{"id":5793,"date":"2018-02-04T12:30:58","date_gmt":"2018-02-04T15:30:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5793"},"modified":"2018-02-03T22:40:28","modified_gmt":"2018-02-04T01:40:28","slug":"quando-meus-personagens-se-revoltaram-contra-mim-ii","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/02\/quando-meus-personagens-se-revoltaram-contra-mim-ii\/","title":{"rendered":"Quando Meus Personagens Se Revoltaram Contra Mim &#8212; II"},"content":{"rendered":"<p>J\u00e1 lhe contei <a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/02\/quando-meus-personagens-se-revoltaram-contra-mim\">dias atr\u00e1s<\/a>, ou anos, que cada vez \u00e9 mais dif\u00edcil asseverar, que fui visitado, em uma noite escura e tempestuosa, por Epidermion, Kindy K\u00e1fti, Koilos K\u00e9falis e Anoitos K\u00e1kos, respectivamente o rei e tr\u00eas cidad\u00e3os do reino de Agnoias. Quando sa\u00edram pela porta; me deixando s\u00f3 com a dor de uma m\u00e3o ferida, de um chute dado na porta e de um beijo roubado no escuro; senti-me determinado a descobrir o que tinham em mente ao roubarem o <em>pendrive<\/em> vermelho onde eu salvara aquela que supunha ser a \u00fanica c\u00f3pia de seguran\u00e7a de \u201cA Espada de An\u00edkanos\u201d, vergonhoso romance de fantasia medieval que eu abandonara na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o eu me passei a vasculhar os poeirentos recantos de meus discos r\u00edgidos e m\u00eddias de <em>backup<\/em> em busca de c\u00f3pias mais antigas do livro, para me refrescar a mem\u00f3ria sobre o conte\u00fado original e tentar entender se alguma coisa nova acontecesse, como, por exemplo, algu\u00e9m publicar hist\u00f3ria parecida. Minha dificuldade \u00e9 que algu\u00e9m j\u00e1 publicara algo semelhante antes &mdash; e eu copiara.<\/p>\n<p>Vinte dias depois do roubo do <em>pendrive<\/em> vermelho eu encontrei, em uma comunidade de criadores de tretas liter\u00e1rias, o que parecia ser o argumento do pr\u00f3logo de meu romance abortado: a hist\u00f3ria do rapto e viola\u00e7\u00e3o de Evra Speleas, princesa de Proctos e noiva de Epidermion, rei ainda incoroado de Agnoias. Disse que \u201cparecia\u201d porque havia duas mudan\u00e7as significativas na hist\u00f3ria: a primeira era que os raptores n\u00e3o eram mais os b\u00e1rbaros canibais da Ilha de Makria Peous a servi\u00e7o da Feiticeira Feia de Istos, mas&#8230; os b\u00e1rbaros musculosos e atl\u00e9ticos da Ilha de Makria Peous. A segunda era que em vez de raptarem a rotunda Evra, levavam Kindy K\u00e1ftis, a bruxa local (essa era uma terceira altera\u00e7\u00e3o) a quem salvavam da execu\u00e7\u00e3o na roda. Parei de ler quando o conto de fantasia e vingan\u00e7a come\u00e7ou a se encaminhar a dire\u00e7\u00f5es impublic\u00e1veis em um blogue como esse.<\/p>\n<p>O estilo narrativo n\u00e3o era significativamente melhor que o meu aos dezessete anos, mas o narrador daquilo tinha coragem de descer a detalhes que nenhum curioso pergunta. Claro que, por isso, a obra foi enxovalhada ao extremo, merecendo memes e a ignom\u00ednia. Mas, vinte e tr\u00eas dias depois surgiu um s\u00edtio contendo n\u00e3o somente o pr\u00f3logo, que crescera at\u00e9 se tornar uma novela independente, mas tamb\u00e9m outros textos, como as aventuras de Anoitos e seu amigo Prolapsos na terra dos feiticeiros Cuculos, um cl\u00e1ssico compar\u00e1vel \u00e0 aventura de Juninhuuu no amistoso internacional contra o Boca Juniors &mdash; texto que, em nome de sua sanidade mental, caro leitor, eu espero que tenha desaparecido da internet. Sem deixar sequer uma gota de sentido. Enquanto lia essa hist\u00f3ria eu pigarreava e cuspia. Gastei uma garrafa de enxaguante bucal naquele dia terr\u00edvel &mdash; e ainda n\u00e3o superei todo o trauma.<\/p>\n<p>Por sorte tenho um primo na Pol\u00edcia Federal. Denunciei o site ao SaferNet e lhe pedi ajuda para identificar os meliantes que plagiavam o meu lindo pl\u00e1gio de Guerra dos Tronos. Ele me visitou em uma noite clara e de c\u00e9u limpo (era lua cheia, da\u00ed a claridade anticlim\u00e1tica) e disse que n\u00e3o poderia me ajudar formalmente, apenas me deu uns nomes e endere\u00e7os.<\/p>\n<p>Dirigi at\u00e9 a Cidade Grande e fui em busca do primeiro dos lugares: A:R:C deveria ser o A\u00e7ougue Rosa-Choque.  A senha que meu primo meganha me disse para usar era \u201crabada\u201d. Tive vergonha de dizer isso e pedi \u201calcatra\u201d. A mocinha recatada que retalhava as carnes com uma faca maior que o meu antebra\u00e7o perguntou quanto eu queria. Da\u00ed lembrei da senha exata: um quilo e setecentas gramas.<\/p>\n<p>&mdash; \u00c9 muita carne. Vai convidar muita gente para comer nesse domingo?<\/p>\n<p>\u201cAi, caralho, eis que j\u00e1 estrago tudo ao n\u00e3o saber o que dizer.\u201d<\/p>\n<p>Disse nada, s\u00f3 dei um sorriso que entortou no meio me fazendo parecer um pervertido. A mocinha sorriu de volta e perguntou se eu queria \u201calgo a mais\u201d. Claro que eu queria, e disse que sim. Ela empacotou tamb\u00e9m um quilo de lingui\u00e7a.<\/p>\n<p>O nome era esquisito, mas o lugar n\u00e3o era ali. Era o 22-A, n\u00e3o 224. Soube disso quando entrei no carro carregando mais carne do que comeria em um m\u00eas e o n\u00famero do telefone da mocinha mi\u00fada. Eu jamais teria coragem de namorar uma a\u00e7ougueira. A imagem daquela faca encontrando a minha carne durante a noite me perseguir\u00e1 at\u00e9 a tumba, e talvez al\u00e9m, mesmo sem eu ter mais carne.<\/p>\n<p>\u201cMas, por que diabos algu\u00e9m daria a um a\u00e7ougue um nome desses? E por que a confus\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p>Li de novo o endere\u00e7o e notei a caligrafia do 4 parecendo um A. Fui procurar. Achei o 22-4, onde ficava o Armaz\u00e9m da Reforma e da Constru\u00e7\u00e3o. Nome horr\u00edvel, for\u00e7ado numa sigla. Muito depois soube porque. No fim n\u00e3o conto, ou talvez.<\/p>\n<p>Bati \u00e0 porta.<\/p>\n<p>&mdash; Rabada.<\/p>\n<p>Meu sotaque me traiu. Devo ter tido algo mais parecido com \u201crabuda\u201d. Veio uma mulher alta e voluputosa, com duas feias verrugas na cara. Kindy K\u00e1fti. Exceto que as verrugas n\u00e3o estavam.<\/p>\n<p>&mdash; Ele nos descobriu! &mdash; Ela gritou para algu\u00e9m dentro da casa.<\/p>\n<p>N\u00e3o era nenhum dos outros tr\u00eas. Eram dois altos e ruivos, corpulentos&#8230; como b\u00e1rbaros da Ilha de Makris Peous.<\/p>\n<p>&mdash; Mas&#8230;<\/p>\n<p>&mdash; N\u00e3o est\u00e1 mais aqui, \u00f3 criador. Reescrevi a minha hist\u00f3ria e repassei a Ferramenta ao Anoitos.<\/p>\n<p>Tive nojo de procurar o asqueroso vil\u00e3o para lhe perguntar a quem repassaria o <em>pendrive<\/em>. Eu preferia perder a pista do que as pregas. Resolvi monitorar Epidermion. Algo me dizia que Anoitos, tortuoso de ideias como era, quebraria a hierarquia e trataria do rei antes do mago, s\u00f3 para n\u00e3o seguir a l\u00f3gica.<\/p>\n<p>O endere\u00e7o era de uma loja de carros usados: \u201cRei Ve\u00edculos\u201d. Minha inspira\u00e7\u00e3o, minha coragem e a minha vontade de saber o que acontecia estavam no fim, perseguidas pelo cansa\u00e7o e pelo sono que nenhum caf\u00e9 matava.<\/p>\n<p>Epidermion estava de terno, e isto n\u00e3o combinava nada com a sua basta cabeleira, que formava um capacete em torno de sua cabe\u00e7a. Ele parecia um personagem de um antigo filme sobre gangsters negros de Nova York.<\/p>\n<p>&mdash; N\u00e3o est\u00e1 mais comigo, Criador. Passamos-lhe a perna. E nem adianta procurar com o Anoitos.<\/p>\n<p>&mdash; Voc\u00ea n\u00e3o imagina o tamanho da felicidade que as suas \u00faltimas palavras me trazem.<\/p>\n<p>Epidermion n\u00e3o entendeu. A profundidade do reacioc\u00ednio o derrotou.<\/p>\n<p>&mdash; Est\u00e1 mentindo, Epidermion. A sua hist\u00f3ria ainda n\u00e3o saiu, nem a de Koilos. E algo me diz que est\u00e1 contigo.<\/p>\n<p>Ele gesticulou para seus seguran\u00e7as. Nesse momento eu retirei do bolso o meu telem\u00f3vel, onde havia salvado a antiga c\u00f3pia do Dropbox.<\/p>\n<p>&mdash; Eu n\u00e3o faria isso, se fosse voc\u00ea, Epidermion. Se n\u00e3o cooperar comigo eu abro o arquivo original e restauro a vers\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Meu blefe funcionou. Ele mandou que os capangas se detivessem. Ent\u00e3o mudou as ordens:<\/p>\n<p>&mdash; Destruam o celular antes que ele use!<\/p>\n<p>Tentei virar para fugir, mas havia seguran\u00e7as fechando a porta. Num ato de desespero, atirei o aparelho pela greta da janela, confiando na prote\u00e7\u00e3o de borracha. L\u00e1 fora uma mulher de ancas largas como as de uma centaura b\u00edpede o apanhou no ar.<\/p>\n<p>&mdash; Obrigado, Evra. Devolva-me para que possamos salvar tudo o que mudamos em nossas vidas!<\/p>\n<p>&mdash; Desculpe-me &mdash; ela disse &mdash; Mas o criador tem uma proposta melhor.<\/p>\n<p>A \u00faltima coisa que Epidermion disse naquele dia foi um longo \u201cN\u00e3\u00e3\u00e3\u00e3\u00e3o\u201d desses de filme de terror. Evra acionou o \u00edcone e restaurou na nuvem a vers\u00e3o local do arquivo. Aquela em que todos estavam de volta a Agnoias e Evra era raptada do pal\u00e1cio e levada para ser a rainha deusa dos b\u00e1rbaros de Makris Peous.<\/p>\n<p>Mas, por via das d\u00favidas, para evitar recorr\u00eancias, resolvi deletar todas as c\u00f3pias do arquivo depois.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 lhe contei dias atr\u00e1s, ou anos, que cada vez \u00e9 mais dif\u00edcil asseverar, que fui visitado, em uma noite escura e tempestuosa, por Epidermion, Kindy K\u00e1fti, Koilos K\u00e9falis e Anoitos K\u00e1kos, respectivamente o rei e tr\u00eas cidad\u00e3os do reino de Agnoias. 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