{"id":6339,"date":"2019-03-26T00:00:24","date_gmt":"2019-03-26T03:00:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=6339"},"modified":"2019-07-17T23:48:58","modified_gmt":"2019-07-18T02:48:58","slug":"o-ataque-contemporaneo-a-racionalidade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2019\/03\/o-ataque-contemporaneo-a-racionalidade\/","title":{"rendered":"O Ataque Contempor\u00e2neo \u00e0 Racionalidade"},"content":{"rendered":"\n<p>Vivemos uma \u00e9poca estranha, em que as ferramentas do conhecimento parecem ter se tornado inimigas nossas. S\u00e3o tantas as partes que se insurgem contra a racionalidade que parece cada vez mais improv\u00e1vel que se consiga preservar para o futuro a heran\u00e7a do Iluminismo. N\u00e3o podemos transigir com isso de maneira alguma, porque se perdermos as ferramentas da raz\u00e3o o debate honesto se tornar\u00e1 imposs\u00edvel e a vit\u00f3ria ser\u00e1 de quem conseguir gritar mais alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas grandes frentes se abriram contra a racionalidade: no campo conservador temos a \u201cnova direita\u201d, que se prop\u00f5e a reescrever a hist\u00f3ria e eliminar as influ\u00eancias do racionalismo ateu, e no campo progressista temos os \u201cidentit\u00e1rios\u201d p\u00f3s-modernos, com sua relativiza\u00e7\u00e3o apressada de todas as formas de conhecimento. Duas ideologias opostas, atacando de \u00e2ngulos diferentes o mesmo inimigo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft\"><img src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Caliper_detail_view-300x187.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6340\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Para a \u201cnova direita\u201d, os valores racionais s\u00e3o inaceit\u00e1veis porque eles deitam luz sobre aqueles aspectos que os conservadores n\u00e3o querem que sejam conhecidos: privil\u00e9gios de classe, d\u00edvidas hist\u00f3ricas, injusti\u00e7as em geral, sistemas de opress\u00e3o e exclus\u00e3o etc. O melhor exemplo disso \u00e9 a manipula\u00e7\u00e3o descarada feita por Olavo de Carvalho, que comprometeu intelectualmente toda uma gera\u00e7\u00e3o de brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Para os \u201cidentit\u00e1rios\u201d, os valores racionais s\u00e3o inaceit\u00e1veis porque pretendem ser universais. Em ess\u00eancia, o pensamento p\u00f3s-moderno nos diz que as interpreta\u00e7\u00f5es dos fatos s\u00e3o t\u00e3o importantes que podem condicionar a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o dos fatos. Um exemplo gritante disso \u00e9 a tese pela qual \u00e9 necess\u00e1rio \u201cacreditar nas mulheres\u201d quando denunciam um homem por ass\u00e9dio sexual. Em princ\u00edpio \u00e9 uma tese louv\u00e1vel, porque \u00e9 realmente muito dif\u00edcil provar a realidade de um fato desses e por ser t\u00e3o frequente a atribui\u00e7\u00e3o de culpa \u00e0 mulher. Na pr\u00e1tica, abre-se a porta para a possibilidade de que uma mulher fa\u00e7a uso de sua palavra para destruir a reputa\u00e7\u00e3o de um homem ou que o chantageie com a amea\u00e7a disso. Toda vez que os defensores de tal tese s\u00e3o confrontados com as poss\u00edveis consequ\u00eancias negativas de sua aplica\u00e7\u00e3o, saem-se com desculpas ing\u00eanuas, que se baseiam, normalmente, na cren\u00e7a de que nenhuma mulher o faria. A hist\u00f3ria recente nos mostra que muitas mulheres de fato o fizeram, porque o g\u00eanero feminino n\u00e3o \u00e9 composto de seres ang\u00e9licos e incapazes de fazer o mal.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos os discursos, da \u201cnova direita\u201d e do \u201cidentitarismo\u201d p\u00f3s-moderno, se encontram na identifica\u00e7\u00e3o da busca do argumento racional como um inimigo a ser vencido. Na pr\u00e1tica, ambos os discursos se igualam no obscurantismo porque se baseiam em teses irracionais: assim como os fungos dependem da umidade e das sombras para crescerem, esses discursos dependem da ingenuidade e da ignor\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma cr\u00edtica frequente que ambos fazem (mas os \u201cidentit\u00e1rios\u201d fazem com mais frequ\u00eancia) \u00e9 que a l\u00f3gica formal seria \u201cinsuficiente\u201d para compreender a realidade. Trata-se de uma cr\u00edtica venenosa e claramente desonesta. Thomas Huxley, certa vez perguntou: \u201cse um pouco de conhecimento \u00e9 perigoso, onde est\u00e1 aquele que sabe tanto a ponto de estar seguro?\u201d Dizer que a l\u00f3gica \u00e9 insuficiente para compreender a realidade \u00e9 uma coisa t\u00e3o \u00f3bvia que nem carece dizer. Mas essa cr\u00edtica tem por objetivo sugerir, marotamente, que a l\u00f3gica seria in\u00fatil para compreender a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>No passado, o conceito de argumenta\u00e7\u00e3o l\u00f3gica cabia nos textos mais formais da ci\u00eancia e da orat\u00f3ria. A ideia de que tais princ\u00edpios poderiam ser transpostos ao discurso geral \u00e9 uma proposta revolucion\u00e1ria. Pensar que o povo poderia, e deveria, pensar e argumentar com clareza! Mas, n\u00e3o! Para os obscurantistas, a mera ideia de que um simples cidad\u00e3o possa diferenciar argumentos verdadeiros de falsos soa como quase \u201ccomunismo\u201d ou, pior, \u201creducionismo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que, em determinada fase inicial, a aplica\u00e7\u00e3o de tais princ\u00edpios teria de ser incompleta e imperfeita. Algum preju\u00edzo haveria nesta fase de transi\u00e7\u00e3o, assim como houve quando da introdu\u00e7\u00e3o da imprensa (acabou-se a bela arte da iluminura). Para o conservador, nenhuma mudan\u00e7a profunda \u00e9 aceit\u00e1vel. Para o identit\u00e1rio, a mudan\u00e7a s\u00f3 \u00e9 aceit\u00e1vel se for em condi\u00e7\u00f5es ideais. Na pr\u00e1tica, os identit\u00e1rios se tornaram um tipo espec\u00edfico de conservadores, dos que n\u00e3o conservam um status quo ultrapassado, mas os projetos falidos de um futuro que n\u00e3o acontecer\u00e1 como sonhado no in\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada de errado em ler \u201cmanuais de fal\u00e1cias\u201d, n\u00e3o h\u00e1 nada errado em tentar aplicar categorias de l\u00f3gica argumentativa ao analisar textos corriqueiros e n\u00e3o h\u00e1 nada de errado em acreditar que todos ter\u00e3o algum tipo de benef\u00edcio se aperfei\u00e7oarem sua capacidade l\u00f3gica. Errado \u00e9 haver maus manuais, superficiais demais; errado \u00e9 acreditar que a mera identifica\u00e7\u00e3o de uma fal\u00e1cia implica na falsidade dos dados; errado \u00e9 crer que a l\u00f3gica deve ser restrita a uma elite.<\/p>\n\n\n\n<p>Devemos proteger a heran\u00e7a cultural do Iluminismo, principalmente pelo seu valor humanista, epistemol\u00f3gico e democr\u00e1tico. Devemos avaliar com muito cuidado ideias e ideologias que tragam de contrabando a sugest\u00e3o de que existe alguma maneira n\u00e3o racional de abordar a realidade, e que lhe seria superior.<\/p>\n\n\n\n<p>A desvaloriza\u00e7\u00e3o da racionalidade produziu Olavo de Carvalho, o movimento antivacina\u00e7\u00e3o, o terraplanismo e diversas outras mazelas de nosso tempo. Se voc\u00ea compactua com essas coisas eu n\u00e3o espero que voc\u00ea se sensibilize com o meu apelo; mas, se voc\u00ea se define como uma pessoa progressista, eu espero que voc\u00ea pare de dar muni\u00e7\u00e3o para aqueles que querem destruir o progresso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos uma \u00e9poca estranha, em que as ferramentas do conhecimento parecem ter se tornado inimigas nossas. S\u00e3o tantas as partes que se insurgem contra a racionalidade que parece cada vez mais improv\u00e1vel que se consiga preservar para o futuro a heran\u00e7a do Iluminismo. N\u00e3o podemos transigir com isso de maneira alguma, porque se perdermos as ferramentas da raz\u00e3o o debate honesto se tornar\u00e1 imposs\u00edvel e a vit\u00f3ria ser\u00e1 de quem conseguir gritar mais alto. 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