{"id":5788,"date":"2018-02-01T18:50:39","date_gmt":"2018-02-01T21:50:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5788"},"modified":"2018-04-23T21:27:56","modified_gmt":"2018-04-24T00:27:56","slug":"quando-meus-personagens-se-revoltaram-contra-mim","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/02\/quando-meus-personagens-se-revoltaram-contra-mim\/","title":{"rendered":"Quando Meus Personagens Se Revoltaram Contra Mim"},"content":{"rendered":"<p>Lembro-me como se fosse h\u00e1 setenta anos, posso jurar. Voc\u00ea acreditaria se lhe dissesse que tudo come\u00e7ou numa noite escura e tempestuosa, como nos filmes de terror barato? Bem, n\u00e3o foi exatamente assim, s\u00f3 parecido. Estava escuro porque algum moleque soltando papagaio causara um curto-circuito na fia\u00e7\u00e3o da rua. Era noite, obviamente, mas o m\u00e1ximo de meteorologia que me afligia era uma chuva insistente que chegara no fim da tarde e n\u00e3o pensava em ir embora.<\/p>\n<p>Depois de me certificar de que o problema n\u00e3o era exclusivo do meu disjuntor, liguei o <em>laptop<\/em>, ainda com uns trinta por cento de bateria, abri o arquivo que eu salvara na nuvem e comecei a tentar digitar alguma coisa. Era uma hist\u00f3ria simples, pois eu n\u00e3o estava determinado a perder o concurso &mdash; como normalmente fa\u00e7o. Era coisa de no m\u00e1ximo cento e setenta mil palavras, incluindo o pr\u00f3logo, claro, que teria seis cap\u00edtulos, e os ap\u00eandices, que eu ainda nem come\u00e7ara a terminar. Dizia eu que a hist\u00f3ria ia bem, apesar das feridas nos dedos e nos sentimentos, nos primeiros causadas pela necessidade de digitar depois de oito horas de expediente di\u00e1rio e nos outros pela opini\u00e3o premonit\u00f3ria de meu leitor-analfabeta: \u201cn\u00e3o entendi poha nenhuma dessa viagem na maionese!\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o era a primeira vez que tinha problemas com a hist\u00f3ria: j\u00e1 tivera de escrever tr\u00eas cap\u00edtulos adicionais s\u00f3 para contextualizar John, o pai da primeira namorada do protagonista, e por causa disso s\u00f3 me restavam doze dos dezesseis dias originais de prazo. S\u00f3 que os problemas anteriores haviam sido at\u00e9 normais do <em>m\u00e9tier<\/em> liter\u00e1rio, resolv\u00edveis com uma breve recauchutagem c\u00e1 ou l\u00e1. Esse foi diferente.<\/p>\n<p>Ouvi baterem \u00e0 porta e tive medo. Eram apenas nove da noite em uma cidadezinha do interior, hor\u00e1rio em que as galinhas j\u00e1 dormem e gente honesta j\u00e1 n\u00e3o ousa visitar ningu\u00e9m. Pior ainda que o port\u00e3o estava bem trancado. Olhei em volta e n\u00e3o me vi preparado para o apocalipse zumbi: v\u00e1rias janelas estavam abertas, a porta dos fundos arreganhada e a aquela mesma em que haviam batido tinha uma greta da largura de um dedo at\u00e9 o batente. Era claro que a m\u00e3o que me incomodava dera com os n\u00f3s dos dedos nos da madeira por mera educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/pixabay.com\/p-3009141\/?no_redirect\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/personagens-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5789\" \/><\/a><\/p>\n<p>&mdash; Quem \u00e9? &mdash; Enquanto ainda perguntava eu j\u00e1 tratava de providenciar uma arma de destrui\u00e7\u00e3o de massas para me defender: peguei o garfo que estava dentro do prato ainda sujo da refei\u00e7\u00e3o mal terminada.<\/p>\n<p>&mdash; N\u00e3o te assustes, \u00f3 Criador! Viemos em paz.<\/p>\n<p>A voz era desconhecida, as palavras soavam mais esquisitas do que o texto d\u00e1 a entender.<\/p>\n<p>Levantei-me do sof\u00e1 e abri a porta. N\u00e3o havia mesmo motivo para ter precau\u00e7\u00f5es: bandido n\u00e3o era, ou eu j\u00e1 teria perdido.<\/p>\n<p>Era pior.<\/p>\n<p>Quando escancarei a porta encontrei ali tr\u00eas cavalheiros que nunca vira, vestidos como personagens de um filme barato de fantasia, s\u00f3 que com material melhor e gosto pior. Havia tamb\u00e9m uma mulher seminua, voluptuosa e feia.<\/p>\n<p>&mdash; Podemos entrar, \u00f3 Criador? &mdash; indagou um dos cavalheiros, cujo largo e longo manto de pano grosso cor de burro quando foge estalava de t\u00e3o azul e fino.<\/p>\n<p>&mdash; Quem s\u00e3o voc\u00eas? O que querem? Como foi que chegaram \u00e0 minha porta passando pelo port\u00e3o autom\u00e1tico? Que diabos de roupas s\u00e3o essas? Quem s\u00e3o voc\u00eas?<\/p>\n<p>A enxurrada de perguntas nervosas e repetidas foi interrompida pela primeira das respostas:<\/p>\n<p>&mdash; Eu sou Epidermion, senhor de Agnoias!<sup id=\"fnref-5788-epidermion\"><a href=\"#fn-5788-epidermion\" class=\"jetpack-footnote\">1<\/a><\/sup> &mdash; Ao ouvir isso, dei dois passos para tr\u00e1s, surpreso por um nome que soava vagamente familiar.<\/p>\n<p>Sem se darem conta da minha confus\u00e3o, os outros foram se apresentando:<\/p>\n<p>&mdash; Eu sou Koilos Kefalis, o mago.<sup id=\"fnref-5788-koilos\"><a href=\"#fn-5788-koilos\" class=\"jetpack-footnote\">2<\/a><\/sup><\/p>\n<p>&mdash; Eu sou Anoitos K\u00e1kos e prefiro n\u00e3o dizer quem sou.<sup id=\"fnref-5788-anoitos\"><a href=\"#fn-5788-anoitos\" class=\"jetpack-footnote\">3<\/a><\/sup><\/p>\n<p>&mdash; E eu sou Kindy K\u00e1fti e tamb\u00e9m prefiro n\u00e3o dizer quem sou.<sup id=\"fnref-5788-kindy\"><a href=\"#fn-5788-kindy\" class=\"jetpack-footnote\">4<\/a><\/sup><\/p>\n<p>&mdash; Mas o que voc\u00eas quatro querem comigo, nessa noite escura e tempestuosa, a essa hora?<\/p>\n<p>Epidermion se adiantou:<\/p>\n<p>&mdash; Venho em nome de todos que habitam Agnoias, para vos implorar, \u00f3 Criador, que n\u00e3o nos fa\u00e7as padecer de tantas imperfei\u00e7\u00f5es e cruezas.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o me dei conta, algo espantado, que a cena era mais surreal que um comercial de refrigerante de guaran\u00e1. N\u00e3o havia como ser algu\u00e9m a me pregar uma pe\u00e7a, pois os quatro n\u00e3o eram outra coisa sen\u00e3o os personagens de um romance meu, <em>in\u00e9dito e abandonado<\/em>.<\/p>\n<p>&mdash; Do que exatamente est\u00e1 falando&hellip; Epidermion? &mdash; Perguntei-lhe, tentando criar um clima de m\u00fatua confian\u00e7a.<\/p>\n<p>&mdash; Sei que n\u00e3o visitas mais as terras de Agnoias,<sup id=\"fnref-5788-agnoias\"><a href=\"#fn-5788-agnoias\" class=\"jetpack-footnote\">5<\/a><\/sup> mas vos pedimos que ponhais um fim ao que come\u00e7astes&hellip; e que n\u00e3o nos deixeis em suspense.<\/p>\n<p>&mdash; Epidermion, n\u00e3o sei se j\u00e1 se deu conta, mas est\u00e1 conjugando o verbo errado na segunda pessoa&hellip;<\/p>\n<p>A face da criatura ficou p\u00e1lida e ele come\u00e7ou a suar. Por fim perdeu o controle da linguagem e me agrediu com uma sinceridade que nem combinava com as suas roupas.<\/p>\n<p>&mdash; Caralho! Viemos aqui com todo cuidado e respeito e tu te d\u00e1s ao trabalho de humilhar-nos? N\u00e3o basta olhar torto para as nossas roupas, que tu mesmo nos destes, tem que zombar de nossa linguagem e de tudo o mais que somos? Vem c\u00e1, achas que \u00e9 f\u00e1cil andar por a\u00ed vestindo essas fantasias do Gala Gay? Que \u00e9 f\u00e1cil fingir falar uma l\u00edngua antiga, quando nem tu mesmo te lembras mais como conjugar verbos na segunda pessoa, \u00f3 criador?<\/p>\n<p>&mdash; Epidermion, tem cuidado! &mdash; observou Kefalis, que n\u00e3o fazia jus ao nome. &mdash; Acalme-se, ou por\u00e1 a perder a miss\u00e3o.<\/p>\n<p>&mdash; Miss\u00e3o? De que est\u00e3o falando?<\/p>\n<p>&mdash; Queremos conversar &mdash; interveio Kindy, que parecia agora ser a mais calma do grupo &mdash; sobre a possibilidade, ou melhor, a <em>necessidade<\/em>, de terminar a nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>A express\u00e3o incr\u00e9dula de meu rosto pareceu sugerir aos quatro que eu n\u00e3o sabia do que falavam, mas eu sabia, sim. O que eu n\u00e3o sabia era o que falar. \u201cA Espada de An\u00edkanos\u201d<sup id=\"fnref-5788-anikanos\"><a href=\"#fn-5788-anikanos\" class=\"jetpack-footnote\">6<\/a><\/sup> era um projeto falhado, obra esquecida de minha fase vergonhosa de fantasia medieval. Sobrevivia em um \u00fanico arquivo, em um <em>pendrive<\/em> vermelho com um adesivo de marca de camiseta. Ningu\u00e9m lera e nem eu mesmo lembrava onde poderia estar.<\/p>\n<p>&mdash; Eu n\u00e3o tenho mais como terminar aquela hist\u00f3ria. Aquilo faz parte de uma fase que j\u00e1 passou. Voc\u00eas nem imaginam como escrevo diferente agora!<\/p>\n<p>Nesse momento percebi que Kefalis trazia \u00e0 cinta a famosa espada de An\u00edkanos. Ri muito disso, pois aquela arma nunca matara ningu\u00e9m. Enquanto eu ria, Anoitos me apontou o que parecia ser uma arma de raios cravejada de safiras. S\u00f3 me dei conta do quanto eu me esquecera de minhas pr\u00f3prias cria\u00e7\u00f5es quando senti o chute nos ovos. Maldita Kindy!<\/p>\n<p>Ca\u00ed rolando pelo ch\u00e3o e os quatro entraram pela casa. Epidermion utilizou o seu b\u00e1culo para pressionar o meu gog\u00f3, enquanto eu estava totalmente concentrado em massagear a virilha para me recuperar a possibilidade de algum dia deixar filhinhos no mundo. Nesse momento a luz voltou no mundo e pareceu que se apagava em mim.<\/p>\n<p>&mdash; Est\u00e1 na estante, dentro da gaveta de guardados!<\/p>\n<p>A voz me chegava como o murm\u00fario de dois sapos namorando na frigideira. Era Anoitos que andava pela casa apontando a sua arma de raios para os m\u00f3veis, como se ela fosse um detetor de metais.<\/p>\n<p>Dois minutos depois dois que haviam vasculhado meu escrit\u00f3rio sa\u00edram de l\u00e1 de m\u00e3os abanando. Na m\u00e3o direita de Anoitos vinha o <em>pendrive<\/em> vermelho.<\/p>\n<p>&mdash; Vamos, Epidermion! Temos aquilo de que precisamos, tomamos enfim as r\u00e9deas de nossos destinos!<\/p>\n<p>Antes de sairem pela porta, cada um me deixou uma sauda\u00e7\u00e3o especial:<\/p>\n<p>&mdash; Eu realmente amei \u00e0 princesa Evra!<sup id=\"fnref-5788-evra\"><a href=\"#fn-5788-evra\" class=\"jetpack-footnote\">7<\/a><\/sup> Foi uma sacanagem que aqueles b\u00e1rbaros animalescos a levassem daquele jeito, e principalmente que a devolvessem daquele outro! Tu \u00e9s doente! &mdash; Epidermion me chutou a barriga e saiu pela porta.<\/p>\n<p>&mdash; Isso aqui \u00e9 por me fazeres andar vestida como uma dan\u00e7arina de putel, \u00f3 tarado! &mdash; Ela me cuspiu nas costas da m\u00e3o e saiu.<\/p>\n<p>&mdash; Na verdade eu deveria agradecer por me dares essa fama de tolo, &mdash; disse K\u00e9falis, cochichando ao meu ouvido &mdash; tem me ajudado a comer muita mulher e a tomar dinheiro de muito man\u00e9. Mas espero que me perdoes porque, para n\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o dos outros, terei de dar-te uma bifa.<\/p>\n<p>Ele me deu um tapa com as costas de um dedo enquanto estalava a l\u00edngua. Quando eu ia sorrir de al\u00edvio ele se levantou desequilibrado, pisou na minha m\u00e3o, trope\u00e7ou no tapete e quebrou meu vaso com z\u00ednias amarelas. Nisso cortou a m\u00e3o e saiu gritando, pedindo a Kindy que lhe fizesse um curativo r\u00e1pido.<\/p>\n<p>Anoitos n\u00e3o disse nada, s\u00f3 me mandou um beijo, de l\u00edngua, antes que eu pudesse impedir. Isso me reacendeu as energias, pela necessidade de lutar. Consegui lhe acertar um cascudo na moleira e ele me largou. Levantei-me cheio de raiva e lhe dei um chute na bunda, que acertou na porta, na quina da porta. Berrei de dor. Um bezerro respondeu em um pasto pr\u00f3ximo. Mas n\u00e3o era um bezerro, era o cachorro do vizinho. Ele me gritou por cima do muro:<\/p>\n<p>&mdash; Que bagun\u00e7a \u00e9 essa a\u00ed, seu louco?<\/p>\n<p>Dei-me conta de estar ca\u00eddo contra a parede, de costas para ela, rigidamente protegendo minha retaguarda. A sala estava um caos. Eu tinha uma ferida na m\u00e3o e outra no bolso, de onde cairia um vaso de cristal para colocar flores. A dor nos bagos era de eu mesmo ainda apert\u00e1-los? Ou era um reflexo?<\/p>\n<p>Fechei a casa e fui tomar banho. No retorno at\u00e9 o quarto n\u00e3o descobri o <em>pendrive<\/em> vermelho, mas me lembrei da c\u00f3pia do romance no Dropbox. Abri o arquivo mais depressa que uma tartaruga m\u00edope que acabou de levar um chute entre os eixos. Se tudo ainda estivesse horr\u00edvel e mal escrito havia uma chance de eu ter tido somente esquizofrenia e o <em>pendrive<\/em> vermelho ser fruto da minha imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div class=\"footnotes\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li id=\"fn-5788-epidermion\">\nTodos os nomes s\u00e3o obtidos do grego utilizando o Google Translate. Este significa &#8220;\u00e0 flor da pele&#8221;&#160;<a href=\"#fnref-5788-epidermion\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-5788-koilos\">\nKoilos Kefalis = cabe\u00e7a oca.&#160;<a href=\"#fnref-5788-koilos\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-5788-anoitos\">\nAnoitos K\u00e1kos = malvado est\u00fapido&#160;<a href=\"#fnref-5788-anoitos\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-5788-kindy\">\nKindy Kafti = gostosa perigosa&#160;<a href=\"#fnref-5788-kindy\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-5788-agnoias\">\n&#8220;ignor\u00e2ncia&#8221;&#160;<a href=\"#fnref-5788-agnoias\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-5788-anikanos\">\n&#8220;impotente&#8221;&#160;<a href=\"#fnref-5788-anikanos\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<li id=\"fn-5788-evra\">\nEvra = &#8220;larga&#8221;&#160;<a href=\"#fnref-5788-evra\">&#8617;<\/a>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembro-me como se fosse h\u00e1 setenta anos, posso jurar. 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