{"id":6263,"date":"2018-12-28T17:55:05","date_gmt":"2018-12-28T20:55:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6263"},"modified":"2018-12-24T14:00:17","modified_gmt":"2018-12-24T17:00:17","slug":"porque-a-musica-pop-e-ruim","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2018\/12\/porque-a-musica-pop-e-ruim\/","title":{"rendered":"Porque a m\u00fasica pop \u00e9 \u201cruim\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Pela pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do termo, a m\u00fasica \u201cpop\u201d <em>tem de ser<\/em> ruim. Se por algum motivo o pop se torna bom, imediatamente adquire outro r\u00f3tulo. Adicionado (como os subg\u00eaneros do rock) ou em substitui\u00e7\u00e3o ao anterior, como a \u201cblack music\u201d dos anos 1960 e 1970. Em qualquer forma de arte, o \u201cpop\u201d \u00e9 a lata de lixo da cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes que o leitor se apresse a me agredir, <em>esta n\u00e3o \u00e9 a minha defini\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A cr\u00edtica musical, incluindo a cr\u00edtica especializada em m\u00fasica pop, define o g\u00eanero em termos que, mesmo quando cunhados com a inten\u00e7\u00e3o de neutralidade, pintam um retrato bastante desagrad\u00e1vel do g\u00eanero:<\/p>\n\n\n\n<ul><li>David Hatch e Stephen Millward definem a m\u00fasica pop como <em>um g\u00eanero musical que se distingue do popular, do jazz e do folk.<\/em><\/li><li>De acordo com Pete Seeger, pop \u00e9 aquela <em>m\u00fasica profissional que deriva ao mesmo tempo da m\u00fasica folcl\u00f3rica e da erudita.<\/em><\/li><li>A Wikipedia define o pop como um <em>g\u00eanero distinto que pretende agradar a todos, muitas vezes caracterizado como uma m\u00fasica instant\u00e2nea baseada em obras breves e voltada para adolescentes, contrastando com o rock, que seria m\u00fasica baseada em \u00e1lbuns e voltada para adultos.<\/em><\/li><li>O musicologista brit\u00e2nico Simon Frith (que se declara um f\u00e3 de m\u00fasica pop e a considera a mais duradoura express\u00e3o da m\u00fasica popular), descerve-a como <em>uma m\u00fasica produzida como uma inten\u00e7\u00e3o comercial, n\u00e3o art\u00edstica, planejada para agradar a todos, mas que n\u00e3o vem de nenhum lugar em particular ou possui qualquer marca espec\u00edfica de gosto.<\/em><\/li><li>O mesmo Frith adiciona que ela <em>n\u00e3o \u00e9 movida por nenhuma ambi\u00e7\u00e3o significativa a n\u00e3o ser o lucro e o retorno comercial, sendo, em termos musicais, essencialmente conservadora.<\/em><\/li><li>A Wikipedia tamb\u00e9m lembra que as can\u00e7\u00f5es do g\u00eanero costumam ser de dura\u00e7\u00e3o curta ou m\u00e9dia, escritas em  um formato b\u00e1sico (muitas vezes a estrutura verso-refr\u00e3o), empregando recursos repetitivos e previs\u00edveis (como os \u201cganchos\u201d), com uma produ\u00e7\u00e3o muito forte e letras que abordam temas universais, como o amor e a amizade, sem entrar em detalhes espec\u00edficos que possam desagradar a alguns. A ideia \u00e9 produzir uma m\u00fasica que atraia ao maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas.<\/li><li>O YouTuber Arran Lomas, que possui um dos principais canais sobre ci\u00eancia popular e cultura pop, observou, tamb\u00e9m, que todas as caracter\u00edsticas da m\u00fasica pop <em>se exacerbaram de vinte anos para c\u00e1.<\/em><\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Vamos tentar traduzir isto em uma defini\u00e7\u00e3o \u00fanica e abrangente:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A m\u00fasica pop \u00e9 definida por nega\u00e7\u00e3o dos demais g\u00eaneros de m\u00fasica popular (entre eles rock, blues, folk, jazz e outros), mas tamb\u00e9m da m\u00fasica erudita. \u00c9 um g\u00eanero musical criado e produzido com o objetivo central de produzir retorno financeiro e que, para maximizar o seu alcance (e portanto o retorno), evita manifestar caracter\u00edsticas \u00e9tnicas, culturais ou geogr\u00e1ficas que o liguem de maneira muito restrita a determinado local ou popula\u00e7\u00e3o. As can\u00e7\u00f5es s\u00e3o breves, de estrutura simples, e abordam temas universais de uma maneira gen\u00e9rica. N\u00e3o \u00e9 uma forma de arte ou de express\u00e3o cultural ou intelectual, mas o M.D.C. da cultura jovem contempor\u00e2nea. Apesar de voltada aos jovens, \u00e9 pesadamente produzida por gente mais velha e,  por isso, \u00e9 conservadora.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img loading=\"lazy\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/drluke-1e5ab73ebf4c5c93ecf52eb9b477a19fd819387b-s800-c85.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6267\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/drluke-1e5ab73ebf4c5c93ecf52eb9b477a19fd819387b-s800-c85.jpg 800w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/drluke-1e5ab73ebf4c5c93ecf52eb9b477a19fd819387b-s800-c85-120x90.jpg 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/drluke-1e5ab73ebf4c5c93ecf52eb9b477a19fd819387b-s800-c85-250x188.jpg 250w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/drluke-1e5ab73ebf4c5c93ecf52eb9b477a19fd819387b-s800-c85-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Isto n\u00e3o quer dizer que a m\u00fasica pop seja sempre e necessariamente ruim, mas, sim, que ela seja normalmente e por defini\u00e7\u00e3o, ruim. Haver\u00e1, claro, certos artistas da m\u00fasica pop que conseguir\u00e3o passar uma mensagem pessoal, mas o far\u00e3o <em>apesar das limita\u00e7\u00f5es do g\u00eanero.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante levar em conta que quando algo busca agradar a todos, o resultado \u00e9 uma obra grosseira, que n\u00e3o eleva quem est\u00e1 abaixo dela, mas pode rebaixar quem est\u00e1 acima. Sempre que a popularidade do pop entra em discuss\u00e3o, gosto de lembrar de <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Le_P%C3%A9tomane\" target=\"_blank\">Le P\u00e9tomane<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel confiar no gosto de muita gente porque, como diz o fil\u00f3sofo Falc\u00e3o, <em>a maior parte das pessoas \u00e9 apenas a grande maioria.<\/em> Para a maioria, Le P\u00e9tomane \u00e9 melhor que Stravinsky.<\/p>\n\n\n\n<p>A fim de apelar a <em>todos<\/em>, \u00e9 necess\u00e1rio que o pop se torne acess\u00edvel aos que t\u00eam pouca cultura e pouca intelig\u00eancia. Qualquer caracter\u00edstica que seja comum em uma sociedade ser\u00e1 explorada pelo pop. Se a m\u00fasica pop de certo pa\u00eds \u00e9 preconceituosa, \u00e9 porque a cultura desse pa\u00eds \u00e9 preconceituosa. Se a m\u00fasica pop transmite valores machistas, \u00e9 porque ela os recebeu da sociedade e os devolve a ela. A m\u00fasica pop n\u00e3o busca agradar aos mais inteligentes ou mais cultos porque eles s\u00e3o uma minoria. N\u00e3o d\u00e1 mais lucro vender para uma minoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Le P\u00e9tomane era um artista de teatro de variedades que se apresentava na Fran\u00e7a entre o fim do s\u00e9culo XIX e o come\u00e7o do s\u00e9culo XX, o auge da <em>Belle \u00c9poque.<\/em> Vinha gente de toda parte para assistir o seu show. Reis e trabalhadores acorriam ao Moulin Rouge de Paris, que tinha a exclusividade de seu contrato.<\/p>\n\n\n\n<p>Le P\u00e9tomane se apresentava como um <em>fartista<\/em> (uma mistura de \u201cartista\u201d e \u201cfarto\u201d, uma palavra obsoleta para \u201cpeido\u201d) porque era capaz de peidar musicalmente. Ainda na adolesc\u00eancia, descobrira que conseguia sugar \u00e1gua e ar para dentro do intestino e ent\u00e3o controlava a expuls\u00e3o com os seus esf\u00edncteres anais.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/petomane.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6265\" width=\"336\" height=\"394\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Alguns dos pontos altos de sua apresenta\u00e7\u00e3o envolviam produzir ru\u00eddos de tiros de canh\u00e3o, trov\u00f5es e ranger de portas. Ele tamb\u00e9m tocava <em>O Sole Mio<\/em> e a <em>Marselhesa<\/em> em uma ocarina usando um tubo conectado ao seu \u00e2nus. Ele conseguia apagar uma vela a metros de dist\u00e2ncia. Uma parte peculiarmente divertida de seu show envolvia uma sequ\u00eancia de peidos em que \u201cdocumentava\u201d a evolu\u00e7\u00e3o de uma mulher, desde \u201cdonzela\u201d at\u00e9 \u201ccasada e m\u00e3e de seis filhos\u201d. Sua plateia inclu\u00eda o Pr\u00edncipe Eduardo da Gr\u00e3 Bretanha, o Rei Lepoldo II dos Belgas e Sigmund Freud. Ele foi entusiasticamente aplaudido na mesma semana em que as plateias de Paris vaiaram a <em>Sagra\u00e7\u00e3o da Primavera<\/em>, de Igor Stravinsky, e submeteram os m\u00fasicos que a executavam a ovos e tomates com tal ferocidade que a pol\u00edcia teve de proteg\u00ea-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Para algumas pessoas, arte \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de gosto, e os peidos de Le P\u00e9tomane n\u00e3o ficam a dever em nada \u00e0s sinfonias de Stravinsky. Voc\u00ea ser\u00e1 chamado de \u201celitista\u201d se n\u00e3o defender esse absurdo. As pessoas se ofendem com a ideia de que peidar <em>n\u00e3o \u00e9<\/em> uma forma de arte t\u00e3o digna quanto executar uma sinfonia em um instrumento que precisou de anos de estudo para ser aprendido. Somente uma \u201cmente fechada\u201d defende esse \u201cabsurdo\u201d de que existem crit\u00e9rios objetivos para determinar as fronteiras da arte.<\/p>\n\n\n\n<p>Todo artista, ao ouvir esse tipo de coment\u00e1rio, deveria peidar na presen\u00e7a dessas pessoas e pedir um aplauso. N\u00e3o um peido qualquer, ordin\u00e1rio e sem gra\u00e7a, mas um peido formid\u00e1vel, extraordin\u00e1rio, duradouro, de longo alcance, digno de Le P\u00e9tomane.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>Mas&#8230; tu me dir\u00e1s, h\u00e1 artistas de m\u00fasica pop que s\u00e3o bons. Decerto, assim como nem todos os peidos s\u00e3o do mesmo naipe, nem todos os artistas pop est\u00e3o em um mesmo n\u00edvel. H\u00e1 alguns que conseguem elevar-se acima da nuvem sulf\u00farea dos palcos populares e aproximam-se da qualidade art\u00edstica. Estes costumam receber bem depressa um r\u00f3tulo adicional, como dissemos. S\u00e3o, tamb\u00e9m, em geral, artistas com uma forma\u00e7\u00e3o diferente, que chegaram ao pop vindos de outros lugares. Michael Jackson veio da m\u00fasica negra, por exemplo. Ou s\u00e3o artistas que buscaram deliberadamente afastar-se do pop a partir de certo momento. Como os Beatles.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando voc\u00ea mistura o pop com alguma coisa, seja o que for, voc\u00ea tem uma vers\u00e3o mais acess\u00edvel dessa coisa, que n\u00e3o \u00e9 ainda pop, que ainda tem pontes de retorno a outro lugar. As carreiras dos artistas pop que fazem esse tipo de mistura costumam terminar nesse ponto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pela pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do termo, a m\u00fasica \u201cpop\u201d tem de ser ruim. 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