{"id":5701,"date":"2017-11-30T12:03:46","date_gmt":"2017-11-30T15:03:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5701"},"modified":"2017-11-29T23:37:42","modified_gmt":"2017-11-30T02:37:42","slug":"exotismo-e-escapismo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/11\/exotismo-e-escapismo\/","title":{"rendered":"Exotismo e Escapismo"},"content":{"rendered":"<p>A predomin\u00e2ncia de elementos ex\u00f3ticos entre os g\u00eaneros de fic\u00e7\u00e3o mais populares no Brasil me d\u00e1 a impress\u00e3o de que a maior parte do p\u00fablico leitor brasileiro tem pouca no\u00e7\u00e3o de si mesmo e busca na literatura um escapismo. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 porque os <em>best-sellers<\/em> s\u00e3o vendidos de forma massificada. Poder\u00edamos estar comprando <em>best-sellers<\/em> realistas. Se focamos em certos temas em vez de outros, isso deve ter um significado.<\/p>\n<p>A busca do ex\u00f3tico atinge tanto a literatura estrangeira traduzida quanto a literatura nacional escrita sob inspira\u00e7\u00e3o direta de literatura estrangeira, e coloniza principalmente a fic\u00e7\u00e3o de tem\u00e1tica especulativa: fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, alta fantasia e realismo m\u00e1gico.<\/p>\n<p>Talvez o p\u00fablico leitor brasileiro n\u00e3o deseje ver a si mesmo retratado na literatura porque n\u00e3o se enxerga como \u00e9, mas como um ideal que resulta da massifica\u00e7\u00e3o dos <em>best-sellers<\/em> e do cinema. \u00c9 quase normal que algumas pessoas se identifiquem mais com hist\u00f3rias ambientadas em uma gringol\u00e2ndia clich\u00ea, copiada de filmes e s\u00e9ries, enquanto rejeitam cen\u00e1rios e temas tipicamente nacionais. N\u00f3s n\u00e3o queremos ver os nossos problemas na literatura &#8212; eles n\u00e3o s\u00e3o problemas &#8220;literariamente relevantes&#8221;. Queremos uma situa\u00e7\u00e3o ideal, que pode ser a realidade de outro pa\u00eds, de outra dimens\u00e3o ou de outro tempo.<\/p>\n<p>O nome desse anseio \u00e9 &#8220;escapismo&#8221;.<\/p>\n<p>Ele tem v\u00e1rias causas e muitas vezes \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea (e inconsciente) \u00e0 falta de liberdade. A fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica floresceu no antigo bloco comunista porque nessas obras os autores se sentiam mais livres para abordar certos temas que eram censurados. Algo semelhante ocorreu no assim chamado &#8220;mundo livre&#8221;: o auge da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ocorreu justamente nos anos em torno do macarthismo.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que o nosso escapismo n\u00e3o est\u00e1 relacionado aos nossos tabus sociais? Nossa cultura \u00e9 bastante repressiva e nossa realidade, baseada em rela\u00e7\u00f5es de poder abusivas. H\u00e1 elementos para acreditar que o leitor brasileiro rejeita o Brasil &#8212; e n\u00e3o se identifica com ele &#8212; exatamente porque, ainda que o negue, est\u00e1 consciente, em um n\u00edvel subliminar, de que este pa\u00eds em que vivemos resulta de uma s\u00e9rie de situa\u00e7\u00f5es profundamente conflituosas.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 um fato dado, a que n\u00e3o podemos ignorar. Supondo isso verdadeiro, o que cabe fazer enquanto autor?<\/p>\n<ol>\n<li>Ignorar a situa\u00e7\u00e3o e continuar escrevendo a literatura do s\u00e9culo que passou, buscando seu pr\u00f3prio escapismo;<\/li>\n<li>Mergulhar de cabe\u00e7a, pois o que importa \u00e9 dar ao p\u00fablico o que ele quer;<\/li>\n<li>Usar isso como isca para induzir o leitor a reflex\u00f5es um pouco mais profundas, talvez para fisg\u00e1-lo para temas liter\u00e1rios mais maduros e menos escapistas.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Se escolher a op\u00e7\u00e3o &#8220;a&#8221;, voc\u00ea abdica de se tornar um autor relevante e se transforma em um diletante. Como aqueles poetas que ainda participavam de &#8220;concursos de sonetos&#8221; no in\u00edcio dos anos 90. A literatura evolui, a fila anda e aqueles que n\u00e3o acompanham a moda desaparecem na poeira da hist\u00f3ria da literatura. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o na posteridade para aqueles que vivem os restos de um tempo que passou.<\/p>\n<p>Se escolher a op\u00e7\u00e3o &#8220;b&#8221;, voc\u00ea abdica de qualquer di\u00e1logo com o seu leitor, transforma-se num mero oper\u00e1rio das letras, pois suas obras n\u00e3o ter\u00e3o nunca espa\u00e7o para express\u00e3o pessoal ou questionamentos existenciais. Sua produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria se restringue ao aspecto do produto.<\/p>\n<p>Se escolher a op\u00e7\u00e3o &#8220;c&#8221; voc\u00ea pelo menos estar\u00e1 tentando, mas estar\u00e1 tentando subir o morro mais \u00edngreme. Se errar a m\u00e3o o p\u00fablico o rejeitar\u00e1 como um impostor. Se acertar demais, corre o risco de ser cooptado e perder a capacidade de questionar.<\/p>\n<p>Alguns se sentem t\u00e3o chateados que rejeitam o pr\u00f3prio valor liter\u00e1rio das literaturas especulativas, especialmente a fantasia. Acredito que esse preconceito \u00e9 uma besteira.<\/p>\n<p>Literatura de fantasia n\u00e3o \u00e9 &#8220;baixa literatura&#8221;. Na verdade, a fantasia \u00e9 a origem de toda a literatura: a Odiss\u00e9ia n\u00e3o era um retrato realista e cientificamente embasado da vida na Gr\u00e9cia pr\u00e9-cl\u00e1ssica, problematizando de maneira inteligente situa\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>A gente precisa respeitar todo g\u00eanero e todo tema, especialmente se quisermos cativar as pessoas para gostar do nosso g\u00eanero e do nosso tema. H\u00e1 que se criticar a falta de qualidade de um trabalho, mas a falta de qualidade de 77 romances de fantasia n\u00e3o \u00e9 culpa da fantasia, mas dos autores que n\u00e3o tiveram compet\u00eancia de fazer bem.<\/p>\n<p>A maior cr\u00edtica que se pode fazer \u00e0 literatura de fantasia, especialmente a de hoje, \u00e9 que os autores de &#8216;fantasia&#8217; costumam ter pouqu\u00edssima imagina\u00e7\u00e3o (al\u00e9m de pouca cultura) e por isso se limitam a copiar tr\u00eas ou quatro influ\u00eancias que tiveram. Fantasia envolve fantasiar, imaginar. Exige criatividade. \u00c9 um desafio maior que narrar uma hist\u00f3ria do dia a dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 motivo, portanto, para remar para longe da mar\u00e9 da fantasia. Mas n\u00e3o podemos deixar que o sorvedouro nos trague e nos mate.<\/p>\n<p>O leitor tem o direito de ser raso e buscar escapismo. O autor tem a obriga\u00e7\u00e3o de lhe dar mais do que isso, de lhe fazer enxergar atrav\u00e9s dos vincos e rachaduras da realidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A predomin\u00e2ncia de elementos ex\u00f3ticos entre os g\u00eaneros de fic\u00e7\u00e3o mais populares no Brasil me d\u00e1 a impress\u00e3o de que a maior parte do p\u00fablico leitor brasileiro tem pouca no\u00e7\u00e3o de si mesmo e busca na literatura um escapismo. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 porque os best-sellers s\u00e3o vendidos de forma massificada. Poder\u00edamos estar comprando best-sellers realistas. Se focamos em certos temas em vez de outros, isso deve ter um significado. 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