{"id":612,"date":"2013-09-16T01:26:57","date_gmt":"2013-09-16T04:26:57","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=612"},"modified":"2017-11-02T14:08:18","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:18","slug":"festa-estranha-gente-esquisita","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/09\/festa-estranha-gente-esquisita\/","title":{"rendered":"Festa Estranha, Gente Esquisita"},"content":{"rendered":"<p>Meu trabalho \u00e9 encarar fila de banco. Tem quem ache que \u00e9 um servi\u00e7o f\u00e1cil, mas tudo \u00e9 f\u00e1cil para quem n\u00e3o tem que fazer. Eu detesto, porque nesse servi\u00e7o eu n\u00e3o sou dono de meu tempo. N\u00e3o fa\u00e7o as regras e nem as horas, mas sempre levo bronca do patr\u00e3o quando volto tarde, mesmo ele sabendo que o atraso \u00e9 culpa do caixa, do banco, do engarrafamento do tr\u00e2nsito, do alinhamento dos planetas ou da queda de um aster\u00f3ide.<\/p>\n<p>Infelizmente preciso da grana: a faculdade n\u00e3o vem de gra\u00e7a para quem n\u00e3o nasceu na fam\u00edlia certa, muito menos para quem n\u00e3o \u00e9 da cor certa. Por isso fico no servi\u00e7o e procuro relaxar como \u00e9 poss\u00edvel. Quando a fila est\u00e1 grande, como hoje, tento desligar a mente injetando m\u00fasica. Ningu\u00e9m sobrevive a uma fila de banco sem perder a sanidade, a menos que relaxe com um som tranquilo enquanto espera a vez.<\/p>\n<p>As coisas j\u00e1 foram melhores. Antigamente nem tinha esses banquinhos acolchoados, mas as pessoas n\u00e3o achavam que telefones m\u00f3veis fossem perigosos. Agora h\u00e1 quem se incomode com meu alheamento. Gente que fica me olhando torto, como se eu fosse alguma esp\u00e9cie de terrorista teleguiado s\u00f3 porque estou com os malditos plugues no ouvido.<\/p>\n<p>Mesmo assim prefiro ignor\u00e1-los a desligar meu aparelho para deixar de incomodar seus preconceitos. Fora de minha cabe\u00e7a raramente tem alguma coisa interessante para se ver. Uma mo\u00e7a bonita, uma informa\u00e7\u00e3o relevante, uma cena engra\u00e7ada.<\/p>\n<p>Hoje estou sonolento. Dormi mal, dormi tarde, dormi pouco. Trabalho como todos os dias, anima\u00e7\u00e3o menor que a normal. Estou meio zumbi, estou com olheiras profundas, estou com a cabe\u00e7a meio leve demais. As pessoas na fila hoje se incomodam tamb\u00e9m com os meus \u00f3culos escuros. Talvez me achem com pinta de maconheiro. Fila de banco \u00e9 um lugar onde se concentram todas as fobias e caretices da humanidade. Mas eu fecho os olhos do\u00eddos e lembro do corpo torneado de Ros\u00e1lia e um sorriso tinge minha cara com a indiferen\u00e7a que mais incomoda a quem se irrita com minha presen\u00e7a. Estou feliz, para uns isto \u00e9 intoler\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os caixas est\u00e3o mais lentos hoje, muitos como eu trazem pacotes grandes, cheios de documentos para autenticar, de dinheiro para depositar, de cheques para sacar. A fila prossegue em um ritma aleat\u00f3rio, chamando os idosos e as gestantes, depois voltando ao atendimento normal, depois saltando par ao imponder\u00e1vel. Mas n\u00e3o vale a pena brigar por isso. N\u00e3o vale a pena brigar porque n\u00e3o sou senhor do meu tempo.<\/p>\n<p>Quase minha vez. Desligo o som de meus ouvidos e olho em torno para me situar melhor. Minha senha ser\u00e1 a pr\u00f3xima, se n\u00e3o houver ningu\u00e9m &#8220;priorit\u00e1rio&#8221; para ser atendido. Ao meu lado se sentou, enquanto eu divagava, uma garota que parece sa\u00edda de um filme de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Tem um rostinho bonito, mas o cabelo cor de fogo e roxo, as tatuagens, o alargador na orelha, os piercings na cara. Tudo combinado me d\u00e1 n\u00e1useas. Ela me lembra o Pinhead.<\/p>\n<p>Tenho pa\u00fara de cortes, agulhas e interven\u00e7\u00f5es. Uma min\u00fascula tatuagem me bastou como prova de macheza. Nunca mais sequer farei acupuntura. N\u00e3o curto dor. Curto menos ainda imaginar essa mo\u00e7a bonita quando ela tiver seus quarenta anos.<\/p>\n<p>O telefone toca. Metade da fila parece pronta para jogar as m\u00e3os ao alto. Mas \u00e9 s\u00f3 uma mensagem de texto que me repassaram. Algu\u00e9m tuitou que vai ter uma festa-surpresa no anivers\u00e1rio do Rachid. &#8220;Quem \u00e9 esse veado do Rachid, mesmo?&#8221; Em seguia lembro o cara: uns bons seis meses sumido ele. Mas ainda estava nas minhas listas, e tamb\u00e9m na de amigos meus. Imagino que o convite j\u00e1 deve ter circulado para muita gente. Vai ter centenas de malucos seja l\u00e1 onde for esse endere\u00e7o.<\/p>\n<p>Adoro essas festas mal organizadas. Geralmente a bebida \u00e9 quente e ruim, o lugar \u00e9 uma porcaria e a pol\u00edcia aparece descendo o cassetete em todo mundo; mas sempre aparece muita gente da turma, a mesma velha turma da inf\u00e2ncia, disseminada pelo mundo e reunida gra\u00e7as \u00e0s redes sociais. Nessas festas eu consigo quase me sentir \u00e0 vontade. S\u00e3o pessoas que eu conhe\u00e7o, que me conhecem, n\u00e3o me olham de lado, cuidando das bolsas e rel\u00f3gios como se eu fosse um marginal de estilete \u00e0 m\u00e3o ou um cracudo precisando de grana para outra pedra.<\/p>\n<p>O telefone tocou convidando para uma festa dessas e eu vou, \u00e9 claro. Eu sempre vou, ainda mais que o convite vem sendo retuitado por v\u00e1rios amigos, at\u00e9 o T\u00f5ezinho. Faz quase um ano que n\u00e3o vejo o verme. Saudades daquele puto. Festa com ele sempre tem mais do que cerveja barata. E as amigas que ele traz s\u00e3o um col\u00edrio.<\/p>\n<p>Chega a minha vez. O caixa, pela d\u00e9cima vez no m\u00eas, me relembra a lei estadual que pro\u00edbe o uso de telefones m\u00f3veis em recintos banc\u00e1rios. Eu respondo, sorridente, que n\u00e3o foi nada demais, at\u00e9 o convido para a festa. Talvez nas horas vagas, quando n\u00e3o est\u00e1 obecendo regras e usando gravata, esse cara seja at\u00e9 um sangue bom. Ou \u00e9 o mesmo mala, s\u00f3 que usando jeans.<\/p>\n<p>Na sa\u00edda do banco mando um torpedo para o T\u00f5ezinho perguntando mais detalhes da festa. Ele responde em cinco minutos, explicando que o endere\u00e7o citado no convite original era &#8220;Fenelon Guimar\u00e3es 80, Bloco C, n\u00famero 11&#8221;. Nunca ouvi falar do lugar. A cidade \u00e9 grande e tem tantas ruas quanto a gente tem de veias. N\u00e3o sei o nome de todas, nem das primeiras nem das segundas.<\/p>\n<p>J\u00e1 s\u00e3o quase cinco da tarde quando retorno ao escrit\u00f3rio. O chefe saiu mais cedo, isso \u00e9 \u00f3timo, ainda mais que hoje \u00e9 sexta feira. Chefe \u00e9 aquele cara que sai cedo quando voc\u00ea sai tarde, e sai tarde quando voc\u00ea sai cedo. Gandaia, l\u00e1 vou eu. Jogo uma cantada na telefonista s\u00f3 para dar uma de James Bond. Ela nunca sairia com um cara como eu. S\u00f3 se eu tivesse muito dinheiro. Dou um aceno para a turma e vou para o estacionamento me sentindo feliz at\u00e9.<\/p>\n<p>Seis e dez. Ligo o motor do velho Chevette 76 que eu comprei por 650 reais em um ferro velho. O motor funcionava bem, a lataria eu fui arrumando do jeito que dava. Ser sobrinho de mec\u00e2nico tem suas vantagens: o bicho velho ronrona gostoso como uma namorada gozando na cama, e chega at\u00e9 a ficar bonito quando mando lavar e polir, dando-lhe um cheiro de lavanda e silicone.<\/p>\n<p>Seis e quarenta e cinco. Entro na minha rua dirigindo mansamente. Aceno para dois ou tr\u00eas conhecidos depois de estacionar na frente de casa e entro para um banho r\u00e1pido antes de sair.<\/p>\n<p>Quando saio do banho a minha m\u00e3e quer que eu coma em casa. Que absurdo! Sexta feira n\u00e3o \u00e9 dia de comer em casa. Vou para o meu quarto me aprontar enquanto ela insiste e lamenta minha indiferen\u00e7a. Mas hoje n\u00e3o \u00e9 dia de curtir a barra da saia da m\u00e3e. Hoje \u00e9 sexta feira e eu quero me afundar na lingerie.<\/p>\n<p>Quando me v\u00ea pronto ela parece mudar de drag\u00e3o a fada em um instante:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 t\u00e3o bonito, meu filho! Vem c\u00e1, deixa eu ajeitar esta gola que est\u00e1 toda enrolada.<\/p>\n<p>O telefone toca enquanto ela acerta a gola da camisa:<\/p>\n<p>\u2014 Fininho, me d\u00e1 uma carona para a festa?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o d\u00e1, Paul\u00e3o, j\u00e1 marquei com a turma da BR.<\/p>\n<p>\u2014 Mas se algu\u00e9m faltar e tiver uma vaga no carro, voc\u00ea promete que me liga?<\/p>\n<p>\u2014 Prometo.<\/p>\n<p>Mas s\u00f3 o levaria se fosse dentro do porta-malas, morto.<\/p>\n<p>Tenho pena da minha m\u00e3e. Quando saio para a farra eu fico pensando na foto de casamento dela, no quanto ela era bonita antes de se casar com o meu pai, e no quanto est\u00e1 agora gorda e triste enquanto ele ronca deitado no sof\u00e1 monopolizando a televis\u00e3o, pronto para um enfarte.<\/p>\n<p>A turma se encontra no posto de gasolina da BR. Digo &#8220;a turma&#8221; para dar uma boa impress\u00e3o, mas somos s\u00f3 tr\u00eas. Os &#8220;mortos de fome do BNH&#8221;, como a Dolores nos chamava nos tempos de escola, a vadia.<\/p>\n<p>Agora que mencionei a Dolores, gostosa, tive saudades dela. At\u00e9 dos desaforos dela. Dizia que tinha pena de n\u00f3s, principalmente de mim. Foi a melhor foda da minha adolesc\u00eancia, mesmo sabendo que a turma toda deveria ter tido experi\u00eancia parecida. Me botou mal acostumado a diaba, nunca mais achei nenhuma que tivesse fogo igual. Hoje est\u00e1 casada com um dono de loja. Dirige um carro importado preto e, nas raras vezes que passa perto do bairro, finge que n\u00e3o conhece mais a gente.<\/p>\n<p>Imagino que Dolores acharia engra\u00e7ado nos ver bebendo cerveja barata sentados no cap\u00f4 de um velho Chevette, em um posto de gasolina, na margem da BR, em uma sexta feira, sete e meia, lua cheia. Gandaia, l\u00e1 vou eu. Beber muito u\u00edsque paraguaio com energ\u00e9tico e beijar garotas com cheiro de patchouli e de batom azul.<\/p>\n<p>Miguel tem um GPS. Digita o endere\u00e7o e minutos depois, porque o tro\u00e7o \u00e9 barato mesmo, aparece um mapa com um percevejo verde marcando o lugar.<\/p>\n<p>\u2014 Nossa, o Rachid t\u00e1 morando l\u00e1 onde Judas perdeu as meias!<\/p>\n<p>\u2014 As botas, Miguel.<\/p>\n<p>\u2014 As meias mesmo, as botas foi aqui nesse buraco em que a gente vive.<\/p>\n<p>\u00c0 noite nem parecia, as luzes das casas coalhavam o ch\u00e3o como se houvessem posto um espelho virado para as estrelas, mas eu olhava a pureza daquelas luzes e me lembrava da fei\u00fara das fachadas sem pintura e das estruturas improvisadas. Mor\u00e1vamos num fim de mundo, mesmo, \u00e0 margem de uma BR, mas n\u00e3o t\u00ednhamos nem \u00f4nibus de hora em hora para o centro. Somos perdedores, esquecidos. Querem esquecer-nos. A cidade n\u00e3o quer que a gente v\u00e1 l\u00e1 mais que o necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser longe aonde for, mas a gente vai nessa porra de festa!<\/p>\n<p>\u2014 Falando nisso, Miguel, quem \u00e9 esse tal de Rachid? E que raio de festa ele arrumou?<\/p>\n<p>\u2014 Foi um colega do curso de contabilidade. Morava longe mesmo, do outro lado da cidade. Filho de libaneses, ou turcos, ou s\u00edrios, ou alguma coisa assim. O que me importava \u00e9 que ele era &#8220;o cara&#8221; das festas. Fui a tr\u00eas que ele organizou. N\u00e3o tinha erro.<\/p>\n<p>\u2014 Nenhum problema?<\/p>\n<p>\u2014 O cara \u00e9 sossegado. Fam\u00edlia simples. Sem preconceitos. E com que facilidade arruma mulher. Para ele e para quem for amigo dele tamb\u00e9m. Podem crer em mim: n\u00e3o tem furo. Hoje \u00e9 anivers\u00e1rio dele, essa festa vai ser massa! Festa do Rachid eu vou at\u00e9 se for no inferno.<\/p>\n<p>\u2014 Assim \u00e9 que se fala, camarada, segura a capetinha pelos chifres para ela te chupar gostoso!<\/p>\n<p>\u2014 Aquela boquinha quente!<\/p>\n<p>\u2014 Parem com isso, seus putos \u2014 protestou o Danilo, que tinha ficado quieto at\u00e9 ent\u00e3o, s\u00f3 ouvindo as merdas que a gente dizia.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m passando pelo asfalto a cento e vinte por hora teria entendido a gargalhada dos tr\u00eas idiotas montados no Chevette marrom.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos do posto cerca das oito e vinte da noite. Deixei o Danilo dirigir porque ele n\u00e3o tinha bebido quase nada.<\/p>\n<p>\u2014 Aonde exatamente \u00e9 esse raio de lugar da festa?<br \/>\n\u2014 Longe pacas, Danilo, eu s\u00f3 vou porque o T\u00f5ezinho confirmou e o Fininho jura que o tal Rachid \u00e9 sangue bom.<\/p>\n<p>\u2014 Tem gasolina nesse gamb\u00e1 aqui? \u2014 preocupou-se o Danilo.<\/p>\n<p>\u2014 Tem sim, claro. Olha a\u00ed!<\/p>\n<p>\u2014 Parou de funcionar de novo o seu marcador de gasolina. Por que voc\u00ea n\u00e3o vende essa merda de carro, Fininho?<\/p>\n<p>\u2014 E compro o que com o dinheiro? Uma mobilete?<\/p>\n<p>Rimos tristemente. Somos uns perdedores mesmo. Com menos de mil reais eu comprei um Chevette velho, que \u00e9 o \u00fanico carro que eu posso ter.<\/p>\n<p>J\u00e1 s\u00e3o mais de nove e meia da noite. Ainda estamos a caminho e eu come\u00e7o a ficar preocupado. A festa parece cada vez mais distante. O centro da cidade j\u00e1 ficou para tr\u00e1s h\u00e1 uns bons trinta minutos. J\u00e1 atravessamos de um lado a outro e ainda n\u00e3o encontramos a rua do percevejo verde. Se o od\u00f4metro funcionasse eu saberia o quanto rodamos.<\/p>\n<p>Estamos em um bairro decadente. As ruas s\u00e3o mal iluminadas e vazias. N\u00e3o tem nem birosca aberta. \u00c9 um bairro industrial, d\u00e1 para ver pelos imensos edif\u00edcios em formato de caixote, alguns com chamin\u00e9s do s\u00e9culo passado. Eu nunca tinha vindo a essa parte da cidade, parece um filme americano de terror, daqueles com gangues de psicopatas sobre motos, matando os rivais arrastando pela rua. Vi um filme assim quando era bem molequinho.<\/p>\n<p>Direita, esquerda, esquerda, direita e esquerda. De esquina e esquina vamos nos perdendo mais at\u00e9 que, de repente, encontramos uma placa indicativa. Estamos na esquina da Fenelon Guimar\u00e3es com a Juv\u00eancio Estrada. Duas ruas estreitas e perdidas, onde parece que n\u00e3o mora nem alma penada. N\u00e3o tem ningu\u00e9m na rua.<\/p>\n<p>\u2014 Caralho, Fininho. Te passaram um trote dessa vez. N\u00e3o tem nenhuma merda de festa rolando por aqui.<\/p>\n<p>\u2014 Deve ser num desses galp\u00f5es a\u00ed. Tipo, dessa vez resolveram fazer organizado. Puseram isolamento ac\u00fastico para n\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o e fizeram num lugar sem vizinho chato para chamar a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>\u2014 Eu acho que a gente devia voltar \u2014 disse o Miguel.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo bem, a gente volta. Mas primeiro vamos descer e procurar o n\u00famero oitenta e ver o que tem l\u00e1. Depois a gente vai at\u00e9 para a puta que pariu se for preciso. Mas n\u00e3o d\u00e1 para gastar essa gasolina toda e ir embora sem nem saber o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n<p>Concordamos e vamos procurando o n\u00famero 80. O Chevette vai devagarinho, como um gato se esgueirando pelo muro. Achar vai ser tarefa dif\u00edcil porque n\u00e3o tem ningu\u00e9m na rua e nem os pr\u00e9dios tem n\u00famero. Somente um imenso port\u00e3o de ferro se destaca. N\u00e3o sei porque raz\u00e3o eu imaginei que ali poderia ser o lugar. Estranha premoni\u00e7\u00e3o. Era l\u00e1. L\u00e1 era um cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>Meus amigos desgra\u00e7am a rir enquanto eu quase me cagava de medo.<\/p>\n<p>\u2014 Fininho, acho que voc\u00ea devia entrar, deve ter uma capetinha a\u00ed dentro pronta para te chupar! \u2014 zombou o Miguel.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o se brinca com uma coisa dessas \u2014 disse o Danilo, j\u00e1 beijando o crucifixo de prata, presente da av\u00f3 siciliana.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa de ser medroso, Danilo. Vamos entrar.<\/p>\n<p>\u2014 Entrar!? &#8216;c\u00ea pirou, Fininho?<\/p>\n<p>\u2014 Uai, e por que n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Por que sim, voc\u00ea quis dizer! Para que, diabo, a gente vai entrar no cemit\u00e9rio hoje, logo na quaresma, Miguel. N\u00e3o tem nenhuma porra de festa por aqui, nem num raio de vinte quil\u00f4metros. Vambora embora pegar um cinema que ainda d\u00e1 para pegar uma sess\u00e3o de meia noite.<\/p>\n<p>Mas eu n\u00e3o me conformo de ter sido passado para tr\u00e1s. Pego o telefone e envio de volta um SMS furibundo: &#8220;o in\u00fatil que me convidou aqui hoje, vai aparecer ou n\u00e3o \u00e9 macho bastante para isso?<\/p>\n<p>Tenho vontade de jogar longe o telefone. Pena que ainda o estou pagando. Pena que preciso e gosto dessa merdinha dif\u00edcil. Tenho mais amigos nele do que na vida real, e se tivesse comido metade das mulheres que se dizem minhas f\u00e3s eu me sentiria um artista. N\u00e3o vou jogar fora o telefone, queria era sentar a m\u00e3o na cara do veado que me sacaneou.<\/p>\n<p>Outra mensagem de texto: &#8220;Entrem, \u00e9 surpresa.&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o, gente? Ser\u00e1 algum tipo de festa no cemit\u00e9rio, aquela coisa dos g\u00f3ticos?<\/p>\n<p>\u2014 Cara, eu queria um simples pagode honesto, conhecer umas morenas, ficar com uma gata descomplicada. Esse neg\u00f3cio de festa de g\u00f3tico no cemit\u00e9rio n\u00e3o \u00e9 a minha praia \u2014 lamentou o Miguel.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o entro a\u00ed nem que me paguem.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 bem, Danilo. Fica tomando conta do carro que eu vou entrar. At\u00e9 fiquei curioso com esse neg\u00f3cio de festa g\u00f3tica. N\u00e3o sou grande f\u00e3 de rock, n\u00e3o. Mas acho que vou experimentar uma dessas branquelas maquiadas. J\u00e1 disse que confio no Rachid.<\/p>\n<p>\u2014 &#8216;C\u00ea t\u00e1 louco, Fininho?<\/p>\n<p>\u2014 Louco nada, vai ser divertido. V\u00e3o me deixar entrar sozinho, seus cag\u00f5es?<\/p>\n<p>\u2014 &#8216;T\u00e1 bem, melhor a gente ficar junto. Essa rua deserta j\u00e1 est\u00e1 me dando medo.<\/p>\n<p>\u2014 Deixa de ser supersticioso, Danilo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 medo dos mortos, n\u00e3o. \u00c9 dos vivos que podem estar escondidos pelas sombras.<\/p>\n<p>O port\u00e3o do cemit\u00e9rio est\u00e1 apenas encostado. Algu\u00e9m antes se deu ao trabalho de arromb\u00e1-lo para n\u00f3s. Certamente algum ladr\u00e3o de t\u00famulos, se n\u00e3o foi a &#8220;organiza\u00e7\u00e3o&#8221; da festa.<\/p>\n<p>Logo na primeira alameda eu come\u00e7o a sentir os p\u00ealos da nunca arrepiando. Um vento curiosamente frio sopra no lugar. Olho para um lado e outro e, de repente, tem uma luz vagando dentro do cemit\u00e9rio. Danilo a v\u00ea, logo depois e berra:<\/p>\n<p>\u2014 Corre, diabo!<\/p>\n<p>Giramos nos calcanhares para correr, mas a misteriosa luz atravessou entre n\u00f3s e o port\u00e3o, obrigando-nos a recuar.<\/p>\n<p>\u2014 Miseric\u00f3rdia! Quem est\u00e1 a\u00ed?<\/p>\n<p>\u2014 Ah, s\u00e3o voc\u00eas!? \u2014 saudou uma voz tr\u00eamula e conhecida.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00f5ezinho, seu veado! Quase nos matou de medo.<\/p>\n<p>A luz veio correndo em nossa dire\u00e7\u00e3o e parou ofegante. T\u00f5ezinho estava descabelado como quem saiu de uma briga. A roupa toda manchada de poeira e algum sangue.<\/p>\n<p>\u2014 Merda! &#8216;C\u00ea t\u00e1 machucado! O que aconteceu?<\/p>\n<p>\u2014 Ca\u00ed dentro de uma cova aberta enquanto andava por a\u00ed.<\/p>\n<p>\u2014 Sorte sua n\u00e3o se machucar mais.<\/p>\n<p>\u2014 Sorte minha teria sido nem aparecer!<\/p>\n<p>\u2014 A festa, afinal&#8230; \u00e9 aqui?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem festa nenhuma, Fininho.<\/p>\n<p>\u2014 Mas hoje \u00e9 anivers\u00e1rio do Rachid, ele me mandou um tu\u00edte convidando que era aqui. Voc\u00ea replicou, mais de quarenta amigos meus replicaram.<\/p>\n<p>\u2014 Cara, v\u00ea se me entende. Mortos n\u00e3o d\u00e3o unfollow.<\/p>\n<p>O vento ficou subitamente mais frio. As nuvens que cobriam a lua cheia se abriram e nos permitiram ver uma boa parte do cemit\u00e9rio. Est\u00e1vamos na parte alta, o cemit\u00e9rio dos ricos, que fica logo na entrada. Abaixo, \u00e0 direita, uma vasta plan\u00edcie gramada, salpicada de brilhos diversos, marcava o dep\u00f3sito dos pobres.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim, T\u00f5ezinho?<\/p>\n<p>\u2014 Cara, n\u00e3o me pe\u00e7a para explicar. Bloco C, n\u00famero 11. Cara, porra! \u00c9 a cova do Rachid.<\/p>\n<p>Meu telefone vibrou com outra mensagem. Nem quis ler. Ent\u00e3o um rosnado rouco se ouviu muito perto, acompanhado de um brilho difuso e azulado. O rosnado se repetiu, mas n\u00e3o sei se aconteceu pela terceira vez.<\/p>\n<p>\u2014 Corre, diabo! \u2014 gritou Danilo de novo.<\/p>\n<p>E antes de qualquer terceiro ru\u00eddo n\u00f3s quatro t\u00ednhamos ultrapassado o port\u00e3o em uma corrida que at\u00e9 ganharia \u00edndice ol\u00edmpico. N\u00e3o sei de onde tiramos tanta for\u00e7a. Talvez tenha sido algo no tom de voz do Danilo, algo que sugeriu que n\u00e3o era s\u00f3 frescura dele. Nem sei como entramos no carro. Lembro-me vagamente de um vidro quebrando e tenho uns arranh\u00f5es na barriga. A cabe\u00e7a me d\u00f3i muito, mas d\u00f3i mais ainda a minha dignidade, por ter fugido t\u00e3o f\u00e1cil da presen\u00e7a do desconhecido. O Paul\u00e3o, que diz n\u00e3o acreditar nessas coisas, jura que ouvimos \u015bo o telefone do T\u00f5ezinho tocando, ele o tinha perdido, o lesado.<\/p>\n<p>Sei que sa\u00edmos da rua Fenelon Guimar\u00e3es cuspindo fagulha pelo escapamento, que assobiava como um apito de Satan\u00e1s. Se algu\u00e9m morava naquee bairro, deve ter acordado. Nisso incluo at\u00e9 os moradores do 80.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria correu depressa pelo bairro. Muita gente vem me perguntar. Mas eu n\u00e3o respondo nada sobre o que aconteceu, como quebrei o vidro ou cortei a testa. As pessoas n\u00e3o v\u00e3o acreditar. Ali\u00e1s, nem eu acredito se eu  contar para mim mesmo.<\/p>\n<p>Pode ter sido s\u00f3 mesmo o telefone do T\u00f5ezinho. Se bem que mesmo isso teria sido terr\u00edvel: no meu, a mensagem que n\u00e3o li veio do Rachid.<\/p>\n<p>O turquinho morreu mesmo. Faz uns quatro meses. Confirmei com a fam\u00edlia. N\u00e3o deram detalhes, sinal de que n\u00e3o foi coisa respeit\u00e1vel. Dizem que foi num pega, que foi numa overdose, que foi um tiro.<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 sei que ele me mandou v\u00e1rias mensagens naquela sexta, convidando para sua festa de anivers\u00e1rio, dando orienta\u00e7\u00f5es, cobrando presen\u00e7a. Ele me mandou, ou roubaram sua senha para me sacanear, ou ele tinha agendado as mensagens antes de morrer. Mas os mortos n\u00e3o d\u00e3o unfollow, n\u00e3o apagam seus perfis. Ficam vagando no limbo da internet, assombrando as redes sociais. E \u00e0s vezes convidando para suas festas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu trabalho \u00e9 encarar fila de banco. 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