{"id":5928,"date":"2018-06-29T09:51:29","date_gmt":"2018-06-29T12:51:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5928"},"modified":"2019-06-05T21:33:17","modified_gmt":"2019-06-06T00:33:17","slug":"a-arte-que-a-gente-nao-entende","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/06\/a-arte-que-a-gente-nao-entende\/","title":{"rendered":"A Arte Que A Gente N\u00e3o Entende"},"content":{"rendered":"\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 parou para pensar que algumas pinturas parecem um monte de rabiscos ou manchas de tinta que at\u00e9 uma crian\u00e7a seria capaz de fazer, mas s\u00e3o, ainda assim, valorizadas em milhares ou milh\u00f5es? Ao mesmo tempo, voc\u00ea j\u00e1 se deu conta de que h\u00e1 artistas que produzem obras de uma incr\u00edvel beleza, mas est\u00e3o nas esquinas das grandes cidades, vendendo-as por trocados em vez de terem o devido reconhecimento?<\/p>\n\n\n\n<p>Se voc\u00ea alguma vez j\u00e1 pensou assim, saiba que n\u00e3o est\u00e1 sozinho. Muita gente tamb\u00e9m padece desse mesmo questionamento, isoladamente. Quando a gente come\u00e7a a trocar ideias sobre arte, descobre que h\u00e1 gente de todos os pa\u00edses, culturas, classes sociais e ideologias que costuma se fazer a mesma pergunta. A universalidade da d\u00favida indica a relev\u00e2ncia da quest\u00e3o: voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um tosco que n\u00e3o entende de arte, voc\u00ea pode ser como a crian\u00e7a que tem vontade de gritar que o imperador est\u00e1 pelado.<\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o aqui \u00e9 que pessoas como voc\u00ea e eu n\u00e3o somos o p\u00fablico para o qual a arte \u00e9 feita. \u00c9 duro dizer, mas n\u00e3o se ofenda. Tentarei explicar.<\/p>\n\n\n\n<p>A maior parte das obras de \u201carte\u201d que vemos nos museus ou que s\u00e3o vendidas em leil\u00f5es particulares se destina ao consumo de gente muito rica, que se acha dotada de um gosto refinado <em>em virtude de sua posi\u00e7\u00e3o social<\/em> e que adquire pe\u00e7as de arte para expressar seu poder econ\u00f4mico e sua <em>superioridade<\/em> cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova. O desenvolvimento da arte <em>sempre foi<\/em> influenciado pelo gosto de pessoas ricas e poderosas. Toda a arte que vemos nos museus ou reproduzida em livros de hist\u00f3ria reflete o gosto e os interesses de quem pagou para que fosse produzida. O nu art\u00edstico, por exemplo, j\u00e1 foi a pornografia de \u00e9pocas passadas. Sim, aquela obra que hoje voc\u00ea considera uma express\u00e3o de elevado refinamento art\u00edstico j\u00e1 foi simplesmente a inspiradora da masturba\u00e7\u00e3o de um milion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A arte que se preservou at\u00e9 n\u00f3s reflete aquilo que pessoas como o tal milion\u00e1rio punheteiro escolheram financiar ou que aquele colecionador avarento escolheu comprar. Voc\u00ea e eu n\u00e3o somos milion\u00e1rios, portanto o nosso gosto n\u00e3o importa e n\u00f3s n\u00e3o temos a capacidade de influenciar o desenvolvimento da arte.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o quero dizer que toda arte \u00e9 porcaria, porque, afinal, o artista sempre buscou um meio de expressar-se, mesmo quando tinha de atender aos caprichos de um mecenas obtuso. H\u00e1 valor na arte, mesmo quando foi produzida com a mais rasteira das inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, por\u00e9m, ocorreram eventos que levaram a arte a uma crise, da qual ela ainda n\u00e3o saiu. Por um lado, o desenvolvimento econ\u00f4mico significou a multiplica\u00e7\u00e3o das pessoas em condi\u00e7\u00f5es de ter acesso \u00e0 arte. Em s\u00e9culos passados, somente os nobres podiam encomendar quadros a um artista. Hoje em dia h\u00e1 in\u00fameros empres\u00e1rios particulares que podem faz\u00ea-lo. Nem todos esses novos ricos t\u00eam o \u201crefinado gosto\u201d dos antigos nobres. Por outro lado, a populariza\u00e7\u00e3o da arte levou a uma variedade de estilos, aumentando a oferta de arte e obrigando os interessados a fazer escolhas cada vez mais arriscadas. Por fim, a supera\u00e7\u00e3o do academicismo derrubou os conceitos (e preconceitos) que mantinham a arte, mesmo aquela produzida para a punheta do milion\u00e1rio pervertido, dentro de certos padr\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado disso, quando estudamos a arte dos s\u00e9culos passados, ou mesmo a das d\u00e9cadas iniciais do s\u00e9culo XX, os trabalhos normalmente citados como \u201cobras primas\u201d s\u00e3o mesmo impressionantes. Pode-se dizer que uns s\u00e3o melhores que outros, mas os mestres da arte eram mesmo diferenciados na t\u00e9cnica. Cada d\u00e9cada que avan\u00e7amos no s\u00e9culo XX, por\u00e9m, nos aumenta a sensa\u00e7\u00e3o de que a t\u00e9cnica foi chutada para escanteio e que a arte agora resulta de um esfor\u00e7o breve e sem comprometimento.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img loading=\"lazy\" width=\"180\" height=\"240\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/2721533569_37a0c605a2_m.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5930\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/2721533569_37a0c605a2_m.jpg 180w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/2721533569_37a0c605a2_m-113x150.jpg 113w\" sizes=\"(max-width: 180px) 100vw, 180px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Esse quadro de Joan Mir\u00f3 \u00e9 um exemplo. Em uma inspe\u00e7\u00e3o mais detida, vemos que nenhuma crian\u00e7a de seis anos teria pintado algo assim. Sim, \u00e9 uma obra abstrata e isso nos desafia intelectualmente a <em>imaginar<\/em> o que o artista pretendeu, mas \u00e9 evidente que este quadro possui um estranho senso de harmonia, um equil\u00edbrio de cores, um sentido agudo do belo, ainda que discordemos de&#8230; papagaiada.<\/p>\n\n\n\n<p>Os elogios feitos \u00e0 pintura abstrata costumam ser falsos. Poucos entendem, de fato, o que h\u00e1 de \u201charmonia\u201d, de \u201cequil\u00edbrio\u201d e de \u201cbeleza\u201d em obras do tipo. Ent\u00e3o repetem esses lugares-comuns a fim de n\u00e3o parecerem tolos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo do s\u00e9culo, as obras se tornam cada vez mais dif\u00edceis de elogiar, at\u00e9 que chegamos a Jackson Pollock.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright\"><img src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/main-qimg-33f81a2ac79181ca5634d10b41da05c5-300x195.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5931\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que uma crian\u00e7a de seis anos n\u00e3o pintaria isso. H\u00e1 tra\u00e7os que indicam com certeza uma m\u00e3o adulta e uma tipo de determina\u00e7\u00e3o que revela planejamento (plano de fundo uniforme, conjunto limitado de cores), mas \u00e9 certo que o esfor\u00e7o f\u00edsico necess\u00e1rio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de tal obra foi superior \u00e0 \u201cinspira\u00e7\u00e3o\u201d e ao \u201ctalento\u201d necess\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>A diferen\u00e7a entre um quadro de Jackson Pollock e um quadro semelhante, pintado por algu\u00e9m que n\u00e3o \u00e9 Jackson Pollock \u00e9 dif\u00edcil de explicar a um leigo porque \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o. Ele se tornou um nome famoso e reconhecido internacionalmente porque recebeu financiamento da CIA. Pollock foi usado como ferramenta pol\u00edtica durante a Guerra Fria, para mostrar ao mundo que os EUA eram uma sociedade tolerante e onde questionamentos filos\u00f3ficos e art\u00edsticos eram permitidos &#8212; contrastando com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e sua r\u00edgida pol\u00edtica de \u201crealismo socialista\u201d na arte.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a CIA, que o financiou, a qualidade art\u00edstica dos quadros de Pollock era completamente irrelevante. Talvez at\u00e9 lhes interessasse eles serem horr\u00edveis porque, quanto mais chocantes fossem, maior o contraste que causariam nos puritanos artistas da URSS.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das raz\u00f5es pelas quais gente como voc\u00ea e eu come\u00e7ou a achar que havia algo de errado com a arte foi esta atitude generalizada segundo a qual a fun\u00e7\u00e3o primordial da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica n\u00e3o \u00e9 mais perseguir o Belo, ou qualquer forma de eleva\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, mas, sim, \u201cchocar\u201d. N\u00e3o deixa de ser curioso que os mesmos artistas que fazem esta arte provocadora se sintam ofendidos quando a sociedade a que provocam se sente \u201cchocada\u201d com o seu trabalho. \u00c9 mais ou menos como voc\u00ea dar uma facada em seu amigo e achar um absurdo que ele sangre.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia da arte como uma forma consentida de transgress\u00e3o faz muito sentido no contexto do capitalismo. Mantidas as estruturas econ\u00f4micas e pol\u00edticas, voc\u00ea \u00e9 livre para \u201cchocar\u201d a sociedade com qualquer objeto irrelevante que, no fim de contas, ser\u00e1 comprado por gente rica, dona do poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico, que o usar\u00e1 para exibir sua toler\u00e2ncia e seu \u201cavan\u00e7o\u201d cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso eu disse que voc\u00ea e eu n\u00e3o estamos s\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas inteligentes costumam ficar pasmadas diante arte moderna e sua capacidade de irrelev\u00e2ncia orgulhosa. Quase ningu\u00e9m corre o risco de dizer abertamente o que pensa, porque, na vida real, os guardas do imperador prender\u00e3o a crian\u00e7a assim que ela gritar que o pingolim imperial balou\u00e7a \u00e0 vista de todos. Sentir-se desnorteado diante da arte moderna, ou diante de qualquer coisa controversa e nova, n\u00e3o \u00e9 sintoma de burrice, mas de que voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 intelectualmente morto. Novidades fazem pessoas inteligentes pensarem. Discordar do consenso, seja ele qual for, n\u00e3o \u00e9 tosquice, \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o normal de um indiv\u00edduo intelectualmente aut\u00f4nomo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/macaquinhos.jpe\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/macaquinhos.jpe\" alt=\"\" class=\"wp-image-5932\" width=\"360\" height=\"270\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/macaquinhos.jpe 480w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/macaquinhos-120x90.jpe 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/macaquinhos-250x188.jpe 250w\" sizes=\"(max-width: 360px) 100vw, 360px\" \/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Vejamos um exemplo, ainda que n\u00e3o seja no universo das artes pl\u00e1sticas. H\u00e1 algum tempo houve aquela controv\u00e9rsia sobre uma pe\u00e7a de teatro, parcialmente financiada pela Lei Rouanet, intitulada \u201cMacaquinhos\u201d, em que um grupo de doze atores se dedicava, entre outras coisas, a rastejar em c\u00edrculos pelo palco, todos nus, enfiando os dedos nos cus uns dos outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja os rostos dessa gente na plateia. Todos est\u00e3o convencidos de que est\u00e3o assistindo uma representa\u00e7\u00e3o art\u00edstica respeit\u00e1vel, um momento inovador e transgressivo na hist\u00f3ria da arte. Pouco lhes diz respeito que, fora do teatro, o pa\u00eds esteja em ebuli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que algumas pessoas desta plateia estejam envergonhadas, que algumas tenham uma vontade grande de ir embora, que outras queiram muito vaiar. Mas a etiqueta social exige que todos se comportem como se assistissem a uma missa no Vaticano. Manifestar-se de maneira \u201cinadequada\u201d nesse contexto levaria ao opr\u00f3brio: a voz que se levantar ser\u00e1 silenciada pelo riso, tachada de caipira sem educa\u00e7\u00e3o e de est\u00fapida.<\/p>\n\n\n\n<p>A atitude da plateia diante da arte n\u00e3o foi sempre assim. No passado era comum que o p\u00fablico, se insatisfeito, vaiasse ou mesmo atirasse objetos no palco. Voc\u00ea deve conhecer hist\u00f3rias semelhantes. Hoje em dia esse tipo de coisa somente ocorre, <em>quando ocorre<\/em>, em eventos de massas, como famoso epis\u00f3dio de Carlinhos Brown no Rock In Rio. Vaiar e atirar objetos ao palco \u00e9 uma \u201cfalta de respeito\u201d, algo que somente gente \u201csem educa\u00e7\u00e3o\u201d faz. O p\u00fablico tem que ficar inerte, acatar aquilo que o artista lhe d\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem \u00e9 Carlinhos Brown, por\u00e9m, para se sentir no direito de n\u00e3o ser vaiado, quando gente como Stravinsky, Villa-Lobos e Jo\u00e3o Gilberto j\u00e1 levou tomatadas de plateias ind\u00f4mitas? Quando o compositor russo apresentou pela primeira vez sua pe\u00e7a \u201cA Sagra\u00e7\u00e3o da Primavera\u201d, a plateia vaiou, impediu a continuidade da apresenta\u00e7\u00e3o, atirou objetos ao palco e at\u00e9 amea\u00e7ou fisicamente os m\u00fasicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Stravinsky n\u00e3o foi o \u00fanico compositor a ser vaiado, claro. Lembramos dele porque ele se tornou conhecido. In\u00fameros outros foram vaiados antes e depois, mas seus nomes n\u00e3o foram preservados porque eles realmente mereceram as vaias.<\/p>\n\n\n\n<p>O p\u00fablico tem o direito de vaiar e de atirar objetos no palco. Estas s\u00e3o, tamb\u00e9m, formas de express\u00e3o art\u00edstica. S\u00e3o formas de cr\u00edtica. Quando o p\u00fablico n\u00e3o pode mais discordar, quando \u00e9 obrigado a aceitar passivamente o trabalho do artista, sem se manifestar, ent\u00e3o a cr\u00edtica come\u00e7a a morrer, porque logo <em>tamb\u00e9m o cr\u00edtico especializado<\/em> come\u00e7a a ser tachado de obtuso, intolerante e provinciano.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, criticar com sinceridade um trabalho art\u00edstico se tornou bastante perigoso, porque, quando um milion\u00e1rio investiu muita grana para comprar um quadro, <em>ele n\u00e3o deseja que esse quadro seja desvalorizado<\/em>. Assim como voc\u00ea n\u00e3o quer que depredem sua casa, um colecionador de arte n\u00e3o quer que falem mal de suas aquisi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/6302596381_f134b84a8a_m.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5934\" width=\"240\" height=\"180\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/6302596381_f134b84a8a_m.jpg 240w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/6302596381_f134b84a8a_m-120x90.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Isso se refere n\u00e3o somente a artes pl\u00e1sticas, mas tamb\u00e9m a m\u00fasica. Pois os artistas que est\u00e3o nas gravadoras foram por elas adquiridos e representam um investimento. N\u00e3o duvide que, dentro de algumas d\u00e9cadas, falar mal de um artista seja considerado um tipo de vandalismo e pun\u00edvel pela lei.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso a arte est\u00e1 realmente est\u00e1 em crise. Ela perdeu muitas de suas antigas fun\u00e7\u00f5es para a tecnologia. N\u00e3o h\u00e1 mais emprego para pintores de retratos nas cortes. Os nobres (cada vez mais raros) preferem ter um fot\u00f3grafo. N\u00e3o h\u00e1 mais trabalho para desenhistas de plantas e animais em expedi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. A fotografia \u00e9 superior pare esse fim tamb\u00e9m. O teatro n\u00e3o \u00e9 mais a recria\u00e7\u00e3o de uma narrativa &#8212; o cinema faz isso melhor. A m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 mais um espet\u00e1culo interativo &#8212; ela \u00e9 hoje consumida atrav\u00e9s de arquivos digitais.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos em uma fase transi\u00e7\u00e3o, na qual as antigas formas de arte est\u00e3o morrendo e novas nascem. Algumas das novas formas talvez n\u00e3o vinguem, algumas s\u00e3o tolas, mas outras podem resultar em algo interessante. Se voc\u00ea n\u00e3o imagina onde podem estar os bons pintores de retratos, os ilustradores de hist\u00f3rias, os paisagistas&#8230; d\u00e1 uma olhada em s\u00edtios como o DeviantArt. A tela de lona est\u00e1 morrendo e \u00e9 com tinta digital que o trabalho de hoje se faz.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer maneira, acho que seria preciso reaprendermos o abuso. Quando as pessoas vaiavam, gritavam e jogavam cerveja nos artistas, eles (os artistas) tinham mais respeito. Rea\u00e7\u00f5es extremadas indicam um envolvimento maior. As pessoas se ofendiam com a arte porque achavam-na importante e cheia de significado para si. Quando um trabalho as incomodava com desafios est\u00e9ticos ou conceituais para os quais n\u00e3o se sentiam preparadas, era normal uma rea\u00e7\u00e3o irritada. Tolerar qualquer coisa na arte significa que n\u00e3o lhe damos nenhum valor real, que esta arte n\u00e3o nos fala ao cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes \u00e9 preciso que uma crian\u00e7a grite que o Imperador est\u00e1 nu, porque adultos costumam acreditar facilmente em roupas imperiais invis\u00edveis ou na seriedade do fio-terra como express\u00e3o art\u00edstica. Somente uma crian\u00e7a tem coragem de exercer o papel de bobo da corte e zombar daqueles que se acham s\u00e9rios demais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 parou para pensar que algumas pinturas parecem um monte de rabiscos ou manchas de tinta que at\u00e9 uma crian\u00e7a seria capaz de fazer, mas s\u00e3o, ainda assim, valorizadas em milhares ou milh\u00f5es? Ao mesmo tempo, voc\u00ea j\u00e1 se deu conta de que h\u00e1 artistas que produzem obras de uma incr\u00edvel beleza, mas est\u00e3o nas esquinas das grandes cidades, vendendo-as por trocados em vez de terem o devido reconhecimento? Se voc\u00ea alguma vez j\u00e1 pensou assim, saiba que n\u00e3o est\u00e1 sozinho. 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