00e9 suficientemente devotado a elogiar para engolir a balela do cantor parense que citou todos estes nomes do rock para ele.<\/p>\n<p>Imagino que esse m\u00fasico deve estar at\u00e9 hoje rindo da cara do Hermano Vianna, porque ouvir um descerebrado dizer isso e dar cr\u00e9dito \u00e9 passar recibo de ot\u00e1rio.<\/p>\n<p><em>Era um tratamento de choque para a plat\u00e9ia paulistana, j\u00e1 um debate sonoro sobre o que \u00e9 tradi\u00e7\u00e3o musical no Brasil.<\/em><\/p>\n<p>Expor o povo de S\u00e3o Paulo a doses maci\u00e7as de m\u00fasica ruim de outras partes do Brasil com a desculpa de que &#8220;isso \u00e9 Brasil&#8221; \u00e9 mesmo algo an\u00e1logo a tratamento de choque: busca remover as resist\u00eancias do paciente e torn\u00e1-lo d\u00f3cil.<\/p>\n<p><em>O telefonema, de madrugada (a hora mais f\u00e1cil para encontr\u00e1-lo), durou horas. Chimbinha me contou tudo que havia acontecido desde a festa de lan\u00e7amento do M\u00fasica do Brasil. Falou de como perdeu todo o dinheiro que acumulou como m\u00fasico de est\u00fadio para manter a Banda Calypso nos seus primeiros anos, quando n\u00e3o tocava em nenhuma r\u00e1dio nem era contratada para nenhum show. Ele mesmo percorria todas as r\u00e1dios de poste (que t\u00eam alto-falantes espalhados nos postes das ruas de Bel\u00e9m) pedindo para suas m\u00fasicas serem programadas. Foi por causa de um desses alto-falantes de rua que um organizador de shows de Marab\u00e1, de passagem por Bel\u00e9m, ouviu a Calypso e convidou a banda para uma s\u00e9rie de apresenta\u00e7\u00f5es no sul do Par\u00e1. De l\u00e1 \u00e9 que seguiu para Pernambuco, onde passou meses fazendo show di\u00e1rios por uma ninharia. O sucesso aconteceu aos pouquinhos, entre v\u00e1rios momentos de desespero.<\/em><\/p>\n<p>Note que a argumenta\u00e7\u00e3o, que inicialmente desdenhara da Banda Calypso agora come\u00e7a a mencionar as agruras porque passou Chimbinha. Esta men\u00e7\u00e3o aos &#8220;tempos dif\u00edceis&#8221; do artista tem sempre o objetivo de preparar o leitor para sentir simpatia pelo elogiado da vez. Isto se chama &#8220;Apelo \u00e0 misericordia&#8221;. Hermano Vianna sabe que a m\u00fasica da Banda Calypso \u00e9 ruim, mas ele procura fazer com que gostemos dela atrav\u00e9s de nossa simpatia por algu\u00e9m que sofreu lutando pelo que acreditava. Mais que isso, ao mencionar a falta de espa\u00e7o na m\u00eddia, estamos usando a fal\u00e1cia do &#8220;apelo anti-autorit\u00e1rio&#8221;: aquilo que vai contra &#8220;o sistema&#8221; \u00e9 bom.<\/p>\n<p>Tais argumentos s\u00e3o bastante comuns, especialmente quando a m\u00fasica \u00e9 ruim. Artistas que fazem m\u00fasica boa n\u00e3o costumam gostar de expor sua vida pessoal.<\/p>\n<p><em>Eu respondi que a produ\u00e7\u00e3o poderia tentar alugar um jatinho. Do outro lado da linha: &#8220;avi\u00e3o eu tenho, o problema \u00e9 que l\u00e1 n\u00e3o tem pista de pouso.&#8221; A ficha caiu: logo descobri com quem eu estava falando &#8211; n\u00e3o era mais aquele garoto de 23 anos s\u00f3 com uma guitarra na m\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>De novo o &#8220;Apelo \u00e0 riqueza&#8221;. Depois de mostrar como Chimbinha sofreu quando era pobre, Hermano Vianna esfrega em nossa cara o quanto ele \u00e9 podre de rico. Construindo a imagem de que ele \u00e9 sucesso, poderoso, tenta convencer-nos a gostar de sua m\u00fasica.<\/p>\n<p><em>Depois de ultrapassar a poderosa barreira de seguran\u00e7as do condom\u00ednio Alphaville, cheguei numa mans\u00e3o luxuosa, com colunas na porta. Dentro, s\u00f3 a fam\u00edlia, os compositores e m\u00fasicos que trabalham com a banda, o pessoal que cuida da ag\u00eancia pernambucana que vende os shows, e alguns amigos, como Zez\u00e9 di Camargo.<\/em><\/p>\n<p>De novo a exalta\u00e7\u00e3o da riqueza e do sucesso. Ali\u00e1s, voc\u00eas notaram que Hermano agora quase n\u00e3o fala da m\u00fasica do Calypso? \u00c9 claro que o que importa n\u00e3o \u00e9 mais a arte, mas o produto oferecido.<\/p>\n<p><em>Joelma e Chimbinha trouxeram um chef de Santar\u00e9m \u2014 o melhor da culin\u00e1ria paraense, segundo o casal \u2014 para preparar o jantar com peixes frescos que chegaram na sua bagagem.<\/em><\/p>\n<p>Claro, tinha que ser o melhor cozinheiro do Par\u00e1\u2026 E peixes frescos vindo de bagagem\u2026<\/p>\n<p><em>Mesa posta, Chimbinha veio me apresentar cada prato. Ele falava sobre detalhes da vida de cada peixe (&#8220;este aqui gosta de nadar perto das pedras&#8221;), que n\u00e3o eram os peixes \u00f3bvios de todo restaurante amaz\u00f4nico. Perguntei curioso, achando que era um hobby biol\u00f3gico: &#8220;mas como voc\u00ea sabe isso tudo?&#8221; A resposta veio natural, n\u00e3o era nada para causar espanto: &#8220;ora, eu vendia peixe na feira com meu pai.&#8221; Nova ficha caiu, dessa vez com peso de toneladas. Meus olhos lacrimejaram, pensei comigo contendo o choro: &#8220;outro dia ele vendia peixe na feira, agora est\u00e1 aqui numa mans\u00e3o num condom\u00ednio em S\u00e3o Paulo, de um extremo a outro da injusta estrutura social do pa\u00eds, quase sem escalas, totalmente na marra\u2026 que s\u00edmbolo incr\u00edvel das mudan\u00e7as pelas quais o Brasil est\u00e1 passando!&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Agora o apelo emocional foi intenso. Hermano at\u00e9 narra suas l\u00e1grimas, decerto querendo que choremos tamb\u00e9m, querendo que admiremos Chimbinha.<\/p>\n<p>Outro componente importante aqui \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de que algu\u00e9m que veio do povo precisa ser valorizado. Mais uma vez se apela ao acess\u00f3rio, em vez do essencial: estamos falando de arte ou de inclus\u00e3o social? Estamos falando de pol\u00edtica ou de m\u00fasica?<\/p>\n<p><em>Pensei no Lula, que dorme hoje no Pal\u00e1cio da Alvorada, para inc\u00f4modo de muita gente (inc\u00f4modo parecido com aquele que gera o sucesso da Calypso\u2026)<\/em><\/p>\n<p>Agora Hermano Vianna quer nos fazer culpados: Em sua l\u00f3gica torta, \u00e9 errado, \u00e9 at\u00e9 preconceito n\u00e3o gostar da Banda Calypso. Porque o sucesso do povo incomoda as elites. Este discurso de pseudo-esquerda justifica a m\u00e1 qualidade, ali\u00e1s, a ignora, em nome de uma luta de classes cultural na qual o que importa \u00e9 o homem do povo ganhar dinheiro e respeito da elite.<\/p>\n<p>Fazer m\u00fasica que preste at\u00e9 nem importa.<\/p>\n<p><em>Chimbinha se fez sozinho do lado de l\u00e1 do cultural divide, sem gravadoras, sem televis\u00e3o, sem elogios da cr\u00edtica &#8211; eu mesmo, j\u00e1 f\u00e3, n\u00e3o tinha dado import\u00e2ncia para a sua banda.<\/em><\/p>\n<p>A legitima\u00e7\u00e3o pelo sucesso, argumentada por Hermano Vianna, nada mais \u00e9 do que o conhecido apelo ao povo. Infelizmente a voz do povo n\u00e3o \u00e9 a voz de deus: argumentos precisam de l\u00f3gica e isso \u00e9 algo que este texto nunca tem: o autor inventa desculpas e fal\u00e1cias para ter meios de falar bem de uma nulidade art\u00edstica, tal como Caetano Veloso, no dia de sua morte cultural, elogiando a voz da Tiazinha (quem?).<\/p>\n<p><em>Outros artistas das chamadas classes populares, para atingir o estrelato precisaram do apoio de mediadores de elite (mesmo Cartola &#8220;precisou&#8221; de S\u00e9rgio Porto\u2026) \u2014 agora meu anfitri\u00e3o estava inaugurando um outro caminho para o sucesso de massas, direto, sem o aval de ningu\u00e9m do &#8220;centro&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Interessante \u00e9 que esta media\u00e7\u00e3o da elite adicionava um polimento cultural ao talento natural. Cartola s\u00f3 foi autor de versos t\u00e3o perfeitos porque convivia com pessoas que falavam bem e que lhe apresentavam trabalhos de qualidade, as refer\u00eancias psicod\u00e9lico-roqueiras do come\u00e7o da carreira de Jorge BenJor n\u00e3o estariam l\u00e1 se ele n\u00e3o convivesse com pessoas de todos os ambientes. O que Hermano Vianna v\u00ea como uma descaracteriza\u00e7\u00e3o, os pr\u00f3prios artistas do passado viam como um processo enriquecedor no aspecto cultural, uma troca.<\/p>\n<p>Justamente esta salutar troca de conhecimentos \u00e9 o que Hermano Vianna v\u00ea como perniciosa. Para ele o bom \u00e9 o bruto, o n\u00e3o polido, o rascunho. Qualquer tentativa de elabora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma &#8220;media\u00e7\u00e3o da elite&#8221; e o artista do povo tem que ser aceito como \u00e9, tem que ser mantido em sua jaula de &#8220;autenticidade&#8221; seja l\u00e1 para que estudo cient\u00edfico se queira.<\/p>\n<p><em>Essa \u00e9 uma novidade e tanto para a cultura brasileira. Que bom que as tais &#8220;elites&#8221; est\u00e3o perdendo o controle.<\/em><\/p>\n<p>Considerando que o termo elite tem mais de um significado, e no contexto pode ser visto como uma refer\u00eancia ao grupo seleto de artistas que fazem arte de qualidade, a frase \u00e9 carregada de duplos sentidos pois n\u00e3o distingue seu alvo. Ser\u00e1 que Hermano Vianna est\u00e1 se insurgindo contra a elite econ\u00f4mica ou o conceito de elite cultural? Ou algum outro.<\/p>\n<p>E de que tipo de controle estamos falando? Est\u00e1 ele celebrando o fim do preconceito social no Brasil? Ou est\u00e1 celebrando o fim da valoriza\u00e7\u00e3o do verniz cultural que as elites aplicavam em nossa barb\u00e1rie?<\/p>\n<p><em>Chimbinha, tamb\u00e9m emocionado, me contou mais de sua hist\u00f3ria \u2014 a \u00e9poca que morou com sua m\u00e3e numa invas\u00e3o em Bel\u00e9m, os maus tratos quando \u2014 aos 13 anos \u2014 tocava guitarra toda noite num cabar\u00e9 e pedia para sua m\u00e3e para n\u00e3o voltar mais l\u00e1, mas sabia que n\u00e3o podia largar o &#8220;emprego&#8221; pois a fam\u00edlia dependia daquele trocado para comer.<\/em><\/p>\n<p>Como a musica \u00e9 muito ruim, \u00e9 preciso insistir muito no apelo emocional.<\/p>\n<p><em>Os melhores amigos de Chimbinha em S\u00e3o Paulo s\u00e3o Zez\u00e9, Leonardo e Bruno (de Bruno e Marrone). Isto \u00e9: metade do <b>PIB musical<\/b> brasileiro hoje.<\/em><\/p>\n<p>O uso da express\u00e3o &#8220;PIB musical&#8221; expressa muito bem os valores em nome dos quais Hermano Vianna escreve: temos um defensor do popularesco com a justificativa do apelo econ\u00f4mico. A busca da qualidade, definitivamente superada pelo gozo agressivo do dinheiro ganho com m\u00fasica. N\u00e3o se trata mais de arte, mas apenas de um modo de ganhar dinheiro e poder.<\/p>\n<p><em>Interessante que tenham se encontrado e que tenham amizade t\u00e3o forte.<\/em><\/p>\n<p>Na verdade \u00e9 natural que se busquem. Estranho \u00e9 quando algu\u00e9m que supostamente tem cultura se mistura com eles.<\/p>\n<p><em>Mas o sucesso n\u00e3o serve de blindagem contra o sofrimento e a dificuldade de ter que lidar com uma situa\u00e7\u00e3o que sempre \u2014 repito: apesar do sucesso \u2014 insinua cruelmente que ocupam um lugar que n\u00e3o lhes \u00e9 devido, que deveria ser ocupado por m\u00fasicos com forma\u00e7\u00e3o de &#8220;qualidade&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Se o autor tivesse dito que o sucesso n\u00e3o implica em qualidade, a\u00ed ter\u00edamos chegado a algum lugar. Mas em vez disso ele prefere negar valor ao conceito de qualidade (o que \u00e9, afinal, qualidade diante da capacidade de ganhar milh\u00f5es?).<\/p>\n<p><em>Chimbinha passou o jantar me agradecendo por estar ali, por ter aceito o convite, por ter apoiado sua carreira, por ter colocado sua banda na televis\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>U\u00e9? Mas o Chimbinha n\u00e3o fez sucesso &#8220;contra tudo e contra todos?&#8221; Ali\u00e1s, e os shows em S\u00e3o Paulo quando ainda era desconhecido?<\/p>\n<p><em>O pessoal que cuida da empresa que vende os shows da Calypso me confirmou: &#8220;\u00e0s vezes chegamos numa cidade l\u00e1 no interior do Tocantins \u2014 o show est\u00e1 lotado com o nosso p\u00fablico, mas o cara que aparece na TV e que n\u00e3o juntaria 100 pessoas tem o melhor cach\u00ea, o melhor camarim, \u00e9 recebido pelo prefeito\u2026<\/em><\/p>\n<p>De novo o apelo ao povo. Quem enche est\u00e1dio \u00e9 que merece ser recebido pelo prefeito. A qualidade da arte envolvida n\u00e3o entra em quest\u00e3o. Se o sujeito enche est\u00e1dio ent\u00e3o \u00e9 ele que merece ser recebido pelo prefeito.<\/p>\n<p><em>\u00c9 evidente, mais que evidente: o sucesso por si s\u00f3 n\u00e3o traz respeito.<\/em><\/p>\n<p>Porque o respeito n\u00e3o adv\u00e9m do dinheiro ganho, mas de como se ganha o dinheiro. Sucesso obtido com m\u00fasica ruim \u00e9 como dinheiro de crime: as pessoas podem at\u00e9 te invejar, mas n\u00e3o respeitam.<\/p>\n<p><em>No final do jantar sentamos ao redor de um piano de cauda branco (igual ao do Elton John, igual ao do Leandro Lehart),<\/em><\/p>\n<p>p>Fetichiza\u00e7\u00e3o ao extremo. Ser\u00e1 que ter um piano de cauda branco na sala de alguma forma iguala Chimbinha e Elton John?<\/p>\n<p><em>\u00c9 j\u00e1 um outro tipo de rela\u00e7\u00e3o com os compositores, contratados pelas bandas para escrever seus pr\u00f3ximos sucessos. Todos s\u00e3o trabalhadores do pop: parece que t\u00eam o m\u00e9todo para o sucesso de massa, para a can\u00e7\u00e3o que vai agradar a maioria. Imagino que a Motown tamb\u00e9m funcionasse assim.<\/em><\/p>\n<p>De novo compara\u00e7\u00f5es incompar\u00e1veis. A gravadora Motown reuniu artistas de alt\u00edssimo gabarito, em um pa\u00eds encharcado de cultura musical. Os compositores contratados por Chimbinha e Cia. s\u00e3o pessoas sem muita forma\u00e7\u00e3o e de pouca cultura art\u00edstica e o seu trabalho n\u00e3o possui um sentido cultural. Mas essa observa\u00e7\u00e3o pode ser meu preconceito. Talvez daqui a vinte anos estejamos encarando estes caras tal como hoje encaramos Stevie Wonder, Diana Ross, Michael Jackson, Isaac Hayes, etc\u2026<\/p>\n<p><em>Eu ia escutando as novas m\u00fasicas e j\u00e1 podia ouvir as multid\u00f5es cantando aos berros nos futuros shows lotados.<\/em><\/p>\n<p>Para quem ainda n\u00e3o tinha aprendido o que era apelo ao povo.<\/p>\n<p><em>J\u00e1 repeti v\u00e1rias vezes aqui que n\u00e3o tinha muito interesse pela m\u00fasica da Banda Calypso, gostava do Chimbinha guitarreiro\u2026 Ent\u00e3o valorizava mesmo o aspecto antropol\u00f3gico do sucesso, um sucesso bem diferente daquele que a ind\u00fastria fonogr\u00e1fica tradicional produzia no Brasil. Mas este CD, o Volume 10, eu gosto, pra valer. Musicalmente. \u00c9 um hit perfeito atr\u00e1s do outro. H\u00e1 poucas can\u00e7\u00f5es melhores de se ouvir no r\u00e1dio do que &#8220;Mais Uma Chance&#8221;, cantada por Joelma e Leonardo. Quando ou\u00e7o na rua, meu dia se alegra e saio cantando junto. A situa\u00e7\u00e3o de amor descrita na letra tamb\u00e9m \u00e9 cativante, no seu narcisismo calculadamente desamparado e espertamente ing\u00eanuo: &#8220;meu amor se eu fosse voc\u00ea, eu voltava para mim, eu viria me socorrer&#8221;. Um dia, quando um cantor chique fizer uma vers\u00e3o, todo mundo vai achar bacana\u2026 Mas \u00e9 preciso tempo: o popular muito popular s\u00f3 se torna elogi\u00e1vel quando sua popularidade \u00e9 coisa do passado, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/em><\/p>\n<p>De novo um elogio exagerado, do tipo que nem chega a convencer. Como algu\u00e9m que falou t\u00e3o mal da Banda Calypso pode de repente dizer que seu dia se alegra e sai cantando junto quando ouve &#8220;Mais uma chance&#8221;?<\/p>\n<p>Notem a sutil &#8220;piscada de olho&#8221; na \u00faltima frase. Hermano Vianna est\u00e1 sugerindo que o tempo legitima o lixo musical. Talvez ele esteja precisando dar uma olhada nas listas de sucessos dos anos 60 e 70 e ver de quem nos lembramos e quem foi embora.<\/p>\n<p>E se n\u00e3o fosse a determina\u00e7\u00e3o de gente como Hermano Vianna em elogiar lixos do passado, como Reginaldo Rossi e Carlos Santos,  esse &#8220;popular muito popular&#8221; n\u00e3o chegaria a ser visto como elogi\u00e1vel.<\/p>\n<p><em>\u00c9 um estilo, objeto claramente identific\u00e1vel. A voz de Joelma tem calor e gra\u00e7a \u2014 entendo bem porque todas as crian\u00e7as s\u00e3o apaixonadas por ela. E a guitarra do Chimbinha continua a tal. Ele me disse que ainda pretende gravar outro disco de guitarrada. Nem precisa: n\u00e3o h\u00e1 necessidade do Chimbinha me provar mais nada. Mas que seria bom ouvi-lo novamente em grava\u00e7\u00e3o solo, por puro divertimento, ou por egocentrismo meu, isso seria: <strong>fecharia um ciclo completo em minha vida<\/strong>. Mas de qualquer maneira: Salve Chimbinha! Salve Joelma! Os m\u00fasicos mais populares no Brasil hoje! Quando v\u00e3o ganhar a medalha do m\u00e9rito cultural?<\/em><\/p>\n<p>Ao ler este par\u00e1grafo eu me pergunto quanto Hermano Vianna ganhou para escrever essa merda. Ou o que foi que fumou\u2026 &#8220;N\u00e3o h\u00e1 necessidade de Chimbinha provar mais nada, ouvi-lo em grava\u00e7\u00e3o solo seria puro divertimento, fecharia um ciclo completo em minha vida&#8221;\u2026 A intensidade dos elogios chega a dar calafrios, principalmente se temos em quest\u00e3o que o objeto de tais elogios \u00e9 um compositor burocr\u00e1tico e nada original que produz sucessos comerciais do r\u00e1dio. Chega a ser poss\u00edvel pensar em mais do que interesses comerciais, talvez at\u00e9 carnais, porque n\u00e3o \u00e9 conceb\u00edvel que se elogie com tal desespero e com tal gana algu\u00e9m que o pr\u00f3prio autor do artigo teve tanto trabalho para achar um jeito de gostar. Algu\u00e9m que requereu tantas fal\u00e1cias e distor\u00e7\u00f5es cognitivas para vencer as resist\u00eancias do autor do texto.<\/p>\n<p>E para fechar com chave de outro, tasca l\u00e1 outro apelo \u00e0 popularidade, confundindo, como bom falacioso, valor art\u00edstico com &#8220;PIB musical&#8221;. De quebra ainda acha jeito de ver calor e gra\u00e7a no canto desafinado e cheio de calos nas cordas vocais que a Joelma desfila de forma at\u00e9 constrangedora pelos palcos.<\/p>\n<p>Sinceramente eu n\u00e3o entendo como pessoas aparentemente cultas se prestam a tecer elogios assim para artistas que decididamente n\u00e3o os merecem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O artigo que motivou esta resposta j\u00e1 n\u00e3o se encontra on-line, apesar do conselho de Tim Berns-Lee, mas eu mantenho aqui o que escrevi porque ainda acredito que seja relevante. Chimbinha me deu de presente seu CD solo, chamado Guitarras que Cantam, hoje uma raridade que deveria ser relan\u00e7ada para os f\u00e3s conhecerem suas origens. Era um disco de guitarrada, claramente herdeiro das inven\u00e7\u00f5es dos mestres Vieira e Aldo Sena, que foram muito populares em toda a Amaz\u00f4nia no in\u00edcio dos anos 80, antes da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[1],"tags":[20,27,28,26,114],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/537"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=537"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/537\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5376,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/537\/revisions\/5376"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=537"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=537"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=537"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}