{"id":5892,"date":"2018-05-15T17:45:45","date_gmt":"2018-05-15T20:45:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5892"},"modified":"2018-05-15T01:02:33","modified_gmt":"2018-05-15T04:02:33","slug":"literatura-de-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/05\/literatura-de-resistencia\/","title":{"rendered":"Literatura de Resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes bate um des\u00e2nimo grande, a sensa\u00e7\u00e3o de desperd\u00edcio de um tempo precioso que poderia ser usado em tantas coisas. Afinal, quem l\u00ea e ler\u00e1 nossos escritos? Para qu\u00ea eles servem? A sensa\u00e7\u00e3o de des\u00e2nimo \u00e9 parte da psique do escritor em qualquer lugar do mundo, mas \u00e9 especialmente presente se voc\u00ea \u00e9 um autor que pratica uma literatura de resist\u00eancia. Desperd\u00edcio de tempo \u00e9 praticamente uma defini\u00e7\u00e3o abrangente de &#8220;arte&#8221;, mas isso \u00e9 mais evidente quando voc\u00ea pratica a sua arte \u00e0 revelia do &#8220;mercado&#8221;, pois esse teria o poder de legitimar qualquer desperd\u00edcio ao propor-lhe pre\u00e7o. O des\u00e2nimo \u00e9 mais evidente quando percebemos que estamos no lado &#8220;perdedor&#8221; de uma grande luta. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil fazer uma literatura de resist\u00eancia: requer car\u00e1ter e comprometimento, em vez de um pre\u00e7o e de um prazo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/resistencia.png\" alt=\"m\u00e1quina de escrever censurada\" width=\"232\" height=\"212\" class=\"alignleft size-full wp-image-5893\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/resistencia.png 464w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/resistencia-120x110.png 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/resistencia-250x228.png 250w\" sizes=\"(max-width: 232px) 100vw, 232px\" \/><\/p>\n<p>A maioria dos autores brasileiros ainda n\u00e3o percebeu que, no contexto da civiliza\u00e7\u00e3o globalizada, a literatura em l\u00edngua portuguesa \u00e9 uma <a href=\"http:\/\/observatoriodaimprensa.com.br\/armazem-literario\/a_literatura_como_resistencia\">literatura de resist\u00eancia<\/a>. Est\u00e1 marcada como secund\u00e1ria, ser\u00e1 colonizada, seu destino \u00e9 ser atacada, acuada e, se poss\u00edvel, destru\u00edda. Continuar a escrever em portugu\u00eas, no mundo de hoje, \u00e9 um ato de resist\u00eancia pol\u00edtica. Envolve a esperan\u00e7a de que, se conseguirmos reverter a onda, poderesmo reconstruir as nossas pontes com o passado, e seguiremos um povo dotado de identidade pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>No contexto de uma cultura globalizada, intermediada em ingl\u00eas, o papel de todas as demais literaturas tenderia a ser subalterno. Ent\u00e3o s\u00f3 h\u00e1 duas posi\u00e7\u00f5es poss\u00edveis: aderir ou resistir. N\u00e3o se engane: fazer arte \u00e9 fazer pol\u00edtica. Alguns dir\u00e3o que n\u00e3o, mas n\u00e3o ligue para eles: fazer arte sem entender seu aspecto essencialmente pol\u00edtico \u00e9 ser um ignorante. Assim como tem gente que n\u00e3o sabe que \u00e9 imune a doen\u00e7as por causa das vacinas que tomou em menino, h\u00e1 quem pratique a arte e n\u00e3o perceba o fazer pol\u00edtico que est\u00e1 envolvido.<\/p>\n<p>Algumas literaturas, pelo seu tamanho e pela pr\u00f3pria natureza de sua cultura, tendem a sobreviver e crescer espontaneamente, mesmo que, sob certos aspectos, ainda sejam tuteladas ou, pelo menos, influenciadas pelo ingl\u00eas. Outras conseguem ter um di\u00e1logo mais dial\u00e9tico com a influ\u00eancia acachapante do global e, embora seja dif\u00edcil dizer se sobreviver\u00e3o a longo prazo, pelo menos ainda apresentam vitalidade. Na terceira categoria est\u00e3o as literaturas pequenas demais para terem &#8220;escala&#8221; (odioso termo econ\u00f4mico que contaminou a arte) ou que j\u00e1 est\u00e3o avan\u00e7adamente colonizadas. Nesse grupo h\u00e1 literaturas antigas e respeit\u00e1veis; entre elas&#8230; talvez&#8230; a brasileira.<\/p>\n<p>A subalternidade de uma literatura se torna evidente quando os principais autores que nascem no(s) pa\u00eds(es) onde ela \u00e9 praticada come\u00e7am a escrever em l\u00edngua estrangeira &#8212; fato que ocorre devido a uma estrat\u00e9gia de mercado (ambi\u00e7\u00e3o global) ou \u00e0 simples &#8220;coloniza\u00e7\u00e3o&#8221; (que leva a l\u00edngua a se tornar minorit\u00e1ria em seu pa\u00eds de origem). Swift, Yeats e Joyce escreveram em ingl\u00eas, n\u00e3o em irland\u00eas. A literatura irlandesa floresceu entre os s\u00e9culos VIII e XVIII, mas hoje praticamente n\u00e3o tem praticantes e a l\u00edngua \u00e9 falada por menos de 3% da popula\u00e7\u00e3o da Irlanda. Entre os autores sul-africanos, voc\u00ea provavelmente ouviu falar de Nadime Gordimer e J. M. Coetzee. Ambos s\u00e3o afric\u00e2nderes (descendentes de europeus e falantes nativos de &#8216;afrikaans&#8217;, um dialeto holand\u00eas), mas escrevem em ingl\u00eas.  Voc\u00ea provavelmente conhece V. S. Naipaul, mas n\u00e3o sabe que no pa\u00eds dele (Trinidad y Tobago) a principal l\u00edngua vern\u00e1cula n\u00e3o \u00e9 o ingl\u00eas. Se voc\u00ea conhece tr\u00eas autores romenos, provavelmente s\u00e3o Eugene Ionesco, Tristan Tzara e Mircea Eliade. O que t\u00eam em comum foi terem escrito em franc\u00eas.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno da subalternidade <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrada\/2013\/02\/1235347-escrevi-em-ingles-para-ser-lida-diz-autora-lilian-carmine.shtml\">j\u00e1 come\u00e7a, devagarinho, a afetar a literatura brasileira<\/a> (n\u00e3o sei at\u00e9 que ponto a portuguesa). A subalternidade tem duas dire\u00e7\u00f5es: a coloniza\u00e7\u00e3o do mercado local por uma literatura estrangeira e o foco dos autores locais voltado a um p\u00fablico estrangeiro.<\/p>\n<p>Esse segundo aspecto n\u00e3o \u00e9 necessariamente coisa ruim. Sempre houve, mesmo nas mais sadias literaturas, o fen\u00f4meno do autor que escreve em l\u00edngua estrangeira. Ele pode faz\u00ea-lo para exibir erudi\u00e7\u00e3o; como certos ingleses dos s\u00e9culos XVIII e XIX que escreveram em \u00e1rabe, persa e l\u00ednguas da \u00edndia e at\u00e9 se tornaram tradutores destas literaturas; ou porque uma obra espec\u00edfica entre as suas tinha um p\u00fablico mais amplo que o local, como o alem\u00e3o Humboldt, que escrevia em franc\u00eas, que era a l\u00edngua das rela\u00e7\u00f5es internacionais at\u00e9 1850.<\/p>\n<p>O problema da subalternidade come\u00e7a quando uma literatura come\u00e7a a ser rapinada pela sua rela\u00e7\u00e3o com a cultura global. Isso ocorre de duas maneiras:<\/p>\n<p>1) Quando a literatura estrangeira (no original ou em tradu\u00e7\u00e3o) come\u00e7a a competir com os autores locais e<br \/>\n2) Quando os autores locais come\u00e7am a mirar leitores estrangeiros.<\/p>\n<p>A competi\u00e7\u00e3o da literatura estrangeira silencia as vozes locais, rompendo a continuidade da identidade nacional. Os novos autores deixam de se espelhar, ou mesmo de <strong>conhecer<\/strong> os nomes anteriores de sua cultura e passam a se formar com base em autores estrangeiros. Frequentemente a ponte se faz atrav\u00e9s de tradu\u00e7\u00f5es ruins, o que tem impacto severo na qualidade liter\u00e1ria das novas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A necessidade de competir em um mercado externo leva os autores a se adaptarem a gostos alheios &#8212; o que acaba alienando esta literatura de seu povo.<\/p>\n<p>A literatura subalternizada perde a condi\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia nacional e passa a ser um instrumento de desinforma\u00e7\u00e3o e estupefa\u00e7\u00e3o do povo, ao mesmo tempo em que retira do autor a capacidade de di\u00e1logo com sua cultura local. Quem vai querer saber do que se passa em Quixeramobim ou Cataguases? Quem levar\u00e1 a s\u00e9rio um her\u00f3i chamado Eleut\u00e9rio?<\/p>\n<p>Esse texto n\u00e3o teve por objetivo consolar ao autor desanimado, nem fazer qualquer recomenda\u00e7\u00e3o de natureza moral. Quem o l\u00ea est\u00e1 livre para ainda agir e escrever como quiser. O objetivo \u00e9 dar contexto, para que o autor, especialmente o desanimado, se enxergue no mundo e aja conforme a realidade, consciente de seu papel nela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s vezes bate um des\u00e2nimo grande, a sensa\u00e7\u00e3o de desperd\u00edcio de um tempo precioso que poderia ser usado em tantas coisas. Afinal, quem l\u00ea e ler\u00e1 nossos escritos? Para qu\u00ea eles servem? A sensa\u00e7\u00e3o de des\u00e2nimo \u00e9 parte da psique do escritor em qualquer lugar do mundo, mas \u00e9 especialmente presente se voc\u00ea \u00e9 um autor que pratica uma literatura de resist\u00eancia. 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