{"id":5771,"date":"2018-01-21T10:45:50","date_gmt":"2018-01-21T13:45:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5771"},"modified":"2018-01-21T10:51:23","modified_gmt":"2018-01-21T13:51:23","slug":"lovecraft-e-as-escuridoes-da-intelectualidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/01\/lovecraft-e-as-escuridoes-da-intelectualidade\/","title":{"rendered":"Lovecraft e as Escurid\u00f5es da Intelectualidade"},"content":{"rendered":"<p>Certos autores, quando criticados, seja com justi\u00e7a ou n\u00e3o, costumam provocar debates intensos e \u00e1cidos, em que, invariavelmente, prefer\u00eancias e ideologias prevalecem sobre uma aprecia\u00e7\u00e3o correta de seu m\u00e9rito liter\u00e1rio. Lovecraft \u00e9 um desses autores.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/pikabu.ru\/story\/lavkraft_i_vsyo_ostalnoe_4276992\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/1466130916132197573-230x300.jpg\" alt=\"\" width=\"230\" height=\"300\" class=\"alignright size-medium wp-image-5772\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/1466130916132197573-230x300.jpg 230w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/1466130916132197573-115x150.jpg 115w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/1466130916132197573-768x1001.jpg 768w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/1466130916132197573-491x640.jpg 491w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/1466130916132197573.jpg 837w\" sizes=\"(max-width: 230px) 100vw, 230px\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u00cddolo de muitos f\u00e3s de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, horror e fantasia; o americano tem uma heran\u00e7a pesada. Racista a ponto de ser eugenista, criou todo um universo de fantasia baseada naquilo que se poderia chamar de \u201cmedos do macho branco\u201d: um universo hostil no qual a \u201cpureza\u201d e a \u201csanidade\u201d de um mundo pequeno e simples est\u00e3o sob constante amea\u00e7a de poderes exteriores, malignos e corruptores da humanidade.<\/p>\n<p>Essa concep\u00e7\u00e3o do \u201cmacho branco em perigo\u201d n\u00e3o foi, por\u00e9m, inventada por ele. Atribuir-lhe toda a culpa por isso \u00e9 injusto. O que pretendo discutir nesse artigo \u00e9 at\u00e9 que ponto um autor <em>como Lovecraft<\/em> poderia ser responsabilizado pelos seus valores.<\/p>\n<h2>Os Antecedentes<\/h2>\n<p>A ideia de \u201cmacho branco em perigo\u201d evoluiu lentamente a partir do meio do s\u00e9culo XIX, quando come\u00e7ou a surgir na mentalidade coletiva europeia o temor de que os perigos desconhecidos das regi\u00f5es colonizadas poderiam \u201cfazer a viagem de volta\u201d ao Velho Mundo, para ali assombrar a \u201cnormalidade\u201d. Uma das primeiras obras em que esse temor colonialista aparece foi \u201cO Horla\u201d, de Guy de Maupassant, na qual um dem\u00f4nio origin\u00e1rio do Brasil \u00e9 detectado no interior da Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Mesmo esse temor dos tr\u00f3picos, por\u00e9m, \u00e9 parte de um terror mais generalizado em rela\u00e7\u00e3o ao desconhecido. \u201cCarmilla\u201d, a vampira de Sheridan Le Faunu, \u00e9 origin\u00e1ria da Car\u00edntia, regi\u00e3o montanhosa recentemente conquistada pelo imp\u00e9rio austr\u00edaco. \u201cDr\u00e1cula\u201d, de Bram Stoker, descobre um horror nos B\u00e1lc\u00e3s, recentemente liberados do dom\u00ednio otomano. Aonde quer que a \u201cciviliza\u00e7\u00e3o\u201d chegue, pode haver ali oculto um perigo.<\/p>\n<p>As hist\u00f3rias de piratas gradualmente incorporaram esse temor difuso ao desconhecido. Ao longo do s\u00e9culo XIX, o elemento fant\u00e1stico come\u00e7a a aparecer relacionado aos \u201chorrores do mar\u201d. A express\u00e3o liter\u00e1ria mais acabada disso est\u00e1 no ciclo mar\u00edtimo de William Hope Hodgson, os romances <em>The Boats of the Glen Carrig<\/em> e <em>The Ghost Pirates<\/em>, al\u00e9m de alguns contos isolados como \u201c<a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/10\/traducao-uma-voz-na-noite-w-h-hodgson\/\">Uma Voz na Noite<\/a>\u201d (que eu traduzi para esse blog).<\/p>\n<p>Assim, quando H. P. Lovecraft est\u00e1 em sua fase formativa ainda, existe toda uma literatura dedicada a cultivar esse horror at\u00e1vico pelo desconhecido. Em Lovecraft temos o curioso embate entre o fasc\u00ednio do exotismo, representado pela sua adora\u00e7\u00e3o pelas \u201cMil e Uma Noites\u201d, e a repulsa do estrangeiro. Essa tens\u00e3o se traduzir\u00e1 na sua literatura, na forma de um universo fant\u00e1stico que \u00e9, ao mesmo tempo, amea\u00e7ador e sedutor.<\/p>\n<h2>As Limita\u00e7\u00f5es do Autor<\/h2>\n<p>O problema com Lovecraft \u00e9 que ele \u00e9 uma figura complicada: um autor com excelente cultura e \u00f3timas ideias, mas que escreveu sob uma s\u00e9rie de restri\u00e7\u00f5es, que o impediram de levar sua obra ao n\u00edvel que ela poderia ter chegado. Nem digo \u201cque o impediram de escrever como ele gostaria\u201d, porque n\u00f3s imaginamos muito bem que tipo de conte\u00fado ele teria escrito se deixassem: n\u00e3o teria sido mais bonito, apenas diferente.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o vejo o racismo de Lovecraft como o problema maior, n\u00e3o em um contexto no qual o racismo era prevalente. Ele o sublimou em sua literatura, criando um conceito de horror baseado no medo paranoico \u00e0 miscigena\u00e7\u00e3o, que acabou se mostrando duradouro e at\u00e9 moderno. Para mim o maior problema \u00e9 que tenha se dedicado principalmente a escrever <em>pulps<\/em> por profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas publica\u00e7\u00f5es foram, realmente, um meio de vida para toda uma gera\u00e7\u00e3o de autores americanos &#8212; entre eles Lovecraft &#8212; e foram, tamb\u00e9m, a inicia\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de uma parte significativa do p\u00fablico que, um pouco mais tarde, consumiu as primeiras obras do que veio a se chamar, depois, \u201cfic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica\u201d. Mas foram, tamb\u00e9m, um meio extremamente question\u00e1vel para esse fim.<\/p>\n<p>As <em>pulps<\/em> focavam em um p\u00fablico de massas &#8212; portanto, afeito aos preconceitos de massa e a toda esp\u00e9cie de superficialidades culturais. Apelavam \u00e0 sensualidade (em capas coloridas, nas quais mulheres pouco vestidas eram comuns) e a sentimentos mais \u201csimples\u201d, entre os quais o racismo se inscreve. Por isso, as revistas <em>pulp<\/em> ajudaram a difundir valores pouco progressistas, ainda que certos autores progressistas tenham publicado atrav\u00e9s delas. Foi atrav\u00e9s dessas publica\u00e7\u00f5es, por exemplo, que L. Ron Hubbard fundou a Igreja da Cientologia.<\/p>\n<p>Publicar atrav\u00e9s dessas revistas teve influ\u00eancia, sim, sobre o desenvolvimento da literatura de Lovecraft. Podemos perceber isso quando comparamos os textos que publicava no in\u00edcio de sua carreira e os que publicou um pouco mais tarde, quando j\u00e1 inserido no \u201ccaldo de cultura\u201d das <em>pulp<\/em>.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, isso exacerbou seu racismo porque o seu p\u00fablico era receptivo a isso. O tipo de horror \u00e0 miscigena\u00e7\u00e3o que se l\u00ea em Lovecraft estava de acordo com os temores do t\u00edpico americano branco &#8212; principalmente do sulista ainda ressentido com a guerra civil e simpatizante da Ku Klux Klan. As obras de Lovecraft que tiveram maior repercuss\u00e3o na \u00e9poca foram justamente aquelas que afagaram esses temores. Agora imagine um autor que escreve contos er\u00f3ticos para um p\u00fablico de tarados do Wattpad e me diga se \u00e9 justo comparar sua obra ao trabalho de uma escritora de alta classe como Marguerite Yourcenar&#8230;<\/p>\n<p>Obviamente, Lovecraft <em>n\u00e3o era um autor de <strong>alta classe<\/strong>.<\/em><\/p>\n<p>Ademais, ao se profissionalizar como escritor de contos para revistas populares, Lovecraft se proletarizou. Diante da necessidade urgente de terminar hist\u00f3rias e public\u00e1-las a fim de defender o seu feij\u00e3o em lata de cada dia, o autor acaba internalizando a cobran\u00e7a por resultados r\u00e1pidos e envia para publica\u00e7\u00e3o obras que ainda n\u00e3o est\u00e3o completamente desenvolvidas, ou que passaram por uma revis\u00e3o muito superficial.<\/p>\n<p>Obviamente, Lovecraft <em>nunca teve a possibilidade de amadurecer suas obras<\/em>.<\/p>\n<p>Mais ainda, a pobreza em que o autor viveu quase toda a sua vida, desde a ru\u00edna financeira de seus pais, teve um impacto muito negativo sobre sua literatura.<\/p>\n<p>Sabendo do fasc\u00ednio que o autor, em crian\u00e7a, sentia pelas \u201cMil e Uma Noites\u201d, n\u00e3o \u00e9 absurdo dizer que havia nele um germe de curiosidade pelo mundo que, se satisfeito, poderia ter resultado na \u201cabertura de sua cabe\u00e7a\u201d para toda uma s\u00e9rie de valores e efeitos culturais. Mas a pobreza o impediu de viajar, de conhecer lugares reais, de travar contatos com pessoas diferentes, em seu contexto original e fora dos livros. Ser\u00e1 que Lovecraft teria pintado os nativos do Pac\u00edfico Sul como os pintou se tivesse podido visitar suas ilhas como turista? Seria ele t\u00e3o preconceituoso contra poloneses, tchecos e turcos se tivesse ido a tais pa\u00edses?<\/p>\n<p>Mesmo Hodgson, que eu acredito ter sido o grande inspirador do horror de Lovecraft \u00e0 miscigena\u00e7\u00e3o, raramente chega a ser racista em sua fic\u00e7\u00e3o, exatamente porque a sua experi\u00eancia na marinha mercante lhe deu uma no\u00e7\u00e3o de mundo mais ampla. Em Hodgson, o horror \u00e0 miscigena\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem um cunho necessariamente sexual, mas religioso &#8212; por\u00e9m ele n\u00e3o \u00e9 assunto para esse breve coment\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em suma: Lovecraft \u00e9 um autor cujo trabalho foi mal-acabado e cujos preconceitos e paranoias foram exacerbados pela pobreza e pelo gosto fraco do p\u00fablico para o qual escrevia.<\/p>\n<h2>O Autor Nem Sempre Iluminado<\/h2>\n<p>Uma tese predominante atualmente \u00e9 a de que \u201cn\u00e3o d\u00e1 para desculpar o racismo de [xxxxx], considerando que havia em sua \u00e9poca v\u00e1rios outros autores que eram bem iluminados\u201d.<\/p>\n<p>Esse texto n\u00e3o pretende desculpar o racismo, ele \u00e9, sim, indesculp\u00e1vel (desde que demarquemos o que \u00e9 racismo, pois nem sempre aquilo que se acusa de ser efetivamente o \u00e9). O que esse texto pretende argumentar \u00e9 que nem sempre o autor \u00e9 \u201cculpado\u201d pelo racismo.<\/p>\n<p>H\u00e1 duas coisas a\u00ed que precisam ser ditas, e com bastante \u00eanfase:<\/p>\n<ol>\n<li>A \u201cilumina\u00e7\u00e3o\u201d pressup\u00f5e uma fonte de luz externa.<\/li>\n<li>Nem todos t\u00eam acesso irrestrito \u00e0 luz.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Uma coisa de que gostei muito na cr\u00edtica recentemente feita ao H. P. Lovecraft foi exatamente o uso do termo \u201ciluminado\u201d. Penso que \u00e9, mesmo, um termo muito adequado para este debate.<\/p>\n<p>O que estou tentando dizer \u00e9 que n\u00e3o d\u00e1 para considerar todos os autores como igualmente iluminados.<\/p>\n<p>Temos uma ideia de que os eruditos, entre eles os autores, s\u00e3o, necessariamente, pessoas mais iluminadas, que se elevam at\u00e9 um patamar que lhes permite ter um conhecimento \u201csuperior\u201d do mundo.<\/p>\n<p>Acredito que essa ideia \u00e9 errada e expressa um preconceito de classe.<\/p>\n<p>Nem todos os ditos \u201ceruditos\u201d s\u00e3o igualmente dotados de conhecimento. A luz n\u00e3o brilha igualmente sobre todas as cabe\u00e7as, o que impede que certos autores vejam o mundo da mesma maneira. Certas pessoas ditas ignorantes podem ser mais iluminadas que alguns deles.<\/p>\n<p>Lovecraft, apesar de se considerar um tipo de erudito, estava longe disso: era um perdedor provinciano e cheio de neuras, com v\u00e1rias frustra\u00e7\u00f5es graves na vida e que n\u00e3o tinha praticamente nenhum conhecimento do mundo, devido \u00e0s limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e financeiras diante das quais vivia. Isso restringiu fortemente a sua capacidade intelectual para compreender o mundo, condicionava de maneira irremedi\u00e1vel sua interpreta\u00e7\u00e3o da realidade. De fato, a pobreza e a restri\u00e7\u00e3o de movimento que causa foram fatores preponderantes para manter Lovecraft relativamente \u201cna sombra\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o eu n\u00e3o acho que Lovecraft possa ser considerado completamente respons\u00e1vel pelas suas ideias racista: ele foi um produto de seu tempo e lugar, sim. O fato de ser uma v\u00edtima da ignor\u00e2ncia n\u00e3o quer dizer que devemos ter simpatia por ele, tampouco \u00f3dio. Efetivamente, ele foi algu\u00e9m digno de d\u00f3, que teve de se divorciar por n\u00e3o ter condi\u00e7\u00e3o de prover para o seu lar, e que morreu v\u00edtima de uma doen\u00e7a causada pela p\u00e9ssima alimenta\u00e7\u00e3o com a qual foi for\u00e7ado a se manter durante muitos anos.<\/p>\n<h2>Implica\u00e7\u00f5es da \u201cEscurid\u00e3o\u201d de Lovecraft<\/h2>\n<p>Claro que \u00e9 admir\u00e1vel quando algu\u00e9m consegue se elevar acima dos limites de sua cultura, claro que a esses devemos valorizar mais. Isso \u00e9 indiscut\u00edvel, tanto quanto \u00e9 indiscut\u00edvel o racismo de Lovecraft, mas o f\u00e3 de literatura n\u00e3o est\u00e1 atr\u00e1s de valores morais, quem quer isso que v\u00e1 para uma religi\u00e3o. O leitor quer boas hist\u00f3rias, bons versos, boa narrativa, etc. Seria \u00f3timo se isso fosse encontrado somente nos livros escritos por boas pessoas, mas n\u00e3o \u00e9 assim que funciona. \u00c0s vezes ser uma boa pessoa torna o autor um \u201cxarope\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes encontramos certo prazer nas sombras. Talvez porque vivemos em um planeta beneficiado por ciclos di\u00e1rios de luz e escurid\u00e3o. \u00c9 da nossa natureza conviver com as trevas e com a luz, por mais que a luz nos atraia mais.<\/p>\n<p>Mesmo assim, \u00e9 question\u00e1vel que se coloque Lovecraft como um autor-chave da literatura do s\u00e9culo XX. Ele teve, em vida, um alcance muito limitado. Quase toda a influ\u00eancia que teve foi p\u00f3stuma, constru\u00edda por seus amigos e f\u00e3s. Tornou-se importante para um nicho, talvez nem deveria chegar ao grande p\u00fablico &#8212; que, em sua maioria, n\u00e3o suportaria o estilo de prosa carregada dele &#8212; mas permanecer uma refer\u00eancia restrita entre escritores e produtores de conte\u00fado.<\/p>\n<p>Mas existe uma idolatria por Lovecraft.<\/p>\n<h2>Conclus\u00e3o: o Que a Escurid\u00e3o de Lovecraft Ilumina<\/h2>\n<p>Se o autor, em vida, n\u00e3o se beneficiou da \u201cilumina\u00e7\u00e3o\u201d do conhecimento e da experi\u00eancia de vida da mesma forma que seus contempor\u00e2neos, a idolatria por sua obra <em>e por sua personalidade<\/em> diz muita coisa sobre o mundo de hoje e sobre essas pessoas que o idolatram.<\/p>\n<p>H\u00e1 pessoas que gostam de Lovecraft n\u00e3o porque ele tenha escrito \u201cboas hist\u00f3rias, bons versos, boa narrativa\u201d, mas porque expressou valores que combinam com uma certa vis\u00e3o de mundo e que provocam os limites do \u201cpoliticamente correto\u201d. Para essa gente, uma hist\u00f3ria de terror eficiente como \u201cA Cor do Espa\u00e7o\u201d tem o mesmo valor que um texto nojento como \u201cThe Street\u201d. Para essa gente, o que torna Lovecraft interessante n\u00e3o \u00e9 a qualidade de sua prosa, mas <em>saber<\/em> que sua prosa destila e sublima as pa\u00faras racistas de um aristocrata arruinado da prov\u00edncia, incapaz de aceitar o mundo multicultural para o qual foi transplantado.<\/p>\n<p>Essa gente que idolatra Lovecraft <em>enquanto pessoa<\/em> o fazem porque vivem hoje algo semelhante ao conflito pessoal de Lovecraft. Tamb\u00e9m elas se sentem como quem foi arrancado de sua confort\u00e1vel \u201cprov\u00edncia\u201d e obrigado a interagir com um mundo \u201cmudado\u201d. Parte dos adoradores de Lovecraft \u00e9 gente que tamb\u00e9m idolatra Hitler, Bolsonaro e a ditadura militar.<\/p>\n<p>Toda vez que xinga Lovecraft de mil nomes, voc\u00ea chuta a muleta intelectual de gente que precisa legitimar seu medo. Se Lovecraft for derrubado, essa gente encontrar\u00e1 outro \u00eddolo porque a sua idolatria n\u00e3o \u00e9 pelo autor em si, mas por valores. Lutar contra os mortos \u00e9 lutar contra sombras, dar socos no vento.<\/p>\n<p>A verdadeira luta \u00e9 hoje e agora. Quando as pessoas deixarem de ser babacas, n\u00e3o v\u00e3o mais colocar os babacas do passado em um pedestal. No m\u00e1ximo v\u00e3o l\u00ea-los com distanciamento, naquilo que forem essenciais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Certos autores, quando criticados, seja com justi\u00e7a ou n\u00e3o, costumam provocar debates intensos e \u00e1cidos, em que, invariavelmente, prefer\u00eancias e ideologias prevalecem sobre uma aprecia\u00e7\u00e3o correta de seu m\u00e9rito liter\u00e1rio. Lovecraft \u00e9 um desses autores. \u00cddolo de muitos f\u00e3s de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, horror e fantasia; o americano tem uma heran\u00e7a pesada. 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