{"id":5825,"date":"2018-02-27T16:00:52","date_gmt":"2018-02-27T19:00:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5825"},"modified":"2018-03-05T23:16:22","modified_gmt":"2018-03-06T02:16:22","slug":"o-autor-reduzido-a-estatisticas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/02\/o-autor-reduzido-a-estatisticas\/","title":{"rendered":"O Autor, Reduzido a Estat\u00edsticas"},"content":{"rendered":"<p>Essa semana que passou eu embarquei em uma jornada de autoconhecimento e quero compartilhar os resultados com voc\u00eas. O ponto de partida foi a pesquisa de Regina Delcastagn\u00e8, da UFMG (na \u00e9poca, mas atualmente UnB), que vem repercutindo desde 2015 e que, neste ano, ter\u00e1 publicada sua fase final. Delcastagn\u00e8 tabulou informa\u00e7\u00f5es sobre centenas de obras da literatura nacional publicadas entre 1965 e 1979, entre 1990 e 2004 e entre 2012 e 2017. Basicamente ela procurou saber &#8220;quem \u00e9&#8221; o autor brasileiro e &#8220;sobre quem&#8221; escreve.<\/p>\n<p>Embora eu n\u00e3o seja o tipo SJW, na qualidade de autor que me pretendo cronista de minha \u00e9poca e testemunha ocular da hist\u00f3ria (al\u00e9m de ter tamb\u00e9m uma gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria e um MBA em Economia), considerei os resultados de Delcastagn\u00e8 muito interessantes. Aguardo ansiosamente os dados mais recentes.<\/p>\n<p>Basicamente ela descobriu que:<\/p>\n<ul>\n<li>entre 1965 e 1979, 82,6% dos autores publicados eram homens.<\/li>\n<li>entre 1990 e 2004, esse n\u00famero ainda era de 75%<\/li>\n<li>em ambos os per\u00edodos, nada menos que 93% dos autores eram brancos ou assim se declaravam.<\/li>\n<li>68,5% dos autores residem no Rio de Janeiro ou S\u00e3o Paulo, embora esses estados tenham menos de 25% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Os resultados obtidos or Delcastagn\u00e8 evidenciaram um autor nacional muito \u201cumbiguista\u201d. Regra geral, o autor brasileiro publicado \u00e9 um homem branco de classe m\u00e9dia at\u00e9 alta, residente (se n\u00e3o nascido) em alguma capital do sudeste, que exerce uma profiss\u00e3o compreendida em uma s\u00e9rie bem limitada (jornalista, professor, pol\u00edtico, advogado e empres\u00e1rio s\u00e3o as principais), que come\u00e7a a escrever ap\u00f3s os trinta anos anos e que escreve basicamente sobre gente de classe m\u00e9dia, branca, residente nas metr\u00f3poles do sudeste e envolvidas no mesmo mundo cultural que ele.<\/p>\n<p>Para alguns, como Andr\u00e9 Forastieri, colunista do portal Record News, esses resultados ajudariam a explicar porque n\u00e3o ganhamos o Nobel de Literatura: esse t\u00edpico cidad\u00e3os burgu\u00eas brasileiro n\u00e3o se diferencia muito do cidad\u00e3o burgu\u00eas europeu, exceto por imit\u00e1-lo servilmente e ser muito menos sofisticado intelectualmente &mdash; da\u00ed n\u00e3o ser atraente ao leitor estrangeiro. A an\u00e1lise de Forastieri me pareceu bastante justa no geral, mas peca por desviar de tr\u00eas circunst\u00e2ncias essenciais:<\/p>\n<ol>\n<li>O trabalho de Delcastagn\u00e8 n\u00e3o fica limitado aos autores habilitados a um Nobel, mas inclui at\u00e9 porcarias que sequer deveriam ser lidas, como Jos\u00e9 Sarney e Paulo Coelho.<\/li>\n<li>O Brasil teve excelentes autores que desviaram significativamente desses estere\u00f3tipos, inclusive alguns que atra\u00edram muitos leitores estrangeiros, e nem por isso ganhamos um Nobel.<\/li>\n<li>Os autores latino-americanos ganhadores de Nobel n\u00e3o se caracterizavam por ter um perfil muito diferente, apenas escreviam melhor e com mais originalidade.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Essas reverbera\u00e7\u00f5es dos resultados, ainda mais com a publica\u00e7\u00e3o de mais dados levantados pela professora, me levaram a intuir que ainda n\u00e3o se discutiu bastante o significado e o alcance das constata\u00e7\u00f5es desse estudo. \u00c0 medida que ele for expandido, teremos ainda mais facilidade para tra\u00e7ar um perfil profundo de nossa cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Talvez nunca entendamos porque ainda n\u00e3o ganhamos o Nobel, mas entenderemos melhor quem \u201csomos\u201d, literariamente, e quem sonhamos ser.<\/p>\n<p>Uma das curiosidades que o trabalho de Delcastagn\u00e8 me despertou foi exatamente como o meu pr\u00f3prio universo ficcional estaria caracterizado quando \u00e0 preval\u00eancia de g\u00eaneros, orienta\u00e7\u00f5es sexuais, localidades geogr\u00e1ficas, etc. Decidi, ent\u00e3o, realizar um levantamento de todas as minhas obras de fic\u00e7\u00e3o, exceto aquelas que ainda se encontram in\u00e9ditas, para tentar desenhar a \u201ccara\u201d do Jos\u00e9 Geraldo Gouv\u00eaa conforme \u201clido\u201d por quem se acerca de sua obra.<\/p>\n<p>Devo dizer que aprendi muita coisa ao realizar a coleta de dados. Tive uma perspectiva de minhas cria\u00e7\u00f5es e de mim mesmo que eu at\u00e9 ent\u00e3o nem sonhava. Recomendo imensamente que todos os autores amadores fa\u00e7am levantamento semelhante &mdash; inclusive ponho \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de quem quiser a planilha que usei para tabular os dados.<\/p>\n<p>Mas vejamos o que eu descobri.<\/p>\n<p>A minha pesquisa consistiu em informar em uma planilha os seguintes dados sobre cada personagem de cada conto:<\/p>\n<ol>\n<li>Nome<\/li>\n<li>Se \u00e9 protagonista<\/li>\n<li>Sexo (masculino, feminino ou inexistente\/n\u00e3o evidenciado)<\/li>\n<li>Orienta\u00e7\u00e3o sexual (h\u00e9tero, homo, bi ou assexuado\/n\u00e3o evidenciado)<\/li>\n<li>Profiss\u00e3o, classe social ou categoria<\/li>\n<li>Se tem falas em discurso direto<\/li>\n<li>Ra\u00e7a (branca, negra, mesti\u00e7o, amer\u00edndio ou meio-amer\u00edndio, oriental ou meio-oriental, indiferente\/n\u00e3o evidenciada)<\/li>\n<\/ol>\n<p>Dos contos, por sua vez, foram informados os seguintes dados:<\/p>\n<ol>\n<li>T\u00edtulo<\/li>\n<li>Ano de finaliza\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>Data\u00e7\u00e3o do principal n\u00facleo de a\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>Principal localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da a\u00e7\u00e3o<\/li>\n<\/ol>\n<p>Em uma segunda planilha, dentro do mesmo arquivo, esses dados foram automaticamente tabulados por f\u00f3rmulas (sim, sou um \u201ccabe\u00e7a de planilha\u201d) e geraram porcentagens e gr\u00e1ficos. At\u00e9 o momento eu tabulei as seguintes s\u00e9ries de dados:<\/p>\n<ol>\n<li>Personagens por sexo<\/li>\n<li>Personagens por sexo, com falas<\/li>\n<li>Personagens por orienta\u00e7\u00e3o sexual<\/li>\n<li>Personagens por orienta\u00e7\u00e3o sexual, com falas<\/li>\n<li>Contos por localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica<\/li>\n<li>Contos por data\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica<\/li>\n<li>Personagens por ra\u00e7a<\/li>\n<li>Personagens por ra\u00e7a, com falas<\/li>\n<li>Protagonistas por ra\u00e7a<\/li>\n<li>Protagonistas por ra\u00e7a, com falas<\/li>\n<li>Personagens por ra\u00e7a x sexo<\/li>\n<li>Personagens por ra\u00e7a x sexo, com falas<\/li>\n<li>Personagens por faixa et\u00e1ria<\/li>\n<li>Personagens por faixa et\u00e1ria, com falas<\/li>\n<li>Personagens por sexo x faixa et\u00e1ria<\/li>\n<li>Personagens por sexo x faixa et\u00e1ria, com falas<\/li>\n<li>Personagens por profiss\u00e3o, classe social ou categoria<\/li>\n<li>Personagens por profiss\u00e3o, classe social ou categoria<\/li>\n<\/ol>\n<p>Pode parecer muita coisa, mas uma planilha automatiza a extra\u00e7\u00e3o de todos esses dados: a parte realmente dif\u00edcil \u00e9 inseri-los &mdash; ainda mais porque, a fim de ter uma an\u00e1lise perfeita, \u00e9 necess\u00e1rio <em>ler todos os textos<\/em> para conhecer de novo personagens de que eu j\u00e1 mal me lembrava.<\/p>\n<p>H\u00e1 outras possibilidades de cruzamento desses dados, que eu posso desenvolver, se algum leitor estiver interessado, principalmente quem deseje reutilizar a minha planilha.<\/p>\n<p>Infelizmente, por\u00e9m, para extra\u00e7\u00e3o de mais dados seria necess\u00e1rio reler todos os textos &mdash; coisa que, no momento, n\u00e3o me disponho a fazer. Se algum abnegado estiver disposto a isto, podemos pensar em uma parceria.<\/p>\n<p>Antes de realizar esse levantamento eu tinha uma vis\u00e3o muito indulgente de minha fic\u00e7\u00e3o. Acreditava que eu era um autor inclusivo, que me caracterizava por ter muitas personagens femininas em minha fic\u00e7\u00e3o, que era um \u201cregionalista mineiro\u201d, entre outras bobagens. Os n\u00fameros estapearam a minha cara e me fizeram confrontar um fato desconfort\u00e1vel: eu sou mais parecido com esse \u201cautor brasileiro padr\u00e3o\u201d detectado por Delcastagn\u00e8 do que com a imagem idealizada que eu tinha de mim mesmo.<\/p>\n<p>Aos n\u00fameros:<\/p>\n<p>Primeiro eu apurei que somente 120 de minhas obras (o blog cont\u00e9m 657 postagens) s\u00e3o de fic\u00e7\u00e3o. Destas, pelo menos vinte n\u00e3o se encontram no blog, ou somente est\u00e3o l\u00e1 parcialmente. Dentre as obras de fic\u00e7\u00e3o encontradas no blog, eu s\u00f3 n\u00e3o inclu\u00ed em meu levantamento o romance \u201cA Fazenda da Serpente\u201d, que est\u00e1 inacabado. Todas as demais cria\u00e7\u00f5es de fic\u00e7\u00e3o que eu pus l\u00e1 est\u00e3o abrangidas.<\/p>\n<p>Esse n\u00famero \u00e9 importante porque eu costumava dizer que tinha \u201ccentenas\u201d de contos escritos. Devo baixar um pouco a minha bola, ou ent\u00e3o correr para escrever mais uns cento e poucos nos pr\u00f3ximos anos, para poder voltar a me gabar.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que no blog existem dezenas de cr\u00f4nicas que eu n\u00e3o inclu\u00ed no levantamento porque elas s\u00e3o, de fato, mon\u00f3logos de autor-pensador. Alguns contos s\u00e3o quase isso, mas t\u00eam, pelo menos, um enredo ou o desenvolvimento de um personagem.<\/p>\n<p>A segunda grande \u201dbaixada de bola\u201d foi em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cmineiridade\u201d de meus escritos. \u00c9 certo que Minas Gerais, e a Zona da Mata, de maneira mais espec\u00edfica, tem uma influ\u00eancia enorme em minha fic\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 menor do que eu supunha:<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/mg-300x279.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"279\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5834\" \/><\/p>\n<p>De minhas 120 \u201chist\u00f3rias\u201d, 26.45% (32) se localizam em um \u201ccentro urbano indeterminado\u201d (na verdade \u201cindetermin\u00e1vel\u201d) e apenas 40 delas (totalizando 33,34%) est\u00e3o ambientadas em cidades da Zona da Mata Mineira. O restante do estado comparece com apenas 9 hist\u00f3rias (7,5%) &mdash; muito pouco. \u00c9 curioso que o Rio de Janeiro seja o principal cen\u00e1rio de 4 hist\u00f3rias, mas Belo Horizonte, apenas uma. Incluindo as ambienta\u00e7\u00f5es rurais (apenas 13 hist\u00f3rias, com 10,83%), Minas Gerais ambienta apenas 51,67% de minha fic\u00e7\u00e3o. Podemos supor que uma parte das 35 hist\u00f3rias ambientadas em centros indeterminados poderiam ser ambientadas em Minas Gerais tamb\u00e9m, exceto que de forma impl\u00edcita, mas isso muda pouco o fato de que minha fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o mineira quanto eu achava, embora certamente mais mineira do que o mercado liter\u00e1rio nacional deseja.<\/p>\n<p>Um aspecto que me deixou particularmente chateado, por ser formado em hist\u00f3ria e gostar muito do assunto, \u00e9 que 57,48% de minhas hist\u00f3rias s\u00e3o ambientadas num lapso temporal coincidente com a minha juventude e vida adulta (anos 80, 90 e \u201c\u00e9poca atual\u201d). Apenas 9 hist\u00f3rias s\u00e3o datadas de per\u00edodos da hist\u00f3ria do Brasil anteriores a 1980. Ser\u00e3o 10 se eu incluir \u201cA Fazenda da Serpente\u201d, que se passa no tempo do Segundo Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/data-1-300x279.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"279\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5835\" \/><\/p>\n<p>Apesar de eu gostar muito de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, s\u00f3 12 de minhas hist\u00f3rias (7,5%) est\u00e3o ambientadas no futuro.<\/p>\n<p>Isso quer dizer que eu ainda escrevo muito em minha zona de conforto, trabalhando cen\u00e1rios e personagens de minha realidade imediata, ao mesmo tempo datando as hist\u00f3rias de per\u00edodos que eu vivi pessoalmente.<\/p>\n<p>Mas, como dizia Tolst\u00f3i, \u201cse queres ser universal, fala de tua aldeia\u201d. N\u00e3o \u00e9 necessariamente ruim que um autor tenha esse foco local. O ruim \u00e9 se esse autor n\u00e3o souber retratar a sua realidade.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/sexo-300x279.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"279\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5836\" \/><\/p>\n<p>Isso nos leva a quest\u00e3o de g\u00eanero, orienta\u00e7\u00e3o sexual e ra\u00e7a em minhas hist\u00f3rias. Dentre os meus personagens, globalmente, 60,85% s\u00e3o homens e 33,19% s\u00e3o mulheres. Os restantes s\u00e3o personagenas aos quais n\u00e3o se aplica o conceito de g\u00eanero (tais como seres inanimados e aut\u00f4matos n\u00e3o humanoides). Para mim essa propor\u00e7\u00e3o me parecia adequada, por eu mesmo ser homem e muitas vezes escrever sobre o universo masculino, at\u00e9 que eu percebi que 76,19% de meus protagonistas s\u00e3o homens e apenas 19,84% s\u00e3o mulheres.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/protagosexo-1-300x279.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"279\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5837\" \/><\/p>\n<p>Isso inclui hist\u00f3rias com dois protagonistas, muitas das quais t\u00eam um <em>casal<\/em> de protagonistas, como \u201cA Invas\u00e3o\u201d. S\u00e3o muito raras as minhas hist\u00f3rias que t\u00eam uma mulher como protagonista isolada. Mesmo eu escrevendo primordialmente sobre o universo masculino, a falta de boas personagens femininas se torna gritante. Considerando que quase 60% de minhas hist\u00f3rias tem apenas dois ou tr\u00eas personagens, isso quer dizer que uma parte significativa de minhas personagens do sexo feminino surge entre outros personagens masculinos, raramente sendo elas o foco da a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/ecos-1-300x279.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"279\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5838\" \/><\/p>\n<p>Resulta natural, portanto, que os meus personagens homens falam mais que as mulheres (76% contra 66%).<\/p>\n<p>No que tange \u00e0 orienta\u00e7\u00e3o sexual, \u00e9 mais dif\u00edcil determinar percentagens, porque muitos de meus contos colocam os personagens em situa\u00e7\u00f5es nas quais sua orienta\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o \u00e9 determinante. H\u00e1 alguns onde a orienta\u00e7\u00e3o \u00e9 expl\u00edcita (as hist\u00f3rias nas quais ocorrem relacionamentos afetivos entre personagens) e outros nos quais \u00e9 impl\u00edcita, mas, em sua maioria, meus personagens s\u00e3o male\u00e1veis pela interpreta\u00e7\u00e3o do leitor. Al\u00e9m disso, estat\u00edsticas indicam que mais de 80% da popula\u00e7\u00e3o em geral se enquadra como heterossexual. Portanto, \u00e9 dif\u00edcil argumentar que eu esteja sendo preconceituoso por retratar t\u00e3o poucos homossexuais &mdash; afinal, eles n\u00e3o s\u00e3o o foco de minha fic\u00e7\u00e3o (o que fica ainda mais evidente por eu normalmente n\u00e3o mencionar a orienta\u00e7\u00e3o sexual de meus personagens como um dado relevante do enredo).<\/p>\n<p>Mesmo assim, 54,04% deles s\u00e3o heterossexuais ou parecem ser, enquanto que 38,72% n\u00e3o tem orienta\u00e7\u00e3o evidenciada. Dos demais (<em>gays<\/em>\/l\u00e9sbicas e bi), h\u00e1 uma ligeira preval\u00eancia de bissexuais &mdash; dos quais todos, menos um, s\u00e3o mulheres. S\u00e3o 21 mulheres bissexuais contra 1 solit\u00e1rio homem.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/orientacao-2-300x279.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"279\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5839\" \/><\/p>\n<p>Mas o aspecto que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi que, em m\u00e9dia, 76% dos personagens heterossexuais t\u00eam falas. Esta propor\u00e7\u00e3o n\u00e3o se altera significativamente quanto aos personagens bissexuais (72%), e poderia ser id\u00eantica se n\u00e3o houvesse dois casos de contos antigos com personagens bi e que s\u00e3o praticamente mon\u00f3logos. Ocorre que apenas 46% dos persoangens homossexuais tem falas (6 de 13). Apesar de esses dados ainda estarem tabulados apenas provisoriamente, creio que j\u00e1 tenho de admitir a minha dificuldade para retratar personagens homossexuais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/etno-1-300x279.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"279\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5840\" \/><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m me revelei muito quadrado quanto \u00e0 ra\u00e7a\/etnia\/cor de pele de minhas cria\u00e7\u00f5es. Embora o maior grupo corresponda aos personagens constru\u00eddos sem men\u00e7\u00e3o expl\u00edcita \u00e0 cor de sua pele (42,98%), ainda h\u00e1 33,06% de brancos contra apenas 5,79% de negros e 12,40% de mesti\u00e7os em geral.<\/p>\n<p>A etnia de um personagem pouco interfere em ter ou n\u00e3o falas, exceto no caso dos orientias. Na m\u00e9dia 72% dos personagens t\u00eam falas, 82% dos negros e 76% dos brancos as t\u00eam, mas somente 50% dos orientais e 64% dos personagens sem etnia evidenciada.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao protagonismo, 33,33% dos personagens principais s\u00e3o brancos, contra 12,5% de mesti\u00e7os, 5,83% de negros e 51,67% de personagens sem etnia evidente.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/protoetno-2-300x279.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"279\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5841\" \/><\/p>\n<p>A tabula\u00e7\u00e3o de ra\u00e7a e sexo revelou concentra\u00e7\u00e3o de homens brancos (18,47%) e mulheres brancas (12,31%). Pelo menos da sexualiza\u00e7\u00e3o da mulata eu escapo, pois as mulheres mesti\u00e7as s\u00e3o somente 2,77% dos personagens, contra 9,77% dos homens mesti\u00e7os. Apesar de poucos, os homens de etnia ind\u00edgena costumam ter papeis relevantes (100% deles t\u00eam falas), assim como os negros (88,67%), ambos acima da m\u00e9dia de personagens com fala, que \u00e9 de 72,40%.<\/p>\n<p>Meus personagens se concentram nas faixas et\u00e1rias de 20 a 29 anos (31,85%) e de 30 a 39 anos (25,69%). Se tamb\u00e9m considerarmos a faixa de 40 a 49 anos (15,71%) chegamos a 73,25% dos personagens abrangidos nessas tr\u00eas faixas. H\u00e1 mais personagens aos quais n\u00e3o se aplica o conceito de idade (fantasmas, rob\u00f4s, seres mitol\u00f3gicos etc.) do que idosos ou crian\u00e7as ou adolescentes.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/02\/etarias-300x279.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"279\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5842\" \/><\/p>\n<p>Os homens de 20 a 29 anos s\u00e3o a maioria dos personagens (17,62%), seguidos pelos homens de 30 a 39 anos (16,99%) e das mulheres de 20 a 29 anos (13,8%).<\/p>\n<p>Finalmente, chegando \u00e0s profiss\u00f5es e pap\u00e9is exercidos pelos personagens (e ainda faltando tabular esses dados quanto ao sexo), as profiss\u00f5es mais frequentes s\u00e3o estudante (6,79%), dona-de-casa (6,39%), banc\u00e1rio (4,46%), ser mitol\u00f3gico (4,03% &ndash; apesar de eu n\u00e3o me caracterizar pela prefer\u00eancia por literatura de fantasia), comerciante (3,18%) e propriet\u00e1rio rural (2,55%). Mesmo assim, 24,63% dos personagens meus n\u00e3o t\u00eam profiss\u00e3o evidenciada (esse n\u00famero n\u00e3o inclui \u201cn\u00e3o-profiss\u00f5es\u201d como \u201cvagabundo\u201d, \u201cdesempregado\u201d, \u201cbiscateiro\u201d ou \u201cdo lar\u201d, mas se refere, apenas, a personagens cuja ocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sequer cogitada).<\/p>\n<p>Acredito fact\u00edvel a conclus\u00e3o de que o mundo do trabalho \u00e9 pouco relevante na maior parte de minha fic\u00e7\u00e3o, pois mais de 50% de meus personagens n\u00e3o exercem atividades remuneradas (esse n\u00famero inclui outras categorias, como \u201ccrian\u00e7a\u201d, \u201cser alien\u00edgena\u201d, \u201centidade m\u00edstica\u201d, \u201cfantasma\u201d, \u201cbandoleiro ou fora-da-lei\u201d, \u201cpoeta\u201d, \u201cfeiticeiro ou bruxo\u201d, \u201cocultista\u201d, \u201cher\u00f3i ou hero\u00edna\u201d, \u201cvagabundo\u201d e \u201cturista\u201d).<\/p>\n<p>Aqui deixo esses n\u00fameros como uma contribui\u00e7\u00e3o ao debate. A planilha eu posso vir a fornecer futuramente, mas no momento eu ainda a estou revisando.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo e nem posso mudar a mim mesmo para melhorar esses n\u00fameros, mas acredito que \u00e9 um exagero a discrep\u00e2ncia entre o autor e a sociedade. Talvez devamos ser mais abertos a retratar pessoas diferentes de n\u00f3s, inclusive para &#8220;quebrar o gelo&#8221; para quando aqueles que efetivamente s\u00e3o diferentes resolvam publicar, j\u00e1 n\u00e3o enfrentem a estranheza. Ou porque, quando nos interessamos em dialogar com o outro, \u00e9 mais f\u00e1cil que o outro dialogue conosco.<\/p>\n<p>Na qualidade de ficcionista e de algu\u00e9m que trabalha com a CRIATIVIDADE, acho um pecado grave que um autor n\u00e3o consiga retratar a quem n\u00e3o esteja em seu c\u00edrculo cultural imediato. Assim como \u00e9 incompetente o desenhista que s\u00f3 sabe desenhar um tipo de ser (&#8220;casinhas&#8221; ou &#8220;gatos&#8221;, por exemplo), \u00e9 incompetente o autor que s\u00f3 desenha um tipo de personagem.<\/p>\n<p>Senti um grande choque ao ver como os meus n\u00fameros reproduzem uma situa\u00e7\u00e3o documentada na literatura em geral, esfregando na minha cara que eu reproduzo em minha obra uma situa\u00e7\u00e3o de preconceito e silenciamento do outro. As reflex\u00f5es sobre isso ainda n\u00e3o terminaram para mim e resultar\u00e3o em muitas reavalia\u00e7\u00f5es futuras de meu escrever.<\/p>\n<p>A prefer\u00eancia existe e \u00e9 natural. Mas n\u00e3o deve prevalecer ao ponto de invisibilizarmos quem \u00e9 diferente e de perpetuarmos padr\u00f5es que, muitas vezes, j\u00e1 caducaram na sociedade em geral.<\/p>\n<p>Convido-os a refletir sobre isso e posso oferecer para seu uso a planilha de tabula\u00e7\u00e3o de dados, caso queiram levantar essas informa\u00e7\u00f5es sobre a sua pr\u00f3pria obra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa semana que passou eu embarquei em uma jornada de autoconhecimento e quero compartilhar os resultados com voc\u00eas. O ponto de partida foi a pesquisa de Regina Delcastagn\u00e8, da UFMG (na \u00e9poca, mas atualmente UnB), que vem repercutindo desde 2015 e que, neste ano, ter\u00e1 publicada sua fase final. Delcastagn\u00e8 tabulou informa\u00e7\u00f5es sobre centenas de obras da literatura nacional publicadas entre 1965 e 1979, entre 1990 e 2004 e entre 2012 e 2017. 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