{"id":5800,"date":"2018-02-10T10:20:34","date_gmt":"2018-02-10T13:20:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5800"},"modified":"2019-06-05T21:51:10","modified_gmt":"2019-06-06T00:51:10","slug":"pseudointelectuais-e-preconceitos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/02\/pseudointelectuais-e-preconceitos\/","title":{"rendered":"\u201cPseudointelectuais\u201d e Preconceitos"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o \u00e9 raro ouvirmos o termo \u201cpseudointelectual\u201d, especialmente em debates sobre gostos (musicais, liter\u00e1rios ou quaisquer). Em geral se usa para designar algu\u00e9m que procura exibir uma cultura que n\u00e3o tem. Mais especificamente, quando essa opini\u00e3o destoa do senso comum e\/ou (mais provavelmente) discorda da opini\u00e3o de quem se sente inferiorizado. O termo \u00e9, portanto, um marcador de fronteiras sociais e culturais invis\u00edveis, servindo para legitimar ou deslegitimar opini\u00f5es. Por esse motivo, \u00e9 perigoso que seja usado em v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2>Cultura n\u00e3o deveria humilhar ningu\u00e9m<\/h2>\n\n\n\n<p>A ideia de que possuir um n\u00edvel cultural \u201celevado\u201d (portanto \u201cintelectual\u201d) seria requisito para expressar opini\u00f5es sobre gostos \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o tardia dos preconceitos de classe, de nossa antiga \u201ccultura de bachar\u00e9is\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/6D1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5801\" width=\"375\" height=\"211\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/6D1.jpg 500w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/6D1-120x67.jpg 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/6D1-250x141.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 375px) 100vw, 375px\" \/><figcaption>Em algum universo alternativo, um inseto desprez\u00edvel ter\u00e1 despertado de manh\u00e3 e sonhado que era Gregor Samsa, sofrendo a partir da\u00ed as consequ\u00eancias dessa inadequa\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para a forma\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, mas n\u00e3o \u00e9 preciso ter diplomas para ser capaz de gostar de uma coisa em vez de outra. Ademais, dependendo da cr\u00edtica que pretenda fazer, mesmo uma ignor\u00e2ncia bastante extensa n\u00e3o o impede de faz\u00ea-la com propriedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Opini\u00f5es n\u00e3o t\u00eam o seu valor necessariamente atrelado a uma abstrata compet\u00eancia ou \u201cintelectualidade\u201d de quem as expressa porque nem todas as opini\u00f5es s\u00e3o iguais e atendem \u00e0 mesma finalidade. Falhar em discernir a finalidade ou o contexto de uma opini\u00e3o, considerar que todas deveriam estar no mesmo plano de import\u00e2ncia; isto, sim, deveria ser considerada uma atitude \u201cpseudointelectual\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema da \u201cpseudointelectualidade\u201d \u00e9 particularmente vis\u00edvel no caso que me interessa \u2014 a literatura.<\/p>\n\n\n\n<h2>O autor n\u00e3o escreve para outros autores<\/h2>\n\n\n\n<p>Diferente do engenheiro, cujo trabalho precisa atender a limita\u00e7\u00f5es objetivas, como a lei da gravidade e a qualidade dos materiais, escritores n\u00e3o t\u00eam normas absolutas e preestabelecidas para seguir: o par\u00e2metro \u00e9 o p\u00fablico e os seus limites s\u00e3o flex\u00edveis (a l\u00edngua e a p\u00e1gina). A amplitude do p\u00fablico leitor pode variar, mas qualquer um que seja parte do universo para o qual uma obra foi escrita deveria estar habilitado a expressar seu gosto em rela\u00e7\u00e3o a ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso d\u00e1 ao leitor a liberdade de gostar ou n\u00e3o gostar, sem ter de se sentir inferior. A ponte \u00e9 constru\u00edda para todos que por ela queiram passar, mas o livro, embora possa ser lido por todos que o desejem, n\u00e3o \u00e9 escrito, nunca, para qualquer um. A ponte n\u00e3o diferencia os pedestres quanto \u00e0 marca do sapato ou os autom\u00f3veis quanto ao ano de fabrica\u00e7\u00e3o ou pot\u00eancia do motor. Mas os livros selecionam os seus leitores segundo v\u00e1rios crit\u00e9rios: l\u00edngua nativa, origem social, escolaridade, interesses, in\u00fameros outros.<\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica de uma obra liter\u00e1ria sempre deve partir do pressuposto de que o cr\u00edtico fa\u00e7a parte do p\u00fablico ao qual a obra se dirige. Colocar um f\u00e3 de contos er\u00f3ticos para apreciar poesia religiosa n\u00e3o resultar\u00e1 em uma cr\u00edtica correta. Em geral, quando temos um cr\u00edtico \u201cfora de sintonia\u201d com a obra que pretende criticar isso resulta em uma aprecia\u00e7\u00e3o preconceituosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, quem \u00e9 o \u201cpseudo\u201d: o autor que n\u00e3o possui a cultura esperada pelo cr\u00edtico, ou quem exigia do autor que ele fosse como o cr\u00edtico?<\/p>\n\n\n\n<h2>O f\u00e3 n\u00e3o tem a obriga\u00e7\u00e3o de gostar sempre<\/h2>\n\n\n\n<p>Mesmo que o f\u00e3 n\u00e3o tenha a \u201cbagagem\u201d determinada para o g\u00eanero, mesmo que n\u00e3o tenha lido ou sequer ouvido falar das \u201cobras seminais\u201d que ele abrange, ainda assim, por sua condi\u00e7\u00e3o de f\u00e3, a opini\u00e3o do leitor merece ser ouvida, desde que corretamente articulada, porque o autor n\u00e3o escreveu para f\u00e3s com requisitos, n\u00e3o esperava que o leitor de um conto sobre vampiros tivesse lido <em>Carmilla<\/em> ou <em>Dr\u00e1cula<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Ter lido essas obras pode ajudar a o leitor a ter uma compreens\u00e3o <em>diferente<\/em>, mas da\u00ed n\u00e3o podemos concluir que sejam essenciais a todos porque <em>ningu\u00e9m est\u00e1 obrigado a ler um livro que n\u00e3o conhece para apreciar \u201ccorretamente\u201d aquele que tem diante de si.<\/em> Mais do que isso, <em>se o livro exige para o seu entendimento que o leitor possua conhecimento de outros livros, esta \u00e9 uma falha do autor e da obra.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Obras envelhecem. O p\u00fablico que se interessa por livros antigos n\u00e3o \u00e9 o mesmo que se interessa por obras contempor\u00e2neas do mesmo g\u00eanero. Ent\u00e3o, ao escrever, o autor deve cuidar que sua obra tenha n\u00edveis de compreens\u00e3o e que ela possa ser usufru\u00edda por aquele que a l\u00ea sem ter qualquer conhecimento pr\u00e9vio daquilo que o autor leu ou em que se formou.<\/p>\n\n\n\n<p>Se uma obra n\u00e3o \u201cfunciona\u201d nesse n\u00edvel mais b\u00e1sico, ela \u00e9, sim, falha. Antes da reflex\u00e3o filos\u00f3fica precisa vir o aspecto l\u00fadico. Que n\u00e3o precisa ser acess\u00edvel a todos, mas precisa existir, pelo menos para o p\u00fablico designado.<\/p>\n\n\n\n<h2>\u00c9 preciso respeitar o f\u00e3 que adquiriu cultura<\/h2>\n\n\n\n<p>N\u00e3o devemos chamar de \u201cpseudointelectual\u201d \u00e0quele que se orgulha do que j\u00e1 aprendeu, mesmo que n\u00e3o tenha alcan\u00e7ado o n\u00edvel em que estamos, ou pensamos que estamos. N\u00e3o h\u00e1 nada de falho ou posti\u00e7o em estar ainda no meio da estrada, principalmente de uma estrada que n\u00e3o tem fim e que s\u00f3 se interrompe com a morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando um leitor alcan\u00e7a um volume de leituras maior do que a m\u00e9dia, <em>especialmente quando se aproxima do volume do pr\u00f3prio autor<\/em>, isto deve ser visto como uma evolu\u00e7\u00e3o positiva \u2014 nunca uma degenera\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o se tornou um \u201cpseudo-intelectual\u201d por saber mais que a m\u00e9dia (por\u00e9m ainda menos que o julgado necess\u00e1rio por algum par\u00e2metro arbitr\u00e1rio). Pode n\u00e3o ter adquirido uma cultura t\u00e3o abrangente quanto \u00e0 que cobramos, mas o simples fato de j\u00e1 ter se erguido acima da passividade e se mostrado capaz de emitir opini\u00f5es articuladas \u00e9 algo que j\u00e1 merece aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2>A cultura n\u00e3o \u00e9 constru\u00edda pelas pessoas \u201ccultas\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>Por mais que eu deteste o gosto \u201crasteiro\u201d das massas (e eu o detesto muito), n\u00e3o posso fugir \u00e0 constata\u00e7\u00e3o de que a cultura \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o coletiva, que independe de meus gostos e desgostos. A cultura n\u00e3o \u00e9 algo decidido por uma elite de pessoas devidamente diplomadas e reconhecidas como \u201ccultas\u201d. Essas pessoas, quando muito, atuam como catalogadoras e preservadoras da massa de cultura espont\u00e2nea que existe. Aquilo a que se costuma chamar de \u201calta cultura\u201d nada mais \u00e9 que uma esp\u00e9cie de racionaliza\u00e7\u00e3o algo antropol\u00f3gica da verdadeira cultura, da cultura viva das massas.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu particularmente deploro o termo \u201cpseudointelectual\u201d porque ser elitista e euroc\u00eantrico. Ele nega status cultural a certas pessoas atrav\u00e9s da nega\u00e7\u00e3o da legitimidade de seus conhecimentos e de suas opini\u00f5es. Em geral, isto se faz atrav\u00e9s de preconceitos geogr\u00e1ficos, sociais e de g\u00eanero, por exemplo:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>\u201cComo algu\u00e9m do Acre poderia ter uma opini\u00e3o v\u00e1lida sobre X?\u201d \u2014 a ideia de que o isolamento geogr\u00e1fico inferioriza intelectualmente.<\/li><li>\u201cX \u00e9 um ignorante porque se formou no SENAI\u201d \u2014 preconceituar as pessoas com base no seu acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica.<\/li><li>\u201cUma obra de fic\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica pedante escrita por uma dona de casa sem diplomas\u201d \u2014 preconceito de g\u00eanero.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Devemos ter muito cuidado para que n\u00e3o cometamos ataques pessoais rasteiros quando comentarmos opini\u00f5es alheias. \u00c9 certo que um acreano n\u00e3o conhecer\u00e1 S\u00e3o Paulo t\u00e3o bem quanto um paulista, que um torneiro mec\u00e2nico dificilmente ter\u00e1 base para falar sobre a hist\u00f3ria da R\u00fassia medieval e que uma obra escrita por uma dona de casa ter\u00e1 caracter\u00edsticas diferentes de uma escrita por um general reformado e professor de hist\u00f3ria militar. Essas circunst\u00e2ncias podem gerar coment\u00e1rios relevantes, ou podem ser uma desculpa para ofender as pessoas sem necessidade.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que o acreano conhe\u00e7a S\u00e3o Paulo muito bem, caso a sua hist\u00f3ria n\u00e3o fa\u00e7a uso extenso e relevante da geografia e da cultura da cidade. O torneiro mec\u00e2nico pode n\u00e3o ser capaz de escrever uma obra de fantasia medieval (de fato nenhum brasileiro deveria ainda escrever isso), mas a sua opini\u00e3o sobre a qualidade de uma obra que leu n\u00e3o est\u00e1 atrelada a um diploma espec\u00edfico. E a dona de casa certamente n\u00e3o saber\u00e1 escrever t\u00e3o bem sobre as armas e as t\u00e1ticas militares, mas talvez tenha conhecimentos e talentos que lhe permitir\u00e3o dar \u00e0 sua obra uma perspectiva diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de que a pessoa \u201cculta\u201d ou o especialista estejam em um patamar mais elevado \u00e9 apenas um tipo de elitismo raso, que em nada ajuda na compreens\u00e3o da cultura como um todo.<\/p>\n\n\n\n<h2>O que demarca a fronteira entre o \u201cpseudo\u201d e o \u201cleg\u00edtimo\u201d?<\/h2>\n\n\n\n<p>Por defini\u00e7\u00e3o, \u201cpseudointelectual\u201d seria algu\u00e9m que aparenta ter uma grande atividade intelectual sem a possuir; quem expressa falsos conhecimentos sobre arte, cultura, m\u00fasica, literatura (segundo o julgamento de quem assim o qualifica).<\/p>\n\n\n\n<p>Vimos que h\u00e1 dois tipos de pseudagem: aquele que finge ter uma atividade intelectual que n\u00e3o possui e o que expressa \u201cfalsos\u201d conhecimentos. O primeiro tipo \u00e9 f\u00e1cil de demarcar: por exemplo, quem se passa por escritor sem realmente escrever ou finge saber ingl\u00eas sem saber. O segundo \u00e9 mais controverso: o que, afinal, define um conhecimento como verdadeiro ou falso em um campo de atividade t\u00e3o subjetivo?<\/p>\n\n\n\n<p>Poder\u00edamos dizer que um autor de maus livros \u00e9 \u201cpseudointelectual\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente ele \u00e9 capaz de ter uma atividade intelectual (escreve livros). O que tornaria tais livros \u201cfalsos\u201d (ou seja, inv\u00e1lidos para legitimar a intelectualidade de quem os escreve)?<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes o termo \u201cpseudointelectual\u201d \u00e9 usado para desqualificar pessoas com quem n\u00e3o concordamos, usando para isso limita\u00e7\u00f5es da cultura formal:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Voc\u00ea escrever romances, sim, mas n\u00e3o os publica pela Editora X.<\/p><p>Esse defeito que voc\u00ea enxerga na obra de X \u00e9 resultado de uma m\u00e1 tradu\u00e7\u00e3o: no original em chin\u00eas n\u00e3o existe isso.<\/p><p>Voc\u00ea tem que ler Y para poder entender X.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ou do poder aquisitivo:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Quer saber mais do que eu, que possuo toda a obra de X em exemplares de capa dura importados do Canad\u00e1?<\/p><p>Eu j\u00e1 fui a Stratford-On-Avon e visitei a casa de Shakespeare.<\/p><p>Sou membro do f\u00e3-clube de X desde 1979 e possuo trinta livros dele autografados.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em alguns casos, a desqualifica\u00e7\u00e3o chega a usar a carta da forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Voc\u00ea leu toda a obra de Y, mas eu escrevi uma tese de doutorado sobre a obra dele.<\/p><p>Cara, eu n\u00e3o estou dando uma opini\u00e3o, eu sou professor disso.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>No fundo, a ideia central \u00e9 a de que haveria um conjunto obrigat\u00f3rio de conhecimentos sem o qual uma pessoa n\u00e3o se torna \u201cintelectual\u201d. Como esse conjunto \u00e9 de acesso geogr\u00e1fica e economicamente restrito, cria-se uma distin\u00e7\u00e3o n\u00edtida entre os que podem e os que n\u00e3o podem ter uma opini\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nasce aqui o \u201cpseudointelectual\u201d, esse teimoso popular que se mete com sua colher de pau em um assunto para o qual n\u00e3o o aceitaram ainda.<\/p>\n\n\n\n<h2>Quando a arma do opressor \u00e9 usada pelo oprimido<\/h2>\n\n\n\n<p>Nem sempre quem emprega essas estrat\u00e9gias de confus\u00e3o est\u00e1 em uma posi\u00e7\u00e3o vantajosa para faz\u00ea-lo. Parte da \u00e9tica \u201col\u00edmpica\u201d do t\u00edpico intelectual convencido \u00e9 n\u00e3o se meter em discuss\u00f5es, deixar que os f\u00e3s (ou, atualmente, seus <em>fakes<\/em>) o fa\u00e7am por si. Felizmente, para tais soberanos da cultura, existem s\u00faditos prontos a entrar na luta.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato o termo \u201cpseudointelectual\u201d, embora surgido em um contexto de preconceito de classes, <em>n\u00e3o \u00e9 usado<\/em> normalmente para demarcar \u201cde cima para baixo\u201d essa linha de exclus\u00e3o. Raramente vemos um professor universit\u00e1rio, por exemplo, tentando humilhar um leigo. Quando isso ocorre, em geral \u00e9 porque o leigo invadiu o espa\u00e7o do professor \u2014 o que tem se tornado mais comum devido \u00e0s redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Os maiores usu\u00e1rios do conceito e do termo s\u00e3o admiradores, seguidores daqueles a quem julgam intelectuais. A acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 normalmente feita por pessoas que est\u00e3o mais ou menos na mesma posi\u00e7\u00e3o do acusado. N\u00e3o s\u00e3o autores desqualificando leitores que os criticaram, mas leitores (f\u00e3s) atacando outros leitores (que n\u00e3o se tornaram f\u00e3s) por emitirem opini\u00f5es desagrad\u00e1veis sobre obras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma atitude que reflete preconceito internalizado por aqueles que empregam o termo, que o usam para negar a uma pessoa comum o direito de discordar de quem est\u00e1 em uma posi\u00e7\u00e3o dominante. Na maioria das vezes, o \u201cpseudo\u201d \u00e9 a crian\u00e7a que viu o rei nu.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso quer dizer, basicamente, que <em>aqueles que empregam o termo \u201cpseudo-intelectual\u201d raramente sabem do que est\u00e3o falando<\/em>. Eles pr\u00f3prios s\u00e3o faltos da cultura \u201cnecess\u00e1ria\u201d que acusam o \u201cpseudointelectual\u201d de n\u00e3o ter.<\/p>\n\n\n\n<h2>Uma acusa\u00e7\u00e3o que censura<\/h2>\n\n\n\n<p>Mais do que somente negar legitimidade a discursos discordantes, o emprego do termo \u201cpseudointelectual\u201d objetiva exercer uma censura contra pessoas que se insurgem contra o pensamento dominante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito f\u00e1cil acusar aqueles de quem discordamos de serem os possuidores de cultura falsa (\u201cpseudo\u201d) ou capacidade mental insuficiente (\u201cintelectual\u201d). Quando se faz isto, automaticamente fica \u201clacrada\u201d a cabe\u00e7a contra a possibilidade de considerar uma opini\u00e3o perigosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, por\u00e9m, s\u00e3o os <em>outsiders<\/em>, os \u201cpseudos\u201d, os que criam as vis\u00f5es inovadoras da cultura. Porque, afinal, os elementos da cultura podem ser m\u00famias estudadas em laborat\u00f3rios, mas tiveram de ser vivos um dia, antes de coletados e catalogados pelos \u201ccultos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos que o pensamento coletivo brasileiro se caracteriza por um fasc\u00ednio extremo pela ignor\u00e2ncia, vista quase como um \u201csuperpoder\u201d. Quando esse fasc\u00ednio se alia \u00e0 inveja daqueles que come\u00e7am a galgar os degraus do conhecimento e \u00e9 legitimado pela adora\u00e7\u00e3o comum a um fator externo (como a obra de determinado autor), temos a situa\u00e7\u00e3o ideal para que esses s\u00e1bios incompletos sejam torpedeados com cr\u00edticas cru\u00e9is, o que tem o efeito, <em>talvez o objetivo<\/em>, de abater seu voo intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos avaliar com um pouco mais de crit\u00e9rio a quem chamamos de \u201cpseudointelectual\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2>Conclus\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<ul><li>O termo \u201cpseudointelectual\u201d reflete marca\u00e7\u00f5es invis\u00edveis de classe.<\/li><li>N\u00e3o h\u00e1 requisitos pr\u00e9vios para que algu\u00e9m expresse uma <em>opini\u00e3o<\/em>.<\/li><li>Nenhuma obra liter\u00e1ria \u00e9 universal.<\/li><li>Ningu\u00e9m est\u00e1 obrigado a ler obra alguma.<\/li><li>Se uma obra de literatura apresenta demasiados \u201cprerrequisitos\u201d para sua leitura, isto n\u00e3o \u00e9 uma qualidade, mas uma falha.<\/li><li>O termo \u201cpseudointelectual\u201d \u00e9 frequentemente usado para deslegitimar opini\u00f5es expressas por pessoas de classe social \u201cbaixa\u201d ou de origem geogr\u00e1fica \u201cperif\u00e9rica\u201d.<\/li><li>A cultura n\u00e3o \u00e9 monop\u00f3lio das elites.<\/li><li>Os crit\u00e9rios para definir o que \u00e9 pr\u00f3prio e o que \u00e9 \u201cpseudo\u201d s\u00e3o baseados em privil\u00e9gios de classe, cor de pele, origem geogr\u00e1fica e acesso a determinadas inst\u00e2ncias educacionais.<\/li><li>A internaliza\u00e7\u00e3o desses preconceitos, aliada ao fasc\u00ednio nacional pela ignor\u00e2ncia, faz com que as pessoas que come\u00e7am a elevar-se culturalmente sejam atacadas como \u201cpseudointelectuais\u201d, o que tem o efeito, se n\u00e3o o objetivo, de desestimul\u00e1-las.<\/li><\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 raro ouvirmos o termo \u201cpseudointelectual\u201d, especialmente em debates sobre gostos (musicais, liter\u00e1rios ou quaisquer). Em geral se usa para designar algu\u00e9m que procura exibir uma cultura que n\u00e3o tem. Mais especificamente, quando essa opini\u00e3o destoa do senso comum e\/ou (mais provavelmente) discorda da opini\u00e3o de quem se sente inferiorizado. O termo \u00e9, portanto, um marcador de fronteiras sociais e culturais invis\u00edveis, servindo para legitimar ou deslegitimar opini\u00f5es. Por esse motivo, \u00e9 perigoso que seja usado em v\u00e3o. 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