{"id":6260,"date":"2018-12-26T18:00:48","date_gmt":"2018-12-26T21:00:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6260"},"modified":"2018-12-26T20:22:46","modified_gmt":"2018-12-26T23:22:46","slug":"humanidade-uma-questao-de-terminologia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/12\/humanidade-uma-questao-de-terminologia\/","title":{"rendered":"Humanidade: uma quest\u00e3o de terminologia"},"content":{"rendered":"\n<p>Devido  \u00e0 mudan\u00e7a de sentido da palavra ao longo do tempo, acredito que faz  sentido algumas pessoas pensarem que \u00e9 inapropriado falar em \u201chomem\u201d em vez de \u201chumano\u201d e , mas essa n\u00e3o era a inten\u00e7\u00e3o  original da palavra.<\/p>\n\n\n\n<p>Os romanos, que falavam  o latim, l\u00edngua da qual o portugu\u00eas evoluiu, n\u00e3o tinham qualquer pejo em serem machistas \u2014 a tal ponto que o uxoric\u00eddio era distinguido juridicamente do homic\u00eddio por haver <em>raz\u00f5es <\/em>pelas quais era l\u00edcito ao marido matar \u00e0 esposa, mas n\u00e3o um indiv\u00edduo matar a outro qualquer. Mesmo assim, a palavra latina <em>homo <\/em>n\u00e3o era especificamente usada em refer\u00eancia ao homem enquanto g\u00eanero masculino, mas ao g\u00eanero humano em geral. Era uma palavra masculina porque o g\u00eanero gramatical n\u00e3o costuma ter rela\u00e7\u00e3o com o g\u00eanero sexual: afinal, por que o garfo \u00e9 menino e a colher \u00e9 uma menina?<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto assim era que o latim inclu\u00eda palavras espec\u00edficas para distinguir os indiv\u00edduos conforme o g\u00eanero. Para o homem enquanto \u201cmacho\u201d a palavra usada era <em>vir <\/em>(donde <em>virum, <\/em>e n\u00e3o confundir com <em>virus<\/em>). Para a mulher, a palavra usada era <em>femina.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/adam-and-eve-william-strang.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6261\" width=\"350\" height=\"255\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Parece haver uma certa rela\u00e7\u00e3o entre as palavras <em>homo <\/em>e <em>humus, <\/em>que  foi, inclusive, usada por S\u00e3o Jer\u00f4nimo, na tradu\u00e7\u00e3o do G\u00eanesis, para  traduzir o trocadilho hebraico entre Ad\u00e3o (\u05d0\u05b8\u05d3\u05b8\u05dd, segundo a Wikipedia) e  terra (\u05d0\u05d3\u05de\u05d4, idem). Da raiz <em>vir <\/em>obtivemos v\u00e1rias palavras que se referem a qualidades masculinas: <em>viril, virilidade, virago, var\u00e3o, varonil <\/em>e tamb\u00e9m <em>bar\u00e3o<\/em> e seus derivados (mais uma vez, <em>virus <\/em>\u00e9 outra palavra!).<\/p>\n\n\n\n<p>Uma outra palavra latina muito usada para se referir ao macho, em geral, era <em>mas, <\/em>de cujo diminutivo (<em>masculus<\/em>) obtivemos <em>macho, m\u00e1sculo, masculino, machucar <\/em>etc. Mas tamb\u00e9m <em>marido <\/em>(a troca do esse pelo erre era comum em certas declina\u00e7\u00f5es latinas).<\/p>\n\n\n\n<p>Da raiz <em>femina, <\/em>idem palavras referentes \u00e0 qualidades\u2026 femininas: <em>f\u00eamea, feminino, feminina, feminista, efeminado <\/em>algumas engra\u00e7adas, como <em>femeeiro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Uma outra palavra latina muito usada para se referir \u00e0 mulher era\u2026 <em>mulier.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mas <\/em>e <em>mulier <\/em>eram usados em oposi\u00e7\u00e3o, assim como <em>vir <\/em>e <em>femina. <\/em>Sua sequ\u00eancia l\u00f3gica para o portugu\u00eas \u00e9 \u201cmarido e mulher\u201d e \u201cvar\u00e3o e f\u00eamea\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A raiz da confus\u00e3o \u00e9 que na cultura romana, machista at\u00e9 a raiz do cabelo, a cidadania era prerrogativa do <em>pater familias <\/em>(pai de fam\u00edlia). Tanto assim que os membros da classe dominante eram chamados de <em>patricius<\/em> (uma forma abreviada de <em>patres conscripti <\/em>(\u201cpais registrados\u201d), por oposi\u00e7\u00e3o aos pais em geral que, se fossem plebeus, n\u00e3o tinham registros geneal\u00f3gicos. Veja que o patriarcado romano considerava os nobres os \u201cpais por excel\u00eancia\u201d (donde o conceito de \u201cPais da P\u00e1tria\u201d que vemos no nosso nacionalismo). Ali\u00e1s, a pr\u00f3pria \nno\u00e7\u00e3o de <em>Patria <\/em>vem de <em>pater <\/em>(\u201cpai\u201d). Donde o rid\u00edculo da express\u00e3o \u201cP\u00e1tria-M\u00e3e\u201d no hino nacional\u2026<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img src=\"https:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/thumb\/9\/9e\/Togato%2C_I_sec_dc._con_testa_di_restauro_da_un_ritratto_di_nerva%2C_inv._2286.JPG\/285px-Togato%2C_I_sec_dc._con_testa_di_restauro_da_un_ritratto_di_nerva%2C_inv._2286.JPG\" alt=\"\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Se somente os pais de fam\u00edlia podiam ser cidad\u00e3os, era natural que fizessem uso quase exclusivo da l\u00edngua nos espa\u00e7os pol\u00edticos. Assim, era sempre um var\u00e3o, um macho, que fazia uso da palavra <em>homo <\/em>para se descrever como superior aos animais e aos b\u00e1rbaros. Da\u00ed express\u00f5es como <em>homo liber <\/em>(\u201chomem livre\u201d), <em>homo sapiens <\/em>(\u201chomem s\u00e1bio\u201d), <em>filius hominis <\/em>(\u201cfilho do homem\u201d, uma express\u00e3o encontrada na b\u00edblia). Como essas express\u00f5es, devido ao machismo estrutural da sociedade romana (e logo da crist\u00e3) eram encontradas quase sempre na boca de pessoas do sexo masculino, elas adquiriram um car\u00e1ter progressivamente masculino, como se a mulher n\u00e3o fosse, tamb\u00e9m, \u201cda terra\u201d (<em>humus<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cHumanidade\u201d e \u201chomem\u201d s\u00e3o cognatos, portanto, e n\u00e3o faz sentido recear o uso da segunda e preferir a primeira. O que faria sentido \u00e9 difundir a ideia de que a palavra \u201chomem\u201d <em>n\u00e3o <\/em>se refere ao g\u00eanero masculino, mas ao ser humano em geral. Os romanos, machistas do jeito que eram, sabiam disso; mas eu creio que esta \u00e9 uma luta perdida antes de come\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o nos cabe, enquanto \u201cinquilinos\u201d da l\u00edngua, impor-lhe modifica\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter ou estrutura. Ent\u00e3o me vejo for\u00e7ado a concluir este texto sem propor coisa alguma para solucionar o conflito sem\u00e2ntico citado, contentando-me apenas em ter suscitado o debate.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Devido \u00e0 mudan\u00e7a de sentido da palavra ao longo do tempo, acredito que faz sentido algumas pessoas pensarem que \u00e9 inapropriado falar em \u201chomem\u201d em vez de \u201chumano\u201d e , mas essa n\u00e3o era a inten\u00e7\u00e3o original da palavra. Os romanos, que falavam o latim, l\u00edngua da qual o portugu\u00eas evoluiu, n\u00e3o tinham qualquer pejo em serem machistas \u2014 a tal ponto que o uxoric\u00eddio era distinguido juridicamente do homic\u00eddio por haver raz\u00f5es pelas quais era l\u00edcito ao marido matar \u00e0 esposa, mas n\u00e3o um [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":6261,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[209,273,227],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6260"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6260"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6260\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6274,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6260\/revisions\/6274"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6261"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6260"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6260"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6260"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}