{"id":6007,"date":"2018-10-07T18:00:14","date_gmt":"2018-10-07T21:00:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6007"},"modified":"2019-06-05T21:14:59","modified_gmt":"2019-06-06T00:14:59","slug":"todos-ja-perdemos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/10\/todos-ja-perdemos\/","title":{"rendered":"Todos J\u00e1 Perdemos Alguma Coisa"},"content":{"rendered":"\n<p>Sexta-feira, cinco de outubro de dois mil e dezoito. S\u00e3o cinco minutos deste dia que amanhecer\u00e1 carregado, por mais ensolarado que esteja.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o me interessa mais especular quem vencer\u00e1 as elei\u00e7\u00f5es, amanh\u00e3, depois ou nunca. &#8220;Ao vencedor, as batatas&#8221;. A derrota \u00e9 geral e irrestrita quando a guerra se trava sem limites &#8212; ainda mais quando a guerra <em>n\u00e3o deveria ser uma guerra<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/odio-537x640.png\" alt=\"O \u00f3dio\" class=\"wp-image-6008\" width=\"403\" height=\"480\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/odio-537x640.png 537w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/odio-120x143.png 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/odio-250x298.png 250w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/odio.png 650w\" sizes=\"(max-width: 403px) 100vw, 403px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O ano de 2018 ficar\u00e1 marcado na hist\u00f3ria do Brasil, se no futuro ainda houver Hist\u00f3ria do Brasil. Estamos no \u00e1pice fren\u00e9tico do \u00f3dio, que nos divide e nos fere. Cegados por ele ofendemo-nos uns aos outros, difundimos tolices, principalmente <em>acreditamos<\/em> em coisas que ningu\u00e9m deveria aceitar. Somos parte da gera\u00e7\u00e3o que mudou a imagem internacional do Brasil, de um povo festeiro e amigo para um povo intolerante e violento. Estamos de parab\u00e9ns. O mundo se preocupa com nosso aparente suic\u00eddio: n\u00e3o h\u00e1 Europa e nem Uruguai suficientes para duzentos milh\u00f5es de refugiados.<\/p>\n\n\n\n<p>O ano de 2018 ficar\u00e1 marcado como o ano em que queimamos nosso museu por uma porca economia de trocados.<\/p>\n\n\n\n<p>O ano em que boatos superaram os jornais e a mentira circulou sem receio, de bra\u00e7os dados com o medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, o medo. Ele nos pegou pelo bra\u00e7o, nos deu uma chave de pesco\u00e7o e s\u00f3 nos deixa respirar o suficiente para ainda termos \u00f3dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Este ser\u00e1, na hist\u00f3ria o ano em que o \u00f3dio chegou \u00e0 sua gl\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o come\u00e7ou hoje. O fruto tem uma hist\u00f3ria que come\u00e7a ainda na semente. N\u00e3o falemos dos prim\u00f3rdios, por\u00e9m, poder\u00edamos ter colhido as flores e n\u00e3o ter\u00edamos agora este fruto que nos incomoda, enorme, f\u00e9tido. Quantas vezes n\u00f3s fechamos nossos ouvidos ao amor e \u00e0 poesia, para escutarmos a inveja, o ressentimento e as saudades falsas de um passado ideal?<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 perdemos. Ganhe quem ganhar, perdemos amigos, perdemos o respeito de familiares, perdemos rela\u00e7\u00f5es sociais, perdemos a alegria de andar na rua entre as gentes, nosso orgulho nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais solit\u00e1rios que antes, nos deparamos com um futuro esf\u00edngico. J\u00e1 n\u00e3o temos tantos aliados porque nos tornamos combatentes de n\u00f3s mesmos. <em>Bellum omnia omnes<\/em> n\u00e3o \u00e9 o nosso grito, mas \u00e9 o nosso ato.<\/p>\n\n\n\n<p>Retrocedemos em tantas coisas, mas n\u00e3o nos arrependemos. O retrocesso \u00e9 o arrependimento de n\u00e3o termos impedido a mudan\u00e7a. Fomos. Fomos. Voltamos com medo no olhar, das casas que se descortinaram, das coisas novas que nos desafiavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o sei o que ser\u00e1 desse pa\u00eds de amanh\u00e3 em diante, ou de mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Sei de uma tristeza enorme que me espanta e paralisa. Por saber que foi t\u00e3o f\u00e1cil, que houve tantos a cooperar. Eles s\u00e3o c\u00famplices da demoli\u00e7\u00e3o de um ideal nacional que eu amava, e que agora sei que existe somente em meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui derrotado, mesmo que tenha ganhado quem eu pensava. A vit\u00f3ria distante n\u00e3o cura a minha vida, n\u00e3o me restabelece o amor e a ilus\u00e3o. Assim como o futebol n\u00e3o me alegra de fato, n\u00e3o mais que noventa minutos.<\/p>\n\n\n\n<p>Que o futuro n\u00e3o nos morda, apenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Que ainda haja sol, mesmo depois que n\u00e3o houver mais nada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sexta-feira, cinco de outubro de dois mil e dezoito. S\u00e3o cinco minutos deste dia que amanhecer\u00e1 carregado, por mais ensolarado que esteja. N\u00e3o me interessa mais especular quem vencer\u00e1 as elei\u00e7\u00f5es, amanh\u00e3, depois ou nunca. &#8220;Ao vencedor, as batatas&#8221;. A derrota \u00e9 geral e irrestrita quando a guerra se trava sem limites &#8212; ainda mais quando a guerra n\u00e3o deveria ser uma guerra. O ano de 2018 ficar\u00e1 marcado na hist\u00f3ria do Brasil, se no futuro ainda houver Hist\u00f3ria do Brasil. 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