{"id":5735,"date":"2017-12-13T21:40:06","date_gmt":"2017-12-14T00:40:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5735"},"modified":"2019-06-05T21:59:34","modified_gmt":"2019-06-06T00:59:34","slug":"o-que-fazer-com-a-arte-de-pessoas-execraveis","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/12\/o-que-fazer-com-a-arte-de-pessoas-execraveis\/","title":{"rendered":"O Que Fazer com a Arte de Pessoas Execr\u00e1veis?"},"content":{"rendered":"\n<p>Com o recente terremoto de acusa\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio sexual contra personalidades do mundo do cinema voltou \u00e0 baila um antigo debate, nunca inteiramente superado, sobre a maneira como a sociedade deve lidar com a obra de pessoas que se mostraram detest\u00e1veis. Esse debate talvez tenha sido feito pela primeira vez de maneira ampla ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, quando v\u00e1rias personalidades do mundo da arte e da filosofia haviam simpatizado com o nazismo: Martin Heidegger, Knut Hamsun e Louis-Ferdinand C\u00e9line foram autores que enfrentaram graves acusa\u00e7\u00f5es de \u201ctrai\u00e7\u00e3o nacional\u201d (Hamsum e C\u00e9line) e sofreram com o opr\u00f3bio da academia, mas nenhum destes teve a carreira interrompida de maneira definitiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais recentemente surgiram movimentos para reavaliar a obra de autores do passado considerando a sua \u201cheran\u00e7a\u201d de racismo, machismo ou algum outro \u201cismo\u201d para o qual a humanidade se tornou mais sens\u00edvel, supostamente. A nova ideia que se propaga \u00e9 a de que devemos destruir atrav\u00e9s do boicote as carreiras dos autores e artistas \u201cexecr\u00e1veis\u201d, tal como se fossem Charles Manson.<sup id=\"fnref-5735-1\"><a class=\"jetpack-footnote\" href=\"#fn-5735-1\">1<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image size-medium wp-image-5736\"><figure class=\"alignright\"><img src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Louis-Ferdinand_C\u00e9line_1932-300x240.jpg\" alt=\"L. F. C\u00e9line\" class=\"wp-image-5736\"\/><figcaption>Louis-Ferdinand C\u00e9line, de astro das letras a vil\u00e3o nacional. O autor enfrentou o ex\u00edlio e terminou seus dias como um recluso em sua cidade natal.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Muito antes das controv\u00e9rsias recentes de Hollywood houve o questionamento da obra de Mark Twain, por seu linguajar \u201cofensivo\u201d,<sup id=\"fnref-5735-2\"><a class=\"jetpack-footnote\" href=\"#fn-5735-2\">2<\/a><\/sup> houve a tentativa de banir Monteiro Lobato de nossas escolas, houve campanhas de difama\u00e7\u00e3o de autores do passado por causa de sua incapacidade de corresponderem aos ideais modernos de santidade. Esse debate, que come\u00e7ou com um \u201cdesafio ao curr\u00edculo\u201d para torn\u00e1-lo menos macho e branco, ainda que ao pre\u00e7o de substituir as obras questionadas por outras de qualidade inferior, mas escritas por autores do sexo e da cor correta, chegou agora \u00e0 proposta de transformar a cr\u00edtica em ativismo pol\u00edtico. \u00c9 um Rubic\u00e3o que precisamos decidir se cruzaremos ou n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A humanidade sempre foi composta principalmente por tipos os mais execr\u00e1veis. A \u00e9tica sempre foi a preocupa\u00e7\u00e3o de uma minoria, muitas vezes a minoria que perecia nas guerras justamente por n\u00e3o ser capaz de fazer \u201ctudo\u201d para vencer. A sele\u00e7\u00e3o natural n\u00e3o favorece a raz\u00e3o e nem a \u00e9tica, por isso o ser humano \u00e9 selecionado para ser supersticioso e trapaceiro. Com uma dem\u00e3o de falsa moralidade proporcionada pela ideologia, temos o cidad\u00e3o de bem, <em>religioso<\/em> e esperto.<\/p>\n\n\n\n<p>Por uma estranha coincid\u00eancia, foram estes mesmos tipos execr\u00e1veis, e n\u00e3o anjos perfeitos, que produziram as obras que nos foram legadas pelo passado. Pessoas de belo car\u00e1ter n\u00e3o costumam estar presentes na terra em n\u00famero suficiente para influenciar o mundo de maneira decisiva \u2014 e tamb\u00e9m n\u00e3o costumam ter em si a centelha de inquieta\u00e7\u00e3o que leva o ser humano a aproximar-se do extremo e do sublime. A arte das pessoas execr\u00e1veis n\u00e3o \u00e9, portanto, uma curiosidade dispens\u00e1vel. Dependendo de como classifiquemos \u201cexecr\u00e1vel\u201d, simplesmente n\u00e3o haver\u00e1 nada que reste a ser estudado no passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns autores t\u00eam a fama excelente, o que basicamente significa que sabemos <em>muito pouco<\/em> sobre eles. Se soub\u00e9ssemos mais, alcan\u00e7ar\u00edamos os seus segredos profundos e encontrar\u00edamos algo a nos chocar.<sup id=\"fnref-5735-3\"><a class=\"jetpack-footnote\" href=\"#fn-5735-3\">3<\/a><\/sup> A diferen\u00e7a entre os \u201cexecr\u00e1veis\u201d e \u201cn\u00e3o execr\u00e1veis\u201d n\u00e3o est\u00e1 em uma imposs\u00edvel perfei\u00e7\u00e3o moral, mas em onde tra\u00e7ar a linha imagin\u00e1ria que separa os comportamentos \u201cexecr\u00e1veis\u201d dos \u201c aceit\u00e1veis\u201d. N\u00e3o tenho conhecimento de que j\u00e1 tenha se chegado a um acordo sobre onde tra\u00e7ar a linha: cada um a coloca onde quer.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando perguntamos \u201co que fazer com a arte das pessoas execr\u00e1veis\u201d o que estamos perguntando, de fato, \u00e9 se ainda podemos manter a separa\u00e7\u00e3o entre o indiv\u00edduo e sua obra.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a maior parte da hist\u00f3ria da humanidade pareceu razo\u00e1vel supor que a obra transcende o autor. Isto vem desde a mais remota antiguidade, quando o texto era tido como palavras sagradas, passando pela Idade M\u00e9dia, quando o livro passou a ser visto como objeto sagrado e pelas Idades Moderna e Contempor\u00e2nea, quando o fetiche do livro foi substitu\u00eddo pelo fetiche do fazer liter\u00e1rio. O \u00e1pice desta ideia de separa\u00e7\u00e3o foi trazido por Roland Barthes, que decretou a \u201cmorte do autor\u201d diante de sua obra: segundo o cr\u00edtico franc\u00eas, uma vez que a obra \u00e9 publicada, perde o autor o seu controle sobre as interpreta\u00e7\u00f5es que podem ser feitas dela. A obra deixa de pertencer a quem a escreveu e passa a pertencer a quem a l\u00ea \u2013 e o leitor tem a liberdade de atribuir ao texto significados relativos a si mesmo, o que mais recentemente se reflete no conceito de \u201cshipar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m na filosofia isso foi resolvido no mesmo sentido: uma das bases do pensamento racional \u00e9 o conceito de que devemos examinar as ideias por seu valor objetivo, evitando desqualific\u00e1-las devido ao autor ou, ainda mais rasteiro, interpret\u00e1-las de maneira relativa a quem as emite. Existe at\u00e9 um belo nome em latim para o tipo de racioc\u00ednio que ataca a obra por causa do autor: <em><a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Argumentum_ad_hominem\">Argumentum ad hominem<\/a><\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Separar o indiv\u00edduo de sua obra quer dizer que n\u00e3o nos importa <em>quem<\/em> escreveu um texto de valor liter\u00e1rio. \u00c9 uma atitude moderna e libertadora, que liberta o homem comum da pris\u00e3o intelectual do feudalismo, per\u00edodo durante o qual somente os nobres e os membros da igreja estavam autorizados a escrever. Colocar um nobre de alta linhagem no mesmo n\u00edvel de um campon\u00eas alfabetizado \u00e9 um dos efeitos te\u00f3ricos da separa\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e da obra: o nobre pode ler a poesia escrita pelo alde\u00e3o, se ela for boa, o industrial pode ouvir a m\u00fasica feita pelo favelado, se ela for boa. A \u201cqualidade\u201d, esse fugidio conceito tantas vezes definido de forma elitista e injusta, era como ponte te\u00f3rica entre o lado de baixo e o lado de cima.<sup id=\"fnref-5735-4\"><a class=\"jetpack-footnote\" href=\"#fn-5735-4\">4<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Mas a separa\u00e7\u00e3o entre indiv\u00edduo e obra tem um outro efeito que se tornou indesejado: o preju\u00edzo ao moralismo. Se podemos apreciar a obra escrita por uma pessoa humilde, por que n\u00e3o podemos apreciar tamb\u00e9m aquela criada por algu\u00e9m detest\u00e1vel? O autor, a partir do momento em que se torna \u201cfamoso\u201d, adquire a liberdade de agir al\u00e9m do senso comum, praticando atos que os comuns n\u00e3o podem. Esta \u201caristocracia art\u00edstica\u201d criada pelo conceito da \u201cqualidade\u201d levou ao surgimento do \u201cautor maldito\u201d e do \u201castro drogado\u201d. N\u00e3o seria poss\u00edvel imaginar Rimbaud e Verlaine sem o conceito de separa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o teria sido poss\u00edvel metade da rebeldia do <em>rock&#8217;n&#8217;roll<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os moralistas isso sempre foi intoler\u00e1vel. Os p\u00e2nicos morais contra os artistas dissolutos s\u00e3o antigos, datando desde a \u00e9poca vitoriana, quando Oscar Wilde caiu em desgra\u00e7a por sua homossexualidade, e chegando ao auge nos anos setenta, quando os roqueiros drogados eram vistos como sacerdotes do anticristo. Ocorre que, com a religi\u00e3o em decl\u00ednio em boa parte do mundo ocidental, esses p\u00e2nicos morais n\u00e3o conseguiam ter credibilidade geral junto \u00e0 popula\u00e7\u00e3o.<sup id=\"fnref-5735-5\"><a class=\"jetpack-footnote\" href=\"#fn-5735-5\">5<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>Desde os anos 1960, por\u00e9m, vem ocorrendo um gradual solapamento dos valores iluministas de racionalidade e objetividade, substitu\u00eddos por ideias relativistas que negam a exist\u00eancia de padr\u00f5es objetivos. A \u201cqualidade\u201d art\u00edstica foi atacada como uma mera conven\u00e7\u00e3o excludente, por exemplo. Na arte moderna, belo \u00e9 aquilo a que o artista chame de belo e \u00e9 o p\u00fablico que deve ter a \u201cmente aberta\u201d para aceitar.<sup id=\"fnref-5735-6\"><a class=\"jetpack-footnote\" href=\"#fn-5735-6\">6<\/a><\/sup> Mais do que questionada como uma conven\u00e7\u00e3o, a \u201cqualidade\u201d objetiva foi atacada como um instrumento ideol\u00f3gico de domina\u00e7\u00e3o: os indiv\u00edduos perif\u00e9ricos n\u00e3o t\u00eam que adequar-se ao gosto das classes dominantes para serem aceitos em uma cultura comum. Em vez disso devem buscar formas \u201c aut\u00eanticas\u201d de express\u00e3o que tenham significado para eles pr\u00f3prios e suas comunidades e s\u00e3o as classes dominantes que devem ser convencidas a aceitar essas no\u00e7\u00f5es variantes de \u201cqualidade\u201d, definidas conforme os respectivos \u201clugares de fala\u201d de quem as pratica.<sup id=\"fnref-5735-7\"><a class=\"jetpack-footnote\" href=\"#fn-5735-7\">7<\/a><\/sup><\/p>\n\n\n\n<p>A culmina\u00e7\u00e3o desse solapamento ocorre quando j\u00e1 n\u00e3o se pode criticar os dotes vocais e a habilidade musical de um artista sem que isso seja confundido com uma discrimina\u00e7\u00e3o de natureza racial ou de g\u00eanero ou de orienta\u00e7\u00e3o sexual. \u201cEscrever bem\u201d j\u00e1 n\u00e3o importa, o que importa \u00e9 que cada microcosmo existente no seio da popula\u00e7\u00e3o seja representado, mesmo que por um n\u00e9scio que n\u00e3o sabe encontrar a pr\u00f3pria bunda no escuro. Vamos al\u00e9m disso: a segmenta\u00e7\u00e3o r\u00edgida da sociedade faz com que nos sintamos representados somente por quem seja parecido conosco. Da\u00ed a necessidade de que cada nicho cultural se represente, mesmo que n\u00e3o tenha produzido algu\u00e9m digno de represent\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o, de fato, duas as faces de uma mesma pergunta: \u201co que fazer com a arte das pessoas execr\u00e1veis\u201d quando ela nos compele a gostarmos dela e \u201co que fazer com a arte execr\u00e1vel das pessoas\u201d quando somos cobrados a gostar dela. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel responder a uma pergunta sem abordar a outra. Ambas est\u00e3o ligadas em uma insol\u00favel e rec\u00edproca \u201cchave de pernas\u201d no ringue das ideias. A \u00fanica maneira de solucionar o impasse \u00e9 por arbitragem.<\/p>\n\n\n\n<p>Devemos manter a separa\u00e7\u00e3o entre o autor e sua obra?<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea acha que sim, ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 obrigado a gostar de Pablo Vittar por ser atualmente o maior \u00edcone <em>gay<\/em> da m\u00fasica pop brasileira. Est\u00e1 liberado para dizer que ele n\u00e3o sabe cantar e nem compor.<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea acha que sim, ent\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 obrigado a deixar de gostar dos filmes de Woody Allen s\u00f3 porque ele foi um escroto ao se relacionar com a Soon-Yi.<\/p>\n\n\n\n<p>Se acha que n\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o pode criticar Pabllo Vittar porque ele \u00e9 <em>gay<\/em> e os homossexuais s\u00f3 se sentem representados por ele. Sendo ele o maior \u00edcone <em>gay<\/em> do momento, voc\u00ea, se for homossexual, est\u00e1 <em>obrigado<\/em> a gostar dele, porque n\u00e3o faz\u00ea-lo seria algo como \u201ctrair o movimento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Se acha que n\u00e3o, ent\u00e3o assistir a um filme de Woody Allen \u00e9 uma falha moral e inadvertidamente <em>gostar<\/em> desse filme \u00e9 um pecado mortal.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma das op\u00e7\u00f5es na qual um arroto de Pablo Vittar deve ser aceito e ningu\u00e9m deve gostar de <em>A Rosa P\u00farpura do Cairo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre ambos os extremos reside a posi\u00e7\u00e3o ideal. Escolha como achar melhor.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"footnote\">\n<ol>\n<li id=\"fn-5735-1\">Antes de se tornar o l\u00edder de uma seita fan\u00e1tica e o mandante de uma s\u00e9rie de crimes horr\u00edveis, Manson foi um compositor e int\u00e9rprete de <em>folk music<\/em>, que chegou a ter uma can\u00e7\u00e3o gravada pelos Beach Boys. No in\u00edcio dos anos 1990 o Guns &#8216;n&#8217; Roses tamb\u00e9m gravou uma obra de Manson.&nbsp;<a href=\"#fnref-5735-1\">\u21a9<\/a><\/li>\n<li id=\"fn-5735-2\">No caso de Mark Twain, a controv\u00e9rsia se deveu ao emprego por ele da palavra <em>negro<\/em> para se referir a pessoas negras. Nos Estados Unidos este termo adquiriu um car\u00e1ter ofensivo a partir da segunda metade do s\u00e9culo XX e hoje \u00e9 considerado uma inj\u00faria racial. Acontece que Twain, escrevendo no final do s\u00e9culo XIX, n\u00e3o tinha como prever a mudan\u00e7a de acep\u00e7\u00e3o da palavra no futuro.&nbsp;<a href=\"#fnref-5735-2\">\u21a9<\/a><\/li>\n<li id=\"fn-5735-3\">A condena\u00e7\u00e3o da arte de pessoas execr\u00e1veis torna-se, muitas vezes, a condena\u00e7\u00e3o da arte das pessoas que <em>sabemos<\/em> serem execr\u00e1veis. Permitir que a condena\u00e7\u00e3o dos execr\u00e1veis se consolide como uma pr\u00e1tica significa permitir que o poder econ\u00f4mico e midi\u00e1tico determine a quais obras daremos valor: para destruir uma carreira bastar\u00e1 apenas que uma campanha de <em>marketing<\/em> foque nos aspectos negativos da personalidade de um artista. Temos visto nos \u00faltimos anos provas suficientes de como a m\u00eddia \u00e9 capaz de criar her\u00f3is e depois destrui-los (Collor, por exemplo). Ser\u00e1 que a m\u00eddia n\u00e3o seria capaz de usar o moralismo como uma ferramenta para destruir os artistas que deseja descartar?&nbsp;<a href=\"#fnref-5735-3\">\u21a9<\/a><\/li>\n<li id=\"fn-5735-4\">N\u00e3o quero aqui dizer que acredito que exista uma qualidade objetiva e defin\u00edvel, mas que a exist\u00eancia de tal conceito permitiu construir a ponte a que me refiro. Exemplos dessa ponte em funcionamento foram, aqui no Brasil, a aceita\u00e7\u00e3o de artistas perif\u00e9ricos, como Cartola, Elza Soares, Jorge Ben Jor e outros. A pr\u00f3pria MPB se baseou inteiramente na ideia de que tal ponte seria poss\u00edvel, isso significa que o conceito de qualidade objetiva, ainda que discut\u00edvel, merece respeito e n\u00e3o o devemos descartar pura e simplesmente por n\u00e3o concordarmos.&nbsp;<a href=\"#fnref-5735-4\">\u21a9<\/a><\/li>\n<li id=\"fn-5735-5\">O que n\u00e3o quer dizer que as for\u00e7as conservadoras e religiosas deixaram de tramar a seu modo para reimpor seus valores.&nbsp;<a href=\"#fnref-5735-5\">\u21a9<\/a><\/li>\n<li id=\"fn-5735-6\">Essa \u00e9 a suprema encarna\u00e7\u00e3o do elitismo, de que sou v\u00e1rias vezes acusado. Na invers\u00e3o de valores do mundo de hoje, o artista revindicar a legitimidade do que faz, sem ter de se submeter a nenhum conceito ou padr\u00e3o externo, \u00e9 visto como uma forma de \u201chumildade\u201d, enquanto propor a ideia de que a qualidade \u00e9 algo externo ao artista e que requer adapta\u00e7\u00e3o e aprendizado \u00e9 visto como \u201celitismo\u201d.&nbsp;<a href=\"#fnref-5735-6\">\u21a9<\/a><\/li>\n<li id=\"fn-5735-7\">Apesar da utilidade do conceito de \u201clugar de fala\u201d em outros contextos, ele envenena a cr\u00edtica de arte porque exige um lugar para obras que n\u00e3o tenham \u201cqualidade\u201d baseando-se na ideia de que o produtor de tais obras, devido \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o pessoal, tem o direito de se representar. Na pr\u00e1tica isso quer dizer que, se a sociedade \u00e9 majoritariamente pertencente ao grupo X e o grupo minorit\u00e1rio Y est\u00e1 sub-representado na produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, obras produzidas por artistas do grupo Y ser\u00e3o valorizadas a fim de reduzir a disparidade de representa\u00e7\u00e3o <em>e n\u00e3o porque sejam merecedoras de aten\u00e7\u00e3o<\/em>.&nbsp;<a href=\"#fnref-5735-7\">\u21a9<\/a><\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com o recente terremoto de acusa\u00e7\u00f5es de ass\u00e9dio sexual contra personalidades do mundo do cinema voltou \u00e0 baila um antigo debate, nunca inteiramente superado, sobre a maneira como a sociedade deve lidar com a obra de pessoas que se mostraram detest\u00e1veis. Esse debate talvez tenha sido feito pela primeira vez de maneira ampla ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, quando v\u00e1rias personalidades do mundo da arte e da filosofia haviam simpatizado com o nazismo: Martin Heidegger, Knut Hamsun e Louis-Ferdinand C\u00e9line foram autores que enfrentaram graves [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5736,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[187],"tags":[20,28,57,222,223],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5735"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5735"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5735\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6723,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5735\/revisions\/6723"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5736"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5735"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5735"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5735"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}