{"id":5762,"date":"2018-01-16T19:57:21","date_gmt":"2018-01-16T22:57:21","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5762"},"modified":"2018-01-16T19:59:33","modified_gmt":"2018-01-16T22:59:33","slug":"nao-matemos-os-livros-por-causa-de-nossos-pecados","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/01\/nao-matemos-os-livros-por-causa-de-nossos-pecados\/","title":{"rendered":"N\u00e3o Matemos os Livros por Causa de Nossos Pecados"},"content":{"rendered":"<p>Eu entendo muito bem quem se ressente da exist\u00eancia de \u201csexismo\u201d, \u201cracismo\u201d, ou puro mau-caratismo em obras liter\u00e1rias (ou quaisquer outras), mas acredito que essas pessoas padecem de um imenso equ\u00edvoco quando come\u00e7am a focar nessas imperfei\u00e7\u00f5es das obras liter\u00e1rias do passado. N\u00e3o chego a dizer que \u00e9 \u201cmimimi\u201d (mesmo me co\u00e7ando a l\u00edngua para dizer), mas que s\u00e3o tr\u00eas os problemas desse entendimento:<\/p>\n<ol>\n<li>Anacronismo &mdash; frequentemente queremos cobrar de autores do passado um conhecimento que eles n\u00e3o poderiam ter. <\/li>\n<li><em>Non Sequitur<\/em> &mdash; a incapacidade de diferenciar entre causa e efeito leva alguns a imaginarem que a presen\u00e7a de certo elemento na obra ter\u00e1, necessariamente, um efeito determinado no leitor. <\/li>\n<li>Recorte espec\u00edfico &mdash; certos temas s\u00e3o mais preocupantes do que outros.<\/li>\n<\/ol>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/satan-153725_640-283x300.png\" alt=\"Os livros escritos para agradar ao dem\u00f4nio...\" width=\"283\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-5764\" \/><\/p>\n<p>O problema do anacronismo \u00e9 mais f\u00e1cil de entender. Infelizmente, nem todos s\u00e3o capazes de aceitar que at\u00e9 mesmo os g\u00eanios s\u00e3o fruto de seu tempo. Da\u00ed quererem menosprezar um autor por atitudes que eram comuns em sua \u00e9poca. Um bom exemplo disso \u00e9 a cr\u00edtica que se faz a Euclides da Cunha pela maneira como ele reagiu ao adult\u00e9rio de sua esposa. Vista em contexto, a rea\u00e7\u00e3o de Euclides n\u00e3o somente era previs\u00edvel como era obrigat\u00f3ria para um homem de sua posi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 porque ele tentou matar o amante de sua esposa, a quem surpreendeu em flagrante de adult\u00e9rio, que devemos deixar de ler \u201cOs Sert\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>O segundo problema j\u00e1 \u00e9 mais ardiloso. Esse \u00e9 o tipo de gente que acha que v\u00eddeojogos violentos tornam os jovens mais violentos, por exemplo. Basicamente esse \u00e9 o pensamento que legitima a censura e v\u00ea-lo defendido por quem se acha progressista \u00e9 espantoso (mas, claro, n\u00e3o espanta que seja defendido por quem <em>se diz<\/em> progressista). A censura sempre se estabelece para proteger os \u201cinocentes\u201d, para tutelar o gosto das classes m\u00e9dias e baixas, enquanto as classes superiores t\u00eam acesso aos conte\u00fados restritos, quando n\u00e3o s\u00e3o os seus pr\u00f3prios membros que os consomem e classificam.<\/p>\n<p>Talvez dev\u00eassemos dizer a essas pessoas que a literatura n\u00e3o tem o poder de doutrinar ningu\u00e9m a fazer aquilo que est\u00e1 no livro, a menos que a pessoa j\u00e1 o queira fazer. Certamente alguma mo\u00e7a deve ter pintado o cabelo de verde depois de ler \u201cA Casa dos Esp\u00edritos\u201d, mas ela s\u00f3 o fez porque j\u00e1 o queria pintar de alguma cor. Se algum agente funer\u00e1rio cometeu necrofilia com um cad\u00e1ver de mo\u00e7a bonita, n\u00e3o o fez por ter lido o mesmo livro, mas porque a inten\u00e7\u00e3o e o (mau) gosto j\u00e1 estavam nele antes.<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que o poder de sugest\u00e3o da arte, embora existente, \u00e9 bastante limitado e muito dilu\u00eddo pelas m\u00faltiplas dire\u00e7\u00f5es em que ela vai. Para cada autor que prega X, h\u00e1 pelo menos outro que prega -X, outro que prega Y e outro que nem est\u00e1 se importando com o alfabeto. Ent\u00e3o a obra influencia \u00e0queles que a escolheram conforme suas inclina\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O terceiro problema \u00e9 um pouco mais f\u00e1cil de explicar, quando voc\u00ea j\u00e1 entendeu os dois anteriores, mas costuma ser a explica\u00e7\u00e3o mais ofensiva, porque n\u00e3o h\u00e1 como a pessoa compreender a explica\u00e7\u00e3o sem se sentir meio \u201cbesta\u201d. Ent\u00e3o, o normal \u00e9 que a explica\u00e7\u00e3o seja rejeitada, para proteger o ego de quem a ouve.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que esse p\u00e2nico contra as obras que cont\u00eam \u201cmachismo\u201d ou \u201csexismo\u201d \u00e9 baseado em uma \u00eanfase curiosa. Querem que rejeitemos Monteiro Lobato porque ele era racista, como se \u201cser racista\u201d fosse a defini\u00e7\u00e3o do autor. Reduz-se o artista (escritor, no caso) a uma faceta \u00fanica de sua personalidade.<\/p>\n<p>Mas o terceiro problema tem uma segunda faceta, esta sim a pol\u00eamica.<\/p>\n<p>Voc\u00ea acha que devemos esquecer \u201cRomeu e Julieta\u201d porque os protagonistas se suicidam por causa de um amor frustrado? N\u00e3o enxerga o perigo de que um filho seu (ou filha) fa\u00e7a o mesmo por ler essa hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>Acredito que voc\u00ea n\u00e3o pade\u00e7a desse p\u00e2nico. Duvido que voc\u00ea acredite que seu filho ou filha se matar\u00e1 por causa de um amor rom\u00e2ntico mal resolvido s\u00f3 porque leu a pe\u00e7a de Shakespeare. \u201cN\u00f3s n\u00e3o pensamos mais assim\u201d, voc\u00ea dir\u00e1, \u201cesse neg\u00f3cio de se matar por amor ficou no passado.\u201d<\/p>\n<p>Por que, ent\u00e3o, devemos esquecer uma obra do passado que contenha racismo ou sexismo? N\u00e3o seria melhor educarmos nossos filhos para que eles n\u00e3o sejam mais assim e para que \u201cesse neg\u00f3cio de discriminar os outros\u201d tamb\u00e9m fique \u201cno passado\u201d? Como vamos educ\u00e1-los para isso ssem mencionar isso? Como poderemos dizer \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es que racismo \u00e9 errado se eles n\u00e3o tiverem a oportunidade de refletir sobre ele, atrav\u00e9s da arte, por exemplo?<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o os livros que matam as pessoas, que as discriminam ou que as fazem sofrer. Os livros s\u00e3o apenas obras de entretenimento que cont\u00e9m uma parte da cultura, da sabedoria e da estupidez da \u00e9poca em que foram escritos.<\/p>\n<p>N\u00e3o matemos os livros por causa de nossos pecados, matemos os pecados em n\u00f3s mesmos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eu entendo muito bem quem se ressente da exist\u00eancia de \u201csexismo\u201d, \u201cracismo\u201d, ou puro mau-caratismo em obras liter\u00e1rias (ou quaisquer outras), mas acredito que essas pessoas padecem de um imenso equ\u00edvoco quando come\u00e7am a focar nessas imperfei\u00e7\u00f5es das obras liter\u00e1rias do passado. N\u00e3o chego a dizer que \u00e9 \u201cmimimi\u201d (mesmo me co\u00e7ando a l\u00edngua para dizer), mas que s\u00e3o tr\u00eas os problemas desse entendimento: Anacronismo &mdash; frequentemente queremos cobrar de autores do passado um conhecimento que eles n\u00e3o poderiam ter. 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