{"id":5874,"date":"2018-04-21T10:11:27","date_gmt":"2018-04-21T13:11:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5874"},"modified":"2018-04-21T10:11:27","modified_gmt":"2018-04-21T13:11:27","slug":"os-perigos-do-relativismo-da-critica-literaria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/04\/os-perigos-do-relativismo-da-critica-literaria\/","title":{"rendered":"Os Perigos do Relativismo da Cr\u00edtica Liter\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>Existe um certo revanchismo contra as ci\u00eancias humanas em geral &#8212; e as artes em particular &#8212; que se manifesta em ataques os mais diversos. H\u00e1 vezes em que esses ataques partem, lamentavelmente, da esquerda, mas; no momento atual, em que a esquerda est\u00e1 praticamente incapacitada de dirigir o debate cultural, limitando-se a reagir quando mordida; tem sido a direita a executar a maior parte dessas provoca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O motivo pelo qual certa categoria de gente odeia as ci\u00eancias humanas e as artes \u00e9 baseado em uma ideologia estritamente utilit\u00e1ria, segundo o qual &#8220;ci\u00eancia de verdade&#8221; \u00e9 somente aquela que produza resultados tang\u00edveis ou, dito de maneira mais c\u00f4mica, capaz de &#8220;construir, explodir ou consertar coisas&#8221;. O ser humano \u00e9, assim, coisificado, reduzido a algo que pode ser, tamb\u00e9m, &#8220;consertado&#8221;, mas somente no aspecto mais aparente, f\u00edsico. Artes e ci\u00eancias humanas tratam principalmente do ser humano al\u00e9m do osso e da carne &#8212; e isso n\u00e3o \u00e9 priorizado pelo materialismo de direita.<\/p>\n<p>Esta semana, em uma conhecida comunidade de escritores (ou pseudos) no Facebook, surgiu algu\u00e9m a regurgitar essas teses. Para a cabe\u00e7a de tal pessoa, todo um campo do conhecimento humano \u00e9 desnecess\u00e1rio e o fazer art\u00edstico \u00e9 uma &#8220;perda de tempo&#8221;. Se a arte se limita ao entretenimento (&#8220;passatempo&#8221;), estudar teoria liter\u00e1ria \u00e9 t\u00e3o est\u00e9ril quanto teses de doutorado sobre t\u00e9cnicas para resolver palavras cruzadas.<\/p>\n<p>Tais distor\u00e7\u00f5es argumentativas n\u00e3o s\u00e3o por acaso, s\u00e3o ideol\u00f3gicas. Encontram resson\u00e2ncia porque evocam o senso comum obscurantista do brasileiro, um povo reconhecido pela ignor\u00e2ncia e pelo preconceito, e porque surfam no empoderamento do que Umberto Eco chamou de &#8220;o idiota da aldeia&#8221;.<\/p>\n<p>Entre as teses arguidas contra a cr\u00edtica liter\u00e1ria encontra-se a afirma\u00e7\u00e3o de que \u00e9 melhor &#8220;ir diretamente ao texto do pr\u00f3prio autor&#8221;, que &#8220;o texto em si mesmo se basta&#8221;, que &#8220;j\u00e1 est\u00e1 tudo ali e n\u00e3o h\u00e1 mais nada o que falar.&#8221;<\/p>\n<p>Isto nega a validade n\u00e3o s\u00f3 da cr\u00edtica liter\u00e1ria, mas tamb\u00e9m da semi\u00f3tica, da sociolingu\u00edstica e de uma s\u00e9rie de estudos que partem do texto liter\u00e1rio para acercar-se do conhecimento da realidade em que o autor viveu e das circunst\u00e2ncias que o moveram a escrever certo texto. Ignora-se, nisso, que nem o autor e nem o texto s\u00e3o ilhas no mundo, que existe uma rela\u00e7\u00e3o de di\u00e1logo entre o artista\/autor e tudo aquilo que o cerque e delimite. Partindo, em um n\u00edvel mais b\u00e1sico, da l\u00edngua em si, e chegando a estruturas familiares, sociais e culturais.<\/p>\n<p>\u00c9 uma tese que veda o debate por duas frentes, a primeira pela nega\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia do assunto, como dito mais acima, a segunda, atrav\u00e9s da nega\u00e7\u00e3o da possibilidade de se obter conhecimento neste estudo, j\u00e1 que &#8220;o texto se basta&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso que ideias assim sejam defendidas, porque quem o faz parece n\u00e3o se dar conta da necessidade que temos de dialogar com nossas leituras. Que muitas s\u00e3o as vezes em que recorremos a um dicion\u00e1rio ou a uma enciclop\u00e9dia enquanto lemos uma obra. Mais sutil, mas n\u00e3o menos verdadeiro, \u00e9 o fato de que cada leitura prepara-nos para ler mais complexamente a obra seguinte: a leitura que hoje somos capazes de fazer se construiu sobre as leituras anteriores, inclusive aquelas em que falhamos.<\/p>\n<p>Portanto, a tese de que a obra \u00e9 fechada em si \u00e9 irm\u00e3 da proposta de que a obra <em>deva ser<\/em> assim. N\u00e3o espanta que tanta gente queira obras assim t\u00e3o rasas que n\u00e3o requeiram o dicion\u00e1rio, a enciclop\u00e9dia ou os estudos. Afinal, literatura \u00e9 apenas entretenimento.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que considero perigosa a entroniza\u00e7\u00e3o da chamada &#8220;subliteratura&#8221; em igualdade com a &#8220;alta literatura&#8221;. S\u00e3o estas as obras que podem bastar-se em si mesmas, pois s\u00f3 dependem do que j\u00e1 encontram no leitor: doses limitadas de cultura popular e ideias preconcebidas. S\u00e3o estas as obras sobre as quais <em>supostamente<\/em> nada mais h\u00e1 que se dizer. Legimitar a &#8220;subliteratura&#8221; como algo em p\u00e9 de igualdade com qualquer Machado de Assis acaba contrabandeando para o debate a sensa\u00e7\u00e3o (errada) de que os estudos liter\u00e1rios s\u00e3o f\u00fateis. Sob o disfarce de se abolir o &#8220;preconceito&#8221; contra tais obras &#8220;inferiores&#8221; o que muitas vezes acontece \u00e9 a legitima\u00e7\u00e3o de uma literatura de alcance curto, que n\u00e3o convida \u00e0 reflex\u00e3o e nem acrescenta informa\u00e7\u00e3o ao leitor. E isso pode vir a desembocar na ideia de que as universidades n\u00e3o deveriam &#8220;gastar dinheiro&#8221; financiando pesquisas do tipo, que n\u00e3o &#8220;constroem, explodem ou consertam coisas&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um certo revanchismo contra as ci\u00eancias humanas em geral &#8212; e as artes em particular &#8212; que se manifesta em ataques os mais diversos. H\u00e1 vezes em que esses ataques partem, lamentavelmente, da esquerda, mas; no momento atual, em que a esquerda est\u00e1 praticamente incapacitada de dirigir o debate cultural, limitando-se a reagir quando mordida; tem sido a direita a executar a maior parte dessas provoca\u00e7\u00f5es. 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