{"id":5844,"date":"2018-03-13T00:41:43","date_gmt":"2018-03-13T03:41:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5844"},"modified":"2019-06-05T21:42:37","modified_gmt":"2019-06-06T00:42:37","slug":"podemos-ainda-perguntar-algum-porque","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/03\/podemos-ainda-perguntar-algum-porque\/","title":{"rendered":"Podemos Ainda Perguntar Algum Porqu\u00ea?"},"content":{"rendered":"\n<p>Toda crian\u00e7a j\u00e1 teve a fase filos\u00f3fica em que perguntava o \u201cporqu\u00ea\u201d de cada coisa. H\u00e1 um determinado momento da vida em que desejamos ativamente participar do entendimento do mundo, penetrar o universo das respostas, aparentemente habitado pelos adultos. Perguntamos os porqu\u00eas de cada coisa que nos entristence, fascina, amedronta ou seduz. N\u00e3o \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o de rebeldia, \u00e9 apenas curiosidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda crian\u00e7a que j\u00e1 teve essa fase j\u00e1 passou, tamb\u00e9m, pela decep\u00e7\u00e3o de descobrir que os adultos apenas \u201cparecem\u201d ter todas as respostas. Incapazes de satisfazer a curiosidade em cada pergunta, impacientes em desemaranhar o enredo entre cada coisa que existe e sua origem ignota, os adultos costumam podar a sequ\u00eancia de perguntas em algum ponto, de alguma maneira delimitando para os perguntadores os limites do conhecimento poss\u00edvel, ou do que \u00e9 \u201cpermitido\u201d saber.<\/p>\n\n\n\n<p>A chegada \u00e0 idade adulta passa a ser, ent\u00e3o, o sonhado momento em que, na vis\u00e3o infantil, aqueles conhecimentos sonegados, porque \u201cainda \u00e9 cedo\u201d para a sua partilha, ser\u00e3o finalmente revelados. Todo pr\u00e9-adolescente imagina que, em dado momento de sua vida, desvelar\u00e1 os segredos controlados pelo mundo adulto. Todo adolescente age propositalmente para subverter esses limites, intrometendo-se aonde n\u00e3o deve, vendo os filmes que n\u00e3o pode, fazendo aquilo que \u00e9 \u201cmuito cedo\u201d para fazer.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/CloudComputing1-1-300x300.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5846\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Essas fases eventualmente passam. H\u00e1 um momento em que finalmente acreditamos que obtivemos todas as respostas, ou, pelo menos, todas de que precisamos para funcionarmos como adultos plenos. Nessa fase \u00e9 comum que tenhamos muitas teorias sobre o que nos falta, e pouca paci\u00eancia para testar todas elas, porque o tempo urge e n\u00e3o devemos desperdi\u00e7\u00e1-lo a pensar.<\/p>\n\n\n\n<p>A depender da rapidez da matura\u00e7\u00e3o intelectual e da profundidade da cultura adquirida por um indiv\u00edduo, cedo ou tarde esta fase tamb\u00e9m passar\u00e1 e as velhas d\u00favidas do fim da inf\u00e2ncia e do in\u00edcio da adolesc\u00eancia voltar\u00e3o a incomodar. Por incomodarem, voltaremos a sonhar com respostas, eis que agora temperados pelas desilus\u00f5es do passado e pela no\u00e7\u00e3o dos limites de nossas capacidades. Esse \u00e9 o momento em que as Grandes Perguntas s\u00e3o substitu\u00eddas por pequenas perguntas met\u00f3dicas, que imaginamos capazes de montar os enigmas da exist\u00eancia, tal como a um quebra-cabe\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>A inevit\u00e1vel conviv\u00eancia entre pessoas de gera\u00e7\u00f5es diferentes leva a cont\u00ednuos mal-entendidos, conforme a fase em que cada um esteja. Como j\u00e1 dito, os jovens se dividem entre os que anseiam pelo arcano conhecimento e aqueles que o desprezam, enquanto os adultos, segundo sua capacidade, buscam-no ou desprezam-no ainda mais.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazer perguntas que levam a reflex\u00f5es profundas \u00e9 uma das maneiras de amea\u00e7ar esse equil\u00edbrio inst\u00e1vel que existe na sociedade, sempre que pessoas de culturas e gera\u00e7\u00f5es diferentes interagem. Uma maioria dos participantes em qualquer inst\u00e2ncia social se apegar\u00e1, sempre, a verdades superficiais que lhes d\u00e3o identidade. Qualquer amea\u00e7a ao conforto dessa estabilidade provocar\u00e1 rea\u00e7\u00f5es iradas. Normalmente, a minoria que alcan\u00e7a a isca lan\u00e7ada temer\u00e1 mord\u00ea-la, para n\u00e3o se \u201cqueimar\u201d com a maioria ruidosa.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi \u00e0 toa que os gregos condenaram S\u00f3crates a beber cicuta.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem faz as perguntas certas ser\u00e1 sempre considerado algu\u00e9m errado.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta semana uma escritora chamada Dinah Lemos conheceu na pr\u00f3pria pele o custo de se tentar provocar o pensamento em um ambiente no qual todos buscam desesperadamente por respostas. Ela postou em um grupo liter\u00e1rio o seguinte questionamento (transcri\u00e7\u00e3o editada, \u00eanfase adicionada):<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Observe: o menino de dezenove anos virou esc\u00e2ndalo por ocupar um cargo de alto escal\u00e3o no governo. Era nepotismo e corrup\u00e7\u00e3o, segundo a grande m\u00eddia, porque ele era s\u00f3 um adolescente. Foi o que foi dito. J\u00e1 o menino da periferia que est\u00e1 sendo editado simultaneamente em trinta pa\u00edses, este \u00e9 g\u00eanio da literatura. Na pol\u00edtica tem que ser velho e na literatura atual \u00e9 louv\u00e1vel que seja muito jovem? <strong>Sabemos explicar por que?<\/strong><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma pergunta tremendamente carregada &#8212; e exatamente por isso perigosa. Faz\u00ea-la significa questionar ideologias dadas e comportamentos aprendidos. O perigo \u00e9 ainda maior em um grupo liter\u00e1rio habitado por milhares de <em>jovens que se acreditam possuidores de um talento excepcional e que sonham em ter o mesmo tipo de reconhecimento<\/em> alcan\u00e7ado por Geovani Martins. Para esses jovens, o reconhecimento concedido ao contista carioca \u00e9 uma prova de que ainda se d\u00e1 valor ao \u201ctalento bruto\u201d e, portanto, um raio de esperan\u00e7a para eles, que enfrentam descaso e indiferen\u00e7a, frequentemente submetendo-se a editoras picaretas para terem seus livros em m\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o natural desses jovens \u00e9 estranhar a pergunta. Estranham-na porque n\u00e3o conseguem imaginar que algu\u00e9m <em>n\u00e3o aceite automaticamente<\/em> a verdade dada, segundo a qual existem talentos em estado bruto, e a situa\u00e7\u00e3o identificada, na qual ainda existe interesse das editoras por esse talento.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante da estranheza, o rem\u00e9dio t\u00f3pico a se aplicar para evitar a necessidade de pensar. Para alguns basta uma dose de ironia a fim de rebaixar a autora, outros chegam \u00e0 agress\u00e3o verbal, dentro dos limites socialmente aceit\u00e1veis. Eis uma colet\u00e2nea de coment\u00e1rios feitos em \u201cresposta\u201d ao convite para se pensar a diferen\u00e7a entre um pol\u00edtico e um literato de mesma idade:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Uai, e tem que ser velho pra escrever, agora? Quantos poetas n\u00e3o morreram aos 20, 21 anos? Se fosse preciso envelhecer pra escrever, n\u00e3o ter\u00edamos Casimiro de Abreu, Castro Alves, \u00c1lvares de Azevedo, John Keats, e tantos outros.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Observe que o questionamento feito quanto \u00e0 raz\u00e3o de se dar valor distinto \u00e0 idade dos dois jovens foi substitu\u00eddo pelo espantalho segundo o qual n\u00e3o haveria m\u00e9rito em autores jovens &#8212; sendo que a Dinah nunca afirmou isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro autor respondeu que \u201cN\u00e3o faz sentido comparar as duas coisas, s\u00e3o casos completamente distintos\u201d, mas n\u00e3o explicou porque os casos n\u00e3o podem ser comparados. Um outro aproveitou a oportunidade para difamar um livro que nem leu, sendo que esse n\u00e3o era o objetivo da quest\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Tirando a quest\u00e3o do nepotismo, essa coisa do &#8220;g\u00eanio&#8221; nascido em &#8220;comunidade&#8221; n\u00e3o causa certa desconfian\u00e7a neste mundo em que &#8220;coitadismo identit\u00e1rio&#8221; \u00e9 forte moeda de troca? N\u00e3o posso falar porque n\u00e3o li, mas perdi a vontade de ler.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Foi somente depois que o debate esquentou e algu\u00e9m cometeu ofensas machistas contra a autora foi que os demais membros (de ambos os sexos), para n\u00e3o ficarem t\u00e3o mal no contexto, come\u00e7aram a dar certo cr\u00e9dito \u00e0 pergunta. Houve afirma\u00e7\u00f5es um pouco mais educadas e algumas teses mais elaboradas, mas, no todo, o t\u00f3pico se caracterizou, do come\u00e7o ao fim, pela rejei\u00e7\u00e3o plana e completa do convite ao questionamento. Por mais que a autora tentasse elevar o debate, fazendo observa\u00e7\u00f5es pontuais muito interessantes, continuavam pipocando interven\u00e7\u00f5es curtas que rejeitavam o questionamento. Observe essa interven\u00e7\u00e3o da autora:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default\"><p>Compara\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o feitas apenas para encontrar identidades, tamb\u00e9m o s\u00e3o para perceber diferen\u00e7as. O m\u00e9todo comparativo \u00e9 complexo, ele \u00e9 a base do modo de pensar de Sherlock Holmes. Uma investiga\u00e7\u00e3o sobre velocidades pode examinar uma tartaruga e um rato, ou dois jovens que apareceram de modo muito vis\u00edvel na imprensa, na mesma semana. E uma compara\u00e7\u00e3o pode estimular a capacidade de entendimento de fen\u00f4menos distintos. Vivemos em um tempo em que a maioria das pessoas precisa se agarrar a verdades r\u00e1pidas e fixas. Isso acontece porque n\u00f3s sentimos inseguros, assustados.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>E compare com esse coment\u00e1rio feito poucos minutos depois:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default\"><p>Talvez porque o escritor seja um puta escritor e o moleque de 19 anos nunca tenha trabalhado na vida? Parab\u00e9ns pela ousadia da pergunta porque intelig\u00eancia n\u00e3o teve nenhuma!<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O ser humano tradicionalmente mede o tamanho do mundo pelo alcance de sua vista, ou, poeticamente, determina a validade do conhecimento pela sua capacidade pessoal de apreend\u00ea-lo. \u201cSe eu n\u00e3o entendo, ent\u00e3o n\u00e3o faz sentido\u201d. Se o mundo sempre parece mais simples a quem \u00e9 ignorante, \u00e9 frequente que a tentativa de desvelar a sua complexidade seja considerada ofensiva, ou at\u00e9 \u201cexibida\u201d, ou mesmo \u201cpreconceituosa\u201d. A proje\u00e7\u00e3o \u00e9 um fato.<\/p>\n\n\n\n<p>O que n\u00e3o foi feito no t\u00f3pico, em momento algum, foi questionar dois valores ideol\u00f3gicos profundos de nossa cultura, que nos condicionam e dos quais raramente tomamos conhecimento:<\/p>\n\n\n\n<ol><li>A tese segundo a qual nossos l\u00edderes t\u00eam de ter experi\u00eancia e que esta somente adv\u00e9m da idade.<\/li><li>A tese segundo a qual os artistas t\u00eam um talento inato e que a demora em desabroch\u00e1-lo pode pervert\u00ea-lo.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>A fixa\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica por pessoas, principalmente homens, de caras enrugadas e cabelos encanecidos nos leva a manter fora de postos chave pessoas din\u00e2micas e que t\u00eam ideias inovadoras para melhorar o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Simultaneamente, essa pessoas, n\u00e3o tendo mais a facilidade de interagirem com um mundo em r\u00e1pido movimento, valem-se de assessores recrutados entre os seus, o que potencializa a j\u00e1 hist\u00f3rica tend\u00eancia nacional ao nepotismo, e cria situa\u00e7\u00f5es como a desse rapaz rec\u00e9m-sa\u00eddo do ensino m\u00e9dio e que se tornou, da noite para o dia e por obra de seus la\u00e7os familiares, o respons\u00e1vel pela administra\u00e7\u00e3o de recursos relevantes.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda tese, em parte derivada da idolatria dos anos 1960 e 1970 pelos cantores pop, faz com que certas pessoas, a partir de uma determinada idade, sejam consideradas \u201cpassadas\u201d &#8212; e nesse n\u00famero me incluo eu mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocorre que a experi\u00eancia n\u00e3o \u00e9 um recurso mais valioso do que a capacidade de inovar e de tomar decis\u00f5es corretas. Normalmente a experi\u00eancia aconselha-nos \u00e0 covardia ou \u00e0 ina\u00e7\u00e3o. No caso da pol\u00edtica, considerando isto em que os nossos pol\u00edticos s\u00e3o notoriamente excelentes, n\u00e3o creio que seja do interesse popular t\u00ea-los sumamente experientes. Exatamente pelo mesmo motivo que precisamos de pol\u00edticos menos \u201crodados\u201d; menos habilitados a fazer com efici\u00eancia isto que nossa pol\u00edtica, em nossa pr\u00f3pria opini\u00e3o, faz t\u00e3o bem; dever\u00edamos dar mais valor aos autores maturados &#8212; e aqui n\u00e3o defendo essa tese s\u00f3 em meu nome.<\/p>\n\n\n\n<p>Na arte, a experi\u00eancia costuma ajudar a consolidar o que a juventude ainda mal estruturou. Uma das raz\u00f5es do espanto que temos pelos jovens talentos da literatura \u00e9 justamente que sejam capazes de acertar t\u00e3o cedo <em>porque isto n\u00e3o \u00e9 natural<\/em>. O normal \u00e9 que os jovens escrevam pessimamente, com excesso de autoconfian\u00e7a, falta de profundidade filos\u00f3fica e alguma ousadia baseada na ignor\u00e2ncia. Isto pode, muitas vezes, ser bom, mas noutras vezes (talvez na maioria) resulta em muita bravata e pouco resultado.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos, sim, fazer questionamentos educados sobre os temas que mais nos incomodam. Esta conclus\u00e3o que dei ao debate, apenas porque me pediriam uma se eu n\u00e3o a pusesse aqui, \u00e9 somente uma possibilidade de desenvolver a pergunta, extremamente ampla, feita por Dinah.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria dos que a leram, por\u00e9m, permitiu que sua resposta fosse guiada pela irrita\u00e7\u00e3o causada pela proposta de se pensar sobre algo que parece t\u00e3o \u00f3bvio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pr\u00e1tica, as coisas \u00f3bvias s\u00e3o as que mais precisam ser explicadas. As complexas, pouca gente pode explicar e pouca gente pode entender, ent\u00e3o elas n\u00e3o produzem tanto alcance, nem tanto impacto e nem tanto conhecimento. As explica\u00e7\u00f5es do \u00f3bvio, por\u00e9m, abrem portas, constroem pontes e ajudam, at\u00e9 mesmo, a caminhada at\u00e9 o complexo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pobre o pa\u00eds que idolatra o inating\u00edvel e odeia as pontes que levam at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Toda crian\u00e7a j\u00e1 teve a fase filos\u00f3fica em que perguntava o \u201cporqu\u00ea\u201d de cada coisa. H\u00e1 um determinado momento da vida em que desejamos ativamente participar do entendimento do mundo, penetrar o universo das respostas, aparentemente habitado pelos adultos. Perguntamos os porqu\u00eas de cada coisa que nos entristence, fascina, amedronta ou seduz. N\u00e3o \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o de rebeldia, \u00e9 apenas curiosidade. Toda crian\u00e7a que j\u00e1 teve essa fase j\u00e1 passou, tamb\u00e9m, pela decep\u00e7\u00e3o de descobrir que os adultos apenas \u201cparecem\u201d ter todas as respostas. 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