{"id":5812,"date":"2018-02-16T20:09:47","date_gmt":"2018-02-16T23:09:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5812"},"modified":"2019-06-05T21:45:27","modified_gmt":"2019-06-06T00:45:27","slug":"certos-livros-podem-ser-escritos-mas-nao-precisavam-ser","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/02\/certos-livros-podem-ser-escritos-mas-nao-precisavam-ser\/","title":{"rendered":"Certos Livros Podem Ser Escritos, Mas N\u00e3o Precisavam Ser"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 uma antiga li\u00e7\u00e3o do mestre Sun Tzu que nos explica bem o dilema de entrar em disputas desnecess\u00e1rias. Esta semana tive a oportunidade de perceber qu\u00e3o certo \u00e9 o conselho milenar do general chin\u00eas:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>N\u00e3o basta fazer algo pelo simples bem de algo: certifique-se de que isso o ajude. Se \u00e9 para a sua vantagem, fa\u00e7a um movimento para frente; se n\u00e3o, fique onde est\u00e1.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>H\u00e1 lutas que n\u00e3o devem ser travadas por ningu\u00e9m e outras que algu\u00e9m deve travar, mas n\u00e3o devo ser eu. Ningu\u00e9m tem uma procura\u00e7\u00e3o de Deus para sair pelo mundo a consertar todo mal feito. S\u00f3 porque a internet e as redes sociais nos aproximaram de muita gente e de muitos feitos, <em>nem tudo que navega \u00e9 o meu pr\u00f3ximo.<\/em><\/p>\n\n\n\n<h2>Um livro escrito por uma mente bicenten\u00e1ria<\/h2>\n\n\n\n<p>A controv\u00e9rsia come\u00e7ou em torno da obra \u201cA Escrava e a Fera\u201d, de J\u00e9ssica Macedo, no qual se romanceia a hist\u00f3ria de uma africana traficada para o Brasil em 1824 e vendida a um bar\u00e3o do caf\u00e9 em Minas Gerais.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img loading=\"lazy\" width=\"198\" height=\"300\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Monster_of_Crackow.-198x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5813\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Monster_of_Crackow.-198x300.jpg 198w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Monster_of_Crackow.-99x150.jpg 99w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Monster_of_Crackow.-423x640.jpg 423w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/Monster_of_Crackow..jpg 507w\" sizes=\"(max-width: 198px) 100vw, 198px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Pelo pouco que eu entendo do mundo (e cada vez o entendo menos, \u00e0 medida que sou ultrapassado pelas mudan\u00e7as e me torno precoce f\u00f3ssil em um futuro imprevisto), a ideia de tal romance \u00e9 absurda <em>devido ao tempo em que vivemos<\/em>. Houve, no passado, diversas obras que cometeram os mais diversos equ\u00edvocos, por\u00e9m somente s\u00e3o equ\u00edvocos aos nossos olhos, devido \u00e0 mudan\u00e7a do mundo. Na \u00e9poca em que foram escritas, havia uma rela\u00e7\u00e3o de \u201cnormalidade\u201d em rela\u00e7\u00e3o ao que hoje nos choca.<\/p>\n\n\n\n<p>Basicamente isso quer dizer que n\u00e3o podemos culpar Bernardo Guimar\u00e3es por ter escrito \u201cA Escrava Isaura\u201d, por mais que seu contempor\u00e2neo Castro Alves tenha sido mais evolu\u00eddo e produzido \u201cOs Escravos\u201d. Ambos os autores viveram no s\u00e9culo XIX e, ainda que o abolicionismo j\u00e1 fosse um tema bastante difundido, a escravid\u00e3o ainda era uma realidade muito pr\u00f3xima, permitindo um grau de controv\u00e9rsia que hoje em dia \u00e9 indesculp\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja: mesmo os racistas de hoje devem escrever obras diferentes das que eram escritas pelos racistas de 1860. Certas ideias que eram tomadas como a norma social hoje precisam ser <em>defendidas<\/em>, o que antes era cen\u00e1rio, hoje \u00e9 <em>tese<\/em>. O racista de hoje est\u00e1 na defensiva e procura se justificar.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso uma obra que toma como natural a exist\u00eancia da escravid\u00e3o e de todos os seus horrores nos choca \u2014 e \u00e9 natural em todo ser humano dotado de princ\u00edpios morais que este choque aconte\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<h2>Voc\u00ea pode escrever sobre tudo, sobretudo se&#8230;<\/h2>\n\n\n\n<p>O meu momento de vergonha no debate sobre esse livro aconteceu porque \u2014 devido \u00e0 minha excessiva simpatia pelo movimento negro e pela minha consci\u00eancia de tudo que foi preciso mudar no mundo para superarmos certas coisas feias de que as pessoas de bem n\u00e3o se orgulham, ou n\u00e3o deveriam \u2014 me exacerbei na cr\u00edtica ao livro e subitamente me vi defendendo a censura pr\u00e9via ou, melhor, a <em>autocensura pr\u00e9via<\/em>. \u201cCertos livros n\u00e3o deveriam ser escritos\u201d \u2014 esta foi a minha tese.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ponto eu me toquei da necessidade de me retirar do debate. Ausentei-me dele, deixando minha sauda\u00e7\u00e3o final, e me retra\u00ed a pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer livro pode ser escrito. O autor n\u00e3o pode ser impedido de escrever aquilo que lhe d\u00ea na telha. A ideia de que certos livros deveriam ser suprimidos antes de escritos \u00e9 incompat\u00edvel com a liberdade de cria\u00e7\u00e3o. Admitindo-se que isso valesse, o autor n\u00e3o poderia ousar e errar para aprender. Quando estamos aprendendo, inventamos muitas hist\u00f3rias absurdas que nunca pensamos em publicar, ou que pensamos, mas supomos que nunca ser\u00e3o aceitas. Essas obras de exerc\u00edcio cometem erros e adentram terrenos que facilmente ultrapassam o toler\u00e1vel por uma sociedade s\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>No passado a liberdade de criar enfrentava tr\u00eas filtros: os princ\u00edpios pr\u00f3prios do autor lhe desaconselhavam dar \u00e0 lume certas crias; as editoras recusavam obras segundo os mais diversos crit\u00e9rios e o receio de ambos (autor e editor) fazia com que certas obras tivessem divulga\u00e7\u00e3o restrita quando publicadas. Isto, claro, em sociedades livres, onde n\u00e3o havia censura formal e nem inquisi\u00e7\u00e3o religiosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 uma liberdade antiga e que deve ser preservada, mas o mundo mudou.<\/p>\n\n\n\n<h2>O autor \u00e0 solta em meio \u00e0 grande ventania<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma das mudan\u00e7as que foi o barateamento das tecnologias de impress\u00e3o a partir da inven\u00e7\u00e3o da impressora <em>off-set<\/em> (e em seguida as impressoras laser de alta rota\u00e7\u00e3o).<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tornou poss\u00edvel a exist\u00eancia de mais editoras, abrindo espa\u00e7o para mais autores (enfraquecendo o filtro editoral de qualidade e propriedade), e at\u00e9 mesmo possibilitando, em uma fase mais pr\u00f3xima de n\u00f3s, que os pr\u00f3prios autores se tornassem editores de sua obra, contratando gr\u00e1ficas para executar os servi\u00e7os e vendendo depois atrav\u00e9s da internet e das redes sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra mudan\u00e7a foi o surgimento dos <em>blogs<\/em> e das redes sociais, permitindo a divulga\u00e7\u00e3o de conte\u00fado <em>at\u00e9 mesmo sem publicar<\/em>. A figura do editor entrou em crise. Autores indispostos a aceitar o estripamento de seu texto pela m\u00e3o pesada de um revisor-editor ou inconformados com uma recusa, em ambos os casos crentes em seu potencial, podem levar ao conhecimento p\u00fablico uma obra que, em outros tempos, mofaria numa gaveta.<\/p>\n\n\n\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 internet tudo adquiriu muita <em>velocidade<\/em>. Basta que a pessoa certa se d\u00ea conta de certo conte\u00fado e o distribua em dois ou tr\u00eas canais e pronto! Certo conte\u00fado que passaria direto para os por\u00f5es da hist\u00f3ria <em>viralizou<\/em> e chega ao conhecimento de milh\u00f5es de pessoas que nem saberiam de sua exist\u00eancia. Algumas dessas pessoas se ofendem com esse conte\u00fado, algumas comentam, tudo realimenta a pol\u00eamica, pol\u00eamica atrai aten\u00e7\u00e3o. O instinto de manada traz multid\u00f5es a atacar e defender algo imensamente irrelevante.<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer autor hoje est\u00e1 sob risco de ser <em>identificado<\/em> como o pr\u00f3ximo inimigo p\u00fablico: basta que pessoas bem relacionadas amem ou detestem aquilo que ele escreve. Eu mesmo n\u00e3o sei se rezo para que isso aconte\u00e7a ou se temo o que v\u00e3o enxergar de pecado e de erro nos por\u00f5es do Letras El\u00e9tricas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disso \u00e9 realmente control\u00e1vel. Assim como o pl\u00e1gio, a viraliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno inerente as redes sociais na internet. Quem n\u00e3o quer se molhar, que nem saia \u00e0 pra\u00e7a, pois pode chover aleatoriamente. (Escuta a ventania!)<\/p>\n\n\n\n<h2>A beleza controversa de uma protagonista improv\u00e1vel<\/h2>\n\n\n\n<p>Aparentemente, <a href=\"http:\/\/www.dreamsandbooks.com\/2018\/02\/li-e-digo-escrava-e-fera-e-uma-mancha-na-literatura-nacional.html?m=1\">algu\u00e9m j\u00e1 leu e resenhou<\/a> a obra pol\u00eamica. N\u00e3o parece haver mais d\u00favida de que \u201cA Escrava e a Fera\u201d \u00e9 um livro abomin\u00e1vel sob muitos aspectos. N\u00e3o por abordar a escravid\u00e3o, talvez nem mesmo por abordar a exist\u00eancia de romantismos (doentios, mas o que se h\u00e1 de fazer?) entre escravos e senhores. O que torna essa obra abomin\u00e1vel \u00e9 o <em>foco<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Recuso-me a crer que seja por mera inoc\u00eancia que o t\u00edtulo foi escolhido, deliberadamente em alus\u00e3o a um conto de fadas (\u201cA Bela e a Fera\u201d) que j\u00e1 tem os seus pr\u00f3prios aspectos abomin\u00e1veis. H\u00e1 muitos subtextos poss\u00edveis na escolha da palavra \u201cescrava\u201d em substitui\u00e7\u00e3o a \u201cbela\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece-me imposs\u00edvel, tamb\u00e9m, que a escolha da ilustra\u00e7\u00e3o em que a personagem \u00e9 marcada a ferro tenha sido movida pela m\u00e3o do acaso. Ou que o mesmo fator explique que nesta imagem, contextualizada no momento em que a personagem ainda \u00e9 rec\u00e9m-chegada da \u00c1frica, seus cabelos sejam cacheados, em vez da carapinha natural dos negros origin\u00e1rios das regi\u00f5es de onde vieram os cativos recebidos pelo Brasil at\u00e9 1850. Principalmente porque, na imagem da capa, \u00e9 vis\u00edvel que o perfil da personagem tenha tamb\u00e9m um nariz arrebitado.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes elementos d\u00e3o \u00e0 obra uma dimens\u00e3o de anormalidade porque implantam em personagens do s\u00e9culo XIX aspectos est\u00e9ticos de nossa \u00e9poca. Que o anacronismo valha para isso, mas n\u00e3o para atenuar certos outros aspectos \u00e9 uma coisa dif\u00edcil de aceitar. Em defesa de \u201cA Escrava Isaura\u201d se pode dizer que, por mais inveross\u00edmil que sua hist\u00f3ria seja, no contexto da trama se explica que ela era filha de um homem branco e de uma escrava mesti\u00e7a cuja pele j\u00e1 era significativamente clara. A beleza euroc\u00eantrica de Isaura \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o da miscigena\u00e7\u00e3o ocorrida em territ\u00f3rio brasileiro. Por isso \u00e9 mais veross\u00edmil que a ideia de uma africana nativa que j\u00e1 chega ao Brasil dotada de aspectos f\u00edsicos agrad\u00e1veis ao gosto europeu. \u201cA Escrava Isaura\u201d \u00e9 uma obra precursora do mito do Branqueamento, expresso no famoso quadro de Modesto Brocos (\u201cA Reden\u00e7\u00e3o de C\u00e3\u201d). \u201cA Escrava e a Fera&#8221; \u00e9 uma tentativa de branqueamento do negro em retrospecto (ou, pelo menos, do negro protagonista e \u201cbom\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 um dos muitos anacronismos presentes em uma obra que supostamente se baseou em retrospectiva hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<h2>O direito \u00e0 exist\u00eancia das obras abomin\u00e1veis<\/h2>\n\n\n\n<p>Eu j\u00e1 defendi aqui mesmo que <a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/12\/o-que-fazer-com-a-arte-de-pessoas-execraveis\">n\u00e3o devemos julgar as obras pelos autores<\/a>, mas o contr\u00e1rio, e que <a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/01\/nao-matemos-os-livros-por-causa-de-nossos-pecados\">n\u00e3o devemos suprimir os livros por causa da interpreta\u00e7\u00e3o que lhes damos<\/a>. Acredito que nenhuma das duas teses contradiz a ideia de que \u201cA Escrava e a Fera\u201d merece toda a inf\u00e2mia de que agora padece.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, porque n\u00e3o est\u00e1 escrito em lugar algum que o direito de escrever e publicar o que queira simultaneamente d\u00e1 ao autor imunidades: contra a revolta dos que se ofendem ou contra a cr\u00edtica dos que n\u00e3o gostam. A liberdade do leitor \u00e9 equivalente, no m\u00ednimo, talvez at\u00e9 superior, \u00e0 do autor.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo, porque a cr\u00edtica n\u00e3o se faz para impedir a cria\u00e7\u00e3o livre, mas para dar o devido acolhimento a obras que <em>falham<\/em> em seu prop\u00f3sito. Sem a liberdade da cr\u00edtica, o leitor n\u00e3o tem como saber o que h\u00e1 de errado em um livro, pois <em>nem todo leitor est\u00e1 equipado com os conhecimentos e sensibilidades necess\u00e1rios a analisar uma obra<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Terceiro, porque a cr\u00edtica que se faz a este livro \u00e9 muito pertinente: a pergunta primordial da maioria dos criticadores desse livro \u00e9 por que raz\u00e3o uma obra com tantos problemas (incoer\u00eancias, anacronismos) tenha passado pelo crivo de uma editora e chegado ao p\u00fablico, apesar de seus defeitos.<\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica que se faz a esse livro \u00e9 humanizadora. No passado j\u00e1 foram escritos livros racistas e machistas em quantidade suficiente. Assim como no passado j\u00e1 morreu uma quantidade suficiente de pessoas por infec\u00e7\u00f5es simples. O racismo e o machismo exacerbados nessa obra s\u00e3o t\u00e3o intoler\u00e1veis quanto a morte de uma crian\u00e7a pobre por c\u00f3lera ou tifo. Essas coisas ainda acontecem, principalmente por causa da disparidade de desenvolvimento humano entre as regi\u00f5es <em>e entre as pessoas<\/em>. H\u00e1 quem tenha acesso a \u00e1gua pot\u00e1vel e n\u00e3o sofra de tais infec\u00e7\u00f5es. H\u00e1 quem tenha acesso a mais conhecimentos e uma melhor forma\u00e7\u00e3o humana e n\u00e3o padece de tais preconceitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como podemos, e devemos, defender a mem\u00f3ria dos que fizeram o passado, com todos os seus defeitos e erros, n\u00e3o devemos tentar cometer de novo os erros que eles cometiam.<\/p>\n\n\n\n<h2>Retratar e endossar<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma defesa frequente desse tipo de literatura \u00e9 que ela retrata a realidade e que o autor n\u00e3o pode ter negado esse direito. Concordo com ambas as afirma\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o creio que o retrato seja uma desculpa suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das habilidades que o autor precisa ter \u00e9 a de se separar de sua obra. Nabokov escreveu um livro sobre algo monstruoso: a pedofilia. Mas \u201cLolita\u201d n\u00e3o \u00e9 um <em>livro monstruoso<\/em>, \u00e9 um livro sobre um monstro (Humbert) e sua v\u00edtima (Dolores). N\u00e3o \u00e9 um livro para quaisquer est\u00f4magos e tampouco um que ser\u00e1 compreendido universalmente, mas o status moral de Nabokov \u00e9 muito diferente do de uma autora que \u201credime\u201d o opressor bar\u00e3o mineiro atrav\u00e9s do casamento com uma cativa e \u201cliberta\u201d a africana escravizada ao torn\u00e1-la a esposa. Considerando-se o papel subalterno da mulher na sociedade brasileira da \u00e9poca em que se passa a hist\u00f3ria, n\u00e3o h\u00e1 \u201cliberta\u00e7\u00e3o\u201d completa da escrava, apenas uma mudan\u00e7a de papel social. Nabokov n\u00e3o justifica os atos de Humbert sen\u00e3o pela boca dele mesmo. J\u00e9ssica Macedo justifica (e finalmente perdoa) os atos do bar\u00e3o ao se preocupar com sua reden\u00e7\u00e3o, obtida \u00e0s custas da escrava. Podemos dizer que \u201cLolita\u201d retratou literariamente a pedofilia (e de uma forma t\u00e3o competente que eu at\u00e9 acho que seria sup\u00e9rfluo tentar super\u00e1-lo), mas que \u201cA Escrava e a Fera\u201d vai al\u00e9m do retrato e entra a endossar aquilo que relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Os autores abomin\u00e1veis por sua personalidade ou por seus atos foram capazes de produzir obras dignas de lembran\u00e7a, apesar de quem eles foram. Livros abomin\u00e1veis foram escritos no passado e retratam (\u00e0s vezes endossam) momentos importantes da hist\u00f3ria. \u00c9 imperdo\u00e1vel que um autor supostamente bem-intencionado produza uma obra abomin\u00e1vel por justamente focar naquilo que hoje sabemos monstruoso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma antiga li\u00e7\u00e3o do mestre Sun Tzu que nos explica bem o dilema de entrar em disputas desnecess\u00e1rias. Esta semana tive a oportunidade de perceber qu\u00e3o certo \u00e9 o conselho milenar do general chin\u00eas: N\u00e3o basta fazer algo pelo simples bem de algo: certifique-se de que isso o ajude. Se \u00e9 para a sua vantagem, fa\u00e7a um movimento para frente; se n\u00e3o, fique onde est\u00e1. H\u00e1 lutas que n\u00e3o devem ser travadas por ningu\u00e9m e outras que algu\u00e9m deve travar, mas n\u00e3o devo ser [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5813,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[183],"tags":[24,17,28,221,57,206],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5812"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5812"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5812\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6711,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5812\/revisions\/6711"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5813"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5812"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5812"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5812"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}