{"id":5574,"date":"2017-11-14T10:05:25","date_gmt":"2017-11-14T13:05:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5574"},"modified":"2019-06-05T22:06:03","modified_gmt":"2019-06-06T01:06:03","slug":"ler-a-vida-escrever-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/11\/ler-a-vida-escrever-a-vida\/","title":{"rendered":"Ler a Vida, Escrever a Vida"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o podemos ter uma vis\u00e3o elitista da arte porque vivemos em uma sociedade determinada a destruir a arte, cora\u00e7\u00e3o do povo e luz do futuro. Somente a arte pode nos salvar, mas antes precisamos salv\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil que eu conheci est\u00e1 morrendo e n\u00e3o \u00e9 uma morte natural: \u00e9 um assassinato. A morte do Brasil moreno e mesti\u00e7o faz parte de um plano para esvaziar esse territ\u00f3rio, transformar seu povo em mera &#8220;for\u00e7a de trabalho&#8221; a servi\u00e7o dos que vir\u00e3o remover a riqueza e deixar-nos com o buraco.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image size-medium\"><figure class=\"aligncenter\"><img src=\"https:\/\/images.thestar.com\/content\/dam\/thestar\/news\/world\/2012\/05\/27\/how_a_tiny_pacific_island_went_from_tropical_paradise_to_facing_oblivion\/nauru.jpeg.size-custom-crop.0x650.jpg\" alt=\"\"\/><figcaption>Nauru: um pequeno pa\u00eds insular da Melan\u00e9sia cujo territ\u00f3rio foi destru\u00eddo pela minera\u00e7\u00e3o de fosfato, deixando as terras imprest\u00e1veis para a agricultura. Hoje a popula\u00e7\u00e3o sobrevive da ajuda internacional.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A for\u00e7a de um pa\u00eds est\u00e1 em sua identidade, que se baseia em uma s\u00e9rie de coisas &#8212; como sua arte, sua religi\u00e3o, suas supersti\u00e7\u00f5es, seus h\u00e1bitos etc. Toda vez que um elemento da cultura nacional fica sob ataque, todos os outros elementos tamb\u00e9m enfrentam oposi\u00e7\u00e3o. Quando uma parte da cultura de um pa\u00eds \u00e9 subtra\u00edda, o todo fica menos coeso e abre-se um espa\u00e7o por onde n\u00e3o entra somente a cultura estrangeira, ocupando o vazio, mas, tamb\u00e9m, a subjuga\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea pode achar que digo besteira, mas a supress\u00e3o da cultura impede a discuss\u00e3o dos problemas nacionais, o pa\u00eds passa a se enxergar de fora para dentro, atrav\u00e9s da interpreta\u00e7\u00e3o estrangeira. Hollywood n\u00e3o teria feito um filme como &#8220;Tropa de Elite&#8221;, por exemplo, e nenhum autor brit\u00e2nico teria escrito &#8220;Cidade de Deus&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A cultura nacional \u00e9 o nosso espelho. N\u00e3o pelo seu conte\u00fado, pois o valor do espelho n\u00e3o est\u00e1 <em>no que<\/em> reflete, mas na pr\u00f3pria materialidade de sua exist\u00eancia, que \u00e9 o que lhe permite refletir. Assim, por mais importante que seja a defesa do &#8220;genuinamente nacional&#8221; (seja l\u00e1 o que signifique o termo), a defesa da exist\u00eancia do &#8220;nacional&#8221; \u00e9 mais importante. Enquanto existir o &#8220;nacional&#8221;, ele pode ser &#8220;genu\u00edno&#8221; ou n\u00e3o. Quando deixa de existir, n\u00e3o h\u00e1 mais possibilidade de se lutar por autenticidade alguma. Nossa opini\u00e3o sobre a constru\u00e7\u00e3o do personagem Blanka, no videogame Street Fighter, n\u00e3o faz a menor diferen\u00e7a para o japon\u00eas ou para os consumidores globalizados de cultura. Se queremos ser vistos de uma forma fiel, em vez de pasteurizada, precisamos fazer n\u00f3s mesmos o nosso conte\u00fado. Autenticidade n\u00e3o \u00e9 um ideal que nos ditam, o ditado \u00e9 sempre fict\u00edcio. Autenticidade \u00e9 o que vemos no espelho quando nos olhamos nele.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns dir\u00e3o que precisamos ver um Brasil tradicional, outros que a &#8220;brasilidade&#8221; \u00e9 uma eterna constru\u00e7\u00e3o e que o Brasil de ontem j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 na nossa cara, por isso n\u00e3o o vemos quando olhamos no espelho. O que n\u00e3o podemos fazer \u00e9 jogar fora o espelho e tentar reconhecer na cara dos outros aquilo que imaginamos que somos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que cada um de n\u00f3s pode fazer, enquanto indiv\u00edduo, para que o espelho n\u00e3o se quebre, para que cada um de n\u00f3s tenha, ainda, o direito de se olhar nele, o que quer que enxergue ao faz\u00ea-lo? Um bom come\u00e7o seria se d\u00e9ssemos espa\u00e7o ao nosso. V\u00e1 ver aquele filme nacional, compre um disco de uma banda local, leia livros de autores brasileiros, valorize nossos destinos comuns.<\/p>\n\n\n\n<p>Chega de abanar o rabinho de tanta felicidade por ver um personagem brasileiro em um filme gringo, por saber que J. K. Rowling localizou uma &#8220;escola de magia&#8221; em nosso pa\u00eds, que existem japoneses tocando samba. Tudo isso pode at\u00e9 ter sua import\u00e2ncia, mas s\u00e3o coisas pequenas diante do que <em>n\u00f3s mesmos<\/em> podemos fazer, e temos feito.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pense se \u00e9 imposs\u00edvel. V\u00e1 e fa\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o podemos ter uma vis\u00e3o elitista da arte porque vivemos em uma sociedade determinada a destruir a arte, cora\u00e7\u00e3o do povo e luz do futuro. Somente a arte pode nos salvar, mas antes precisamos salv\u00e1-la. O Brasil que eu conheci est\u00e1 morrendo e n\u00e3o \u00e9 uma morte natural: \u00e9 um assassinato. 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