{"id":63,"date":"2013-03-21T19:16:00","date_gmt":"2013-03-21T22:16:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=63"},"modified":"2017-12-12T23:14:05","modified_gmt":"2017-12-13T02:14:05","slug":"traducao-o-demonio-da-flor-c-a-smith","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/03\/traducao-o-demonio-da-flor-c-a-smith\/","title":{"rendered":"O Dem\u00f4nio da Flor"},"content":{"rendered":"<div class=\"epigraph\">Original de Clark Ashton-Smith.<br \/>\nTraduzido a partir da vers\u00e3o online em <a href=\"http:\/\/www.eldritchdark.com\">Eldritch Dark<\/a>.<\/div>\n<p>A vegeta\u00e7\u00e3o do planeta Lophai n\u00e3o \u00e9 como as plantas e flores da Terra,  que crescem pac\u00edficas sob um sol solit\u00e1rio. Enrolando e desenrolando em  manh\u00e3s duplas, crescendo tumultuosamente sob vastos s\u00f3is de verde jade e  alaranjado rubi, vibrando se agitando em ricos ocasos, em noites  toldadas por auroras; elas parecem campos de serpentes enraizadas que  dan\u00e7am eternamente para uma m\u00fasica sobrenatural.<\/p>\n<p>Muitas eram  pequenas e furtivas, e rastejavam como v\u00edboras no ch\u00e3o. Outras eram  altas como jiboias, chegando soberbamente a posturas hier\u00e1ticas diante  da luz brilhante. Algumas cresciam com caules \u00fanicos ou duplos que se  desenvolviam em cabe\u00e7as de hidra e outras eram franjadas e enfeitadas  com folhas que sugeriam as asas de lagartos voadores, os pend\u00f5es de  lan\u00e7as fant\u00e1sticas, os filact\u00e9rios de estranhas ordens sacerdotais.  Algumas pareciam possuir as escamas escarlates dos drag\u00f5es, outras eram  linguadas como as chamas negras ou os vapores colorados que saem do  crepitar de incens\u00e1rios b\u00e1rbaros, mas outras eram ainda armadas com  redes ou gavinhas carnadas ou grandes infloresc\u00eancias como escudos  perfurados em batalha. E todas eram equipadas com dardos e dentes  venenosos, todas eram vivas, incans\u00e1veis e inteligentes.<\/p>\n<p>Elas  eram as senhoras de Lophai, e qualquer outra vida existia por sua  permiss\u00e3o. A gente daquele mundo lhes havia sido inferior desde eras  esquecidas, e mesmo nos mitos mais primitivos n\u00e3o havia qualquer  sugest\u00e3o de que outra ordem das coisas tivesse jamais prevalecido. E as  plantas, por sua vez, assim como a fauna e a humanidade de Lophai, davam  obedi\u00eancia inquestionada \u00e0 suprema e terr\u00edvel flor conhecida como a  Voorqual, da qual se acreditava que um dem\u00f4nio tutelar, mais antigo que  os s\u00f3is g\u00eameos, fizera seu avatar imortal.<\/p>\n<p>A Voorqual era servida  por um clero humano, escolhido dentre a realeza e a aristocracia de  Lophai. No cora\u00e7\u00e3o da capital, Lospar, em um reino equatorial, ele  crescera desde a antiguidade no topo de uma alta pir\u00e2mide de terra\u00e7os  negros que contemplava a cidade como os jardins suspensos de uma grande  Babil\u00f4nia, povoada pelas formas florais inferiores, mas letais. No  centro de seu largo topo a Voorqual se erguia solit\u00e1ria, sobre uma base  plana, nivelada com a plataforma de mineral escuro que a circundava. A  base era preenchida por um adubo do qual o p\u00f3 de m\u00famias reais era um  ingrediente essencial.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" border=\"0\" height=\"320\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/th06.deviantart.net\/fs71\/PRE\/i\/2011\/139\/b\/9\/demon_flower_by_madcarter1-d3gilxm.jpg\" width=\"240\" \/> A flor dem\u00f4nio surgia de um bulbo t\u00e3o  espessado pelo crescimento das eras que parecia uma urna de pedra. Dele  se erguia um caule nodoso e forte que tivera em tempos antigos um galho  de mandr\u00e1gora, mas cujas metades haviam ent\u00e3o se unido em uma coisa  escamosa e enrugada como o rabo de um monstro marinho m\u00edtico. O caule  era salpicado de tons de bronze azinhavrado e cobre antigo, com manchas  azuis l\u00edvidas e marcas roxas de carne corrompida. Terminava em uma coroa  de folhas duras e enegrecidas, listradas e pintadas de branco met\u00e1lico e  venenoso, bordejadas de um serrilhado como o de armas r\u00fasticas. Abaixo  da coroa sa\u00eda um galho longo e sinuoso, escamado como o tronco  principal, que serpenteava para baixo e para o lado at\u00e9 terminar no  c\u00e1lice de uma flora\u00e7\u00e3o bizarra \u2014 como se o galho, de um modo sard\u00f4nico,  estendesse uma infernal tigela de esmolas.<\/p>\n<p>Abomin\u00e1vel e  monstruoso era tal c\u00e1lice \u2014 que, como as folhas, a lenda dizia  renovar-se a intervalos de mil anos. Junto \u00e0 base ele tinha a cor  ardente de um pesado rubi, que clareava em certas \u00e1reas como sangue de  drag\u00e3o, nos lados intumescidos ele se enchia de faixas rosadas como um  entardecer do inferno e junto \u00e0 boca ele chamejava de um n\u00e1car vermelho  amarelado como o sangue das salamandras. Quem ousasse olhar dentro,  veria que a copa era coberta de um violeta sepulcral, que escurecia em  dire\u00e7\u00e3o ao fundo, que era pontilhado de uma mir\u00edade de poros e riscado  por veias turgescentes de um verde sulf\u00farico.<\/p>\n<p>Oscilando em um  ritmo lento, letal e hipn\u00f3tico, com um silvo profundo e solene, a  Voorqual dominava a cidade de Lospar e o mundo de Lophai. Abaixo, nos  degraus da pir\u00e2mide, as plantas of\u00eddicas amontoadas seguiam o tempo  desse ritmo em seu balan\u00e7o e sussurros. E muito al\u00e9m de Lospar, at\u00e9 os p\u00f3los do planeta e em todas as suas longitudes, a vegeta\u00e7\u00e3o viva  obedecia ao tempo soberano da Voorqual.<\/p>\n<p>Infinito era o poder  exercido por este ser sobre a gente que, por falta de nome melhor,  considerei a humanidade de Lophai. Numerosas e assustadoras eram as  lendas que haviam surgido, atrav\u00e9s das eras, a respeito da Voorqual. E  horr\u00edvel era o sacrif\u00edcio demandado a cada ano, no solst\u00edcio de ver\u00e3o, pelo  dem\u00f4nio: encher seu c\u00e1lice com o sangue de um sacerdote ou sacerdotisa, \u00a0escolhido entre os hierofantes reunidos diante da Voorqual, at\u00e9 que este, esvaziado e invertido, baixasse como uma mitra infernal sobre a cabe\u00e7a de  um deles.<\/p>\n<p>Lunithi, rei das terras de Lospar e sumo sacerdote da  Voorqual, foi o \u00faltimo e talvez o primeiro de sua ra\u00e7a a rebelar-se  contra tal tirania singular. Havia mitos obscuros de um l\u00edder primordial  que ousara recusar o sacrif\u00edcio exigido e cujo povo, em consequ\u00eancia,  fora dizimado por uma guerra mortal contra as plantas serpentinas que,  em obedi\u00eancia ao dem\u00f4nio enfurecido, tinham se desenraizado do ch\u00e3o em  toda parte e marchado sobre as cidades de Lophai, matando ou  vampirizando todos que encontraram em seu caminho. Lunithi, desde  crian\u00e7a, obedecera \u00e0 vontade do ditador vegetal implicitamente e sem  questionar e oferecera a adora\u00e7\u00e3o costumeira, executara os ritos  necess\u00e1rios. Neg\u00e1-los seria blasfemo. Ele nunca sonhara em rebelar-se  at\u00e9 que, na \u00e9poca da escolha da v\u00edtima anual, e trinta s\u00f3is antes da  data de suas n\u00fapcias com Nala, tamb\u00e9m sacerdotista da Voorqual, ele viu o  graal invertido de fun\u00e9reo carmim descer hesitantemente sobre a bela  cabe\u00e7a de sua noiva.<\/p>\n<p>Lunithi experimentou uma consterna\u00e7\u00e3o  melanc\u00f3lica, uma decep\u00e7\u00e3o profunda e negra que tentou apagar em seu  cora\u00e7\u00e3o. Nala, atordoada e conformada, em uma in\u00e9rcia de m\u00edstico  desespero, aceitou seu destino sem questionar, mas uma d\u00favida blasfema  se formou secretamente nos pensamentos do rei.<\/p>\n<p>Tr\u00eamulo diante de  sua impiedade, ele se perguntou se n\u00e3o haveria alguma maneira de salvar  Nala, subtrair ao dem\u00f4nio o seu tributo macabro. Para fazer isso e  escapar impunemente, ele e seus s\u00faditos, sabia que deveria atentar contra a  pr\u00f3pria vida do monstro, que acreditava-se ser eterno e invulner\u00e1vel.  Parecia \u00edmpio at\u00e9 mesmo pensar a respeito da veracidade de sua cren\u00e7a,  que havia sido aceita por tanto tempo que adquirira a for\u00e7a de uma f\u00e9  religiosa e era praticada unanimemente. Em meio a tais reflex\u00f5es Lunithi  lembrou de um velho mito antigo sobre a exist\u00eancia de um ser neutro e  independente, conhecido como a Occlith: um dem\u00f4nio coevo da Voorqual,  que n\u00e3o era aliado nem do homem e nem das criaturas florais.<\/p>\n<p>Este  ser diziam viver al\u00e9m do deserto de Aphom, nas desabitadas montanhas de  rocha branca, acima do h\u00e1bitat das flores of\u00eddicas. H\u00e1 muito tempo que nenhum homem via a Occlith, porque a jornada atrav\u00e9s de Aphom n\u00e3o era  f\u00e1cil de se levar a termo. Mas esta entidade era supostamente imortal e  se mantinha \u00e0 parte e isolada, meditando sobre todas as coisas sem  interferir nunca em seus processos. Por\u00e9m, dizia-se que no passado ela  dera valiosos conselhos a certo rei que deixara Lospar e fora at\u00e9 o seu  tug\u00fario entre os rochedos brancos.<\/p>\n<p>Enlutado e desesperado,  Lunithi resolveu buscar a Occlith e perguntar-lhe sobre a possibilidade  de matar a Voorqual. Se por quaisquer meios mortais o dem\u00f4nio pudesse  ser destru\u00eddo, ele afastaria de Lophai a tirania h\u00e1 tanto tempo  estabelecida, cuja sombra reca\u00eda sobre todas as coisas, partindo da  pir\u00e2mide negra.<\/p>\n<p>Era preciso que procedesse com a m\u00e1xima cautela, n\u00e3o confiando em ningu\u00e9m, ocultar todo o tempo os seus pensamentos do  escrut\u00ednio oculto da Voorqual. No intervalo de cinco dias entre a  escolha da v\u00edtima e a consuma\u00e7\u00e3o do sacrif\u00edcio ele deveria levar a  efeito o seu plano louco.<\/p>\n<p>Desacompanhado e vestido como um simpl\u00f3rio  ca\u00e7ador ele deixou seu pal\u00e1cio durante a curta noite de tr\u00eas horas em  que todos dormitavam e seguiu pelo deserto de Aphom. No nascer do sol  rubro ele chegara \u00e0 vastid\u00e3o sem caminhos e sofria dolorosamente em suas  colinas de afiadas pedras negras, como as ondas de um oceano encapelado  que se petrificara.<\/p>\n<p>Logo os raios do sol verde se somaram aos do  outro, e Aphom se tornou um inferno colorido atrav\u00e9s do qual Lunithi se  arrastava, rastejando de escarpa a escarpa v\u00edtrea ou descansando \u00e0s  vezes nas sombras coloridas. N\u00e3o havia \u00e1gua em lugar algum, mas furtivas  miragens brilhavam e sumiam, e a areia solta parecia formar arroios no  fundo dos vales profundos. Ao se p\u00f4r o primeiro sol, ele finalmente viu  as montanhas p\u00e1lidas al\u00e9m de Aphom, erguendo-se como rochedos de espuma  congelada sobre o mar escuro do deserto. Sob a luz do sol  amarelo-avermelhado que se punha, elas pareciam tingidas por veios  semitransparentes, em azul claro, jade e laranja. Ent\u00e3o as luzes se  fundiram em tons de berilo e turmalina e o sol verde reinou soberano,  at\u00e9 que ele tamb\u00e9m se p\u00f4s, deixando um crep\u00fasculo de cor marinha. Nesta  semiescurid\u00e3o Lunithi chegou ao p\u00e9 dos p\u00e1lidos penhascos e ali, exausto,  dormiu at\u00e9 o segundo sol nascer.<\/p>\n<p>Levantando-se, come\u00e7ou a  escalada das montanhas brancas. Elas se erguiam est\u00e9reis e terr\u00edveis  diante dele, contra a luz dos s\u00f3is ocultos, com rochedos que eram como  os terra\u00e7os alt\u00edssimos dos deuses. Tal como o rei que o precedera no  antigo mito, ele encontrou uma trilha prec\u00e1ria que o levou atrav\u00e9s dos  abismos estreitos e ravinas. Por fim chegou \u00e0 mais vasta fissura, que  rasgava o cora\u00e7\u00e3o da cordilheira branca e era o \u00fanico meio pelo qual se  podia chegar ao legend\u00e1rio dom\u00ednio da Occlith.<\/p>\n<p>As paredes eretas  do abismo subiam cada vez mais alto acima dele, cortando a luz dos s\u00f3is  mas criando com sua brancura uma luminesc\u00eancia sutil e morti\u00e7a que  iluminava o caminho. A fissura era algo como o corte da espada de um  gigante macroc\u00f3smico. Ela seguia para baixo, cada vez mais \u00edngreme, como  uma ferida que chegava ao cora\u00e7\u00e3o de Lophai.<\/p>\n<p>Lunithi, tal como  todos de sua ra\u00e7a, podia subsistir durante prolongados per\u00edodos sem  outra nutri\u00e7\u00e3o que a luz do sol e a \u00e1gua. Trouxera consigo um frasco  de metal, cheio da \u00e1gua de Lophai, que raramente bebia enquanto descia  ao abismo, pois as montanhas brancas eram secas e ele temia tocar as  po\u00e7as e correntezas de fluidos desconhecidos encontrava, \u00e0s vezes, na  penumbra. Havia fontes de cor sangu\u00ednea que fumegavam e borbulhavam  diante dele e depois desapareciam em rachaduras sem fundo, e tamb\u00e9m  riachos de metal mercurial, verde, azul ou \u00e2mbar, que passavam perto  dele como serpentes liquefeitas e ent\u00e3o escorriam para dentro de  cavernas escuras. Agros vapores subiam das fendas do abismo e Lunithi se  sentiu entre os estranhos processos qu\u00edmicos da natureza. Neste mundo  fant\u00e1stico de pedra, que as plantas de Lophai nunca poderiam invadir,  ele parecia ter deixao muito para tr\u00e1s a diab\u00f3lica e impiedosa tirania  da Voorqual.<\/p>\n<p>Por fim chegou a um lago l\u00edmpido que ocupava quase  toda a amplitude do abismo. Para passar por ele teve de se esgueirar por  uma orla estreita e insegura. Um fragmento da rocha marm\u00f3rea se soltou  sob seus p\u00e9s e caiu dentro do lago enquanto ele chegava ao outro lado,  ent\u00e3o o l\u00edquido incolor ferveu e assobiou como mil v\u00edboras. Pensando em  suas propriedades e temendo o venenoso sibilar que tardou bastante a  diminuir, Lunithi apertou o passo e logo chegou ao fim da fissura.<\/p>\n<p>Ali  ele emergiu no fundo de uma depress\u00e3o semelhante a uma cratera, que era  o lar da Occlith. Paredes caneladas e colunas se erguiam a alturas  estupendas por todos os lados e o sol alaranjado rubi, ent\u00e3o no z\u00eanite,  despejava uma catarata de maravilhosas chamas e sombras.<\/p>\n<p>De costas  para a parede oposta da cratera, em uma postura ereta, ele contemplou  aquele ser conhecido como a Occlith, que tinha a apar\u00eancia de um pilar  cruciforme de mineral azul, que brilhava com seu pr\u00f3prio lustro  esot\u00e9rico. Seguindo em frente ele se prostrou diante do pilar e ent\u00e3o,  em uma entona\u00e7\u00e3o tr\u00eamula de espanto, se aventurou a fazer a pergunta ao  desejado or\u00e1culo.<\/p>\n<p>Por um momento a Occlith manteve seu sil\u00eancio  de eras. Olhando timidamente, o rei percebeu duas luzes como um prateado  m\u00edstico que fulgiam e se apagavam em uma pulsa\u00e7\u00e3o ritmada e lenta pelos  bra\u00e7os da cruz azul. Ent\u00e3o, da gigantesca coisa brilhante saiu uma voz  que era como o retinir de fragmentos minerais esfregados uns nos outros,  mas que de certa maneira assumia a forma de palavras articuladas.<\/p>\n<p>\u2014  \u00c9 poss\u00edvel \u2014 disse a Occlith \u2014 matar a planta conhecida como a  Voorqual, na qual um antigo dem\u00f4nio tem habitado. Embora a flor tenha  chegado a idade milenar, ela n\u00e3o \u00e9 necessariamente imortal: pois todas  as coisas t\u00eam seu pr\u00f3prio termo de exist\u00eancia e decad\u00eancia, e nada se  criou sem sua previs\u00e3o de morte&#8230; Eu n\u00e3o o aconselho a matar a planta\u2026  mas eu posso lhe fornecer a informa\u00e7\u00e3o que deseja. Na ravina entre as  montanhas, por onde voc\u00ea veio a buscar-me, ali flui uma fonte de veneno  mineral incolor, mort\u00edfero a toda forma de vegeta\u00e7\u00e3o of\u00eddica deste  mundo\u2026<\/p>\n<p>A Occlith continuou, dizendo a Lunithi o m\u00e9todo pelo qual a  po\u00e7\u00e3o deveria ser preparada e administrada. A fria, mon\u00f3tona e r\u00edspida  voz concluiu:<\/p>\n<p>\u2014 Eu respondi \u00e0 sua pergunta. Se h\u00e1 algo mais que deseja aprender, seria bom perguntar-me agora.<\/p>\n<p>Prostrando-se  novamente, Lunithi agradeceu \u00e0 Occlith e, achando que aprendera tudo  que era necess\u00e1rio, ele n\u00e3o aproveitou a oportunidade para fazer mais  pergunta alguma \u00e0 estranha entidade de rocha viva. E a Occlith, cr\u00edptica  e alheia em sua medita\u00e7\u00e3o cont\u00ednua e impenetr\u00e1vel, aparentemente  considerou apropriado n\u00e3o dizer coisa alguma que n\u00e3o fosse perguntada  diretamente.<\/p>\n<p>Saindo do abismo emparedado em m\u00e1rmore, Lunithi  voltou apressadamente pela ravina at\u00e9 alcan\u00e7ar a lagoa da qual a Occlith  falara. Pausou para esvaziar o seu frasco de \u00e1gua e encheu-o com o  l\u00edquido raivoso e sibilante. Ent\u00e3o ele continuou sua jornada de volta  para casa.<\/p>\n<p>Ao fim de dois dias, depois de incr\u00edveis fadigas e  tormentos no inferno abrasado de Aphom, ele chegou a Lospar durante as  horas de escurid\u00e3o e sono, tal como a deixara. Como sua sa\u00edda n\u00e3o fora  anunciada, todos haviam suposto que ele se retirara para o santu\u00e1rio  subterr\u00e2neo sob a pir\u00e2mide da Voorqual para prop\u00f3sitos de prolongada  medita\u00e7\u00e3o, como era \u00e0s vezes o seu costume.<\/p>\n<p>Entre a esperan\u00e7a e a  hesita\u00e7\u00e3o, temendo o abortamento de seu plano e ainda se contorcendo de  pensar em sua impiedade t\u00e3o audaciosa, Lunithi esperou a noite anterior  ao duplo amanhecer do solst\u00edcio em que, em uma sala secreta da pir\u00e2mide  negra, a monstruosa oferenda seria preparada. Nala seria morta por um  sacerdote ou sacerdotisa, escolhido por sorteio, e seus fluidos vitais  gotejariam do altar canalizado at\u00e9 uma grande ta\u00e7a, e a ta\u00e7a seria ent\u00e3o  levada em ritos solenes at\u00e9 a Voorqual, e seu conte\u00fado seria derramado  dentro do maldito c\u00e1lice suplicante da flor sanguin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ele  pouco viu Nala durante este interim. Ela estava mais distante que nunca,  e parecia ter se consagrado completamente ao destino que se aproximava.  A ningu\u00e9m \u2014 e muito menos \u00e0 sua amada \u2014 Lunithi ousou mencionar a  possibilidade de evitar o sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>Sobreveio ent\u00e3o a temida  manh\u00e3, com uma aurora s\u00fabita de tons brilhantes que se transformou em  uma escurid\u00e3o enfeitada de chamas matinais. Lunithi se esgueirou pela  cidade adormecida e entrou na pir\u00e2mide cujo negrume se erguia  massivamente em meio \u00e0 fr\u00e1gil arquitetura dos edif\u00edcios que eram pouco  mais do que toldos e janelas incrustrados em poucas pedras. Com infinito  cuidado e aten\u00e7\u00e3o ele completou os preparativos prescritos pela  Occlith. Em uma sala iluminada pela luz guardada do sol ele derramou na  imensa ta\u00e7a sacrificial de metal negro o veneno sibilitante e fervento  que trouxera consigo das montanhas brancas. Ent\u00e3o, abrindo habilmente  uma veia em um de seus bra\u00e7os, ele adicionou certa quantidade de seu  pr\u00f3prio fluido vital \u00e0 po\u00e7\u00e3o mort\u00edfera, sobre cuja face de fumegante  cristal ele flutuou como um \u00f3leo m\u00e1gico, sem se misturar, de forma que  toda a ta\u00e7a parecia estar cheia do l\u00edquido mais aceito pela flor  sat\u00e2nica.<\/p>\n<p>Levando em suas m\u00e3os o graal negro, Lunithi subiu pela  escadaria esculpida que levava \u00e0 presen\u00e7a da Voorqual. Com seu cora\u00e7\u00e3o  apertado e seus sentidos rodopiando em frios gargalos de terror, ele  surgiu no alto terra\u00e7o acima da cidade sombria.<\/p>\n<p>Em uma  melanc\u00f3lica luminosidade azul imposta pela estranha iridesc\u00eancia dos  raios de luz que anunciavam o duplo amanhecer, ele viu o balou\u00e7ar  son\u00edfero da planta monstruosa e ouviu o seu silvo sonolento que era  respondido pregui\u00e7osamente pela mir\u00edade de outras flores dos andares  inferiores. Um opressivo pesadelo, negro e tang\u00edvel, parecia fluir da  pir\u00e2mide e repousar como uma sombra estagnada sobre todas as terras de  Lophai.<\/p>\n<p>Perplexo com sua pr\u00f3pria ousadia, e imaginando que seus  pensamentos ocultos certamente seriam compreendidos quando se  aproximasse, ou que a Voorqual suspeitaria de uma oferenda feita antes  da hora costumeira, Lunithi reverenciou seu suserano vegetal. A Voorqual  n\u00e3o deu nenhum sinal de que se dignara a perceber sua presen\u00e7a, mas o  grande c\u00e1lice floral, com suas manchas carmim desbotadas para clarete e  p\u00farpura pelo lusco-fusco do amanhecer, adiantava-se como se pronto a  receber seu presente odioso.<\/p>\n<p>Ofegante e a ponto de desmaiar de  tanto medo religioso, em um momento de suspense que pareceu eterno,  Lunithi despejou o veneno disfar\u00e7ado em sangue dentro do c\u00e1lice. O  veneno borbulhou e assobiou como uma fermenta\u00e7\u00e3o m\u00e1gica quando a flor  sedenta o bebeu, e Lunithi viu o galho escamado recolher-se, tombando a  demon\u00edaca copa rapidamente, como se repudiasse a bebida duvidosa.<\/p>\n<p>Mas  era tarde, pois o veneno fora absorvido pelo revestimento poroso da  flor. O movimento de inclina\u00e7\u00e3o mudou em meio \u00e0 sua execu\u00e7\u00e3o,  transformando-se em um encolhimento como o de um bra\u00e7o de r\u00e9ptil, e  ent\u00e3o o caule imenso e escamoso da Voorqual come\u00e7ou a balan\u00e7ar, fazendo  sua coroa de folhas dan\u00e7ar um bailado mortal, acenando para a escurid\u00e3o  das cortinas da manh\u00e3. Seu assobio cont\u00ednuo e profundo cresceu at\u00e9 uma  nota insuport\u00e1vel, marcada pela dor de um diabo moribundo. Olhando para  baixo a partir da borda da plataforma em que se agarrava para evitar os  movimentos da erva, Lunithi viu que as plantas nos terra\u00e7os inferiores  estavam tamb\u00e9m balan\u00e7ando em louco un\u00edssono com sua mestra. Como os  ru\u00eddos de um sonho doentio, ele ouviu o coro de seus assobios  torturados.<\/p>\n<p>N\u00e3o ousou olhar novamente para a Voorqual at\u00e9 que  percebeu um estranho sil\u00eancio e viu que as flores abaixo haviam cessado  de agitar-se e pendiam l\u00e2nguidas sobre seus caules. Ent\u00e3o, incr\u00e9dulo,  ele soube que a Voorqual morrera.<\/p>\n<p>Voltando-se em triunfo mesclado  a horror, ele contemplou o tronco fl\u00e1cido que ca\u00edra prostrado em seu  leito de adubo inomin\u00e1vel. Ele viu o s\u00fabito tremido das folhas duras e  cortantes, da repulsiva e infernal ta\u00e7a. Mesmo o bulbo p\u00e9treo parecia  desmoronar e desfazer-se diante de seus olhos. Toda a planta, com suas  cores malignas desbotando r\u00e1pido, encolhia e ca\u00eda sobre si como uma  imensa pele de cobra.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, de uma maneira  indescrit\u00edvel, Lunithi ainda tinha consci\u00eancia de uma presen\u00e7a que  parecia gravitar sobre a pir\u00e2mide. Mesmo com a morte da Voorqual, lhe  parecia que n\u00e3o estava s\u00f3. Ent\u00e3o, enquanto contemplava e esperava,  temendo algo que n\u00e3o sabia o que era, sentiu a passagem de uma coisa  fria e invis\u00edvel \u2014 uma coisa que atravessou seu corpo como as curvas  grossas de uma imensa serpente, sem som algum, em ondula\u00e7\u00f5es calmas e  viscosas. Um momento depois e ela desaparecera, e Lunithi n\u00e3o mais  sentia a presen\u00e7a apavorante.<\/p>\n<p>Ele se preparou para sair, mas  parecia que a noite que terminava ainda estava cheia de um horror  inconceb\u00edvel que se depositava diante dele enquanto descia pela longa e  sombria e escadaria. Lentamente ele a percorreu, um desespero curioso o  acometia. Ele matara a Voorqual, ele a vira se retorcer em agonia. Mas  n\u00e3o podia crer que no que fizera, a remo\u00e7\u00e3o do antigo mal ainda lhe  parecia n\u00e3o ser mais que um mito tolo.<\/p>\n<p>A penumbra come\u00e7ou a  iluminar-se enquanto ele passava pela cidade sonolenta. De acordo com o  costume, ningu\u00e9m deveria estar fora de casa por uma hora ainda. Ent\u00e3o os  sacerdotes da Voorqual se reuniriam para o holocausto sangrento anual.<\/p>\n<p>Na  metade do caminho entre a pir\u00e2mide e o seu pal\u00e1cio, Lunithi ficou mais  do que assustado ao encontrar a donzela Nala. P\u00e1lida e fantasmag\u00f3rica  ela passou por ele em um movimento s\u00fabito e balan\u00e7ante, quase  serpentino, que diferia muito de seu langor habital. Lunithi n\u00e3o ousou  interpel\u00e1-la ao ver seus olhos fechados e tranquilos, como os de uma  son\u00e2mbula, e ficou surpreso e perturbado pela estranha facilidade e  certeza inatural de seu movimento, que lhe lembrava algo que ele temia  relembrar. Em um tumulto de fant\u00e1sticas d\u00favida e apreens\u00e3o ele a seguiu.<\/p>\n<p>Seguindo  pelo ex\u00f3tico labirinto das ruas de Lospar com o leve e sinuoso deslizar  de uma serpente que volta para casa, Nala entrou na pir\u00e2mide sagrada.  Lunithi, menos esperto que ela, ficara para tr\u00e1s, e n\u00e3o viu por onde ela  entrara, na mir\u00edade de por\u00f5es e c\u00e2meras, mas uma intui\u00e7\u00e3o obscura e  tem\u00edvel conduziu seus passos sem demora at\u00e9 a plataforma no topo.<\/p>\n<p>Ele  n\u00e3o sabia o que encontraria l\u00e1, mas o seu cora\u00e7\u00e3o estava dopado por um  desespero esot\u00e9rico, e ele n\u00e3o sentiu nenhuma surpresa quando l\u00e1 chegou,  \u00e0 luz multicolorida da manh\u00e3, e contemplou a coisa que o esperava.<\/p>\n<p>A  donzela Nala \u2014 ou aquilo que ele sabia ter sido ela \u2014 estava de p\u00e9  sobre o adubo abomin\u00e1vel, sobre os restos murchos da Voorqual. Ela tinha  sofrido \u2014 e ainda estava sofrendo \u2014 uma metamorfose monstruosa e  diab\u00f3lica. Seu corpo fr\u00e1gil e esbelto tinha assumido um formato  longil\u00edneo, como o de um drag\u00e3o, e a sua pele tenra estava marchetada de  escamas incipientes que escureciam visivelmente em uma confus\u00e3o de tons  doentios. Sua cabe\u00e7a n\u00e3o era mais reconhec\u00edvel como tal e a fisionomia  humana estava desaparecendo em um estranho semic\u00edrculo de folhas  pontiagudas. Seus membros inferiores tinham se juntado e lan\u00e7ado ra\u00edzes  no ch\u00e3o. Um de seus bra\u00e7os estava se tornando parte do corpo reptiliano,  e o outro estava se alongando em um galho escamoso que formava o c\u00e1lice  de uma flor vermelha escura e sinistra.<\/p>\n<p>Mais e mais a  monstruosidade tomou a apar\u00eancia da Voorqual, e Lunithi, esmagado pelo  horror ancestral e pela f\u00e9 terr\u00edvel de seus ancestrais, n\u00e3o podia ter  mais nenhuma d\u00favida de sua identidade. Logo n\u00e3o havia mais nenhum tra\u00e7o  de Nala na coisa diante de si, que come\u00e7ou a oscilar com um ritmo  sinuoso de cobra e a sibilar profunda e medonhamente, com o que as  plantas dos degraus inferiores responderam. Ele soube, ent\u00e3o, que a  Voorqual tinha retornado para exigir seu sacrif\u00edcio e presidir para  sempre a cidade de Lospar e o mundo de Lophai.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vegeta\u00e7\u00e3o do planeta Lophai n\u00e3o \u00e9 como as plantas e flores da Terra,  que crescem pac\u00edficas sob um sol solit\u00e1rio. 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