{"id":60,"date":"2013-03-31T17:10:00","date_gmt":"2013-03-31T20:10:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=60"},"modified":"2017-11-02T14:08:21","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:21","slug":"a-maravilhosa-estoria-do-senhor-sombra-e-da-senhorita-raio-de-luar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/03\/a-maravilhosa-estoria-do-senhor-sombra-e-da-senhorita-raio-de-luar\/","title":{"rendered":"A Maravilhosa Est\u00f3ria do Senhor Sombra e da Senhorita Raio de Luar"},"content":{"rendered":"<p>O amor do Senhor Sombra e da Senhora Raio de Luar come\u00e7ara muito complicado, levara d\u00e9cadas em um estado infrut\u00edfero, tant\u00e1lico, at\u00e9 finalmente desembocar naquela manh\u00e3 de abril, fria e \u00famida, em que ele se deu conta, pela primeira vez, de que ela sempre amanhecia doente quando faziam amor.<\/p>\n<p>Sombra tinha sido um her\u00f3i antes de desenvolver sua barriga e perder algumas mechas para o tempo. Ela tinha sido uma <em>femme fatale<\/em> inspiradora de crimes e amores juvenis antes de ganhar estrias, acumular quilos extraordin\u00e1rios e esquecer o h\u00e1bito de seduzir. Agora estavam amanhecendo pregui\u00e7osamentesozinhos em casa, sem as crian\u00e7as, que tinham partido na excurs\u00e3o da escola.<\/p>\n<p>Fazia quinze anos que estavam casados, dezesseis que deveriam ter sido de uma grande aventura. Mas ele estava tentando aparar o gramado com um tesour\u00e3o obsoleto enquanto ela resmungava na cozinha alguma coisa a respeito de dores, c\u00f3licas e saudades. O Senhor Sombra tomou outra golada de \u00e1gua gelada na tampa do gal\u00e3o t\u00e9rmico, tirou a luva para co\u00e7ar a sobrancelha onde mordera um mosquito, e voltou ao trabalho pensando em como deveria ter sido tudo, e como n\u00e3o fora.<\/p>\n<p>Quando o Senhor Sombra e a Senhora Raio de Luar se conheceram ele j\u00e1 era chamado de Senhor, embora o t\u00edtulo n\u00e3o falasse de idade, e ela era ainda senhorita. Eram jovens, certamente, mas nenhum dos dois saberia dizer quantos anos tinham, era como se houvessem aparecido no mundo subitamente, ganhando forma em um cen\u00e1rio branco. E assim se conheceram, de uma forma meio autom\u00e1tica, e sem que percebessem coisa alguma havia uma atra\u00e7\u00e3o inexplic\u00e1vel, um anel e um tempo indefinido de nega\u00e7as e esperas.<\/p>\n<p>O Senhor Sombra tinha antepassados vindos da \u00dambria e da Nig\u00e9ria, mas n\u00e3o sabia onde ficavam esses lugares. Seu mundo se limitava a uma cidade grande, imensa, mutante e moderna, cercada por uma extens\u00e3o selvagem e misteriosa, de desertos, plan\u00edcies, planaltos e florestas. Nunca tivera a curiosidade de sair de l\u00e1, nunca ningu\u00e9m tivera. Nem mesmo quando tinha a intui\u00e7\u00e3o estranha de que todos os seus atos eram medidos e coreografados por um destino intang\u00edvel, como os movimentos de um ator num palco de teatro. E que a cidade era esse palco, e as suas cercanias eram apenas cortinas.<\/p>\n<p>A Senhorita Raio de Luar era trapezista de um circo que misteriosamente nunca deixava a cidade. Onir\u00f3polis devia ser muito grande para sempre haver gente nova interessada nos mesmos n\u00fameros. Ali\u00e1s, o Senhor Sombra tampouco sabia quantos habitantes havia na cidade, sabia apenas que muitas vezes se cansara de cruz\u00e1-la em seu carro preto, dirigindo a esmo atr\u00e1s de crimes para combater ou desafios para enfrentar, mas em s\u00f3 duas ou tr\u00eas oportunidades encontrara alguma rua que n\u00e3o tivesse outra rua al\u00e9m, s\u00f3 nessas circunst\u00e2ncias vislumbrara a extens\u00e3o vazia e noturna, como uma fita isolante em torno de seu mundo.<\/p>\n<p><center><br \/>\n***<\/center><\/p>\n<p>Foi s\u00f3 depois de deixar Onir\u00f3polis que o Senhor Sombra se dera conta do qu\u00e3o pouco sabia de si mesmo, qu\u00e3o estranha era a vida que levava l\u00e1, e qu\u00e3o devagar se dera conta do absurdo. Era como se nunca houvesse dia, a sua vida se limitava a percorrer as noites, fantasiado de preto, usando aparelhos complicados e misteriosos artefatos, em busca de malfeitos para obstar, seres malignos para esconjurar ou injusti\u00e7as para reparar. Sabia que era um importante empres\u00e1rio, mas sua vida diurna era difusa como uma paisagem chuvosa. O dinheiro que tinha era t\u00e3o inexplic\u00e1vel quanto as muitas l\u00ednguas que falava quase sem sotaque. O seu passado era uma bruma, seu futuro uma eterna inc\u00f3gnita: inexplic\u00e1vel, il\u00f3gico e inesperado. S\u00f3 se salvava de ser destro\u00e7ado pela tens\u00e3o desta vida dif\u00edcil porque tinha uma motiva\u00e7\u00e3o sobre-humana contra o mal.<\/p>\n<p>Conhecera a Senhorita Raio de Luar ao desbaratar, sob a lona do Circo Oriental, uma das muitas tramoias do Senhor El\u00e9trico que, disfar\u00e7ado de palha\u00e7o, pretendia eletrocutar todos os espectadores e aprisionar suas almas em um aparato de leitura do futuro, com o qual queria se tornar capaz de controlar toda a economia. Fora um trabalho dos mais ingratos, doloroso e duro como uma queda de trap\u00e9zio. Sempre que sa\u00eda de uma aventura dessas se perguntava como poderia sobreviver a tanto improp\u00e9rio sem mais que umas costelas quebradas, que se curavam r\u00e1pido como um sonho. Tinha muitas cicatrizes em sua pele, claro, mas tinha ainda todos os dedos e unhas e fios de cabelo &#8212; o que \u00e0s vezes lhe parecia t\u00e3o imposs\u00edvel quanto estar vivo.<\/p>\n<p>Raio de Luar s\u00f3 se salvara de uma queda no abismo porque ele desejara salv\u00e1-la, num gesto desses que n\u00e3o tem como explicar, permitindo que o El\u00e9trico, o maldito, fugisse. Por que exatamente ele a salvara era outro mist\u00e9rio a mais, entre trezentos. Ela tinha sido uma das aliadas dele, talvez at\u00e9 amante. Tinha cometido sua cota de felonias e merecia a morte. Mas ele, movido por algo em que sequer pensara, a resgatara da queda e a pousara no ch\u00e3o, \u00e0 custa de um tornozelo deslocado e da perda da oportunidade de prender um inimigo p\u00fablico.<\/p>\n<p>Depois disso ela enfrentara a justi\u00e7a, como deveria ser. Muitas vezes ele a buscou, \u00e0 noite, pela janela externa da penitenci\u00e1ria, para lhe dizer alguma coisa, ou para ouvir. Nascera assim o amor inesperado, do vigilante mascarado e da vil\u00e3 encarcerada. Havia, por\u00e9m, um problema intranspon\u00edvel: n\u00e3o poderia visit\u00e1-la uniformizado, a pol\u00edcia nunca deixaria, e n\u00e3o poderia revelar sua identidade secreta. Por causa disso nunca teria podido haver visita \u00edntima e nem casamento. Somente quando, ou se, ela deixasse a cadeia. Mas isso era quase t\u00e3o dif\u00edcil quanto entender as dobras misteriosas do futuro. O tempo foi passando e as explica\u00e7\u00f5es foram acabando. Raio de Luar tampouco poderia esperar uma condicional t\u00e3o cedo: haviam sido muitos crimes, tinha inimigas em outras celas, enfrentou-as em rebeli\u00f5es, sofreu extens\u00f5es de pena, o tempo, o tempo\u2026 ora, o tempo.<\/p>\n<p>Um dia, por\u00e9m, ela saiu. Misteriosamente ela saiu. Mais uma vez parecia uma interven\u00e7\u00e3o divina. O Senhor Sombra p\u00f4de, ent\u00e3o, aproximar-se impunemente. Ela voltou ao seu trap\u00e9zio, no intermin\u00e1vel circo. Tantos anos e n\u00e3o perdera nenhuma agilidade, continuava lisa e bela, apenas tivera uma min\u00fascula tatuagem no bra\u00e7o, representando um cora\u00e7\u00e3o sangrento. Vivia em um apartamento simples, em um pr\u00e9dio pequeno, quase abandonado. Lugar perigoso demais para uma mulher sozinha. Mas ele sempre estava perto, inexplicavelmente, nos atentados mensais de criminosos mal intencionados. Mas o tempo\u2026 ora, o tempo.<\/p>\n<p>Um dia deu-se conta. Era incont\u00e1vel o tempo desde quando a conhecera. Tantos criminosos, tantas aventuras, tantos corpos desacordados nas sarjetas (misteriosamente quase ningu\u00e9m morria), tantas visitas, na cadeia ou fora. Mesmo assim era incont\u00e1vel. Pareciam quarenta anos, mas era imposs\u00edvel que fosse,pois se olhava no espelho e seu rosto moreno estava t\u00e3o bonito quanto se lembrava. Ou melhor, n\u00e3o se lembrava. Estava t\u00e3o bonito quanto os dos jovens de trinta anos. Como s\u00e3o, ou deveriam ser, os homens de setenta anos? Conhecia muita gente chamada de velha, mas n\u00e3o tinha ideia da rela\u00e7\u00e3o exata de apar\u00eancia com idade. Afinal ele mesmo existia h\u00e1 um tempo intermin\u00e1vel e n\u00e3o envelhecia. N\u00e3o entendia como achavam esquisito o Dr\u00e1cula: ele pelo menos tinha uma l\u00f3gica, a de que vampiros n\u00e3o envelhecem mesmo.<\/p>\n<p>Mas, muito pior do que esta dificuldade para se entender no mundo, era a tarefa de S\u00edsifo a que estava condenado. Cada noite combater o crime e nunca amanhecer em paz para um dia feliz. Que dias, ali\u00e1s, nunca tinha ideia exata do que fazia: era como se fosse sempre noite em sua vida, talvez tivesse sido por isso que escolhera se fantasiar de sombra &#8212; mas\u2026 escolhera?<\/p>\n<p>Mas, muito pior do que esta dificuldade para se realizar no que fazia, era a eterna tenta\u00e7\u00e3o nunca atendida de ter Raio de Luar entre seus bra\u00e7os. Beijos apenas, beijos de apar\u00eancia, beijos sem conte\u00fado, sem nada mais. Haveria algo mais? Por que raz\u00e3o os seres se atra\u00edam, faziam loucuras um pelo outro, como deixar escapar o inimigo ou visitar uma condenada atrav\u00e9s das grades de sua janela na cadeia? O que haveria no mundo para estimular este absurdo? Viveriam os amores apenas de beijos e l\u00e1grimas de saudade?<\/p>\n<p>Um dia, sim, essa palavra existia, p\u00f4de fazer alguma coisa diferente, tentar sobreviver \u00e0 rebeldia, reunir for\u00e7as para existir como queria. Mais uma madrugada amanhecia quando se recolheu \u00e0 sua cama mas, depois de um cochilo breve, acordou num sobressalto e teve uma sensa\u00e7\u00e3o, absurda e surreal, de que estava sozinho. Sozinho como se fosse a primeira vez na vida, sozinho como se o universo n\u00e3o existisse fora das paredes de seu quarto. Mas tinha sono, tanto sono, um sono invenc\u00edvel, sono de uma vida inteira.<\/p>\n<p>Levantou-se da cama, arrastando os p\u00e9s descal\u00e7os no ch\u00e3o de madeira encerada, e foi na dire\u00e7\u00e3o aproximada da cozinha. As suas costas pesavam quarenta toneladas, suas p\u00e1lpebras teriam afundado um navio se repousassem sobre o casco. Fez um caf\u00e9 r\u00e1pido na cafeteira el\u00e9trica. Um caf\u00e9 turco do mais negro e espesso que pudera pensar. Bebeu sem a\u00e7\u00facar, mas com muita vontade. Quente e denso, o l\u00edquido desceu despertando seus sentidos. Foi ao banheiro e tomou um longo banho gelado, lavando a cabe\u00e7a e cada cent\u00edmetro quadrado de seu corpo. Lavava at\u00e9 a alma se fosse poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Vestiu ent\u00e3o uma roupa esporte, simples. Camisa branca de gola redonda, cal\u00e7a jeans desbotada, uma botina de couro preto. N\u00e3o se lembrava de ter antes sa\u00eddo durante o dia. Nem de ter trabalhado. Era milion\u00e1rio, isso lhe bastava. Era empres\u00e1rio, mas de qual empresa?<\/p>\n<p>Abriu a porta e seus olhos doeram. L\u00e1 fora estava claro como se quarenta mil l\u00e2mpadas estivessem acesas. Um carro que parecia de corrida, todo colorido, passou chispando pela avenida que se via ao longe. Ouviu uma sirena de pol\u00edcia, um carro negro lhe veio em persegui\u00e7\u00e3o. Teve uma vontade impetuosa de vestir-se de her\u00f3i e ir atr\u00e1s, mas esqueceu-se disso quando algo passo voando, colorido,e pousou na estrada, segurando o carro.<\/p>\n<p>Reparou ent\u00e3o que sua casa parecia muito diferente: em vez da mans\u00e3o de magnata que esperava, estava em uma resid\u00eancia de sub\u00farbio, bem modesta, em um bairro que ficava no alto de um morro. O carro estacionado ao lado, na garagem, n\u00e3o era o Lamborghini preto que algumas vezes usara, quando se movera pela noite usando sua identidade secreta, mas um Opala antigo, com trinta anos ou mais de uso, e era cinzento.<\/p>\n<p>Teve de abrir a porta da garagem, que n\u00e3o era autom\u00e1tica. Ligou o carro quase esperando que ele explodisse, mas ele funcionou perfeitamente como s\u00f3 os carros de mentira conseguem. Saiu de r\u00e9 com uma manobra de cinema, fechou a porta e saiu pela rua de paralelep\u00edpedos em dire\u00e7\u00e3o a um endere\u00e7o conhecido.<\/p>\n<p>A rua estava diferente, talvez de dia as cores das casas real\u00e7assem de uma maneira que de noite era imposs\u00edvel ver, ou talvez fizesse muito tempo. Quanto tempo? Era sempre t\u00e3o dif\u00edcil saber. Raramente via calend\u00e1rios. Mas sabia o nome da rua, sabia o n\u00famero. Devia ser aquele pr\u00e9dio, lembrava-se da cornija em forma de le\u00e3o. O porteiro n\u00e3o o reconheceu, isso era bom. Afinal, nunca estivera ali de cara descoberta, nem entrara pela porta da frente.<\/p>\n<p>Enquanto subia pelo elevador, teve remorsos de n\u00e3o ter comprado flores. Mas se desculpou lembrando que a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o admitia mesmo nenhuma premedita\u00e7\u00e3o. Esta ali escondido de algo que n\u00e3o sabia o que, fugido de maquina\u00e7\u00f5es alien\u00edgenas, e n\u00e3o sabia quanto tempo poderia ainda ter aquela independ\u00eancia. Achou a porta do apartamento dela, felizmente viu que o enfeite roxo estava l\u00e1: era ainda quaresma e a Raio de Luar tinha redescoberto na pris\u00e3o o seu catolicismo. Aquele enfeite era uma evid\u00eancia confortante de que ela deveria mesmo morar ali.<\/p>\n<p>Tocou a campainha, que soou como um sino dentro de uma sala vazia. Tocou de novo, de novo. Ningu\u00e9m vinha, nenhum passo se arrastava pelo ch\u00e3o. Bateu na porta, com afeto e depois com for\u00e7a, com desespero, com l\u00e1grimas. Inexplic\u00e1vel que nenhum vizinho abrisse a porta ou chamasse a pol\u00edcia. De repente sentiu a porta estremecer em suas dobradi\u00e7as, testou a ma\u00e7aneta e viu que estava aberta.<\/p>\n<p>O apartamento estava protegido por cortinas pesadas, que quase n\u00e3o deixavam entrar nenhuma luz. Mas ele sabia enxergar bem no escuro, e logo reconheceu a mob\u00edlia, as parti\u00e7\u00f5es, os quadros na parede, entre eles um que ela mesmo pintara na pris\u00e3o, com a imagem de uma pomba negra bicando canjica pelo ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Raio de Luar estava deitada em dec\u00fabito dorsal, como um cad\u00e1ver. A camisola estava torta no corpo como se o sono estivesse agitado, e metade da coberta se embolava no ch\u00e3o, ao p\u00e9 da cama. Dormia com a boca entreaberta, os cabelos em desalinho total, os bra\u00e7os moles, pendendo da cama como ramalhetes de orqu\u00eddeas.<\/p>\n<p>Teve d\u00f3 de acord\u00e1-la, claro. Que belos sonhos aquela mulher n\u00e3o teria! Mas n\u00e3o viera para contempl\u00e1-la adormecida. Aproximou-se da cabeceira, agachou-se ao lado dela, e come\u00e7ou a gentilmente sacudi-la, cutuc\u00e1-la. Ela estava quente, o seu cora\u00e7\u00e3o batia, a sua carne estava d\u00factil e o seu corpo cheirava a sono e pregui\u00e7a. Mas n\u00e3o manifestava nenhuma capacidade de acordar. Insistiu, foi bruto at\u00e9, em desespero novamente. Mas era como agitar o corpo de uma morta.<\/p>\n<p>&#8212; Raio de Luar, meu amor, acorda!<\/p>\n<p>Afastou a cortina e viu que o sol j\u00e1 ia bem alto no c\u00e9u. A luz bateu no corpo p\u00e1lido de sua amada e ele se sentiu estranho, como se a visse pela primeira vez. Saiu pela casa, aparvalhado, abrindo cortinas e trope\u00e7ando em coisas. A luz invadiu o apartamento, revelando cores que as l\u00e2mpadas fracas nunca mostravam. Programou a cafeteira para um expresso ainda mais forte do que o seu no desjejum recente. Voltou ao quarto e estava quente, mais em si do que no mundo. Despejou as cobertas num canto do quarto, virou Raio de Luar sobre a cama, como se ela fosse uma pe\u00e7a de carne no a\u00e7ougue, deixou o sol bater sobre suas formas perfeit\u00edssimas, refletindo de volta um brilho marm\u00f3reo. Subitamente deu-se conta de que o brilho n\u00e3o era somente nela. Olhou seus bra\u00e7os luzindo como pe\u00e7as de \u00e9bano. Cintila\u00e7\u00f5es esf\u00e9ricas que nunca vira salpicavam sua pele morena. Ent\u00e3o, pela primeira vez, teve a impress\u00e3o de que ela despertava. Correu \u00e0 cozinha e buscou o caf\u00e9.<\/p>\n<p>&#8212; Acorda, amor, acorda, por favor!<\/p>\n<p>Ela balbuciava frases misturadas, ele lhe dava caf\u00e9 como quem cuida de um beb\u00ea. O sabor forte lhe agrediu a l\u00edngua, ela cuspiu e acordou xingando:<\/p>\n<p>&#8212; Que coisa horr\u00edvel \u00e9 essa!?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o viu.<\/p>\n<p>&#8212; Quem \u00e9 voc\u00ea!?<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea n\u00e3o vai acreditar, porque nunca me viu sem m\u00e1scara.<\/p>\n<p>&#8212; Sombra.<\/p>\n<p>&#8212; Como soube?<\/p>\n<p>&#8212; Pela voz, claro.<\/p>\n<p>Naquele momento o Senhor Sombra se deu conta do inexplic\u00e1vel, novamente: como fora poss\u00edvel, em tantos anos, que ningu\u00e9m jamais reconhecesse sua voz!<\/p>\n<p>&#8212; Bem, eu\u2026 n\u00e3o sei exatamente porque vim at\u00e9 aqui, mas eu despertei pouco depois do amanhecer, de um sono agitado, sentindo-me mal. Ent\u00e3o me dei conta de que havia tanta coisa que eu queria dizer, queria lhe perguntar. Coisas que, inexplicavelmente, eu nunca pudera sequer pensar direito, mas que vinham me incomodando.<\/p>\n<p>&#8212; Coisas como\u2026<\/p>\n<p>&#8212; Como estarmos juntos h\u00e1 tanto tempo, vivendo um relacionamento t\u00e3o\u2026 vazio, t\u00e3o\u2026 coreografado.<\/p>\n<p>Ela ergueu os cabelos acima da cabe\u00e7a, como se quisesse arranc\u00e1-los, e disse:<\/p>\n<p>&#8212; J\u00e1 n\u00e3o era sem tempo! At\u00e9 eu estava me sentindo assim. Estranhando o modo como as coisas estavam acontecendo. Voc\u00ea me vendo sempre nas madrugadas, nunca aparecendo para o almo\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8212; Almo\u00e7o?<\/p>\n<p>Quase instantaneamente o Senhor Sombra se deu conta de que, embora conhecesse a palavra, n\u00e3o tinha nenhuma lembran\u00e7a de jamais ter almo\u00e7ado. Ali\u00e1s, nem ela, como logo confessou.<\/p>\n<p>&#8212; Vou tomar um banho.<\/p>\n<p>Ela se dirigiu ao banheiro levando uma toalha limpa, retirada do guarda-roupa,e o Senhor Sombra se dirigiu at\u00e9 a sala. Havia l\u00e1 um piano antiquado, coberto de poeira. Levantou o len\u00e7ol que o cobria, destampou o teclado e correu o dedo pelas teclas brancas, experimentando-o. O som saiu l\u00edmpido e perfeito, quase irreal. Lembrou-se ent\u00e3o: sabia tocar piano. Gra\u00e7as a esse talento frustrara um plano do Bombeiro, que ligara uma bomba ao teclado do \u00f3rg\u00e3o da Catedral de Onir\u00f3polis. Como n\u00e3o seria poss\u00edvel desarmar o dispositivo antes do servi\u00e7o lit\u00fargico, conseguira deslocar a tecla de acionamento para uma nota que n\u00e3o seria usada na missa. Sentou-se, ent\u00e3o, ao piano e tentou dedilhar algum acoisa. Descobriu, ent\u00e3o, que n\u00e3o conseguia.<\/p>\n<p>Isso o intrigou, enquanto ouvia o chuveiro chiando. O que estaria acontecendo em sua vida? Ansiava quase para que a noite viesse e ele voltasse a ser um her\u00f3i cheio de recursos combatendo o crime. Mas ent\u00e3o pensou: at\u00e9 quando, e por que? Sentia-se andando em c\u00edrculos, e cada vez mais longe de qualquer coisa que valesse a pena.<\/p>\n<p>Teve a intui\u00e7\u00e3o de alguma coisa quando Raio de Luar saiu do banheiro, j\u00e1 vestida e maquiada:<\/p>\n<p>&#8212; Querida, \u00e9 melhor n\u00e3o perder tempo tentando cozinhar. Vamos comer em um restaurante enquanto pensamos no que fazer.<\/p>\n<p><center><br \/>\n***<\/center><\/p>\n<p>Duas pombas pousaram no comedouro localizado no canto do quintal, arrulhando furiosamente e atrapalhando as lembran\u00e7as do Senhor Sombra. Ele se levantou, olhou para tr\u00e1s, viu todo o trecho que j\u00e1 capinara e podara, e viu que havia feito um bom trabalho.<\/p>\n<p>Deixou as ferramentas em um compartimento junto da escada e subiu para a varanda dos fundos. Enquanto limpava as m\u00e3os no tanque de lavar roupas, ainda com as lembran\u00e7as frescas na mem\u00f3ria, convidou Raio de Luar para almo\u00e7ar fora:<\/p>\n<p>&#8212; Sabe, mulher, hoje faz quinze anos que estamos casados. Eu ainda me sinto muito surpreso com essa facilidade de contar datas e tempos. Dou valor a isso, sendo domingo ou n\u00e3o. Por isso, larga esse fog\u00e3o, toma um banho e p\u00f5e uma roupa bonita e vamos comer em algum restaurante bonito, vamos lembrar daquele dia em que apareci na sua casa, do nada, e a levei para comer um hamb\u00farguer pela primeira vez.<\/p>\n<p>Raio de Luar parou de arear a panela e o contemplou com uma express\u00e3o amassada no rosto. Depositou a panela dentro da pia da cozinha e come\u00e7ou a chorar.<\/p>\n<p>&#8212; Eu sei, querida, n\u00e3o est\u00e1 sendo f\u00e1cil para nenhum de n\u00f3s. Mas eu quero crer que ainda seja poss\u00edvel tentar ser feliz nesse mundo.<\/p>\n<p>&#8212; Nem nesse e nem naquele, Rog\u00e9rio.<\/p>\n<p>Tinha adotado esse nome, o da sua identidade secreta.<\/p>\n<p>&#8212; Mas voc\u00ea vai, pelo menos, ficar um pouquinho menos triste por deixar de cozinhar nesse domingo bonito e comer alguma coisa em um restaurante? Depois a gente vai ao parque dar pipoca aos pombos, ver um filme no cinema, lembrar como era\u2026<\/p>\n<p>Ela se aproximou e o abra\u00e7ou com for\u00e7a e abandono. N\u00e3o conseguia parar de chorar.<\/p>\n<p>&#8212; Por que viemos para c\u00e1, Rog\u00e9rio? Por que?<\/p>\n<p>&#8212; Por isso &#8212; ele respondeu enquanto dirigia sua cabe\u00e7a para cima e a beijava. Ela se rendeu, deixou que ele desprendesse as al\u00e7as do vestido e fizeram amor naquela manh\u00e3, sob o olhar surpreso das pombas que tinham vindo pela canjica do comedouro.<\/p>\n<p>A rua estava cheia de gente naquela manh\u00e3 fresca. Carros iam e vinham, alguns em velocidade um tanto alta. O Senhor Sombra andava cuidadoso, com os bra\u00e7os firmemente tran\u00e7ados com os da Senhora Raio de Luar. Levava no rosto uma secreta e provis\u00f3ria felicidade, capaz de esboroar-se com qualquer esbarr\u00e3o. Procuraram o restaurante da esquina, o mesmo onde haviam comido juntos pela primeira vez em suas novas vidas, dezesseis anos antes. A propriet\u00e1ria, com seus dentes incisivos proeminentes e suas unhas bem pintadas, continuava cumprimentando-os como se fossem amigos de uma outra encarna\u00e7\u00e3o. Tinha sido t\u00e3o importante encontr\u00e1-la, ou teriam, talvez, morrido de fome nos primeiros dias, em que n\u00e3o sabiam cozinhar e nem o que fazer. Mas o tempo passara, ele se tornara o que sempre quisera ser, um vendedor de eletrodom\u00e9sticos, e ela ambos haviam aprendido tudo que precisavam saber a respeito do mundo. Dezesseis anos, muito tempo, tempo para aprender a viver de novo.<\/p>\n<p>Antes do almo\u00e7o pediram uma cerveja. Bebida que o Senhor Sombra s\u00f3 descobrira depois de casado. Antes nunca ousara beb\u00ea-la, pois sempre s\u00f3 a via ser consumida por bandidos. Mas a liberdade lhe mostrara que n\u00e3o precisava cometer crimes para apreciar o \u00e1lcool, e isto apenas lhe produzia a protuberante barriga de que n\u00e3o conseguia se livrar.<\/p>\n<p>Raio de Luar pegou o jornal do dia e come\u00e7ou a ler, enquanto ele, contemplando as bolhas de g\u00e1s que subiam pelo copo, come\u00e7ou a novamente lembrar os velhos tempos em Onir\u00f3polis, em que a vida era frustrante, mas era simples, era sombria, mas era simples. Simples, que saudade sentia de um mundo em que os maus andavam de uniforme, nenhum plano mal\u00e9fico era bem sucedido e todas as pessoas boas viviam felizes a maior parte do tempo.<\/p>\n<p>Mas sempre que pensava nas boas coisas, coisas que mereciam essas saudades, lembrava tamb\u00e9m da sensa\u00e7\u00e3o de eterna vigil\u00e2ncia, de futuro demarcado a ferro, de andar em c\u00edrculos em torno de nada, em uma cidade que parecia uma casa de bonecas muito grande. Ao contr\u00e1rio de Raio de Luar, n\u00e3o tinha nenhum arrependimento. Sabia que rugas e artrite eram o pre\u00e7o que pagaria, mas at\u00e9 mesmo a dor que sentia nas madrugadas lhe contava que estava vivo, e que isto era muito bom, at\u00e9 morrer seria bom. Mas n\u00e3o seria como as d\u00e9cadas sem sentido que passara vegetando pelos becos e sombras combatendo crimes est\u00fapidos, cometidos por gente sem sentido.<\/p>\n<p>Naquele dia em que conseguira permanecer desperto, descobrira muitas coisas. Principalmente descobrira o quanto ignorava sobre o mundo em que vivia. Principalmente descobrira como era sem rumo e sem no\u00e7\u00e3o o tipo de vida que vivia. Conseguira permanecer desperto outras vezes depois daquele dia, a poder de muito caf\u00e9 e disciplina. Sentia-se cansado demais certas noites, mas n\u00e3o tinha receio disso porque o crime nunca venceria, conforme percebera. Ent\u00e3o, quando completou seu entendimento e compreendeu o seu desespero, decidiu que precisava fazer alguma coisa a respeito.<\/p>\n<p><center><br \/>\n***<\/center><\/p>\n<p>Quem lhe dera a ideia fora o Mestre Magn\u00e9tico. Fora de suas obriga\u00e7\u00f5es noturnas de vilania, ele era um pacato professor &#8212; ou deveria ser, visto que, tal como o Senhor Sombra, ele tampouco conseguia viver durante o dia. H\u00e1 muitos anos concebera uma m\u00e1quina capaz de explorar dimens\u00f5es alternativas, e a utilizara para trazer misteriosos alien\u00edgenas a Onir\u00f3polis, seres malignos que quase destru\u00edram a cidade, e que em nada obedeciam a ningu\u00e9m. Sombra derrotara a todos e o Mestre Magn\u00e9tico, percebendo que n\u00e3o tinha controle sobre quem trazia, desaparecera com a m\u00e1quina.<\/p>\n<p>Mas, se era poss\u00edvel trazer coisas e gente de outras dimens\u00f5es, certamente era tamb\u00e9m poss\u00edvel levar para outros planos de exist\u00eancia. Este fora o racioc\u00ednio do Senhor Sombra, a fagulha de intui\u00e7\u00e3o que faltara ao Magn\u00e9tico. Sombra foi \u00e0 sua casa para acord\u00e1-lo numa manh\u00e3 de domingo, acompanhado de Raio de Luar.<\/p>\n<p>O Mestre Magn\u00e9tico vivia em uma casa colonial no cume de uma colina, cercada de pomares cheirosos e lagos artificiais cheios de peixes. Era no subterr\u00e2neo da colina que se localizava o seu laborat\u00f3rio vilanesco, mas disso Sombra ainda n\u00e3o sabia. Ali\u00e1s, s\u00f3 soubera da sua identidade civil recentemente, numa de suas andan\u00e7as diurnas, ao tamb\u00e9m reconhecer a sua voz. Fora ent\u00e3o que, tamb\u00e9m, se dera conta de n\u00e3o ser o \u00fanico que, \u00e0s vezes, perambulava sonambulante pelas ruas de Onir\u00f3polis durante o dia. Obtivera esta informa\u00e7\u00e3o, mas a mantivera secreta consigo, tentando ocult\u00e1-la de seu misterioso acossador, ainda que pensasse que ele conseguia ler at\u00e9 seus pensamentos mais secretos e medos. Por sorte, suas noites de aventuras eram t\u00e3o movimentadas que n\u00e3o lhe sobrava mais muito tempo para pensar.<\/p>\n<p>O pacato professor estava dormindo como normalmente fazia, depois de uma noite de trapa\u00e7as eletromagn\u00e9ticas para desativar os sistemas de seguran\u00e7a dos bancos e roubar barras de ouro. Um plano est\u00fapido como todos os outros de todos os bandidos, porque n\u00e3o havia exatamente o que fazer com tanto ouro, a n\u00e3o ser, talvez, derret\u00ea-lo e dourar o pr\u00f3prio cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Raio de Luar n\u00e3o teve a sutileza do Senhor Sombra. Em vez de acordar Patr\u00edcio Alves com gentis pux\u00f5es e empurr\u00f5es, atirou-lhe \u00e0 cara uma caneca de \u00e1gua gelada e depois lhe tascou um belisc\u00e3o na coxa, perto da genit\u00e1lia. Ele acordou berrando como um boi ferroado e dando chutes perdidos no ar. Ao ver os dois diante de sua cama, entrou em p\u00e2nico como um colegial diante do inspetor de salas.<\/p>\n<p>&#8212; Q-quem s\u00e3o voc\u00eas, o que querem?<\/p>\n<p>&#8212; Calma, Mestre Magn\u00e9tico &#8212; disse o Senhor Sombra &#8212; n\u00e3o precisa ter medo.<\/p>\n<p>&#8212; Quem? C-como v-voc\u00eas sabem?<\/p>\n<p>&#8212; E voc\u00ea acha que ningu\u00e9m sabe, Pato? &#8212; brincou Raio de Luar.<\/p>\n<p>&#8212; M-mas, c-como n-ningu\u00e9m n-unca&#8230;?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o tente entender.<\/p>\n<p>Levaram mais de quarenta minutos para explicarem ao assustado vil\u00e3o tudo o que j\u00e1 haviam descoberto sobre a vida, o universo e tudo o mais. Quando terminaram, ele empertigou o corpo, acertou os \u00f3culos sobre o nariz e decretou, com sua l\u00f3gica de cientista maluco:<\/p>\n<p>&#8212; Tudo faz sentido, tudo se encaixa. Voc\u00eas t\u00eam toda raz\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Ent\u00e3o, o que me diz, Mestre Magn\u00e9tico? Vai nos ajudar nessa loucura?<\/p>\n<p>&#8212; Por que eu os ajudaria?<\/p>\n<p>&#8212; Porque ficaria livre de mim definitivamente, e n\u00e3o haveria ningu\u00e9m para impedir os seus planos mais loucos.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 uma oferta tentadora, mas agora que sei tudo isso que me contaram, n\u00e3o me parece que haja mais qualquer vantagem em ficar aqui e imperar sobre esse nada.<\/p>\n<p>O Mestre Magn\u00e9tico se aproximou da janela, contemplando a cidade que brilhava sob o sol, estendida at\u00e9 perder-se no horizonte.<\/p>\n<p>&#8212; Eu vou ajud\u00e1-los. Mas se o que penso em fazer der certo, eu n\u00e3o vou ficar aqui para levar adiante meus planos malucos. Vou com voc\u00eas, para tentar realizar os meus verdadeiros sonhos.<\/p>\n<p>&#8212; De que voc\u00ea est\u00e1 falando, Pato?<\/p>\n<p>&#8212; Todo esse dinheiro que eu sonhava em roubar s\u00f3 tinha por objetivo financiar minhas pesquisas com o objetivo de deixar esta cidade-ilha no meio nada e ir at\u00e9 onde eu pudesse fazer o que realmente queria fazer: ser um cientista de verdade, descobrir coisas, ser reconhecido por isso.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o vejo nenhum motivo para desconfiar que d\u00ea errado. Voc\u00ea trouxe criaturas vivas de outras dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8212; Tudo \u00e9 uma quest\u00e3o de se descobrir a dimens\u00e3o adequada.<\/p>\n<p>O sol j\u00e1 ia baixo no c\u00e9u quando os tr\u00eas desceram pelo elevador do laborat\u00f3rio secreto do Mestre Magn\u00e9tico levando tudo o que pretendiam levar de Onir\u00f3polis ao al\u00e9m. O Senhor Sombra n\u00e3o levava seu uniforme, mas n\u00e3o deixaria para tr\u00e1s alguns de seus utens\u00edlios de combate ao crime. N\u00e3o levaria nenhum dinheiro, somente documentos, um lanche para viagem e uma caixinha de primeiros socorros. Levava roupas tamb\u00e9m. Tudo dentro de uma mochila e de uma mala. A Senhorita Raio de Luar levava maquiagem, roupas, esmaltes de unha e uma pistola de bolso.<\/p>\n<p>&#8212; Acho que v\u00e3o precisar disso &#8212; disse o Mestre Magn\u00e9tico enquanto lhes entregava uma caixa de madeira t\u00e3o pesada quanto um paralelep\u00edpedo.<\/p>\n<p>&#8212; O que \u00e9 isso?<\/p>\n<p>&#8212; Abra e veja.<\/p>\n<p>Dentro haviam pequenos fragmentos dourados, como se tivessem passado uma barra de ouro por um moedor de carne, na engrenagem grossa.<\/p>\n<p>&#8212; Isso \u00e9 o que parece?<\/p>\n<p>&#8212; Claro que sim.<\/p>\n<p>&#8212; Onde conseguiu?<\/p>\n<p>&#8212; Onde voc\u00ea acha? Fruto de meus crimes, mas tamb\u00e9m fruto da jazida que havia sob essa montanha que eu esvaziei para construir meu laborat\u00f3rio.<\/p>\n<p>&#8212; E voc\u00ea est\u00e1 nos dando isso, assim?<\/p>\n<p>&#8212; Para um cientista, Senhor Sombra, nada \u00e9 mais valioso do que o conhecimento. Hoje voc\u00ea me trouxe informa\u00e7\u00f5es preciosas, que me ajudaram a chegar a conclus\u00f5es que nem sonhava. Com essas informa\u00e7\u00f5es, eu obtive novos conhecimentos e tive ideias para novos objetivos em minha vida. Considere isso como um pagamento. E acredite, ouro deve ser uma das poucas coisas que conservam valor em todas as dimens\u00f5es, pelo menos naquelas onde h\u00e1 civiliza\u00e7\u00f5es. E \u00e9 para uma dessas que desejamos ir.<\/p>\n<p>&#8212; Agradecido &#8212; disse o Senhor Sombra, indiferente ao fato de que estava se apossando de algo que poderia ter sido produto de roubo.<\/p>\n<p>&#8212; Todos de posse de suas malas e mochilas! &#8212; ordenou o Mestre Magn\u00e9tico.<\/p>\n<p>Girando um controle de v\u00e1lvula da velha m\u00e1quina dimensional, ele p\u00f4s em funcionamento um ru\u00eddo infernal de martelos batendo e engrenagens girando, que logo foi substitu\u00eddo pelo assobio discreto de circuitos trabalhando em carga el\u00e9trica m\u00e1xima.<\/p>\n<p>Um c\u00edrculo viol\u00e1ceo come\u00e7ou a aparecer na parede, tornando-se progressivamente transl\u00facido. Logo parecia poss\u00edvel enxergar atrav\u00e9s da nata roxa uma paisagem desolada, por onde perambulavam criaturas parecidas com os monstros que o Mestre Magn\u00e9tico um dia trouxera a Onir\u00f3polis.<\/p>\n<p>&#8212; Foi desse lugar que voc\u00ea trouxe os monstros aquela vez?<\/p>\n<p>&#8212; Sim, eu os atra\u00ed mostrando-lhes peda\u00e7o de carne atrav\u00e9s da janela dimensional.<\/p>\n<p>&#8212; Tente outro lugar, esta dimens\u00e3o n\u00e3o me parece muito agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>O Mestre Magn\u00e9tico fu\u00e7ou nos controles, empurrando alavancas, girando v\u00e1lvulas e apertando bot\u00f5es em gestos c\u00f4micos. Outra paisagem apareceu, escura e sem vida. Os gestos engra\u00e7ados se repetiram. Uma intermin\u00e1vel extens\u00e3o de \u00e1gua apareceu, talvez aquilo que se chamava de &#8220;mar&#8221;, mas que o Senhor Sombra nunca tivera diante de si.<\/p>\n<p>&#8212; Espere um pouco.<\/p>\n<p>O Senhor Sombra aproximou-se da janela, tendo at\u00e9 vontade de levar a m\u00e3o at\u00e9 aquela \u00e1gua que oscilava como um bal\u00e9 celestial. Chegou a sentir borrifos de umidade em seu rosto, com um cheiro acre e frio. Por\u00e9m conclui que tampouco seria recomend\u00e1vel pousar naquele lugar. Fez um gesto e o barulho das engrenagens se ouviu de novo. E outra paisagem apareceu. E outra, outra, e outra. V\u00e1rias paisagens, de diversos tipos e planetas.<\/p>\n<p>Por fim, depois de minutos longos e tensos, diante da descida amea\u00e7adora do sol, anunciando a noite que os obrigaria \u00e0 vigil\u00e2ncia sempiterna do Invis\u00edvel, apareceu diante de seus olhos a vis\u00e3o e uma cidade pacata e relativamente pequena, com ruas largas e arborizadas que, em alguns lugares, se conectavam com estradas de asfalto at\u00e9 se perderem no horizonte.<\/p>\n<p>Raio de Luar se aproximou e acenou positivamente com a cabe\u00e7a. Aquele era um bom lugar para chegar. Havia vida, havia pessoas, havia estradas que levavam ao longe, havia at\u00e9 mesmo, quem poderia dizer, um caminho at\u00e9 o mar.<\/p>\n<p>&#8212; \u00c9 aqui, Magn\u00e9tico.<\/p>\n<p>Ele aumentou o ritmo do gerador, alargando a janela at\u00e9 caber com folga um corpo humano.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o temos muito tempo &#8212; disse o vil\u00e3o, vendo que o sol j\u00e1 tocava a f\u00edmbria do horizonte. \u00c9 um momento de decis\u00e3o, podemos n\u00e3o ter outra chance nunca!<\/p>\n<p>Sombra e Raio de Luar se deram as m\u00e3os, cheios da coragem que o t\u00e9dio d\u00e1, e saltaram pela janela.<\/p>\n<p><center><br \/>\n***<\/center><\/p>\n<p>O almo\u00e7o chegou. Comida simples e barata, mas feita com limpeza e cuidado. O Senhor Sombra enrolou macarr\u00e3o no garfo, molhou na lagoa de feij\u00e3o que ocupava um ter\u00e7o do prato, e come\u00e7ou a degustar aqueles sabores caseiros.<\/p>\n<p>Raio de Luar deixou o jornal sobre a mesa vizinha, para outro fregu\u00eas se distrair, e come\u00e7ou a misturar a vagem com o arroz, como gostava de fazer.<\/p>\n<p>&#8212; Condenaram o Pato.<\/p>\n<p>&#8212; De novo?<\/p>\n<p>&#8212; Desta vez foi pior. Seu \u00faltimo invento matou bastante gente. Sorte que nesse pa\u00eds n\u00e3o tem pena de morte, como em outros.<\/p>\n<p>&#8212; Sorte? N\u00e3o vejo sorte em deixar vivo um vil\u00e3o que mata tantas pessoas. Isso n\u00e3o \u00e9 bom nem para o vil\u00e3o. Que droga de vida passar d\u00e9cadas atr\u00e1s das grades, em celas imundas!<\/p>\n<p>&#8212; Acho que dev\u00edamos visitar.<\/p>\n<p>&#8212; Acho que n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Por que n\u00e3o, Rog\u00e9rio?<\/p>\n<p>&#8212; Clarice, por favor! N\u00e3o vamos come\u00e7ar com isso de novo. N\u00f3s nos demos relativamente bem aqui nessa cidade. Temos bons empregos, boa casa, somos respeitados pelas pessoas, as crian\u00e7as est\u00e3o bem. Por que vamos nos envolver com um cara que n\u00e3o consegue se adaptar, que teve uma chance e jogou fora?<\/p>\n<p>&#8212; Porque? Ora, Rog\u00e9rio! Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 humano. Voc\u00ea n\u00e3o entende!<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o entendo o que, Clarice?<\/p>\n<p>&#8212; Pato \u00e9 uma v\u00edtima de tudo isso, tal como eu e voc\u00ea!<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o me sinto v\u00edtima, Clarice. Estou muito feliz como estou!<\/p>\n<p>&#8212; Voc\u00ea \u00e9 um ego\u00edsta, voc\u00ea j\u00e1 esqueceu completamente tudo que aconteceu l\u00e1!<\/p>\n<p>&#8212; Eu n\u00e3o sou t\u00e3o feliz a esse ponto, Clarice.<\/p>\n<p>Terminaram o almo\u00e7o em um clima tenso. Rog\u00e9rio se sentia levemente culpado por ter magoado Clarice de um jeito que n\u00e3o entendia como.<\/p>\n<p>&#8212; Vamos voltar para casa, querida. Precisamos descansar, os dois. A semana vai ser dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Naquela noite o Senhor Sombra foi dormir com a consci\u00eancia pesada, pensando em Patr\u00edcio. O pobre coitado nunca conseguira se adaptar ao mundo. Nunca deveria ter deixado Onir\u00f3polis. L\u00e1, pelo menos, seus planos n\u00e3o feriam ningu\u00e9m e ele continuava sempre livre para ter seus sonhos, mesmo que nunca se realizassem.<\/p>\n<p>No dia em que chegaram, numa tarde de ver\u00e3o muito quente, imaginaram que tinham vindo sozinhos, que o Mestre Magn\u00e9tico mentira e n\u00e3o ousaria segui-los. Mas t\u00e3o logo respiraram fundo e come\u00e7aram a descer o morro em dire\u00e7\u00e3o ao centro da cidade, ouviram um crepitar el\u00e9trico atr\u00e1s de si e ele, fantasiado de pessoa comum, materializara-se no ar:<\/p>\n<p>&#8212; Onir\u00f3polis n\u00e3o ter\u00e1 gra\u00e7a sem o Senhor Sombra e a Senhorita Raio de Luar!<\/p>\n<p>\n&#8212; Onde estamos, Patr\u00edcio? Sabe que dimens\u00e3o \u00e9 essa?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o sei, n\u00e3o tivemos tempo de analisar. Mas aqui as coisas parecem existir de uma forma bem parecida com o que conhec\u00edamos. Ent\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil nos adaptarmos.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o foi assim. Para nenhum dos tr\u00eas. A vida em Juiz de Fora trouxe desafios que nenhum deles compreendia. Apesar de terem nas pepitas de ouro um recurso \u00fatil, que lhes ajudou a sobreviver enquanto n\u00e3o encontravam trabalho e nem se adaptavam ao ritmo incessante de um mundo que parecia nunca dormir. Ao fim de um ano, mais ou menos, o Senhor Sombra era um entusiasmado vendedor de eletroeletr\u00f4nicos em uma loja de departamentos, do tipo que fascinava o fregu\u00eas com suas descri\u00e7\u00f5es dos aparelhos. Sua efici\u00eancia em fechar vendas logo o levaria a postos de ger\u00eancia, ganhando dinheiro e gozando da admira\u00e7\u00e3o dos colegas de trabalho.<\/p>\n<p>Fez amigos, comprou uma cota em um clube, usou seus dotes gin\u00e1sticos para ser imprescind\u00edvel nas peladas de domingo. Deu aulas de artes marciais, impressionando com a sua agilidade apesar do corpo esguio. Magn\u00e9tico e Raio de Luar, por\u00e9m, n\u00e3o conseguiram nunca nada parecido. Ela ainda teve o consolo de ser dona de casa em um mundo em que isso n\u00e3o era exatamente uma vergonha, mas n\u00e3o era o que queria. Gostou dos filhos, um lindo casal de anjinhos morenos, com os olhos verdes da m\u00e3e e os cabelos crespos do pai, mas logo descobriu que a vida em Juiz de Fora tinha certas desagrad\u00e1veis diferen\u00e7as, que iam al\u00e9m do ritmo cansativo e intermin\u00e1vel da rotina.<\/p>\n<p>A primeira constata\u00e7\u00e3o foi ap\u00f3s o parto do menino, quando viu que as cicatrizes n\u00e3o desapareciam, que ganhara algumas estrias e alguns quilos. Ouvira falar de cirurgia pl\u00e1stica, mas nunca tivera certeza de que resolvesse de fato. Quando nasceu a menina, que n\u00e3o foi planejada e nem desejada por ela, tudo piorara ao ponto de entrar em depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Patr\u00edcio, por sua vez, tivera de enfrentar as consequ\u00eancias de seus atos. Apesar de um relativo sucesso inicial como professor de ci\u00eancias em diversas escolas da cidade, nunca abandonara seus pensamentos grandiosos, suas mirabolantes ideias de domina\u00e7\u00e3o do mundo. A diferen\u00e7a era que em Juiz de Fora as pessoas pareciam n\u00e3o ter toler\u00e2ncia com suas idiossincrasias. Quando constru\u00edra a m\u00e1quina destravadora de cofres, gra\u00e7as a qual roubara eficientemente a ag\u00eancia do Banco do Brasil na Rua Halfeld, perdera os empregos e fora sentenciado a v\u00e1rios anos de pris\u00e3o, de onde s\u00f3 saiu por bom comportamento, depois de quatro anos. Depois disso sossegara um pouco, trabalhando como professor volunt\u00e1rio em um pequeno munic\u00edpio vizinho, mas voltou a envolver-se com o crime ao desenvolver, inspirado por uma not\u00edcia de jornal, o aparelho que influenciava o comportamento das pessoas usando ondas eletromagn\u00e9ticas. N\u00e3o chegou a us\u00e1-lo em crime algum, mas os seus testes chamaram a aten\u00e7\u00e3o de muita gente. Acabou preso novamente, seu laborat\u00f3rio foi confiscado, perdeu mais dois anos detr\u00e1s das grades. Da segunda vez que esteve preso, saiu da cadeia humilhado, magro e triste. Tinha perdido dois ou tr\u00eas dentes e estava com uma calv\u00edcie precoce e proeminente. Fora Raio de Luar que lhe custeara as pr\u00f3teses dent\u00e1rias e lhe ajudara a conseguir novo emprego, em uma entidade que trabalhava com ex presidi\u00e1rios. O antigo vil\u00e3o malvado de Onir\u00f3polis, por fim, passara a ganhar a vida como um simples eletricista. At\u00e9 ser acusado de tentar pela terceira vez seu &#8220;golpe de mestre&#8221;, invadindo o sistema de computadores de uma grande ind\u00fastria para usar as suas m\u00e1quinas na fabrica\u00e7\u00e3o de um gigantesco exoesqueleto de a\u00e7o que, tentando deixar os limites da f\u00e1brica, matara dezenas de seguran\u00e7as, derrubara uma parede sobre um \u00f4nibus de oper\u00e1rios que chegavam para o servi\u00e7o e ainda pisoteara uma multid\u00e3o de outros que sa\u00edam de seu turno. Talvez o inusitado do crime tenha sido a pista que levou a pol\u00edcia a Patr\u00edcio, embora ele sempre tenha negado. Foi condenado, enfim, a mais seis anos de cadeia, que deveria cumprir integralmente. Mas estava envelhecido e alquebrado. Certamente n\u00e3o sobreviveria a mais isto. E ainda assim o Senhor Sombra ia dormir naquela noite, sem pensar em fazer coisa alguma por ele.<\/p>\n<p><center><br \/>\n***<\/center><\/p>\n<p>O dia amanhecia sempre cedo para o Senhor Sombra, que precisava entrar no servi\u00e7o \u00e0s oito da manh\u00e3. Por isso, naquela segunda-feira ele acordou automaticamente, como sempre fazia, tomou o seu caf\u00e9, vestiu seu uniforme e foi ao ponto esperar o \u00f4nibus para ir trabalhar. N\u00e3o teve tempo de ouvir as not\u00edcias e nem de ler os jornais. Foi s\u00f3 quando j\u00e1 estava quase pela hora do almo\u00e7o que teve uma sensa\u00e7\u00e3o estranha no peito, que se lembrou, assustado, de que n\u00e3o percebera que a mulher n\u00e3o estava ao seu lado quando se levantara. Passou o dia tenso, pensando no que poderia ter acontecido. Especialmente porque, enquanto comia, tivera tempo de perceber no notici\u00e1rio local uma manchete sobre uma fuga muito esquisita do SERESP.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, em casa, deu-se conta do desastre. O filho mais velho, j\u00e1 com treze anos, e a menina, que tinha dez, estavam sozinhos vendo televis\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8212; Onde est\u00e1 a mam\u00e3e?<\/p>\n<p>O Senhor Sombra foi at\u00e9 o fundo da garagem e percebeu que o seu arm\u00e1rio de ferramentas, sempre trancado, fora arrombado. A pequena caixa contendo o cinto de utilidades do her\u00f3i estava violada. O que faltava eram dois utens\u00edlios aparentemente desconexos: uma b\u00fassola magn\u00e9tica e um laser frio. Itens que nem faziam tanta falta, porque b\u00fassola \u00e9 barato de se comprar e ele tinha outros lasers iguais, trazidos de Onir\u00f3polis. Mas a l\u00f3gica conectava os desaparecimentos de alguma forma.<\/p>\n<p>Voltou \u00e0 casa, tomou seu banho, vestiu um jeans escuro, uma camisa preta de mangas longas e uma velha botina de couro que quase n\u00e3o entrava em seu p\u00e9, que estava mais gordo.<\/p>\n<p>&#8212; Crian\u00e7as, o papai precisa dar uma saidinha para resolver umas coisas.<\/p>\n<p>Na garagem, cingiu o cinto de utilidades, colocou os \u00f3culos (agora necess\u00e1rios), cobriu a cabe\u00e7a com um velho chap\u00e9u de feltro, que comprara num instante de saudades, e ao se olhar no espelho teve a impress\u00e3o de que dezesseis anos n\u00e3o tinham se passado.<\/p>\n<p>Deu r\u00e9 com a facilidade de um motorista treinado, como se ainda estivesse em Onir\u00f3polis, e foi fechar a garagem.<\/p>\n<p>Acelerou com cuidado, sem deixar o Opala rugir muito. Sua cabe\u00e7a funcionava alucinadamente, em um ritmo il\u00f3gico e estranho. Mas fazia sentido. Fazia sentido. Merda! Fazia sentido.<\/p>\n<p>Viu-se ao p\u00e9 do morro que descera, dezesseis anos antes, de m\u00e3os dadas com Raio de Luar. Engatou a segunda marcha e pisou no acelerador. O carro subiu o morro sem questionar. Estacionou e desceu do carro, b\u00fassola em punho. A agulha do instrumento girava sem controle, como se o norte perambulasse por todas as dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Caminhou na dire\u00e7\u00e3o do lugar onde Patr\u00edcio aparecera um dia e notou que a agulha se firmava mais naquele rumo. E l\u00e1 havia um resto de brilho arroxeado no ar.<\/p>\n<p>&#8220;Como \u00e9 poss\u00edvel, depois de dezesseis anos?&#8221; &#8212; pensou.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, subitamente, deu-se conta de que do outro lado daquele portal, onde funcionava o misterioso gerador de campo de for\u00e7a, vigoravam leis diferentes das que governavam a f\u00edsica da realidade. L\u00e1 era perfeitamente poss\u00edvel que uma m\u00e1quina continuasse girando por dezesseis anos, ou at\u00e9 mil\u00eanios, se voc\u00ea necess\u00e1rio ao fechamento dos fatos.<\/p>\n<p>Por um momento teve a impress\u00e3o de que tudo que vivera em Juiz de Fora n\u00e3o fora sen\u00e3o uma aventura a mais, que aquele portal o puxava de volta, que tudo n\u00e3o passara de uma estrat\u00e9gia do roteirista para envelhec\u00ea-lo, para desatar os n\u00f3s intermin\u00e1veis que entediavam e impediam o futuro.<\/p>\n<p>Aproximou-se do portal, sentindo um cheiro de oz\u00f4nio no ar. Atrav\u00e9s da t\u00eanue nata que se formava conseguiu enxergar o laborat\u00f3rio do Mestre Magn\u00e9tico, coberto de divertidas teias de aranha, e viu Raio de Luar, gordinha e loura, mas ador\u00e1vel em um vestido verde. Ao lado dela o Patr\u00edcio tentava tirar a poeira de um uniforme de vil\u00e3o. Tivera sorte porque continuava magro, ao contr\u00e1rio do Senhor Sombra, com seus vinte e cinco quilos adicionais.<\/p>\n<p>Teve vontade de saltar atr\u00e1s deles, perguntar-lhes o que estavam fazendo. Teve vontade de tirar do bolso o laser frio e atirar nos dois. N\u00e3o o fez porque se lembrou das regras, e porque, afinal, Raio de Luar estava ador\u00e1vel naquele vestido, parecendo ter remo\u00e7ado uns dez anos. E Patr\u00edcio, em vez de um farrapo humano apodrecendo na cadeia, era novamente um tem\u00edvel vil\u00e3o de hist\u00f3ria em quadrinhos, com uniforme bufante, capacete rid\u00edculo e planos adoravelmente diab\u00f3licos e idiotas.<\/p>\n<p>&#8212; O que \u00e9 isso, papai? Onde est\u00e1 a mam\u00e3e?<\/p>\n<p><center><br \/>\n***<\/center><\/p>\n<p>Assustou-se com a voz do filho. A menina estava junto com ele, muda e de olhos imensamente arregalados. Os dois diabinhos tinham entrado no carro pelas portas de tr\u00e1s enquanto ele se distra\u00eda pondo o cinto de utilidades.<\/p>\n<p>&#8212; Mam\u00e3e foi embora, filho. Mam\u00e3e fez uma coisa muito bonita.<\/p>\n<p>Eles se aproximaram da nata roxa.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, n\u00e3o cheguem muito perto, meninos. \u00c9 perigoso.<\/p>\n<p>&#8212; Aquela mo\u00e7a de verde parece a mam\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8212; Aquela \u00e9 a mam\u00e3e.<\/p>\n<p>&#8212; Ela est\u00e1 t\u00e3o bonita.<\/p>\n<p>&#8212; Est\u00e1, sua m\u00e3e sempre foi muito bonita.<\/p>\n<p>&#8212; Chame-a de volta, papai. Chame-a de volta.<\/p>\n<p>&#8212; Infelizmente, meninos, ela n\u00e3o pode nos ouvir mais, o portal est\u00e1 se fechando.<\/p>\n<p>&#8212; Onde ela est\u00e1? Onde ela est\u00e1?<\/p>\n<p>&#8212; Ela voltou para o lugar de onde veio, meninos.<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o podemos ir junto?<\/p>\n<p>&#8212; N\u00e3o, garotos, o portal s\u00f3 permite que volte por ele aquilo que por ele passou primeiro. Foi assim que eu derrotei os monstros do Mestre Magn\u00e9tico. Eu conseguiria ir com ela, mas voc\u00eas n\u00e3o conseguiriam. Depois que eu passasse ele fecharia e eu n\u00e3o posso garantir que conseguiria reabrir de novo do outro lado. Ele est\u00e1 sob o controle do Mestre Magn\u00e9tico.<\/p>\n<p>O Senhor Sombra sentiu um gelo na espinha ao pensar nas chantagens a que poderia ser submetido pelo aqui-inimigo em troca de um portal para trazer seus filhos, mas lembrou-se, mais ainda, de que geralmente os filhos dos super-her\u00f3is s\u00e3o mortos pelos vil\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8212; Garotos, n\u00e3o h\u00e1 como irmos para l\u00e1. Vamos torcer que a mam\u00e3e volte.<\/p>\n<p>Os meninos viram a nata roxa se dissipar at\u00e9 restar apenas uma vaga cintila\u00e7\u00e3o. A agulha da b\u00fassola se acalmou, indicando a dire\u00e7\u00e3o oposta ao Cruzeiro.<\/p>\n<p>Foi dif\u00edcil voltar para casa, mas quando entraram de novo na sala, o Senhor Sombra foi surpreendido pela pergunta do filho:<\/p>\n<p>&#8212; Ser\u00e1 que essa hist\u00f3ria vai sair na nova revista que v\u00e3o lan\u00e7ar?<\/p>\n<p>&#8212; Que nova revista, filho?<\/p>\n<p>&#8212; A revista do Senhor Sombra acabou faz mais ou menos dezesseis anos, porque todo mundo achava chata demais. Mas eu ouvi dizer que a editora contratou um novo roteirista e vai reiniciar a s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Naquela noite o Senhor Sombra foi novamente dormir se sentindo vigiado por todos os lados e, se n\u00e3o fosse o amor dos filhos, teria usado o laser frio e se livrado de sua mis\u00e9ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O amor do Senhor Sombra e da Senhora Raio de Luar come\u00e7ara muito complicado, levara d\u00e9cadas em um estado infrut\u00edfero, tant\u00e1lico, at\u00e9 finalmente desembocar naquela manh\u00e3 de abril, fria e \u00famida, em que ele se deu conta, pela primeira vez, de que ela sempre amanhecia doente quando faziam amor. Sombra tinha sido um her\u00f3i antes de desenvolver sua barriga e perder algumas mechas para o tempo. 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