{"id":5989,"date":"2018-09-10T18:50:41","date_gmt":"2018-09-10T21:50:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=5989"},"modified":"2019-06-05T21:19:55","modified_gmt":"2019-06-06T00:19:55","slug":"o-dia-em-que-anna-maria-machado-virou-ozzy-osbourne","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/09\/o-dia-em-que-anna-maria-machado-virou-ozzy-osbourne\/","title":{"rendered":"O Dia em Que Anna Maria Machado Virou Ozzy Osbourne"},"content":{"rendered":"\n<p>Somos ainda um pa\u00eds em luta contra uma limita\u00e7\u00e3o incapacitante de nossa cultura: nosso dif\u00edcil relacionamento com o conhecimento de uma maneira geral e com a palavra escrita de forma particular. Este autor j\u00e1 se aventurou, em v\u00e1rios momentos, a comentar manifesta\u00e7\u00f5es dessa rela\u00e7\u00e3o conflituosa do brasileiro m\u00e9dio com os elementos caracter\u00edsticos da cultura formal. N\u00e3o espero que voc\u00ea leia todas as itera\u00e7\u00f5es anteriores do debate, mas as hiperliga\u00e7\u00f5es para as postagens transversais ao assunto est\u00e3o ao final.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta postagem \u00e9 sobre mais uma pol\u00eamica envolvendo livros, refiro-me ao <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/cultura\/foi-como-uma-bigorna-na-cabeca-diz-ana-maria-machado-23047123\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">p\u00e2nico moral<\/a> criado por uma m\u00e3e a respeito de um livro escrito por <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Ana_Maria_Machado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ana Maria Machado<\/a>, uma respeitada escritora brasileira, que dedicou uma vida inteira \u00e0 literatura infantojuvenil e \u00e9 conhecida e celebrada em v\u00e1rios pa\u00edses inclusive. Tamb\u00e9m \u00e9 sobre uma profunda mudan\u00e7a cultural que aconteceu no mundo inteiro, e no Brasil em particular, nos \u00faltimos trinta anos: a transi\u00e7\u00e3o da juventude de uma postura questionadora e uma receptora.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright\"><a href=\"https:\/\/www.maxpixel.net\/Beauty-Woman-Young-Evil-Devil-Female-Mephisto-2308660\"><img loading=\"lazy\" width=\"225\" height=\"300\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/www.maxpixel.net-Beauty-Woman-Young-Evil-Devil-Female-Mephisto-2308660-225x300.jpg\" alt=\"Autora do Mal\" class=\"wp-image-5994\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/www.maxpixel.net-Beauty-Woman-Young-Evil-Devil-Female-Mephisto-2308660-225x300.jpg 225w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/www.maxpixel.net-Beauty-Woman-Young-Evil-Devil-Female-Mephisto-2308660-113x150.jpg 113w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/09\/www.maxpixel.net-Beauty-Woman-Young-Evil-Devil-Female-Mephisto-2308660.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m j\u00e1 disse que \u201c<a href=\"https:\/\/vilamulher.uol.com.br\/familia\/filhos\/pais-modernos-filhos-caretas-26265.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">os filhos de hoje s\u00e3o mais caretas<\/a> que os pais\u201d. Esta n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o nova, ela se revelou nos \u00faltimos trinta anos, quando os herdeiros da gera\u00e7\u00e3o roqueira dos anos 60 e 70 come\u00e7aram a chegar \u00e0 idade adulta e a ter os seus filhos. Paulatinamente, a rebeldia passou a ser vista uma coisa \u201cde velho\u201d, h\u00e1bito de seus av\u00f3s. Os <i>yuppies<\/i> dos anos 80 foram a primeira gera\u00e7\u00e3o surgida em contraponto \u00e0 \u201ccabe\u00e7a aberta\u201d dos <i>hippies.<\/i> Nos anos 1990 o <i>rock<\/i> come\u00e7ou a morrer como elemento da cultura pop \u2014 e isso aconteceu, basicamente, porque as novas gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o desejavam ter o mesmo gosto musical de seus pais e av\u00f3s. Ainda que este seja um desejo leg\u00edtimo para a constru\u00e7\u00e3o da personalidade dos jovens, e ele \u00e9, o espa\u00e7o aberto pela deposi\u00e7\u00e3o do <i>rock<\/i> de seu trono foi avidamente ocupado por uma m\u00fasica muito mais comercial e muito menos \u201caberta\u201d a novos comportamentos, atitudes e, especialmente, <i>questionamentos.<\/i><\/p>\n\n\n\n<p>Isto aconteceu porque a gera\u00e7\u00e3o dos anos 1990 n\u00e3o criou um movimento cultural para ocupar o lugar do <i>rock<\/i>, apenas adotou, em sequ\u00eancia, diferentes estilos de m\u00fasica comercial, oferecidos pelo mercado <i>mainstream.<\/i> Obviamente, o mercado de m\u00fasica comercial, controlado por empresas cada vez mais monopolizadoras e com margens cada vez mais estreitas, devido ao impacto das tecnologias digitais, levou a uma atitude conservadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Os anos 2000 e 2010 consagraram esse conservadorismo, no qual s\u00f3 h\u00e1 espa\u00e7o para replicar as f\u00f3rmulas que j\u00e1 deram certo e onde o novo \u00e9 descoberto por acidente, nunca pela experimenta\u00e7\u00e3o deliberada. Um mundo no qual um pequeno n\u00famero de compositores e produtores musicais produz a maior parte da m\u00fasica pop. A m\u00fasica \u201cquadrada\u201d ritmicamente corresponde a mentes que tamb\u00e9m \u201cquadradaram\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse estilo de m\u00fasica comercial, que, sob o impacto das m\u00eddias digitais, pretende ser \u201cinterativo\u201d, \u00e9 comum, na verdade, normal, que os artistas interajam com o p\u00fablico dizendo-lhe o que fazer. \u201cTira o p\u00e9 do ch\u00e3o\u201d, \u201cTodo mundo comigo\u201d.\u0086<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Multid\u00e3o de pessoas pulando em show - DEL\u00cdRIO\" width=\"525\" height=\"295\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/SnXLoOPS5Co?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Os jovens de hoje est\u00e3o acostumados a fazer o que seus \u00eddolos mandam. Isso \u00e9 muito diferente dos anos 60 e 70. Os jovens seguiam as <i>atitudes<\/i> de seus \u00eddolos, n\u00e3o as suas ordens. Se, eventualmente, algum jovem cortava o cabelo semelhante ao dos Beatles, ele o fazia por sua escolha, para seguir um estilo. Ainda que houvesse press\u00e3o para \u201centrar na moda\u201d, em \u00faltima an\u00e1lise, sempre era poss\u00edvel n\u00e3o o fazer ou, ainda, <i>ser diferente,<\/i> porque nunca o <i>rock\u2019n\u2019roll<\/i> se caracterizou por oferecer um padr\u00e3o \u00fanico, ou mesmo predominante, quer de comportamento quer de atitude. A ess\u00eancia da cultura \u201croqueira\u201d sempre foram as \u201ctribos\u201d, cada uma com seu subg\u00eanero musical, um estilo de cabelo, uma atitude, g\u00edrias peculiares e certas prefer\u00eancias art\u00edsticas ou culturais. Tanto assim que, pelo modo como se vestia e arranjava o cabelo, era poss\u00edvel ter uma ideia aproximada da m\u00fasica que um jovem escutava. Um <i>metalhead<\/i> era diferente de um f\u00e3 de <i>rock<\/i> progressivo, ou de um <i>punk<\/i>.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto ainda existe no mundo de hoje, mas a rela\u00e7\u00e3o dos jovens com os seus \u00eddolos n\u00e3o \u00e9 mais meramente a imita\u00e7\u00e3o da atitude ou o compartilhamento de valores: est\u00e3o acostumados a segui-los mais diretamente porque estes \u201cfalam\u201d mais. Eles est\u00e3o sempre na televis\u00e3o, falando sobre aquilo de que gostam, quais causas apoiam e onde preferem ir. Quando os \u201cartistas\u201d se tornam celebridades, a m\u00fasica fica at\u00e9 em segundo plano. Quando se unem em torno de coisas, como, por exemplo, o \u201cCrian\u00e7a Esperan\u00e7a\u201d ou algum \u201cTeleton\u201d, usam sua imagem para levar os jovens a doar dinheiro, tal como, em seus <i>shows,<\/i> induzem os f\u00e3s a cantar, gritar, pular ou acenar em certos momentos. Qualquer efeito positivo que tais doa\u00e7\u00f5es possam ter para a causa apoiada \u00e9 eclipsado, a longo prazo, pelo lado negativo de acostumar a juventude a seguir instru\u00e7\u00f5es de gente mais velha e, especialmente, <i>aquelas contidas em elementos de cultura pop, como letras de m\u00fasica.<\/i><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/psmag.com\/.image\/c_limit%2Ccs_srgb%2Cq_auto:good%2Cw_700\/MTMxNDE1ODQ3Mjk3MTAwNDE5\/metalhead_kidsjpg.webp\" alt=\"\" width=\"350\" height=\"237\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma piada recorrente nas redes sociais segundo a qual as gera\u00e7\u00f5es anteriores aos anos 1990 n\u00e3o precisavam que algu\u00e9m lhes dissesse que n\u00e3o se deve martelar a cabe\u00e7a de algu\u00e9m, tal como fazem personagens como Pica Pau, Papa L\u00e9guas, Tom &amp; Jerry e outros. Havia o conhecimento t\u00e1cito de que os desenhos animados n\u00e3o representavam a realidade, mas um mundo de fantasia, no qual bichos falavam, havia uma abund\u00e2ncia de bigornas, o correio entregava tudo instantaneamente e os personagens s\u00f3 ca\u00edam no abismo <i>depois<\/i> de perceberem que estavam andando pelo ar. As crian\u00e7as n\u00e3o se identificavam com aqueles personagens porque n\u00e3o eram humanizados.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 que se notar que, quando os desenhos animados eram feitos com personagens humanos (Johnny Quest, por exemplo) tomava-se um grande cuidado com a verossimilhan\u00e7a e com as consequ\u00eancias dos atos destes. Se algum personagem tomasse um tiro, sentiria dor, sangraria, talvez morresse, talvez tivesse de deixar a hist\u00f3ria. Isso ajudava a educar as crian\u00e7as para as diferen\u00e7as entre um mundo puramente imagin\u00e1rio, como o do Papa L\u00e9guas, e um que, mesmo ainda fict\u00edcio, obedecia a pelo menos uma parte das regras que regem o real. A menos que um personagem fosse claramente definido al\u00e9m dos limites da humanidade, como os super-her\u00f3is, que, a bem da verdade, existem em um universo quase t\u00e3o fant\u00e1stico quanto o de Tom &amp; Jerry.<\/p>\n\n\n\n<p>Por causa da no\u00e7\u00e3o t\u00e1cita de que certos desenhos eram meramente imagin\u00e1rios, as crian\u00e7as n\u00e3o supunham que seria uma boa ideia martelar a cabe\u00e7a de algu\u00e9m ou tentar serrar ao meio seu animal de estima\u00e7\u00e3o. Raros casos tais que aconteceram n\u00e3o se deveram \u00e0 influ\u00eancia dos desenhos, mas a problemas psiqui\u00e1tricos da crian\u00e7a em quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por causa da percep\u00e7\u00e3o de que os elementos ficcionais de certos desenhos ainda n\u00e3o os afastavam totalmente da realidade, mesmo em hist\u00f3rias de super-her\u00f3is, as crian\u00e7as sabiam que atirar em algu\u00e9m era ruim, que cair de pr\u00e9dios era perigoso e que somente o Super-Homem voava, porque o que lhe dava poder n\u00e3o era ter uma capa vermelha, mas a sua origem.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das raz\u00f5es pelas quais as crian\u00e7as conviviam bem com esse tipo de divers\u00e3o infantil, em que personagens batem em outros com bigornas, era que elas sabiam que os adultos eram capazes de mentir. Educadas a partir de hist\u00f3rias fantasiosas e desde cedo acostumadas a rir de contos envolvendo animais falantes, an\u00f5es, bruxas e outros elementos; as crian\u00e7as eram capazes de entender o conceito de fic\u00e7\u00e3o e de reconhecer o valor de divertimento que existe em se contar \u00f3bvias mentiras. As crian\u00e7as n\u00e3o passavam a desconfiar de seus pais por causa dessas mentiras, mas entendiam que existem verdades e mentiras no mundo e que, tal como h\u00e1 algumas que s\u00e3o \u00f3bvias, como Tom &amp; Jerry, podem haver outras sutis. A evolu\u00e7\u00e3o desta capacidade de conviver com uma realidade em que alguns elementos s\u00e3o inventados e outros s\u00e3o reais correspondia \u00e0 forma\u00e7\u00e3o intelectual da crian\u00e7a em seus primeiros anos de vida. Nenhuma crian\u00e7a chegava aos sete anos imaginando que <i>era<\/i> Johnny Quest, no m\u00e1ximo que desejava ser <i>como<\/i> Johnny Quest. Obviamente, as crian\u00e7as n\u00e3o achavam que eram o Pica Pau e nem queriam ser o Jerry.<\/p>\n\n\n\n<p>O mais importante disso tudo era que a crian\u00e7a praticamente se formava plenamente dotada da capacidade de conceber a fic\u00e7\u00e3o como algo l\u00fadico. A mentira, quando n\u00e3o utilizada para enganar e tirar vantagem dos outros, pode ser uma maneira de arrancar boas risadas ou de nos fazer sonhar com mundos diferentes deste cinzento em que vivemos.<\/p>\n\n\n\n<p><i>Talvez os livros escritos para essas crian\u00e7as j\u00e1 n\u00e3o funcionem com as de hoje.<\/i> O defeito n\u00e3o est\u00e1 nos livros terem envelhecido mal, est\u00e1 em termos educado mal a duas gera\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as, que agora cresceram sem essa vis\u00e3o l\u00fadica, que se tornaram adultos \u201cdefeituosos\u201d, incapazes de ver a mentira como uma divers\u00e3o inconsequente. Esses jovens, que se tornaram pais sem terem experimentado o prazer de ver um rato desenhado martelar a cabe\u00e7a de um gato idem, agora n\u00e3o conseguem compreender a literatura que eles n\u00e3o leram quando poderiam ter lido. <i>Esses pais est\u00e3o repassando aos seus filhos a limita\u00e7\u00e3o intelectual de n\u00e3o conseguirem \u201ccurtir\u201d a fantasia como algo neutro.<\/i><\/p>\n\n\n\n<p>Os desenhos antigos, epis\u00f3dios curtos e hist\u00f3rias fechadas, sa\u00edram da televis\u00e3o nos anos 1990. Foram substitu\u00eddos por outros; que n\u00e3o apenas s\u00e3o <i>mais bem feitos <\/i>(portanto, d\u00e3o realismo maior a coisas que s\u00e3o apenas fantasias); mas costumam contar as tramas em longos arcos com dezenas de epis\u00f3dios, sendo frequente que os acontecimentos de um epis\u00f3dio repercutam por toda a s\u00e9rie. Este formato \u201cnovelesco\u201d, a que se convencionou chamar de \u201csaga\u201d, d\u00e1 ao desenho um grau de \u201cseriedade\u201d. As crian\u00e7as n\u00e3o est\u00e3o acostumadas com a ideia de que se pode jogar uma bigorna no coiote no epis\u00f3dio de hoje e ele ainda estar\u00e1, l\u00e9pido e fagueiro, perseguindo o mesmo papa-l\u00e9guas no de amanh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p><i>As crian\u00e7as acostumadas a esses desenhos foram condicionadas a buscar, sempre, uma rela\u00e7\u00e3o de causa e consequ\u00eancia nas hist\u00f3rias. <\/i>Elas n\u00e3o querem que haja \u201cfuros\u201d de roteiro, elas buscam \u201cteorias\u201d que expliquem rela\u00e7\u00f5es entre personagens, at\u00e9 de filmes diferentes (<a href=\"https:\/\/www.proibidoler.com\/interessante\/a-teoria-frozen-a-conexao-entre-frozen-2013-enrolados-2010-tarzan-1999-e-a-pequena-sereia-1989\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">como as que ligam dois da Disney, \u201cRapunzel\u201d e \u201cFrozen\u201d<\/a>). A fantasia a que se acostumaram \u00e9 limitada, portanto, castradora. Por isso enxergam rela\u00e7\u00f5es de causa e efeito nas atitudes dos personagens dos livros do passado, assim como veem como \u201cfuros de roteiro\u201d os retornos do coiote depois de aplastado pelo fracasso de seu \u00faltimo grande plano.<\/p>\n\n\n\n<p><i>Nem \u00e9 preciso dizer que esse condicionamento intelectual das crian\u00e7as aconteceu porque foram criadas mais pela televis\u00e3o e pelo cinema do que pela literatura.<\/i> A literatura \u00e9 uma criadora de mentes livres, enquanto a televis\u00e3o e o cinema s\u00e3o ferramentas eficazes de lavagem cerebral. Para muitas pessoas, a televis\u00e3o \u00e9 uma divers\u00e3o ideal para seus filhos, porque n\u00e3o tem custo percept\u00edvel. Diferente dos livros, que sempre precisam ser adquiridos, que s\u00e3o danificados pelo uso e cujo armazenamento requer espa\u00e7o, a televis\u00e3o \u00e9 um investimento fixo, que ocupa um lugar determinado e que sempre apresenta conte\u00fado \u201cnovo\u201d, sem que seja preciso comprar novos exemplares. Especialmente as fam\u00edlias mais pobres, para quem o custo de aquisi\u00e7\u00e3o de livros sempre foi proibitivo, a televis\u00e3o se instalou na sala como uma verdadeira \u201cbab\u00e1 eletr\u00f4nica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><i>Isto afastou as crian\u00e7as da literatura ainda mais<\/i>. Os livros passaram a ser vistos como uma chatea\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para se vencer a educa\u00e7\u00e3o escolar. Meramente isso. Como a maioria das crian\u00e7as nunca tinha a possibilidade de possuir livros em casa, e seu contato com eles se dava s\u00f3 na escola, dentro de sala ou na biblioteca, o passo natural era que os associassem \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. <i>Isso tornou ainda mais dif\u00edcil que concebessem a leitura como algo l\u00fadico<\/i>. Aqui nos aproximamos do momento em que Ana Maria Machado, doce autora de livros infantis, recebe a mesma acusa\u00e7\u00e3o que um dia foi impingida a Ozzy Osbourne e Alice Cooper, cantores de <i>rock<\/i> de apar\u00eancia grosseira e atitudes vulgares.<\/p>\n\n\n\n<p><i>Se a leitura \u00e9 algo que somente ocorre como parte do processo educacional, disso se conclui que sempre tem car\u00e1ter did\u00e1tico. Portanto, todo o conte\u00fado do livro que a crian\u00e7a l\u00ea deve ser visto como ensinamento.<\/i> Obviamente, sob este prisma, se o livro narra que uma crian\u00e7a, ao desmaiar em um acidente, tem vis\u00f5es daqueles personagens que havia anteriormente criado em sua imagina\u00e7\u00e3o, isto s\u00f3 pode significar que ali se ensina a buscar o suic\u00eddio como um meio de alcan\u00e7ar o mundo da imagina\u00e7\u00e3o! N\u00e3o \u00e9 um racioc\u00ednio perfeito? Como ningu\u00e9m pensou nisso antes? Ningu\u00e9m pensou nisso antes porque, quando Ana Maria Machado publicou o livro originalmente, a nossa sociedade ainda n\u00e3o era doente o bastante para imaginar que a leitura serve apenas para ensinar. Porque, naquela \u00e9poca, as crian\u00e7as tinham certa sofistica\u00e7\u00e3o intelectual que lhes permitia discernir o real do abstrato, o fant\u00e1stico do concreto.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, duas gera\u00e7\u00f5es de pais que n\u00e3o leram, em uma cultura j\u00e1 atavicamente avessa \u00e0 leitura, tiveram o cond\u00e3o de criar pessoas para quem a literatura que nos resta \u00e9 algo que n\u00e3o <i>pode<\/i> dar prazer e para quem os livros s\u00e3o dotados de autoridade intr\u00ednseca. Essa gente, acostumada a pular quando o cantor manda que pulem, pensa que seus filhos se matar\u00e3o caso encontrem em um livro um personagem que se mata, ou que meramente alucina durante um desmaio. Est\u00e3o de tal forma condicionadas a obedecer comandos, expl\u00edcitos ou n\u00e3o, origin\u00e1rios de fontes impessoais e distantes, que acreditam que seus filhos os obedecer\u00e3o tamb\u00e9m. Isto coincidiu, tamb\u00e9m, com a introdu\u00e7\u00e3o em nossa cultura da religi\u00e3o protestante evang\u00e9lica e sua obsess\u00e3o pela B\u00edblia, o livro cujo conte\u00fado \u00e9 todo ensinamento e que, teoricamente, deve ser seguido por todo cidad\u00e3o (embora, de fato, os que mais o apregoem sejam os que menos o seguem).<\/p>\n\n\n\n<p><i><a href=\"http:\/\/memoria.ebc.com.br\/agenciabrasil\/noticia\/2012-04-01\/biblia-e-livro-mais-lido-pelo-brasileiro-e-monteiro-lobato-escritor-mais-admirado\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">A B\u00edblia \u00e9 o livro mais \u201clido\u201d pelos brasileiros.<\/a><\/i>N\u00e3o haveria nisso problema se o brasileiro lesse mais. Como lemos pouqu\u00edssimo, a maioria dos leitores da B\u00edblia pouco ou nada leram al\u00e9m dela. Devido \u00e0 rela\u00e7\u00e3o natural de respeito entre o fiel e o seu livro sagrado, cria-se instintivamente outra, id\u00eantica, entre o leitor e <i>qualquer livro.<\/i> N\u00e3o que este pense agir conforme obras n\u00e3o sagradas, mas que imaginar\u00e1 que estas tamb\u00e9m est\u00e3o repletas de \u201censinamentos\u201d. Ent\u00e3o, quando se deparar com um personagem fazendo qualquer coisa que n\u00e3o aprove, concluir\u00e1 que o livro tem por objetivo ensinar aquilo. N\u00e3o lhe ocorrer\u00e1 que aquele elemento pode ser apenas um entre muitos de uma hist\u00f3ria e que a sua recorr\u00eancia apenas reflete a busca de realismo, ou uma tentativa de caracterizar o personagem. N\u00e3o custa lembrar que Satan\u00e1s n\u00e3o aparece diretamente na B\u00edblia, portanto, os leitores de B\u00edblia n\u00e3o est\u00e3o acostumados, tampouco, \u00e0 ideia de que os livros possam ter antagonistas, narrados e detalhados em oposi\u00e7\u00e3o ao protagonista.<\/p>\n\n\n\n<p><i>Se n\u00f3s n\u00e3o desejamos que o nosso pa\u00eds se perpetue como uma na\u00e7\u00e3o de est\u00fapidos, \u00e9 preciso, urgentemente, que recuperemos a alegria de ler \u2014 e ler irresponsavelmente. <\/i>Temos uma tradi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria extraordinariamente rica e uma l\u00edngua muito apta a cultiv\u00e1-la. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que reduzamos todos os s\u00e9culos de evolu\u00e7\u00e3o da arte das letras aos \u201cparadid\u00e1ticos\u201d e aos <i>best-sellers. <\/i>Se n\u00e3o permitirmos que os nossos filhos compreendam que a leitura \u00e9 um jogo, que pode ser uma fonte de prazer, ent\u00e3o os nossos netos estar\u00e3o ainda mais lobotomizados e ser\u00e1 ainda mais dif\u00edcil aproxim\u00e1-los de nossa literatura, que \u00e9 parte da alma de nossa cultura.<\/p>\n\n\n\n<center>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr style=\"margin: 3ex auto 1ex auto; width: 50%; height: 4px;\" width=\"50%\" size=\"2\"\/>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/center>\n\n\n\n<div id=\"footer\">Mais sobre a complicada rela\u00e7\u00e3o do brasileiro com os livros:\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/06\/o-sabio-louco-e-o-ignorante-vigoroso\">O S\u00e1bio Louco e o Ignorante Vigoroso<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2011\/06\/o-fetiche-do-livro-e-a-polemica-dos-livros-didaticos-malditos\">O Fetiche do Livro e a Pol\u00eamica dos Livros Did\u00e1ticos Malditos<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/11\/o-odio-a-poesia\">O \u00d3dio \u00e0 Poesia<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2015\/03\/os-jovens-nao-estao-indo-alem\/\">Os Jovens N\u00e3o Est\u00e3o Indo Al\u00e9m<\/a><\/li>\n<li><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2017\/08\/ser-genio-em-uma-sociedade-ignorante\">Ser \u201cG\u00eanio\u201d em uma Sociedade Ignorante<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somos ainda um pa\u00eds em luta contra uma limita\u00e7\u00e3o incapacitante de nossa cultura: nosso dif\u00edcil relacionamento com o conhecimento de uma maneira geral e com a palavra escrita de forma particular. Este autor j\u00e1 se aventurou, em v\u00e1rios momentos, a comentar manifesta\u00e7\u00f5es dessa rela\u00e7\u00e3o conflituosa do brasileiro m\u00e9dio com os elementos caracter\u00edsticos da cultura formal. N\u00e3o espero que voc\u00ea leia todas as itera\u00e7\u00f5es anteriores do debate, mas as hiperliga\u00e7\u00f5es para as postagens transversais ao assunto est\u00e3o ao final. Esta postagem \u00e9 sobre mais uma pol\u00eamica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":5994,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[13,77,145,27,28,57],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5989"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5989"}],"version-history":[{"count":10,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5989\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6687,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5989\/revisions\/6687"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5994"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5989"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5989"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5989"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}