{"id":5948,"date":"2018-08-03T23:24:18","date_gmt":"2018-08-04T02:24:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5948"},"modified":"2018-08-03T23:25:07","modified_gmt":"2018-08-04T02:25:07","slug":"milhoes-de-moscas-e-o-sentimento-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/08\/milhoes-de-moscas-e-o-sentimento-do-mundo\/","title":{"rendered":"Milh\u00f5es de Moscas e o Sentimento do Mundo"},"content":{"rendered":"<p>A Escritora Cl\u00e1udia Lemes resolveu cutucar um vespeiro ao acusar a maior parte dos autores da literatura nacional de escreverem livros ruins. Para ela, a falta de sucesso de nossos escritores n\u00e3o se deve somente a um contexto de desvaloriza\u00e7\u00e3o da cultura nacional face a uma verdadeira coloniza\u00e7\u00e3o cultural em andamento, mas, tamb\u00e9m, \u00e0 falta de qualidade liter\u00e1ria da maior parte do nacional que se publica.<\/p>\n<p>A cr\u00edtica de Cl\u00e1udia talvez foi feita de maneira apressada, por ser em uma <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/permalink.php?story_fbid=1013554005471720&amp;id=100004513909182\">postagem do Facebook<\/a> (abaixo reproduzida) e n\u00e3o tenho certeza se ela est\u00e1 preparando uma vers\u00e3o mais elaborada (se estiver, interessa-me ler). Essa pressa e o improviso natural que da\u00ed resulta acabaram tornando sua invectiva menos clara do que deveria ser &#8212; ou talvez, diferente de mim, ela se importa em economizar no text\u00e3o. Por\u00e9m, mesmo assim, h\u00e1 muito pouco o que se pedir dela em termos de esclarecimentos, a n\u00e3o ser, talvez, cobrar-lhe um pouco mais de ousadia na defini\u00e7\u00e3o do que seria a &#8220;qualidade&#8221; liter\u00e1ria. Suspeito, por\u00e9m, que ela seria esperta de evadir-se desta armadilha, tal como Jesus se evadiu de definir a &#8220;verdade&#8221; diante de P\u00f4ncio Pilatos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/permalink.php?story_fbid=1013554005471720&amp;id=100004513909182\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/Screenshot_20180803_231119-300x300.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" class=\"alignleft size-medium wp-image-5949\" \/><\/a><\/p>\n<p>Esta postagem n\u00e3o \u00e9 e nem pretende ser qualquer tipo de &#8220;explica\u00e7\u00e3o&#8221; ou reparo ao que Cl\u00e1udia disse &#8212; e com que concordo em ess\u00eancia, embora divirja em detalhes. Em vez disso, essa \u00e9 a minha tentativa de articular o que <em>eu<\/em> penso de semelhante, com o intuito de aprofundar o debate.<\/p>\n<p>Precisamos come\u00e7ar observando um fato: o que chamamos de &#8220;literatura ruim&#8221; tem um sentido diferente conforme a origem. H\u00e1 formas de ruindade que se referem \u00e0 ess\u00eancia da obra (aspectos intr\u00ednsecos) e outras formas exteriores (aspectos extr\u00ednsecos). H\u00e1 formas de ruindade que s\u00e3o comprometedoras porque s\u00e3o insan\u00e1veis e h\u00e1 outras que podem ser consertadas com algum esfor\u00e7o. A ruindade mais desculp\u00e1vel \u00e9 aquela que se manifesta de maneira mais grave e irrepar\u00e1vel. Quando uma obra possui defeitos superficiais, estes merecem uma cr\u00edtica muito mais acerba do que os profundos porque teria sido f\u00e1cil elimin\u00e1-los e, portanto, sua perman\u00eancia indica um grau maior de desleixo do que os defeitos insan\u00e1veis.<\/p>\n<p>Quando Cl\u00e1udia diz que os livros que muitos de n\u00f3s escrevemos s\u00e3o ruins, o que ela decerto quer dizer \u00e9 que eles n\u00e3o s\u00e3o ruins apenas por contarem hist\u00f3rias tolas ou porque nada acrescentam \u00e0 cultura do mundo &#8212; porque esses defeitos s\u00e3o muito claros na maior parte dos <em>best-sellers<\/em> internacionais, que ela n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o critica como tolera, ao dizer: &#8220;\u00c9 claro que tem muita gente que se deu bem escrevendo merda, mas \u00e9 merda que encontrou um p\u00fablico, portanto uma merda relativa.&#8221; Portanto, se Cl\u00e1udia n\u00e3o est\u00e1 criticando os livros essencialmente ruins, qual \u00e9 o seu alvo?<\/p>\n<p>Em minha opini\u00e3o, os livros ruins de que ela fala s\u00e3o as obras mal nascidas, mal desenvolvidas e mal editadas que, sob qualquer aspecto de avalia\u00e7\u00e3o qualitativa, n\u00e3o mereceriam chegar \u00e0 prateleira de uma livraria. Acredito que ela se refira a erros gramaticais grosseiros, falhas de constru\u00e7\u00e3o narrativa, indefini\u00e7\u00e3o de p\u00fablico-alvo, linguajar tosco e aus\u00eancia de caracter\u00edstica liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esses erros n\u00e3o decorrem de uma inten\u00e7\u00e3o de &#8220;escrita simples&#8221;. A falta de qualidade n\u00e3o torna um texto mais f\u00e1cil de ler, assim como o esmero n\u00e3o o torna necessariamente mais dif\u00edcil. \u00c9 que em uma cultura problem\u00e1tica como a nossa, afeta\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica passa por qualidade liter\u00e1ria, pedantismo \u00e9 confundido com cultura e tosquice se apresenta como oralidade.<\/p>\n<p>\u00c9 de se esperar que essas problemas existam em nosso pa\u00eds e que o Brasil tenha menos autores formados que os Estados Unidos, pois os os nossos \u00edndices educacionais s\u00e3o piores (e v\u00e3o piorar, pois esse \u00e9 o plano) e porque nossa popula\u00e7\u00e3o \u00e9 menor (apenas dois ter\u00e7os da americana).<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 de se esperar que os nossos autores escrevam pior em consequ\u00eancia de terem crescido lendo livros piores. Muitos de nossos jovens se formam lendo tradu\u00e7\u00f5es, nem sempre cuidadosas, de obras estrangeiras. Pior que isso: tradu\u00e7\u00f5es de <em>best-sellers<\/em>.<\/p>\n<p>Nossos jovens formados lendo esses livros t\u00eam uma esp\u00e9cie de atrofia mental, decorrente de n\u00e3o terem se exercitado na leitura de obras desafiadoras. Voc\u00ea n\u00e3o pode querer que o jovem que sempre andou de bicicleta el\u00e9trica e nunca fez gin\u00e1stica na escola chegue aos dezoito anos t\u00e3o atl\u00e9tico e saud\u00e1vel quanto o suburbaninho que andava seis quil\u00f4metros por dia para ir \u00e0 escola e ainda ajudava o pai a virar cimento para bater a laje.<\/p>\n<p>Os <em>best-sellers<\/em> s\u00e3o, em geral, livros para pregui\u00e7osos, obras que n\u00e3o obrigam a nenhum exerc\u00edcio e que, por isso, induzem a uma flacidez mental.<\/p>\n<p>Os autores americanos tiveram que passar, no primeiro e no segundo graus, exatamente pelo mesmo tipo de &#8220;torturas&#8221; por que passamos. Tamb\u00e9m eles forma &#8220;for\u00e7ados&#8221; a ler autores &#8220;cabe\u00e7a&#8221;. A diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o se sentiram legitimados a reclamar disso, ao contr\u00e1rio de n\u00f3s, porque l\u00e1, apesar de todos os defeitos do sistema educacional americano, pagar de burro n\u00e3o \u00e9 chique e dizer-se incapaz de entender um autor \u00e9 motivo de vergonha, em vez de uma maneira de ganhar curtidas nas redes sociais.<\/p>\n<p>Basta uma r\u00e1pida pesquisa por &#8220;<em>reading syllabus<\/em>&#8221; e come\u00e7amos a encontrar documentos que atestam o que os estudantes norte-americanos leem durante o per\u00edodo intermedi\u00e1rio (equivalente ao nosso &#8220;Fundamental&#8221;) e superior (equivalente ao nosso &#8220;M\u00e9dio&#8221;) de sua educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. H\u00e1 uma variedade de temas, de estilos e de qualidade. Leem autores contempor\u00e2neos, autores do s\u00e9culo passado, autores do s\u00e9culo XIX. Leem americanos, brit\u00e2nicos e estrangeiros traduzidos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 verdade que a culpa de nossos jovens gostarem pouco de ler se deva \u00e0 escolha dos livros que leem na escola. N\u00e3o h\u00e1 grande diferen\u00e7a conceitual na escolha das obras que nossos jovens leem. Acompanho a vida escolar de minhas filhas e o que as vejo ler \u00e9 basicamente a mesma coisa &#8212; com a diferen\u00e7a b\u00e1sica de que a nossa escola n\u00e3o pode (ou n\u00e3o deve) trazer obras estrangeiros para dentro da sala de aula. Uma das fun\u00e7\u00f5es de nosso sistema educacional deveria ser, justamente, formar leitores para os nossos autores. Os leitores de <em>best-sellers<\/em> j\u00e1 s\u00e3o formados espontaneamente extraclasse.<\/p>\n<p>O que a Cl\u00e1udia aponta, quando diz que falta &#8220;aquele texto gostoso de ler, com estilo pr\u00f3prio, atrevimento e originalidade&#8221; \u00e9 um problema decorrente do fracasso de nosso sistema educacional. Para poder ousar e ter um estilo pr\u00f3prio, \u00e9 preciso que o autor tenha uma alfabetiza\u00e7\u00e3o completa e uma grande familiaridade com a narrativa que pretende praticar.<\/p>\n<p>Quando ela diz sentir falta das &#8220;escolhas espertas de palavras, de novos pontos de vista, de abordagens frescas&#8221; ela est\u00e1 justamente aludindo \u00e0 falta de leitura de que padecem os nossos escritores. Escolhas espertas de palavras s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis quando os autores n\u00e3o s\u00f3 dominam todos os sentidos das palavras, mas tamb\u00e9m t\u00eam o costume de v\u00ea-las empregadas em contexto e, isso \u00e9 essencial, conhecem realmente <strong>muitas<\/strong> palavras. Novos pontos de vistas n\u00e3o ser\u00e3o encontrados em autores que leram poucos livros e ainda est\u00e3o t\u00e3o presos \u00e0 sua fascina\u00e7\u00e3o por estes que come\u00e7am uma &#8220;fan fic&#8221; baseada em seus personagens ou cen\u00e1rios. Novos pontos de vista surgem do confronto de in\u00fameras experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Claro que existe um problema maior a\u00ed: se os nossos autores, mesmo sendo uma minoria da popula\u00e7\u00e3o que se interessa por literatura, padecem desses defeitos porque n\u00e3o tiveram uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade suficiente, qual a capacidade que o restante da popula\u00e7\u00e3o ter\u00e1 para apreciar, ou mesmo entender enquanto informa\u00e7\u00e3o, uma &#8220;escolha esperta&#8221; de palavras? A opini\u00e3o das moscas sobre chocolate ou fezes n\u00e3o tem grande valor para n\u00e3o seja uma mosca. Somos um povo que transformou &#8220;text\u00e3o&#8221; em uma esp\u00e9cie de insulto.<\/p>\n<p><img src=\"https:\/\/encrypted-tbn0.gstatic.com\/images?q=tbn:ANd9GcRXXmUvaK1-oZN18YSq6bKb8wneFRsiQbyuqztnGUMuJ4qsCQfBiA\" width=\"33%\" class=\"alignright size-medium\" \/><\/p>\n<p>Livros ruins sempre existiram, sempre existir\u00e3o. Mas quando o n\u00edvel geral de leitura em uma sociedade \u00e9 bastante alto, os livros que esta considera &#8220;ruins&#8221; parecer\u00e3o melhores aos olhos de uma cultura onde o h\u00e1bito de ler \u00e9 menos cultivado. Isto explica, em minha opini\u00e3o, que autores que n\u00e3o s\u00e3o levados a s\u00e9rio nos Estados Unidos, por exemplo o Stephen King, por c\u00e1 sejam tidos na conta de &#8220;mestres&#8221; de alguma coisa. Os livros de King s\u00e3o &#8220;ruins&#8221; enquanto grande literatura, mas bons enquanto entretenimento e mat\u00e9ria para roteiros de filmes. Mas a ruindade de que Cl\u00e1udia fala desce a um n\u00edvel mais fundo que esse.<\/p>\n<p>Muitos dos livros &#8220;ruins&#8221; que fazem &#8220;sucesso&#8221; no Brasil s\u00e3o piores que os livros &#8220;ruins&#8221; que formam o g\u00eanero <em>best-seller<\/em> origin\u00e1rio dos Estados Unidos e o &#8220;sucesso&#8221; que fazem \u00e9 uma ilus\u00e3o. Existe um limite at\u00e9 onde se pode ir sendo ruim.<\/p>\n<p>Nas Olimp\u00edadas de 2016 houve um nadador et\u00edope que estava significativamente acima do peso, mas ainda assim veio aos Jogos representar seu pa\u00eds por ser parente do presidente da federa\u00e7\u00e3o et\u00edope de nata\u00e7\u00e3o. Talvez a Eti\u00f3pia tivesse algu\u00e9m melhor preparado que ele, ou pelo menos algu\u00e9m que n\u00e3o exibisse uma pan\u00e7a t\u00e3o evidente. Zebras podem ocorrer no esporte, e a pr\u00f3pria Eti\u00f3pia foi protagonista de uma, na maratona das Olimp\u00edadas de Roma, com Abebe Bikila.<\/p>\n<p>Aquele rapaz visivelmente fora de forma ocupou o lugar de algu\u00e9m que, talvez, n\u00e3o desse um vexame. Sob certo ponto de vista, ele vir \u00e0s Olimp\u00edadas foi um &#8220;sucesso&#8221;, pois participou de um evento de que poucos de seu pa\u00eds podem participar. Mas o seu &#8220;sucesso&#8221; consistiu, basicamente, em ocupar o lugar de algu\u00e9m que n\u00e3o era parente do presidente da Federa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim como os contatos do nadador et\u00edope n\u00e3o lhe fariam, em hip\u00f3tese alguma, ganhar uma medalha; os contatos e o dinheiro de um autor de maus livros n\u00e3o o levar\u00e3o, de forma nenhuma, ao que normalmente se considera o &#8220;sucesso liter\u00e1rio&#8221;.<\/p>\n<p>Enfim, a m\u00e1 qualidade dos livros que fazem &#8220;sucesso&#8221; n\u00e3o \u00e9 um argumento em favor da superfluidade da qualidade liter\u00e1ria, nem legitima o &#8220;gosto&#8221; em detrimento de uma aprecia\u00e7\u00e3o valorativa. Os maus autores t\u00eam o poder serem publicados, mas n\u00e3o v\u00e3o muito longe. Sentem-se superiores porque &#8220;publicam e vendem&#8221;, como se publicar e vender fosse o objetivo do autor, n\u00e3o da editora.<\/p>\n<p>Quantos desses autores &#8220;de sucesso&#8221; foram traduzidos l\u00e1 fora, viram suas obras transformadas em filme ou programa de televis\u00e3o, ca\u00edram no gosto popular, inspiraram m\u00fasica, influenciaram outros autores, foram objeto de estudo acad\u00eamico etc.?<\/p>\n<p>Sinceramente, voc\u00ea conhece algu\u00e9m que esteja fazendo &#8220;fan fic&#8221; de Raphael Draccon ou que se inspire claramente em seu &#8220;estilo&#8221; liter\u00e1rio? \u00c9 muito f\u00e1cil um bando de sicofantas interessados em cultivar boas rela\u00e7\u00f5es elogiar um autor que det\u00e9m poder no mercado liter\u00e1rio a fim de gravitar em torno dele e buscar algum benef\u00edcio. Dif\u00edcil \u00e9 algum desses autores realmente se identificar com suas obras e tratar delas com a rever\u00eancia que um autor realmente grandioso tem. Gente, eu conhe\u00e7o quem imite a escrita de Chico Buarque (e ele nem \u00e9 um escritor de primeira linha).<\/p>\n<p>Alguns desses que se apresentam como autores profissionais s\u00e3o moedeiros falsos: o que realmente vendem n\u00e3o \u00e9 literatura, mas um acess\u00f3rio.<\/p>\n<p>At\u00e9 que ponto se tornar <em>coach<\/em> de &#8220;novos talentos&#8221; e explorar a credulidade alheia em inumer\u00e1veis oficinas de &#8220;escrita criativa&#8221; \u00e9 uma medida de profissionaliza\u00e7\u00e3o do autor? Ser\u00e1 isso mesmo uma forma de sucesso, ou ser\u00e1, de fato, um atestado do fracasso de uma literatura decadente, dominada por nichos de poder, autof\u00e1gica e obscurantista, na qual os jovens (cegos pela inexperi\u00eancia e m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o) s\u00e3o guiados por cegos iguais (apenas envelhecidos)?<\/p>\n<p>N\u00e3o seria mais \u00f3bvio que o sucesso do autor fosse medido pela qualidade e o alcance de sua obra, em vez de uma atividade acess\u00f3ria?<\/p>\n<p>At\u00e9 que ponto \u00e9 v\u00e1lido aceitar que esses autores reivindiquem indevidamente um sucesso enquanto autores apenas porque fazem algo tangencial \u00e0 escrita? H\u00e1 quem diga que &#8220;acreditar-se bem sucedido&#8221; \u00e9 uma atitude &#8220;positiva&#8221; que \u00e9 pren\u00fancio do sucesso real. Eu acredito que todo autor de autoajuda deveria ser queimado na estaca.<\/p>\n<p>Acreditar-se n\u00e3o equivale a ser. Um mundo cheio de pessoas que se acreditam bem-sucedidas n\u00e3o \u00e9 um mundo cheio de gente de sucesso, mas um mundo cheio de idiotas desconectados da realidade. Achar-se \u00e9 uma forma triste de autoengano, que mant\u00e9m o indiv\u00edduo preso a expectativas irrealizadas ou at\u00e9 irrealiz\u00e1veis, enquanto o impede de melhorar de fato, por crer que j\u00e1 alcan\u00e7ou o seu galard\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 por causa desse discurso bonitinho de autoajuda que se tornou t\u00e3o f\u00e1cil cobrar dos bobos por palestras nas quais basicamente se diz que pagar para ouvir palestras n\u00e3o \u00e9 uma coisa boba.<\/p>\n<p>Muitos escritores e pretensos escritores que conhe\u00e7o est\u00e3o presos a esse modelo mental fofucho. Eles n\u00e3o se preocupam em escrever melhor, porque acreditam que o sucesso tamb\u00e9m pode chegar para os autores ruins. Isso equivale a dizer que eles pensam que o sucesso \u00e9 algo aleat\u00f3rio e que n\u00e3o tem nada a ver com o trabalho, mas com &#8220;pensamento positivo&#8221; e &#8220;merecimento&#8221;.<\/p>\n<p>Que melhor discurso poderia haver para confortar gente que n\u00e3o foi preparada para escrever direito nem uma reda\u00e7\u00e3o do ENEM, mas quer, por algum motivo, ser um autor &#8220;de sucesso&#8221;?<\/p>\n<p>Fica ainda melhor quando aqueles que se esfor\u00e7am por melhorar s\u00e3o tachados de &#8220;orgulhosos&#8221; que se creem superiores aos outros; ou quando o foco na produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 visto como algo ruim, pois impede um esfor\u00e7o de &#8220;divulga\u00e7\u00e3o&#8221; e de &#8220;relacionamento&#8221; &#8212; coisas que, diga-se de passagem, s\u00e3o obriga\u00e7\u00e3o do autor, esse arrombado, e n\u00e3o da editora e nem do agente, n\u00e9?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Escritora Cl\u00e1udia Lemes resolveu cutucar um vespeiro ao acusar a maior parte dos autores da literatura nacional de escreverem livros ruins. 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