{"id":56,"date":"2013-04-06T01:07:00","date_gmt":"2013-04-06T04:07:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=56"},"modified":"2017-08-13T01:25:48","modified_gmt":"2017-08-13T04:25:48","slug":"ja-que-castro-alves-nao-esta-vivo-para-se-defender","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/04\/ja-que-castro-alves-nao-esta-vivo-para-se-defender\/","title":{"rendered":"J\u00e1 que Castro Alves n\u00e3o Est\u00e1 Vivo para se Defender"},"content":{"rendered":"<p>Recente <span class=\"removed_link\" title=\"http:\/\/colunas.gospelmais.com.br\/castro-alves-marco-feliciano-maldicao-noe-racista_4786\">artigo<\/span> de autoria da &#8220;psic\u00f3loga crist\u00e3&#8221; Marisa Lobo publicado no portal GospelMais procurou diminuir o peso das bobagens ditas a respeito da \u00c1frica pelo pastor e dubl\u00ea de deputado Marco Feliciano. J\u00e1 que as declara\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo s\u00e3o indefens\u00e1veis perante o bom senso (embora n\u00e3o perante a justi\u00e7a que, neste pa\u00eds, tem apenas uma rela\u00e7\u00e3o remota com tal conceito), \u00e9 de se esperar que a autora tente encontrar autoridades para referend\u00e1-las. De prefer\u00eancia autoridades mortas, que n\u00e3o reclamar\u00e3o de serem alistadas como guarda costas das ideias tramontanas do tartaruga.[^1]<\/p>\n<p>Buscar autoridades para apoiar algo que \u00e9 uma bobagem \u00f3bvia n\u00e3o diminui o tamanho do erro do que foi dito, ainda mais quando, para justificar uma peruada dita a respeito de um tema cient\u00edfico (no caso tamb\u00e9m teol\u00f3gico) voc\u00ea evoca uma autoridade liter\u00e1ria. Mas fica ainda mais injusto quando um pobre poeta do s\u00e9culo XIX \u00e9 sequestrado pelo discurso de intoler\u00e2ncia, e justamente um poeta que dedicou sua vida a combater justamente o obscurantismo e o racismo! Que buscassem algum outro poeta eu n\u00e3o me importaria, pois houve v\u00e1rios outros, filhos de seu tempo, que n\u00e3o conseguiram elevar-se acima da turba. Mas Castro Alves!<\/p>\n<p>Como pode a criatura evocar para a defesa de algu\u00e9m que d\u00e1 declara\u00e7\u00f5es racistas justamente os versos do poeta baiano, maior (talvez \u00fanico grande) de nossos abolicionistas e autor de uma obra imortal justamente porque isenta dos preconceitos comuns ao s\u00e9culo em que viveu? Um homem bem informado, \u00e0 frente de seu tempo, que afrontou com sua vida e seu verso uma sociedade cruel, racista e conservadora, em nome de seus ideias e de seus amores.<\/p>\n<p>Pode parecer inacredit\u00e1vel, mas a autora da pe\u00e7a de excremento linkada acima, tenta defender o discurso racista\u00a0 do deputado argumentando que as mesmas coisas que Feliciano declarou, em momentos de verborreia desatada pelo deslumbramento dos holofotes, usando, principalmente, Castro Alves:<\/p>\n<p>> A literatura negra, e poemas como *Vozes D\u2019\u00c1frica,* do Livro &#8220;Navio  Negreiro&#8221; do poeta abolicionista Castro Alves (1896) provam que Marco  Feliciano n\u00e3o \u00e9 racista, apenas um afrodescendente que como outros  poetas, descreveu sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Uma tal declara\u00e7\u00e3o revela um grau t\u00e3o profundo de ignor\u00e2ncia generalizada sobre coisas que a pessoa obviamente deve ter estudado, que a \u00fanica explica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 a da disson\u00e2ncia cognitiva: de fato Marisa sabe muito bem do que est\u00e1 falando, mas por raz\u00f5es afetivas e religiosas ela desenvolve teorias estapaf\u00fardias para manter sob controle a constata\u00e7\u00e3o do absurdo. Em primeiro lugar, \u00e9 uma bobagem (para ser educado) evocar uma obra liter\u00e1ria, ainda mais um poema l\u00edrico, como autoridade em Hist\u00f3ria. Mesmo que houvesse algum valor de conte\u00fado nessa obra, tal valor estaria condicionado a uma s\u00e9rie de fatores interpretativos, os mesmos que nos dizem que nenhum documento \u00e9 por si bastante para explicar um fato.<\/p>\n<p>O erro metodol\u00f3gico cometido pela afirmativa acima citada \u00e9 chamado de &#8220;abordagem reducionista&#8221; e j\u00e1 foi devidamente exorcizado pelos historiadores h\u00e1 mais de oitenta anos, exorcismo que come\u00e7ou com o marxismo e se completou (com louvor) com o desenvolvimento da &#8220;Hist\u00f3ria das Mentalidades&#8221;. Segundo a abordagem positivista (que j\u00e1 era rejeitada no s\u00e9culo XVIII por nomes como Edward Gibbon) os documentos cont\u00eam informa\u00e7\u00f5es sobre fatos, e nenhum conhecimento que n\u00e3o seja documentado pode ser considerado como fato. Disso resulta um peso excessivo ao que est\u00e1 escrito, levando, nos casos de dem\u00eancia intelectual mais agudos, a conclus\u00f5es reducionistas, como a de que os autores de documentos s\u00e3o sinceros at\u00e9 prova em contr\u00e1rio. Os historiadores mais racionais, desde bem antes de Marx, j\u00e1 tinham por princ\u00edpio que os documentos devem ser confrontados. Uma consequ\u00eancia do destronamento da abordagem reducionista foi o in\u00edcio dos estudos hist\u00f3ricos sobre os povos iletrados e a bem aventurada supera\u00e7\u00e3o do uso da inven\u00e7\u00e3o da escrita como &#8220;marco inicial&#8221; da Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas Marisa vai mais longe, ao afirmar que:<\/p>\n<p>> Citar a hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o humana em nenhum momento poderia ser motivo para atribuir a uma pessoa o r\u00f3tulo de racista para disfar\u00e7ar outros interesses s\u00f3rdidos.<\/p>\n<p>Obviamente Marisa considera a B\u00edblia um relato hist\u00f3rico inquestion\u00e1vel e que, portanto, qualquer coisa ali escrita \u00e9 parte da hist\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o humana. Somente sob o prisma de um tratamento especial do texto b\u00edblico esta afirmativa \u00e9 aceit\u00e1vel pois, sem tal condicionante, nenhum documento, por mais alheio \u00e0 realidade que seja, pode ser questionado em seu valor verdade, nem mesmo &#8220;Os Protocolos dos S\u00e1bios de Si\u00e3o&#8221; (comprovadamente falsificado, inclusive com as confiss\u00f5es dos autores e com a &#8220;\u00e1rvore geneal\u00f3gica&#8221; dos textos e ideias) ou &#8220;O Livro de M\u00f3rmom&#8221;.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o esta afirmativa para deixar bem claro a fal\u00e1cia em que Marisa incorre, ao considerar que um texto de sua prefer\u00eancia cont\u00e9m a verdade, enquanto outros textos discordantes n\u00e3o a cont\u00eam. As teses levantadas pela autora s\u00f3 fazem sentido se admitirmos previamente que a B\u00edblia tem tal valor. Mas isto \u00e9 uma fal\u00e1cia formal (*petitio principii*), uma vez que o valor de uma afirmativa n\u00e3o pode ser condicionado pela pr\u00e9via aceita\u00e7\u00e3o de outra afirmativa n\u00e3o provada. <\/p>\n<p>Mas o mais engra\u00e7ado dos efeitos colaterais do argumento \u00e9 que a legitima\u00e7\u00e3o de Castro Alves como fonte hist\u00f3rica traz de contrabando v\u00e1rios fatores altamente problem\u00e1ticos para o argumento de Marisa Lobo em defesa de Feliciano. Em primeiro lugar, o poeta baiano era, tal como seu \u00eddolo Lord Byron, um *ateu declarado *\u2014 que s\u00f3 n\u00e3o se esfor\u00e7ava mais para exibir sua falta de f\u00e9 porque a sociedade da \u00e9poca n\u00e3o permitia. Castro Alves viveu maritalmente com uma atriz de teatro (profiss\u00e3o que tinha, na \u00e9poca, um status equivalente ao de meretriz) mais velha e divorciada, um acinte para a sociedade de seu tempo, quase equivalente ao que o comportamento homossexual \u00e9 para a sociedade de hoje. Al\u00e9m disso, em mais de um momento, usou seus versos para propor a *aboli\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es.*<\/p>\n<p>Mas o mais curioso \u00e9 que, pelas teses aventadas pela psic\u00f3loga e dubl\u00ea de cr\u00edtica liter\u00e1ria, Castro Alves deveria corroborar a origem b\u00edblica da maldi\u00e7\u00e3o africana, mas n\u00e3o \u00e9 isso que ele faz. Ou Marisa nunca leu Castro Alves (prov\u00e1vel, visto que a leitura das obras do poeta baiano \u00e9 altamente salutar para o intelecto e o bom gosto) ou leu e n\u00e3o conseguiu enxergar, logo na segunda estrofe (para que n\u00e3o diga como desculpa que \u00e9 um trechinho perdido l\u00e1 no meio), que o poeta vincula a suposta maldi\u00e7\u00e3o da \u00c1frica \u00e0 mitologia grega:<\/p>\n<p>> Qual Prometeu tu me amarraste um dia<br \/>\n> Do deserto na rubra penedia<br \/>\n> &#8212; Infinito: gal\u00e9!\u2026<br \/>\n> Por abutre \u2014 me deste o sol candente,<br \/>\n> E a terra de Suez \u2014 foi a corrente<br \/>\n> Que me ligaste ao p\u00e9\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o creio que Marisa Lobo seja devota dos deuses ol\u00edmpicos. Mas, mesmo sem ser, ela deveria ter percebido, em uma leitura mais apressada, que Castro Alves, longe de aludir a uma maldi\u00e7\u00e3o vergonhosa que pesa sobre a \u00c1frica, est\u00e1, de fato, sugerindo que o continente sofre uma vingan\u00e7a ignominiosa da divindade por algo que fez de bom ao mundo.<\/p>\n<p>Como sabem os que estudaram mitologia, Prometeu roubou dos deuses o fogo sagrado e ensinou aos homens o seu segredo. De posse do fogo os homens deixaram de ser animais indefesos perante a natureza (governada pelos deuses). Por causa disso, Zeus acorrentou Prometeu nas montanhas do C\u00e1ucaso e enviava toda semana a sua \u00e1guia de estima\u00e7\u00e3o para devorar o f\u00edgado do her\u00f3i. Desta forma, o benfeitor original da humanidade sofreu por milhares de anos (at\u00e9 ser libertado por H\u00e9racles) injustamente.<\/p>\n<p>Neste magn\u00edfico trecho, o poeta baiano compara a \u00c1frica injuriada \u00e0 figura de Prometeu. Elogio maior n\u00e3o pode haver ao mais injusti\u00e7ado dos continentes: aqui est\u00e1 impl\u00edcito o reconhecimento do papel da \u00c1frica na Hist\u00f3ria, n\u00e3o apenas como ber\u00e7o da humanidade, mas tamb\u00e9m de uma das mais antigas e importantes civiliza\u00e7\u00f5es. Se o sofrimento dessa \u00c1frica prometeica \u00e9 uma maldi\u00e7\u00e3o divina, a divindade respons\u00e1vel \u00e9 um ser de infinita escrotid\u00e3o, e n\u00e3o de infinita bondade. E claramente esse deus inicialmente n\u00e3o \u00e9 Jeov\u00e1, mas Zeus.<\/p>\n<p>Em outro trecho o poema finalmente alude \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o de C\u00e3, de uma forma por\u00e9m incompat\u00edvel com\u00a0 a narrativa b\u00edblica. Pois, na sequ\u00eancia dos fatos narrados pelo poema, somente depois que a \u00c1frica acolheu C\u00e3 foi que &#8220;a Ci\u00eancia desertou do Egito&#8221;. N\u00e3o faria sentido, se Deus queria amaldi\u00e7oar a \u00c1frica, primeiro permitir que Egito florescesse para depois destru\u00ed-lo.<\/p>\n<p>Combinadas, as duas cita\u00e7\u00f5es se anulam em termos de autoridade, pois fica evidente que s\u00e3o usadas meramente como ilustra\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica, como figura de ret\u00f3rica para dar carne \u00e0s ideias do poeta.\u00a0 <\/p>\n<p>Mais \u00e0 frente Castro Alves fulmina o cristianismo de uma forma t\u00e3o inapel\u00e1vel que eu n\u00e3o entendo como Marisa Lobo ousa citar *Vozes d&#8217;\u00c1frica *para legitimar suas agress\u00f5es verbais contra os povos africanos:<\/p>\n<p>> Cristo! Embalde morreste sobre um monte<br \/>\n Teu sangue n\u00e3o lavou de minha fronte<br \/>\n A mancha original.<br \/>\n Ainda hoje s\u00e3o, por fado adverso,<br \/>\n Meus filhos &#8212; alim\u00e1ria do universo,<br \/>\n Eu &#8212; pasto universal\u2026 <\/p>\n<p>\u00c9 isso mesmo que voc\u00ea est\u00e1 lendo, caro leitor, o poeta, em uma estrofe s\u00f3, afirma que a morte de Cristo foi em v\u00e3o e que o seu sangue n\u00e3o lavou da fronte africana a mancha de seu suposto pecado. Esta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 extremamente contundente, para os fins da argumenta\u00e7\u00e3o da autora desse texto, porque havia diversos reinos cristianizados na \u00c1frica e eles n\u00e3o foram poupados do tr\u00e1fico negreiro. Notadamente o Reino do Congo e a Abiss\u00ednia. Se a raz\u00e3o das mazelas africanas estivesse em uma maldi\u00e7\u00e3o &#8220;lav\u00e1vel&#8221; no sangue de Cristo, a Eti\u00f3pia e a Eritreia, herdeiras da antiga Abiss\u00ednia, deveriam ser pa\u00edses bem superiores em &#8220;bem aventuran\u00e7a&#8221; se comparados aos seus paup\u00e9rrimos vizinhos. Na verdade, muito pelo contr\u00e1rio, os pa\u00edses menos miser\u00e1veis do continente s\u00e3o os de religi\u00e3o isl\u00e2mica. Talvez Maom\u00e9 tenha sido melhor nesse neg\u00f3cio de lavar maldi\u00e7\u00f5es mitol\u00f3gicas\u2026<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que o poeta, como leg\u00edtimo ateu, n\u00e3o recorre \u00e0 narrativa b\u00edblica sen\u00e3o como uma cor mitol\u00f3gica para aumentar a expressividade de seu texto. E faz quest\u00e3o de deixar isso bem claro quando faz sua alus\u00e3o a C\u00e3 ser precedida de outra alus\u00e3o ao mito de Prometeu: s\u00e3o s\u00f3 dois mitos utilizados com finalidade aleg\u00f3rica, ret\u00f3rica, po\u00e9tica. Ver neles mais do que isso \u00e9 simplesmente ignor\u00e2ncia do que seja literatura (e nem vou falar de outras demonstra\u00e7\u00f5es de ignor\u00e2ncia despejadas pela dita cuja).<\/p>\n<p>Mas foi importante eu ter come\u00e7ado essa disserta\u00e7\u00e3o sobre a argumenta\u00e7\u00e3o de Marisa Lobo porque me deu a oportunidade de encontrar, na leitura d*Os Escravos* diversos outros trechos que talvez a autora devesse ter lido, para construir sua tese de que o poeta baiano corrobora as lendas b\u00edblicas. Por\u00e9m, muito mais do que isso, os valores almejados pelo poeta, com os quais certamente concordo. Valores expressos em algumas das \u00faltimas estrofes do poema *O S\u00e9culo*, que come\u00e7a com uma longa e desanimadora an\u00e1lise da pol\u00edtica internacional da \u00e9poca e termina convocando os povos a um programa que em nada se assemelha com o reacionarismo obscurantista de certos setores da direita religiosa:<\/p>\n<p>> E v\u00f3s, arcas do futuro,<br \/>\n  Cris\u00e1lidas do porvir,<br \/>\n  Quando vosso bra\u00e7o ousado<br \/>\n  Legisla\u00e7\u00f5es construir,<br \/>\n  *Levantai um templo novo,<br \/>\n  Por\u00e9m n\u00e3o que esmague o povo,<br \/>\n  Mas lhe seja o pedestal.<br \/>\n  Que ao menino d\u00ea-se a escola,<br \/>\n  Ao veterano &#8212; uma esmola&#8230;<br \/>\n  A todos &#8212; luz e fanal!*<\/p>\n<p>> Luz!&#8230; sim; que a crian\u00e7a \u00e9 uma ave,<br \/>\n  Cujo porvir tendes v\u00f3s;<br \/>\n  No sol &#8212; \u00e9 uma \u00e1guia arrojada,<br \/>\n  Na sombra &#8212; um mocho feroz.<br \/>\n  *Libertai tribunas, prelos&#8230;*<br \/>\n  S\u00e3o fracos, mesquinhos elos&#8230;<br \/>\n  N\u00e3o calqueis o povo-rei!<br \/>\n  *Que este mar d&#8217;almas e peitos,<br \/>\n  Com as vagas de seus direitos,<br \/>\n  Vir\u00e1 partir-vos a lei.*<\/p>\n<p>> *Quebre-se o cetro do Papa,*<br \/>\n  Fa\u00e7a-se dele \u2014 uma cruz!<br \/>\n  A p\u00farpura sirva ao povo<br \/>\n  Pra cobrir os ombros nus,<br \/>\n  Que aos gritos do Niagara<br \/>\n  \u2014 Sem escravos, \u2014 Guanabara<br \/>\n  Se eleve ao fulgor dos s\u00f3is!<br \/>\n  Banhem-se em luz os prost\u00edbulos,<br \/>\n  E das lascas dos pat\u00edbulos<br \/>\n  Erga-se a est\u00e1tua aos her\u00f3is!<\/p>\n<p>Al\u00e9m de ateu, nestes versos o poeta se mostra exatamente um comunista, ou seja, o tipo de gente mais indicado para uma religiosa fundamentalista ter como \u00eddolo! Observem que o poeta prev\u00ea o fim da religi\u00e3o:* Levantai um templo novo, \/ Por\u00e9m n\u00e3o que esmague o povo, \/ Mas lhe seja o pedestal.* Este templo n\u00e3o \u00e9 um templo religioso (observe a curiosa conjun\u00e7\u00e3o adversativa &#8220;por\u00e9m&#8221; sugerindo que os templos a que o leitor estava acostumado eram do tipo que, sim, esmagava o povo). Em lugar dela, o homem deveria cultuar a si mesmo e \u00e0s suas realiza\u00e7\u00f5es (pois os novos templos seriam pedestais do povo). O programa pol\u00edtico de Castro Alves inclu\u00eda educa\u00e7\u00e3o para todos (*Que ao menino d\u00ea-se a escola*)*, *um sistema p\u00fablico de previd\u00eancia social (*Ao veterano \u2014 uma esmola*) e at\u00e9 mesmo um programa de renda m\u00ednima (*A todos \u2014 luz e fanal!*). Este \u00faltimo aspecto ecoa de modo curioso a m\u00e1xima marxista (&#8220;de todos segundo sua capacidade, a todos segundo sua necessidade&#8221;).<\/p>\n<p>Nestes versos o poeta tamb\u00e9m defende as liberdades de express\u00e3o e de imprensa (*Libertai tribunas, prelos*), afirma que todo o poder emana do povo (*povo-rei*) e profetiza a Revolu\u00e7\u00e3o contra os governos que n\u00e3o se submeterem a tal reinado (*Que este mar d&#8217;almas e peitos, \/ Com as vagas de seus direitos, \/ Vir\u00e1 partir-vos a lei.) *N\u00e3o apenas o poeta prop\u00f5e a derrubada do poder temporal dos reis, ele vai al\u00e9m e prop\u00f5e a aboli\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico da igreja: **Quebre-se o cetro do Papa.** Esse poema \u00e9 do tipo que faria os bolcheviques salivarem. Uma tradu\u00e7\u00e3o em russo teria se tornado muito popular na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Em suma, se considerarmos a obra e a vida do poeta baiano, *nada* est\u00e1 mais distante do fundamentalismo racista que Marisa Lobo defende, *nada* \u00e9 mais avesso ao reacionarismo do tipo de religi\u00e3o crist\u00e3 a que ela adere.<\/p>\n<p>[^1]: Diz um antigo ditado que quando vemos uma tartaruga no alto de um poste podemos ter v\u00e1rias d\u00favidas: como vai descer, como se equilibra l\u00e1, quanto tempo vai permanecer ali, se vai sobreviver \u00e0 queda etc. Mas podemos ter uma certeza: ela n\u00e3o subiu at\u00e9 l\u00e1 sozinha, mas foi posta l\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recente artigo de autoria da &#8220;psic\u00f3loga crist\u00e3&#8221; Marisa Lobo publicado no portal GospelMais procurou diminuir o peso das bobagens ditas a respeito da \u00c1frica pelo pastor e dubl\u00ea de deputado Marco Feliciano. J\u00e1 que as declara\u00e7\u00f5es do indiv\u00edduo s\u00e3o indefens\u00e1veis perante o bom senso (embora n\u00e3o perante a justi\u00e7a que, neste pa\u00eds, tem apenas uma rela\u00e7\u00e3o remota com tal conceito), \u00e9 de se esperar que a autora tente encontrar autoridades para referend\u00e1-las. 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