{"id":557,"date":"2008-09-16T20:25:00","date_gmt":"2008-09-16T23:25:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=557"},"modified":"2017-11-02T14:10:08","modified_gmt":"2017-11-02T17:10:08","slug":"qual-de-voces-e-o-pink","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2008\/09\/qual-de-voces-e-o-pink\/","title":{"rendered":"Qual de Voc\u00eas \u00c9 o Pink?"},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p>The band is just fantastic<br \/>\n  That\u2019s really what I think<br \/>\n  &#8212; And by the way: which one is pink?<sup id=\"fnref:1\"><a href=\"#fn:1\" rel=\"footnote\">1<\/a><\/sup><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O  dia 15 de setembro de 2008 fica na hist\u00f3ria como o dia em que o sonho  musical chamado Pink Floyd definitivamente acabou. Poucas bandas  mereceram um lugar t\u00e3o nobre na hist\u00f3ria do <em>rock\u2019n\u2019roll<\/em>, poucas tiveram  f\u00e3s t\u00e3o fi\u00e9is, poucas deixaram um vazio t\u00e3o enorme no universo do pop.  Poucas tiveram uma carreira t\u00e3o conturbada e cheia de trag\u00e9dias. A morte  de Syd Barrett enterrara um mito, mas n\u00e3o dera um fim ao sonho de uma  gera\u00e7\u00e3o de f\u00e3s que nunca viram o espet\u00e1culo circense-musical psicod\u00e9lico  do Pink Floyd em a\u00e7\u00e3o, especialmente depois do concerto no qual Roger  Waters, superando 26 anos de amarga separa\u00e7\u00e3o, voltou a tocar com os  ex-companheiros. Mas Richard Wright significa o fim, significa  tamb\u00e9m que a reuni\u00e3o n\u00e3o fora sen\u00e3o uma homenagem em vida ao amigo  moribundo.<\/p>\n<p>Richard  William Wright foi o tecladista e um dos co-vocalistas do Pink Floyd.  Isto apenas \u00e9 um curr\u00edculo que muito virtuoso inveja. Autor solo de  composi\u00e7\u00f5es de sucesso comercial (&#8220;Us and Them&#8221;, &#8220;Summer \u201868&#8221;, &#8220;Remember  a Day&#8221;) ou apenas bel\u00edssimas melodias ignoradas (&#8220;Wearing the Inside  Out&#8221;), membro do grupo em sua fase &#8220;her\u00f3ica&#8221; (1966-1980) e autor de duas  pequenas obras-primas em carreira solo (&#8220;Wet Dream&#8221;, de 1978 e &#8220;Broken  China&#8221;, de 1995).<\/p>\n<p>Um  dos poucos pianistas auto-didatas a ter express\u00e3o art\u00edstica, Rich  tocava uma infinidade de instrumentos de teclado, sopro e percuss\u00e3o,  embora tenha sempre preferido o modesto e sibilante \u00f3rg\u00e3o Farfisa (numa  \u00e9poca em que Moogs e Mellotrons dominavam a sonoridade pop). Talvez  estas duas circunst\u00e2ncias tenham contribu\u00eddo para as caracter\u00edsticas  \u00fanicas que emprestou ao som do Pink Floyd: aquelas lentas progress\u00f5es de  notas, suavemente lembrando o vento erodindo uma duna que abrem &#8220;Shine  On You Crazy Diamond&#8221; seriam impens\u00e1veis nos dedos de um tecladista  barroco e virtuoso como Keith Emerson ou Rick Wakeman. A suave  simplicidade de Wright foi sempre atraente, pelo menos enquanto ela  emprestava brilho ao talento vocal e instrumental de David Gilmour.<\/p>\n<p>Ainda  nos anos setenta, durante a tormentosa luta pelo controle do nome e da  fama do Pink Floyd, Wright e Gilmour &#8220;tiraram f\u00e9rias de Roger Waters&#8221;  lan\u00e7ando, em 1978, dois \u00e1lbuns solo de qualidade compar\u00e1vel ao que o  Floyd estava fazendo na \u00e9poca. &#8220;Wet Dream&#8221;, o esfor\u00e7o pessoal de Wright,  cont\u00e9m faixas que ele compusera ao longo da d\u00e9cada mas que Waters nunca  permitira que fossem registradas pelo Pink Floyd (a \u00fanica composi\u00e7\u00e3o  sua p\u00f3s-1970 que o Floyd Gravou foi &#8220;Us and Them&#8221;, mesmo assim com letra  de Waters). \u00c9 um album totalmente oposto ao som denso e claustrof\u00f3bico  do Pink Floyd na \u00e9poca, cheio de melodias delicadas e mediterr\u00e2neas, que  celebram momentos singelos da vida, abrilhantadas pelo talento de dois  m\u00fasicos que acompanhavam o Pink Floyd na \u00e9poca: Snowy White (Guitarra) e  Mel Collins (Sax).<\/p>\n<p>&#8220;Mediterranean  C&#8221; \u00e9 um instrumental tranq\u00fcilo, baseado inicialmente em um tema de  piano, que se desenvolve quase como uma can\u00e7\u00e3o do Pink Floyd. N\u00e3o  ficaria mal em nenhum \u00e1lbum anterior a &#8220;Animals&#8221;. Em &#8220;Against the Odds&#8221;,  uma suave e lenta can\u00e7\u00e3o de amor, Rick n\u00e3o est\u00e1 muito feliz como  letrista, mas a melodia \u00e9 absurdamente bela. O instrumental &#8220;Cat Cruise&#8221;  possui uma qualidade muito semelhante \u00e0 de qualquer can\u00e7\u00e3o de &#8220;The Dark  Side of the Moon&#8221; ou &#8220;Wish You Were Here&#8221;. &#8220;Summer Elegy&#8221; \u00e9 a menos  &#8220;pinkfloyd\u00edstica&#8221; faixa do disco, lembrando alguma coisa das baladas do  Queen. &#8220;Waves&#8221; apresenta um bel\u00edssimo solo de saxofone de Mel Collins e  se desenvolve de forma muito interessante melodicamente, embora  ocasionalmente lembre &#8220;Shine On&#8230;&#8221;. \u00c9 nas faixas finais, &#8220;Mad Yannis  Dance&#8221;, &#8220;Drop In From The Top&#8221; e &#8220;Funky Deux&#8221; que Wright manifesta um  estilo mais descolado do Pink Floyd e demonstra todo seu talento de  composi\u00e7\u00e3o para a m\u00fasica pop. Sim, &#8220;Wet Dream&#8221; \u00e9 pop. Mas \u00e9 um disco  incrivelmente belo, melodioso e delicado. Disco para roqueiro dar de  presenta para namorada.<\/p>\n<p>Wright  nunca foi citado como uma pe\u00e7a fundamental do Pink Floyd, no entanto,  sua sa\u00edda logo antes de &#8220;The Wall&#8221; destruiu a delicada harmonia que  sustentava a &#8220;po\u00e7\u00e3o sonora&#8221; do grupo, tornando-o mais agressivo e mais  depressivo. Sob a batuta dos pesadelos e manias de Waters o Floyd se  torna ainda mais soturno e arr\u00edtmico, at\u00e9 desembocar no beco-sem-sa\u00edda  est\u00e9tico que foi &#8220;The Final Cut&#8221; (tido por muitos como o canto do cisne  do grupo). O efeito de sua sa\u00edda claramente mostrou a import\u00e2ncia de sua  presen\u00e7a \u2013 e de seu senso musical \u2013 na constru\u00e7\u00e3o da sonoridade que  todos amavam.<\/p>\n<p>Talvez  por isso, entre outras raz\u00f5es, ele acabou tendo a chance de sair da  cena musical de forma honrada, com dois trabalhos nos quais p\u00f4de se  resgatar artisticamente: o derradeiro \u00e1lbum do Pink Floyd, &#8220;The Division  Bell&#8221;, cuja faixa final \u00c9 a  definitiva e melanc\u00f3lica despedida de todos, e o \u00e1lbum solo &#8220;Broken  China&#8221;, no qual destila seu amor conjugal e os dramas de sua vida  particular de forma sens\u00edvel e sem a revoltada depress\u00e3o que marcava os  trabalhos de Roger Waters. Wright consegue ser rom\u00e2ntico sem ser  passional, consegue ser progressivo sem ser rebuscado e ser s\u00e9rio sem  ser negativo. Escrevendo sobre um tema dif\u00edcil, a longa depress\u00e3o vivida  por sua mulher, que muito afetara a vida de ambos, Wright produz um  \u00e1lbum que n\u00e3o fere o ouvido nem induz \u00e0 tristeza. Os vocais sussurrados  contribuem para um clima intimista. De forma geral, &#8220;Broken China&#8221; \u00e9 um  \u00e1lbum perdido do Pink Floyd, gra\u00e7as \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e \u00e0s letras de Antony  Moore (que colaborara nos dois \u00e1lbuns anteriores do grupo) e \u00e0  participa\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios m\u00fasicos que haviam participado das turn\u00eas  anteriores: Tim Renwick (guitarra) e Kate St. John (vocais). A presen\u00e7a  de Sinn\u00e9ad O\u2019Connor nos vocais de duas faixas \u00e9 outra raz\u00e3o de interesse  por esse soturno \u00e1lbum que, no entanto, destila uma simplicidade que  induz \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o \u2013 e n\u00e3o \u00e0 tristeza.<\/p>\n<p>De  l\u00e1 para c\u00e1 Wright esteve muito pouco ativo musicalmente, mas j\u00e1 n\u00e3o  precisava. Seu lugar na hist\u00f3ria do rock e no cora\u00e7\u00e3o dos f\u00e3s j\u00e1 estava  conquistado. Certamente Rick n\u00e3o ser\u00e1 lembrado como o maior tecladista  da hist\u00f3ria do pop, mas dificilmente ser\u00e1 esquecido, enquanto virtuosos  como Rick Wakeman e Keith Emerson perdem prest\u00edgio com o tempo.<\/p>\n<p>A  raz\u00e3o disso \u00e9 que, do alto de sua econ\u00f4mica simplicidade, a m\u00fasica do  Pink Floyd \u00e9 mais dur\u00e1vel e eterna do que as loucuras do ELP ou as  viagens m\u00edsticas do Yes. Al\u00e9m do que, o grande tema do Pink Floyd \u00e9 o  melhor de todos os grandes temas: o ser humano. N\u00e3o an\u00f5ezinhos verdes,  deuses orientais, unic\u00f3rnios brancos ou personagens liter\u00e1rios, mas o  ser humano em sua densa e complexa personalidade.<\/p>\n<p>Num mundo em que a m\u00fasica se tornou um deserto de id\u00e9ias, talvez valha a pena <em>lembrar dias passados em que \u00e9ramos mais jovens e ainda livres para brincar com a vida sem ter medo de que a noite viesse.<\/em> Ou ent\u00e3o sucumbiremos a <em>esse mundo de ru\u00eddos aleat\u00f3rios onde ningu\u00e9m tem escolha e vivem querendo puxar nossos cord\u00f5es e alavancas.<\/em><sup id=\"fnref:2\"><a href=\"#fn:2\" rel=\"footnote\">2<\/a><\/sup><\/p>\n<div class=\"footnotes\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li id=\"fn:1\">\n<p>A cita\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas \u00e9 da m\u00fasica &#8220;Have a Cigar&#8221; (de Roger Waters e David  Gilmour), do \u00e1lbum &#8220;Wish You Were Here&#8221; e se refere \u00e0 falsa impress\u00e3o  de boa parte da imprensa nos anos 60 de que &#8220;Pink Floyd&#8221; fosse uma  pessoa.&#160;<a href=\"#fnref:1\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:2\">\n<p>Os  dois trechos em it\u00e1lico ao final s\u00e3o tradu\u00e7\u00f5es de trechos das m\u00fasicas  &#8220;Remember a Day&#8221; e &#8220;Night of a Thousand Furry Toys&#8221;, de Rick Wright.&#160;<a href=\"#fnref:2\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>The band is just fantastic That\u2019s really what I think &#8212; And by the way: which one is pink?1 O dia 15 de setembro de 2008 fica na hist\u00f3ria como o dia em que o sonho musical chamado Pink Floyd definitivamente acabou. 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