{"id":5414,"date":"2017-11-07T09:35:40","date_gmt":"2017-11-07T12:35:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5414"},"modified":"2019-06-05T22:22:20","modified_gmt":"2019-06-06T01:22:20","slug":"voce-se-considera-um-autor-profissional","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/11\/voce-se-considera-um-autor-profissional\/","title":{"rendered":"Voc\u00ea se considera um autor profissional?"},"content":{"rendered":"\n<p>Deparo-me frequentemente nas redes sociais com pessoas que acreditam ser &#8220;escritores profissionais&#8221;. Muitas dessas pessoas chegam ao ponto de mudar o nome de seu avatar para &#8220;Fulano de Tal, escritor&#8221; ou registram dom\u00ednio para o seu s\u00edtio pessoal na internet como &#8220;EscritorBeltrano&#8221;. N\u00e3o s\u00e3o raros os casos em que autores desses queiram compartilhar o segredo de seu sucesso \u2014 algumas vezes menosprezando autores iniciantes ou simplesmente difundindo de si e de sua obra uma imagem que sugere grandes vendagens, forte repercuss\u00e3o e cr\u00edticas positivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ser\u00e1 que essas pessoas realmente s\u00e3o &#8220;profissionais&#8221;? O que significa ser um &#8220;profissional&#8221; da literatura, em especial no Brasil? Quais os crit\u00e9rios a se adotar para definir se um autor realmente \u00e9 &#8220;profissional&#8221; ou meramente pensa ser?<\/p>\n\n\n\n<p>Partindo da etimologia, &#8220;profissional&#8221; deriva de &#8220;profiss\u00e3o&#8221;, que \u00e9, segundo o Dicion\u00e1rio Priberam da L\u00edngua Portuguesa:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>Declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/li><li>Solenidade na qual algu\u00e9m se liga por votos a uma ordem religiosa.<\/li><li>Of\u00edcio; emprego; ocupa\u00e7\u00e3o; mister.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Vemos, portanto, que o profissional, no sentido em que a palavra se emprega para autores, seria algu\u00e9m que faz da literatura o seu of\u00edcio, emprego, ocupa\u00e7\u00e3o ou mister. &#8220;Of\u00edcio&#8221; \u00e9 um trabalho especializado. &#8220;Emprego&#8221; \u00e9 uma atividade remunerada. &#8220;Ocupa\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 aquilo a que uma pessoa se dedica, exclusiva ou principalmente. &#8220;Mister&#8221; \u00e9 aquilo que \u00e9 determinado a uma pessoa fazer. Todos esses sentidos d\u00e3o a entender uma atividade:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>&#8220;Permanente&#8221; quer dizer que a pr\u00e1tica da escrita n\u00e3o pode ser intermitente ou limitar-se a um momento da vida do autor.<\/li><li>&#8220;Remunerada&#8221; quer dizer que o autor deve ser pago pelo seu trabalho.<\/li><li>&#8220;Conhecida&#8221; quer dizer que a atividade n\u00e3o deve ser t\u00e3o rara que ningu\u00e9m saiba do que se trata. N\u00e3o \u00e9 o caso da literatura, pois mesmo os leigos sabem o que \u00e9.<\/li><li>&#8220;Reconhecida&#8221; quer dizer que o autor deve ser identificado como algu\u00e9m que se dedica a literatura.<\/li><li>&#8220;Demandada&#8221; quer dizer que o autor escreve segundo um pedido espec\u00edfico ou uma necessidade do mercado.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podem ser chamados de &#8220;profissionais&#8221; os autores que se dedicam ocasionalmente \u00e0 literatura, que n\u00e3o recebem pelo que escrevem (ou, pior, pagam para publicar), que n\u00e3o s\u00e3o vistos como autores e que oferecem seu trabalho em vez de t\u00ea-lo solicitado.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso quer dizer, por exemplo, que eu n\u00e3o posso me chamar de &#8220;profissional&#8221;. Sou banc\u00e1rio, escrevo em minhas horas vagas, pago para publicar (ou n\u00e3o recebo, quando n\u00e3o estou pagando) e n\u00e3o h\u00e1 demanda, ainda, para meu trabalho. As \u00fanicas semelhan\u00e7as entre um autor profissional e eu est\u00e3o no car\u00e1ter permanente da atividade e na popularidade da literatura.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/autora-300x249.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5415\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Para alguns desses autores que se intitulam &#8220;profissionais&#8221;, a dedica\u00e7\u00e3o exclusiva e a especializa\u00e7\u00e3o seriam suficientes. Mas isto \u00e9 verdadeiro? Por exemplo: quem sobrevive basicamente da renda do c\u00f4njuge ou da fam\u00edlia, \u00e9 profissional da escrita mesmo que s\u00f3 se dedique a escrever? Outro exemplo: mesmo vendendo muitos livros e tendo uma alta renda liter\u00e1ria, algu\u00e9m que ganha muito mais em outra atividade (como personalidade ou empres\u00e1rio, por exemplo), \u00e9 um &#8220;profissional&#8221;? No primeiro caso a atividade n\u00e3o tem car\u00e1ter econ\u00f4mico, portanto n\u00e3o pode ser chamada de &#8220;profiss\u00e3o&#8221;. No segundo caso o autor \u00e9 identificado socialmente em outra profiss\u00e3o e faz da literatura uma atividade paralela, mesmo que tenha lucro ao escrever.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso pede uma defini\u00e7\u00e3o do conceito de &#8220;profissional&#8221; que v\u00e1 al\u00e9m do dicion\u00e1rio. Partindo dos itens citados e procurando esclarecer o papel do autor, sugiro a defini\u00e7\u00e3o de profissional de escrita como algu\u00e9m que:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>N\u00e3o depende economicamente da renda de outra pessoa ou da fam\u00edlia;<\/li><li>Dedica-se exclusivamente a escrever ou predominantemente a escrever;<\/li><li>Obt\u00e9m atrav\u00e9s da escrita um rendimento positivo;<\/li><li>Idealmente sobrevive da renda assim obtida, mesmo que tenha de complement\u00e1-la com algum tipo de benef\u00edcio social (Bolsa-Fam\u00edlia, BPC, aposentadoria etc.), ou pelo menos esta faz diferen\u00e7a em seu or\u00e7amento;<\/li><li>Identifica-se social e legalmente como escritor ou em uma atividade an\u00e1loga que possa ser considerada a mesma (tradutor, professor aut\u00f4nomo etc.).<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante citar que a profiss\u00e3o de escritor \u00e9 reconhecida no Brasil, faz parte da Classifica\u00e7\u00e3o Brasileira das Ocupa\u00e7\u00f5es (CBO), mas n\u00e3o \u00e9 regulamentada. Ser reconhecida significa que voc\u00ea pode contribuir para a Previd\u00eancia Social como escritor. N\u00e3o ser regulamentada quer dizer que n\u00e3o h\u00e1 direitos e garantias estabelecidos em lei (piso salarial, jornada de trabalho, classifica\u00e7\u00e3o quanto \u00e0 insalubridade etc.)<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que tenhamos nas redes sociais pouqu\u00edssimos autores que se enquadrem realmente como &#8220;profissionais&#8221; da escrita.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo aqueles que se dedicam principalmente a escrever e que conseguem obter rendimentos de suas publica\u00e7\u00f5es ainda ficam em uma posi\u00e7\u00e3o fragilizada. Quantos autores realmente obt\u00eam ganhos positivos? Falamos aqui do limite entre <em>hobby<\/em> e profiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda segundo o dicion\u00e1rio, <em>hobby<\/em> \u00e9 uma atividade favorita que serve de derivativo \u00e0s ocupa\u00e7\u00f5es habituais, um passatempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Normalmente gastamos dinheiro com nossos <em>hobbies<\/em> ou, mesmo gastando pouco ou nada, n\u00e3o os praticamos com a inten\u00e7\u00e3o de ganhar dinheiro. Algu\u00e9m que faz jardinagem pensando em ganhar dinheiro se torna um jardineiro remunerado de quintais alheios ou ent\u00e3o um floricultor em sua propriedade pessoal. Um autor que faz literatura pensando em ganhar dinheiro se torna, claro, um profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 meramente na inten\u00e7\u00e3o, est\u00e1 em conseguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente fui tirar opini\u00f5es com um conhecido que vende pela Amazon. Queria saber como faz, quantos livros vende. Soube que vende uma m\u00e9dia de sessenta livros ao m\u00eas, entre f\u00edsicos e eletr\u00f4nicos, e que tira uma m\u00e9dia de R$ 2 por livro. Isso quer dizer R$ 120 ao m\u00eas, e R$ 1440 ao ano.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma renda bruta muito pequena, insuficiente para ser considerada uma &#8220;fonte de renda&#8221; em vez de <em>hobby<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para saber se uma atividade econ\u00f4mica \u00e9 rent\u00e1vel, precisamos calcular a sua &#8220;Taxa Interna de Retorno&#8221; (TIR). N\u00e3o vou escrever aqui sobre a f\u00f3rmula de c\u00e1lculo da TIR, porque este \u00e9 um blog sobre literatura, n\u00e3o sobre economia, mas h\u00e1 muitos m\u00e9todos para esse c\u00e1lculo na internet, inclusive um, bem simplificado, no s\u00edtio <a href=\"http:\/\/fazaconta.com\/matematica-financeira-val-tir.htm\">Faz a Conta.com<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para simplificar, digamos que Taxa Interna de Retorno \u00e9 a capacidade que o investimento tem de retornar positivo o capital investido. Geralmente se trabalha com a infla\u00e7\u00e3o prevista (rentabilidade m\u00ednima exigida) e a previs\u00e3o de rentabilidade (m\u00e1xima) para se calcular o risco de rentabilidade negativa ao longo do tempo. Considera-se tamb\u00e9m o custo do capital investido. \u00c9 por essa raz\u00e3o que os bancos comerciais raramente emprestam dinheiro para a implanta\u00e7\u00e3o de empresas, visto que o custo financeiro do capital durante a fase inicial do empreendimento pode significar a impossibilidade de obter retorno positivo.<\/p>\n\n\n\n<p>As duas vari\u00e1veis centrais aqui s\u00e3o estimar o volume do capital investido e o seu custo financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Normalmente, em c\u00e1lculos simples de TIR, trabalha-se com um capital monet\u00e1rio, f\u00e1cil de estimar. No entanto, como diz o velho ditado, n\u00e3o podemos considerar que o capital se limita ao dinheiro, pois &#8220;tempo \u00e9 dinheiro&#8221;. Esta n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma frase besta que os velhos dizem, \u00e9 uma pe\u00e7a de sabedoria real: existe um custo envolvido no tempo dispendido em uma atividade, portanto, o capital investido em um empreendimento n\u00e3o inclui somente o dinheiro que se p\u00f5e nele, mas tamb\u00e9m a dedica\u00e7\u00e3o imaterial que voc\u00ea reserva para isto. Nem falamos, tamb\u00e9m, de pequenos custos que os autores frequentemente n\u00e3o contabilizam, como gasto de energia, desgaste f\u00edsico dos equipamentos, preju\u00edzo \u00e0 pr\u00f3pria sa\u00fade, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Qual \u00e9, ent\u00e3o, o capital investido pelo autor? Este \u00e9 um c\u00e1lculo que cada um ter\u00e1 de fazer conforme seus par\u00e2metros, mas acredito que a f\u00f3rmula do capital relacionado a uma obra liter\u00e1ria seja pr\u00f3xima de [latex]C = n \\times T + n \\times D + n \\times S + m + n \\times I + u \\times P + u \\times R[\/latex] em que &#8220;T&#8221; representa o valor de remunera\u00e7\u00e3o da sua hora de trabalho, &#8220;D&#8221; representa o desgaste f\u00edsico de seus equipamentos eletr\u00f4nicos por hora de uso, &#8220;S&#8221; representa o preju\u00edzo \u00e0 sua sa\u00fade por hora dispendida diante do computador, &#8220;m&#8221; representa o custo do material de escrit\u00f3rio (cadernos, canetas, folhas de of\u00edcio etc.) utilizado no processo produtivo, &#8220;I&#8221; representa o custo de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o (internet ou bibliotecas) por hora (n\u00e3o considerando as horas de trabalho, j\u00e1 contabilizadas em &#8220;T&#8221;), &#8220;P&#8221; representa os custos de postagem envolvidos e &#8220;R&#8221;, os trabalhos de terceiros relacionados (capista, revisor, <em>layout<\/em>, leitor beta, prefaciador etc.). Observe que alguns destes fatores s\u00e3o calculados relativamente ao tempo (&#8220;n&#8221;) enquanto outros, a unidades (&#8220;u&#8221;). Dependendo de como trabalhe o seu agente liter\u00e1rio, ele pode lhe cobrar um valor fixo (nesse caso &#8220;+ A&#8221;) ou uma percentagem que ser\u00e1 multiplicada por [latex]1 + A[\/latex].<\/p>\n\n\n\n<p>Basicamente o que quero dizer aqui \u00e9 que a obten\u00e7\u00e3o de uma remunera\u00e7\u00e3o positiva (atividade econ\u00f4mica sustent\u00e1vel) requer a contabiliza\u00e7\u00e3o de todos esses fatores (e mais alguns que eu possa ter esquecido). Quantos autores ditos &#8220;profissionais&#8221; estimam esses custos como parte do capital investido em sua atividade liter\u00e1ria?<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que alguns desses itens s\u00e3o dif\u00edceis de estimar (o desgaste dos equipamentos e o preju\u00edzo \u00e0 sa\u00fade) e ser\u00e3o deixados de lado em um c\u00e1lculo pr\u00e1tico, mas \u00e9 importante que o autor os tenha em mente ao raciocinar sobre a remunera\u00e7\u00e3o que recebe.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem realizar um c\u00e1lculo que englobe tudo isso, o autor n\u00e3o sabe se est\u00e1 sendo remunerado ou se paga para trabalhar. Assim, \u00e9 melhor que se identifique como um amador em vez de um profissional, a fim de manter o foco, evitar ilus\u00f5es e, principalmente, para ter a consci\u00eancia da pr\u00f3pria liberdade e de suas limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Deparo-me frequentemente nas redes sociais com pessoas que acreditam ser &#8220;escritores profissionais&#8221;. 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