{"id":6061,"date":"2018-11-15T14:26:41","date_gmt":"2018-11-15T17:26:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6061"},"modified":"2019-06-05T21:10:31","modified_gmt":"2019-06-06T00:10:31","slug":"a-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/11\/a-pobreza\/","title":{"rendered":"A Pobreza"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 uma tend\u00eancia a se romantizar a pobreza, como se ela possu\u00edsse alguma pureza que se perde com a obten\u00e7\u00e3o da riqueza. Isto n\u00e3o chega a ser um problema enquanto falamos de uma pobreza literal, material, mas j\u00e1 \u00e9 um tanto complicado querer transformar em uma bandeira ideol\u00f3gica uma condi\u00e7\u00e3o que se caracteriza pela <em>falta<\/em> daquilo que \u00e9 essencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora as pessoas pobres sejam dignas de todo o respeito enquanto seres humanos, n\u00e3o podemos imaginar que sua pobreza as torna melhores. Pensar assim n\u00e3o \u00e9 diferente de imaginar que <em>os ricos<\/em> s\u00e3o melhores por serem ricos. \u00c9 classismo do mesmo jeito, n\u00e3o importa de qual classe. H\u00e1 quem diga que n\u00e3o se pode confundir a rea\u00e7\u00e3o do oprimido com a a\u00e7\u00e3o do opressor. Creio que isto \u00e9 \u00fatil para n\u00e3o se aumentar a injusti\u00e7a, <em>mas n\u00e3o creio que justifique<\/em> os erros de quem \u00e9 v\u00edtima.<\/p>\n\n\n\n<p>A pobreza n\u00e3o pode, nunca, ser vista como algo bom. Seja a pobreza material, que castiga o corpo, seja a pobreza intelectual. A caracter\u00edstica central da pobreza \u00e9 impedir as pessoas de se tornarem plenamente aquilo que podem ser. O fato de conseguirem ser alguma coisa, apesar disso, dep\u00f5e em seu favor, mas n\u00e3o em favor da pobreza. Uma pessoa pobre que obt\u00e9m realiza\u00e7\u00f5es significativas merece cr\u00e9dito por seus esfor\u00e7os, n\u00e3o \u00e9 a pobreza que merece cr\u00e9dito por tornar sua hist\u00f3ria \u201cmais bonita\u201d. N\u00e3o \u00e9 bonito as pessoas sofrerem desnecessariamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A pobreza de conhecimentos (ignor\u00e2ncia) nos leva a tomar decis\u00f5es erradas, por n\u00e3o estarmos informados sobre as op\u00e7\u00f5es. A pobreza de consci\u00eancia pol\u00edtica (aliena\u00e7\u00e3o) nos leva a agir contra n\u00f3s mesmos e contra aqueles que s\u00e3o como n\u00f3s, pois passamos a crer que somos outra coisa. A pobreza de for\u00e7a espiritual (busca do \u201cmenor esfor\u00e7o\u201d a qualquer custo) nos leva a n\u00e3o travar as grandes lutas, que trazem as maiores mudan\u00e7as. A pobreza de auto estima (complexo de vira-latas) nos leva a idolatrar o outro, em vez de enxergamos o valor que temos em n\u00f3s mesmos. A pobreza \u00e9tica (\u201cjeitinho\u201d, idolatria do sucesso a qualquer custo, ego\u00edsmo) nos leva a criar um mundo injusto.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso se soma \u00e0 pobreza material para desembocar em um indiv\u00edduo preso ao sistema ideol\u00f3gico em que nasceu e se formou.&nbsp; Por isso Marx disse, com raz\u00e3o, que o l\u00fampen-proletariado, o \u201clumpesinato\u201d, n\u00e3o \u00e9 uma for\u00e7a revolucion\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cLumpesinato\u201d s\u00e3o as classes sociais mais vulner\u00e1veis, cuja pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia f\u00edsica imediata \u00e9 amea\u00e7ada a cada dia. Seus membros s\u00e3o carentes de consci\u00eancia pol\u00edtica porque n\u00e3o lhes \u00e9 dado tempo nem privacidade para que se ocupem de reflex\u00f5es. S\u00e3o os trabalhadores informais, trabalhadores na ind\u00fastria do sexo, criminosos em geral, viciados. Todo aquele que n\u00e3o est\u00e1 inserido no sistema econ\u00f4mico produtivo ou que s\u00f3 se dedica a atividades paras\u00edticas e predat\u00f3rias da sociedade, <em>sem deterem poder pol\u00edtico ou econ\u00f4mico.<\/em> Esta \u00faltima observa\u00e7\u00e3o \u00e9 importante porque o mesmo tipo de pessoas, quando det\u00e9m tais poderes, recebe nomes diferentes: empreendedores, profissionais da ind\u00fastria do entretenimento, especuladores, etc.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/image0011.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6062\" width=\"310\" height=\"283\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/image0011.jpg 620w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/image0011-120x110.jpg 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/11\/image0011-250x228.jpg 250w\" sizes=\"(max-width: 310px) 100vw, 310px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O membro do lumpesinato n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica efetiva. Sua vulnerabilidade material o torna suscet\u00edvel a barganhas imediatistas (vende o voto por comida, sai do sindicato para n\u00e3o perder o emprego). Sua ignor\u00e2ncia o torna suscet\u00edvel \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e pol\u00edtica, pois tende a acreditar facilmente naquilo que manipule seu medo ou lhe ofere\u00e7a esperan\u00e7as. Sua pobreza espiritual o leva a desistir de grandes projetos, pois, para quem \u00e9 t\u00e3o vulner\u00e1vel, nenhum projeto de vida \u00e9 mais significativo que sobreviver. Sua aliena\u00e7\u00e3o o impede de sequer simpatizar com os inimigos de seus opressores, em vez disso, simpatiza com os opressores: o trabalhador informal se sente um empres\u00e1rio, a prostituta se orgulha dos seus clientes ricos, os criminosos gravitam em torno de pol\u00edticos influentes para terem prote\u00e7\u00e3o. Sua baixa auto estima o faz conformar-se ao papel subalterno e idolatrar os opressores e seus instrumentos de opress\u00e3o. Finalmente a pobreza \u00e9tica o torna capaz de executar com mais crueldade que os opressores o \u201ctrabalho sujo\u201d a que \u00e9 destinado, tornando-se uma esp\u00e9cie de \u201ccapit\u00e3o do mato\u201d, \u00e0s vezes pela \u201chonra de servir\u201d aos \u201cseus\u201d ideais, sem sequer cobrar por isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse indiv\u00edduo \u00e9 o &#8220;capit\u00e3o do mato&#8221; ideal, ele se compraz em ser cruel com quem est\u00e1 ao lado e abaixo de si, por crer que nisso se eleva, ou porque, em alguns casos extremos de vira-latice, acredita que esse \u00e9 o seu papel inevit\u00e1vel, o seu lugar poss\u00edvel no esquema.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, n\u00e3o existe nada mais amea\u00e7ador para a sobreviv\u00eancia de um sistema injusto do que combater a pobreza. Material ou espiritual. Dar ao povo informa\u00e7\u00f5es livres, educa\u00e7\u00e3o de qualidade,<em> autoestima<\/em>. Quando um governo se prop\u00f5e a isso, os inimigos da justi\u00e7a est\u00e3o atentos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma tend\u00eancia a se romantizar a pobreza, como se ela possu\u00edsse alguma pureza que se perde com a obten\u00e7\u00e3o da riqueza. Isto n\u00e3o chega a ser um problema enquanto falamos de uma pobreza literal, material, mas j\u00e1 \u00e9 um tanto complicado querer transformar em uma bandeira ideol\u00f3gica uma condi\u00e7\u00e3o que se caracteriza pela falta daquilo que \u00e9 essencial. Embora as pessoas pobres sejam dignas de todo o respeito enquanto seres humanos, n\u00e3o podemos imaginar que sua pobreza as torna melhores. 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