{"id":5945,"date":"2018-08-01T00:36:06","date_gmt":"2018-08-01T03:36:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5945"},"modified":"2018-11-26T22:45:18","modified_gmt":"2018-11-27T01:45:18","slug":"aquele-que-eu-nao-fui","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/08\/aquele-que-eu-nao-fui\/","title":{"rendered":"Aquele que eu n\u00e3o fui"},"content":{"rendered":"<p>John me ligou da Austr\u00e1lia atrav\u00e9s dos oceanos. &#8220;Como est\u00e1?&#8221;\u00a0\u2014 ele me perguntou numa voz t\u00e3o sonolenta quanto a minha. Eu resmunguei que n\u00e3o sabia, e estava t\u00e3o confuso que n\u00e3o consegui lhe explicar que n\u00e3o o reconhecera, mas que, sim, sabia como estava. Ele riu de mim e come\u00e7ou a metralhar uma hist\u00f3ria sobre voltar para o Brasil em breve. Ent\u00e3o o reconheci.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-5946\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/bulg-phone.jpg\" alt=\"\" width=\"240\" height=\"159\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/bulg-phone.jpg 240w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/bulg-phone-120x80.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><\/p>\n<p>&#8220;Caralho! John!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o tenho grana para falar durante muito tempo. Passa-me teu email, um celular, qualquer coisa.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;T\u00e1, eu passo.&#8221;\u00a0\u2014 Rapidamente lhe forneci um endere\u00e7o eletr\u00f4nico e ent\u00e3o, quando ia repetir, a liga\u00e7\u00e3o caiu.<\/p>\n<p>Desliguei o telefone fixo\u00a0\u2014 que eu planejava cancelar por aqueles dias\u00a0\u2014 e achei curioso que o meu amigo me ligasse exatamente antes disso acontecer. Ele emigrara em uma \u00e9poca em que o mundo era diferente, eu era diferente.<\/p>\n<p>Enquanto me dirigia ao banheiro para fazer a barba e tomar banho, dei-me conta de que o telefone fixo era o \u00faltimo la\u00e7o dele comigo: Quando John partira o meu endere\u00e7o eletr\u00f4nico era de um provedor de internet que faliu h\u00e1 dez anos, meu website estava hospedado em um servi\u00e7o gratuito nos Estados Unidos, que foi cancelado h\u00e1 dezesseis anos, meu n\u00famero de telefone m\u00f3vel ainda era o primeiro, de uma operadora falida h\u00e1 vinte anos, e at\u00e9 o meu endere\u00e7o residencial era outro, embora na mesma cidade. Meu emprego era outro, a profiss\u00e3o que eu tinha ele nem poderia imaginar. Estava casado com uma mulher do tipo que ele n\u00e3o previa que eu amasse. Se John tivesse voltado ao Brasil poucas semanas depois e quisesse me ver ele teria de contratar um detetive para me achar.<\/p>\n<p>Culpa dele, claro, que cada vez me escrevia de um lugar diferente em um pa\u00eds que eu n\u00e3o conhe\u00e7o. Respondi poucas vezes \u00e0s suas cartas. Duas, para ser exato. Uma destas eu tenho certeza que ele leu. Ele me escreveu depois disso ainda umas seis vezes. Cada vez contando uma hist\u00f3ria diferente, de mulheres, de empregos, de ganhar muito dinheiro e de ter tantos amigos, enquanto eu definhava em um emprego horr\u00edvel, remo\u00eda os cornos que Let\u00edcia me pusera e tentava escrever &#8220;Amizade Dolorida&#8221;, aquele romance terr\u00edvel que me custou dois anos de sanidade e sete mil reais de investimento para publica\u00e7\u00e3o em uma editora picareta, que faliu e fez meu dinheiro virar fuma\u00e7a sem meu livro virar uma caixa de tijolos no por\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois disso n\u00e3o nos vimos nem nos escrevemos por vinte e dois anos: Amei Amanda, empreguei-me em outro horror, ca\u00ed da escada e quebrei uma v\u00e9rtebra, raz\u00e3o pela qual pare\u00e7o precocemente envelhecido com essa bengala. Reescrevi o livro, com ajuda da amada, arranjei-me em um lugar melhor, fora daquele bairro onde gostam tanto de queimar lixo, e agora tenho esse neg\u00f3cio bem razo\u00e1vel com o meu cunhado.<\/p>\n<p>Lembro-me da d\u00e9cima carta dele, a \u00faltima que consegui ler. A seguinte foi quase uma letra do Z\u00e9 Ramalho e depois ele n\u00e3o escreveu mais. John me lembrava do peso das escolhas que fazemos na vida, repetia o convite para que eu &#8220;largasse tudo&#8221; e fosse para a Austr\u00e1lia, para me tornar &#8220;o homem que eu nascera para ser&#8221;.<\/p>\n<p>N\u00e3o fui. N\u00e3o fora antes, n\u00e3o queria ir. Ent\u00e3o, em 2018, eu j\u00e1 tenho quase cinquenta anos de idade e John me liga. Quer me ver, decerto vem me esfregar na cara esse homem que ele se tornou, parecido com o outro em que eu n\u00e3o quis me transformar. Esse outro homem n\u00e3o amaria Amanda e talvez, desastrado que sou, sofresse mais do que uma atrofia de perna em consequ\u00eancia de um tombo da escada &#8212; e ainda haveria de ser em uma terra estranha.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o seja covarde&#8221;\u00a0\u2014 ele dizia na carta\u00a0\u2014 &#8220;e nem se derrote com essa ideia de que \u00e9 um desastrado. As oportunidades s\u00f3 v\u00eam para os que t\u00eam coragem. Posso lhe arranjar um emprego na firma e um quarto no albergue dos imigrantes, o resto \u00e9 voc\u00ea.&#8221;<\/p>\n<p>O resto seria eu do outro lado do mundo querendo ser algu\u00e9m diferente do que sou.<\/p>\n<p>Quando voltei do banheiro, barbeado, escutei a fervura do caf\u00e9 e me arrastei at\u00e9 a cozinha, onde a Amanda terminava de se aprontar. Ela sempre sa\u00eda mais tarde do que eu, que tinha de fazer o nosso caf\u00e9. Naquele dia ela tamb\u00e9m calhara de acordar cedo e o caf\u00e9 j\u00e1 estava pronto. Um dia fora da curva, em que as coisas inesperadas aconteciam.<\/p>\n<p>&#8220;O que foi? Voc\u00ea parece que viu um fantasma?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Na verdade eu ouvi um.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1 falando do telefonema?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Quem era?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea n\u00e3o conhece. Eu s\u00f3 a conheci uns cinco anos depois que ele foi embora. Para a Austr\u00e1lia.&#8221;<\/p>\n<p>Enfatizei as \u00faltimas tr\u00eas palavras com pausas entre as s\u00edlabas, como se isso tivesse o cond\u00e3o de fazer John estar ainda mais longe, de tornar sua viagem de volta ainda mais cara, demorada e perigosa. John poderia ter ido para Marte ou Plut\u00e3o, ou para o Rio de Janeiro, e eu n\u00e3o o teria acompanhado. Porque n\u00e3o era uma mera quest\u00e3o de eu poder ser um homem diferente, mas de ele <em>querer<\/em> que eu fosse.<\/p>\n<p>&#8220;Seu amigo vem nos visitar?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ele disse.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea n\u00e3o parece muito feliz com isso.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;John achava que eu tinha de ir para a Austr\u00e1lia com ele, me tornar o homem que eu nasci para ser.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Por que voc\u00ea n\u00e3o foi?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o sei. Pode ter sido covardia, pregui\u00e7a ou premoni\u00e7\u00e3o. A verdade, Amanda, \u00e9 que&#8230; voc\u00ea vai rir de mim por dizer isso, mas&#8230; eu estou bem satisfeito de ser quem eu sou. Eu n\u00e3o tenho remorso nenhum de n\u00e3o ter ido para a Austr\u00e1lia.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ah, que fofo!&#8221;<\/p>\n<p>Ela me abra\u00e7ou, acreditando que era apenas uma obl\u00edqua declara\u00e7\u00e3o de amor, dessas que os escritores tamb\u00e9m fazem, mas n\u00e3o era s\u00f3. Embora eu tamb\u00e9m estivesse satisfeito com ela, a verdade \u00e9 que me assustava a ideia de mudar-me, de mudar-me tanto a ponto de escolher um nome estrangeiro antes mesmo de comprar a passagem. De fazer os outros se habituarem a chamar-me de outra coisa.<\/p>\n<p>N\u00e3o, eu n\u00e3o me tornaria nada diferente. Mudaria com a vida e suas dores, mas nunca quis me chamar outro nome, nem ter outra pele, nem outro cabelo. Queria ser feliz aqui mesmo, em um pa\u00eds desenvolvido e ador\u00e1vel. Trazer para c\u00e1 a utopia em vez de fugir atr\u00e1s dela.<\/p>\n<p>&#8220;Est\u00e1 acordada cedo, querida.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Ah, n\u00e3o te contei ontem. Voc\u00ea j\u00e1 estava dormindo, t\u00e3o cansado&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;O que houve?&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;A empresa est\u00e1 demitindo. Eles me puseram na primeira lista.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;De novo&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Minha decep\u00e7\u00e3o n\u00e3o era com ela, de forma nenhuma. Era com esse mundo c\u00e3o em que estamos, mundo torto em que a utopia teima em n\u00e3o vir, e os sonhos da gente s\u00e3o abortados cedo.<\/p>\n<p>Amanda far\u00e1 trinta e seis anos em setembro e n\u00f3s n\u00e3o tivemos filhos ainda. Temo que nunca, pois n\u00e3o ganho sozinho o bastante para grandes luxos, ou para uma fam\u00edlia maior. A sa\u00fade dif\u00edcil que nos aflige a ambos exige guardar dinheiro agora. O homem que eu me conformei a ser tem o amor de Amanda, mas n\u00e3o tem dinheiro para dar-lhe toda a felicidade que ela merece.<\/p>\n<p>Mas esse homem ainda n\u00e3o quer saber das vit\u00f3rias e aventuras de John na Austr\u00e1lia, e ainda n\u00e3o entende por que o desaparecido voltar\u00e1, tantos anos depois. Para, talvez, esfregar seu sucesso em minha cara e fazer Amanda amar-me menos, acreditando que eu n\u00e3o tive a aud\u00e1cia de enricar e de lhe dar confortos que n\u00e3o menciona nunca, mas que decerto sempre sonha.<\/p>\n<p>&#8220;Eu sinto muito, querido.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o sinta.&#8221;\u00a0\u2014 Eu me levantei, com o peso nas costas de uma idade maior que a natural.\u00a0\u2014 &#8220;A culpa nunca foi sua, e nunca ser\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p>Ela se ofendeu, eu vi em seus olhos. Achou que eu estava sendo agressivo e ir\u00f4nico, n\u00e3o detectou a sinceridade, quase paternal, com que eu tentava lhe dizer que eu nunca a culparia por coisa alguma, porque, naquele momento em que detestava John, que fora meu maior amigo, eu me dera conta de que n\u00e3o quisera ser outro homem, que eu ficara no Brasil para poder amar Amanda. Ela tinha quase trinta e seis anos e ganhara algum peso, alguns cabelos brancos um tanto precoces, mas n\u00e3o perdera minha solidariedade e nem o meu afeto. Tem coisas que a gente escolhe para a vida toda, para o bem ou para o mal.<\/p>\n<p>&#8220;Desculpe, querida. N\u00e3o foi o que quis dizer. Eu nunca vou culpar voc\u00ea por coisa alguma. A culpa \u00e9 de quem n\u00e3o v\u00ea a sua compet\u00eancia. Eu vejo em voc\u00ea tudo de bom.&#8221;<\/p>\n<p>Ela n\u00e3o sorriu. Havia pequenas l\u00e1grimas em seus olhos. L\u00e1grimas de dor. Eu sabia que ela sofria por estarmos, novamente, com os bolsos apertados e os sonhos adiados. Mas eu tamb\u00e9m sofria porque, do outro lado do mundo e al\u00e9m dos oceanos, o meu ex amigo atrapalhava meu casamento com ideias de coisas que eu rejeitara ter e ser.<\/p>\n<p>&#8220;Prepare seu curr\u00edculo, querida. Essa crise n\u00e3o vai durar para sempre.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>John me ligou da Austr\u00e1lia atrav\u00e9s dos oceanos. &#8220;Como est\u00e1?&#8221;\u00a0\u2014 ele me perguntou numa voz t\u00e3o sonolenta quanto a minha. Eu resmunguei que n\u00e3o sabia, e estava t\u00e3o confuso que n\u00e3o consegui lhe explicar que n\u00e3o o reconhecera, mas que, sim, sabia como estava. Ele riu de mim e come\u00e7ou a metralhar uma hist\u00f3ria sobre voltar para o Brasil em breve. Ent\u00e3o o reconheci. &#8220;Caralho! John!&#8221; &#8220;N\u00e3o tenho grana para falar durante muito tempo. 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