{"id":637,"date":"2013-10-07T22:16:15","date_gmt":"2013-10-08T01:16:15","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=637"},"modified":"2018-02-25T21:05:35","modified_gmt":"2018-02-26T00:05:35","slug":"residente-em-venus","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/10\/residente-em-venus\/","title":{"rendered":"Residente em V\u00eanus"},"content":{"rendered":"<p>Quando cheguei em V\u00eanus tinha todas as ilus\u00f5es poss\u00edveis e me achava muito esperto. Estudaria com todas as despesas pagas, obtendo um diploma de grande prest\u00edgio, certeza de carreira promissora, em troca de meros oito anos-calend\u00e1rio de servi\u00e7os prestados a um dos governos de l\u00e1. Para um garoto pobre, que nunca pudera estudar em boas escolas e n\u00e3o tinha dinheiro para se preparar para os r\u00edgidos exames de sele\u00e7\u00e3o das melhores faculdades da Terra, parecia ser um trato excelente.<\/p>\n<p>Os formados em V\u00eanus praticamente formavam uma casta superior. Como samurais do antigo Jap\u00e3o. Havia uma associa\u00e7\u00e3o deles, uma esp\u00e9cie de ma\u00e7onaria com lojas por todas as regi\u00f5es. A Associa\u00e7\u00e3o dos Instru\u00eddos por V\u00eanus tinha m\u00faltiplos pap\u00e9is: todos os da antiga ma\u00e7onaria e mais alguns. As sedes regionais funcionavam como consulados informais das oito cidades de V\u00eanus, ofereciam lazer e cultura, mantinham cursos r\u00e1pidos em conv\u00eanio com alguma das universidades venusianas e recrutavam candidatos a novos membros. E os formados nunca eram designados para as suas regi\u00f5es de origem, para que pudessem agir mais livremente.<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m o rumor de que a AIV era o principal sindicato criminoso da terra, especializado em crimes de colarinho branco, conspira\u00e7\u00f5es internacionais e golpes pol\u00edticos. Mas ningu\u00e9m ousava dizer isto em voz alta. Todos diziam que os associados se protegiam mutuamente em qualquer circunst\u00e2ncia, e que tal prote\u00e7\u00e3o n\u00e3o era removida nem mesmo se o associado cometesse o mais b\u00e1rbaro dos crimes. Tudo era resolvido internamente. E ningu\u00e9m ousava questionar o que acontecia.<\/p>\n<p>Mesmo esta lenda negra me atra\u00eda. Eu queria ser membro desta casta, eu que nascera num barraco \u00e0 beira de um monturo de lixo. Meus sonhos eram grandes, e grande era a minha coragem. E grande era a minha temeridade. Eu sonhava poder matar com as minhas pr\u00f3prias m\u00e3os o Sr. Armelino, estuprar sua filha detest\u00e1vel e escapa para a seguran\u00e7a de uma sede da AIV, onde seria julgado exclusivamente pelos meus pares. Seria uma grande vingan\u00e7a: al\u00e9m de viver no conforto e no poder eu me vingaria fisicamente das pessoas que mais me haviam humilhado, e ningu\u00e9m poderia fazer nada contra mim.<\/p>\n<p>Foi munido destes pensamentos que eu entrei na sede regional da AIV em Belo Horizonte na manh\u00e3 do dia em que completei meus dezoito anos. Tivera de esperar tanto porque a minha m\u00e3e, mulher supersticiosa e desconfiada, jurara de joelhos diante de um \u00eddolo qualquer que jamais permitiria que seu filho se aliasse \u00e0s for\u00e7as do dem\u00f4nio, enquanto pudesse evitar. Quando adquiri a minha maioridade, ela n\u00e3o p\u00f4de mais.<\/p>\n<p>Fui recebido na portaria por um funcion\u00e1rio magro e moreno, com algumas cicatrizes de queimaduras no lado esquerdo do rosto. Apresentei-me e disse que pretendia me candidatar a uma vaga em um dos cursos gratuitos oferecidos por uma das universidades de V\u00eanus. Qualquer curso, qualquer das universidades. Este foi o dia em que minha vida acabou.<\/p>\n<h3>***<\/h3>\n<p>A escotilha se abre, inundando minha cama com a luz causticante do sol de V\u00eanus. Ningu\u00e9m usa despertadores com ru\u00eddos, n\u00e3o \u00e9 preciso. Minutos depois eu me desperto, suado e furioso. Come\u00e7a outro dia no inferno.<\/p>\n<p><img src=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/e\/e5\/Venus-real_color.jpg\" alt=\"http:\/\/upload.wikimedia.org\/wikipedia\/commons\/e\/e5\/Venus-real_color.jpg\" \/><\/p>\n<p>Estou cursando o d\u00e9cimo sexto semestre do curso de Psiquiatria da Universidade Ishtar, em V\u00eanus. O curso tem apenas dez, eu sou repetente. Repeti quatro vezes o pen\u00faltimo semestre, estou pela terceira vez no \u00faltimo. Este ano tenho esperan\u00e7a de passar.<\/p>\n<p>Voc\u00ea deve estar pensando que eu sou um p\u00e9ssimo aluno, ou algum tipo de imbecil, mas duvido que conseguiria se sair melhor em qualquer das universidades venusianas. Eu tamb\u00e9m achava que conseguiria me dar bem quando cheguei aqui.<\/p>\n<h3>***<\/h3>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o deseja se matricular em um dos cursos oferecidos em V\u00eanus? Poderia me dizer qual?<\/p>\n<p>Nunca fui bom em responder perguntas diretas quando eram atiradas \u00e0 minha cara. Gaguejei como de costume, mas extra\u00ed das profundezas de minha indecis\u00e3o uma resposta, afinal:<\/p>\n<p>\u2014 Engenharia Qu\u00e2ntica.<\/p>\n<p>O entrevistador me olhou de cima abaixo, e afirmou:<\/p>\n<p>\u2014 Temos de avaliar se o seu potencial intelectual \u00e9 suficiente para justificar o nosso investimento em sua forma\u00e7\u00e3o. Procederemos a um teste vocacional e decidiremos se aceitamos sua candidatura.<\/p>\n<p>Naquela tarde, depois de assinar alguns pap\u00e9is, fui enca\u00admi\u00adnhado a um alojamento, onde dormi pesadamente at\u00e9 a manh\u00e3 seguinte. Acordei cedo e tomei um desjejum econ\u00f4mico antes de ser submetido a uma bateria de testes, que incluiu exames m\u00e9di\u00adcos (alguns dolorosos), testes de racioc\u00ednio, avalia\u00e7\u00f5es de conhecimentos gerais ou simples sess\u00f5es de massoterapia. O m\u00e9todo de avalia\u00e7\u00e3o era bastante cr\u00edptico, e de certa forma irracional, mesclando supersti\u00e7\u00f5es esquecidas, ci\u00eancias con\u00adtro\u00adversas e uma boa dose de subje\u00adtivismo. Ao fim de tudo, os seis examinadores que me haviam acompanhado deram o seu vere\u00addicto:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o o julgamos apto para o curso de Engenharia Qu\u00e2ntica, mas decidimos matricul\u00e1-lo em nosso curso de Psiquiatria. Definitivamente voc\u00ea possui um talento nesta \u00e1rea.<\/p>\n<p>Eu nunca pensara em mim mesmo como um psiquiatra, mas a minha determina\u00e7\u00e3o de obter uma gradua\u00e7\u00e3o gratuita em V\u00eanus era inarred\u00e1vel:<\/p>\n<p>\u2014 Aceito a matr\u00edcula, mas somente se for realmente imposs\u00edvel aceitar-me no curso de EQ.<\/p>\n<p>\u2014 Nada \u00e9 imposs\u00edvel, meu jovem, mas advertimos que o curso de Psiquiatria lhe ser\u00e1 bastante mais agrad\u00e1vel e f\u00e1cil. O pres\u00adt\u00edgio profissional pode ser at\u00e9 maior, embora o estresse da profiss\u00e3o n\u00e3o esteja \u00e0 altura de qual\u00adquer indiv\u00edduo. Reco\u00admen\u00addamos fortemente que aceite a nossa sugest\u00e3o, ainda mais que h\u00e1 na Terra uma quantidade relati\u00advamente pequena de psiqui\u00ada\u00adtras formados por n\u00f3s. Estamos pri\u00ado\u00adrizando este curso por esta raz\u00e3o. N\u00e3o gostaria de ser parte disto?<\/p>\n<p>Deixei-me seduzir pelo convite e estendi a m\u00e3o para pegar o formul\u00e1rio de matr\u00edcula. Os seis examinadores o recolheram, com um sorriso satisfeito, e me pediram que dormisse mais uma noite no alojamento que me haviam indicado.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte j\u00e1 despertei com uma camareira dentro do meu quarto, me preparando para a viagem. Haviam descartado tudo o que trouxera comigo, menos o meu cart\u00e3o de identidade, que seria retido na sucursal de Belo Horizonte at\u00e9 o meu retorno. O descarte inclu\u00edra a pr\u00f3pria roupa com que eu me deitara para dormir e os meus \u00f3culos.<\/p>\n<p>A falta destes me deixou confuso quando despertei e vi um corpo de mulher se movendo pr\u00f3ximo \u00e0 minha cintura nua. Antes que pudesse pensar em um sonho er\u00f3tico, notei que ela estava apenas verificando se n\u00e3o havia nada sob a cama. Levantei-me num sobressalto e ela me respondeu todas as perguntas que lhe fiz. Chamava-se Hilda, era apenas uma faxineira a servi\u00e7o da AIV, sucursal Belo Horizonte, e fora designada para me preparar para a travessia.<\/p>\n<p>A prepara\u00e7\u00e3o incluiu um banho, roupas sob medida, de uma cor verde clara que me desagradava, uma valise e um aparelho port\u00e1til de tela ex\u00edgua e sem bot\u00f5es. Nada al\u00e9m disso. Sa\u00ed de meu quarto e fui direito ao refeit\u00f3rio, onde me deram outro desjejum escasso. Dali me levaram ao topo do pr\u00e9dio, onde um transporte me aguardava at\u00e9 Hadramaut, sede do principal espa\u00e7oporto terr\u00e1queo naquela \u00e9poca. L\u00e1 descobri, ao encontrar uma d\u00fazia de outros jovens de diversas partes do mundo, que a minha roupa sob medida era apenas um uniforme, que eu usaria a partir de ent\u00e3o, at\u00e9 hoje.<\/p>\n<h3>***<\/h3>\n<p>Minha vida de estudante n\u00e3o \u00e9 das piores. Recebo semanalmente uma ra\u00e7\u00e3o gratuita contendo os alimentos neces\u00ads\u00e1\u00adrios \u00e0 minha manuten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00e3o meus preferidos, s\u00e3o os que me alimentam. Os demais eu poderia comprar com a minha bolsa de estagi\u00e1rio, mas sempre s\u00e3o caros demais e acabo pre\u00adferindo que o dinheiro acumule em minha conta de poupan\u00e7a, que mantenho em um banco da Terra, claro. Ningu\u00e9m se importa com isso, eles n\u00e3o precisam se preocupar com a minha fide\u00adli\u00addade.<\/p>\n<p>E por que se preocupariam? N\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o h\u00e1 como fugir como n\u00e3o se pensa nisso. Ou talvez pensem, mas n\u00e3o confessem. Aprendi muito cedo que a \u00e9tica venusiana n\u00e3o se interessa por emo\u00ad\u00e7\u00f5es, apenas por atos. E mesmo alguns destes s\u00e3o irrele\u00advan\u00adtes. Manter o meu dinheiro em um banco da Terra n\u00e3o muda nada em minha situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vivo cada dia como se fosse o primeiro de uma eter\u00adni\u00addade. Os semestres se arrastam como s\u00e9culos, tudo piorado pela perda da no\u00e7\u00e3o de tempo, causada pelo dia eterno que bri\u00adlha l\u00e1 fora. Somente sei que s\u00e3o semestres porque conto os dias letivos e marco os intervalos dos fins de semana. N\u00e3o h\u00e1 feriados nem f\u00e9rias, por\u00e9m, apenas o domingo para ex\u00edguo des\u00adcanso. J\u00e1 s\u00e3o dezesseis anos aparentes que eu vivo assim, mas podem ser mais ou menos. \u00c0s vezes desconfio que os dias venu\u00adsianos s\u00e3o manipulados, que n\u00e3o vinte e quatro horas id\u00ean\u00adti\u00adcas \u00e0s terrestres, que por isso me tiraram o rel\u00f3\u00adgio durante a noite, antes de meu translado.<\/p>\n<h3>***<\/h3>\n<p>Existiam v\u00e1rios voos de carga mensais entre V\u00eanus e a Terra naquela \u00e9poca, mais do que hoje. Havia, por\u00e9m, somente um voo de passa\u00adgeiros. A dura\u00e7\u00e3o da viagem dependia da \u00e9poca do ano, variando entre uma semana e cinco meses. Pelo que diziam, a \u00fanica raz\u00e3o para uma frequ\u00eancia t\u00e3o grande de voos era mesmo a impossibilidade de reunir toda a carga em um voo s\u00f3, cada 584 dias. Os prazos vari\u00e1veis tinham o curioso efeito de, \u00e0s vezes, fazer com que uma viagem iniciada em maio terminasse depois de uma come\u00e7ada em agosto. Estas circunst\u00e2ncias aca\u00adba\u00advam tendo relativa utilidade para a pol\u00edtica venusiana, como s\u00f3 hoje eu sei. Por sorte n\u00e3o tive de esperar muito no clima seco do deserto. Meu voo saiu apenas cinco dias depois que eu dei entrada no Hotel dos Emigrantes.<\/p>\n<p>Durante minha estada ali, recebi a \u00faltima comunica\u00e7\u00e3o de minha m\u00e3e. Ela parecia transtornada de me ver no uniforme verde e procurava evitar me olhar, como se o distintivo preto e amarelo bordado no lado esquerdo do meu peito lhe parecesse uma abomina\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me desejou boa sorte, n\u00e3o pediu que eu voltasse logo. Apenas disse, de forma tristemente prof\u00e9tica, que rezaria pela salva\u00e7\u00e3o da minha alma.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos da esta\u00e7\u00e3o terrestre em 25 de abril, com destino ao espa\u00e7oporto orbital. Ali encontramos o &#8220;Transporte Especial&#8221;, como chamavam ao servi\u00e7o de transporte de passageiros entre V\u00eanus e Terra. Havia somente sete desta finalidade, em reve\u00adzavamento permanente. Partimos primeiro de maio e ap\u00f3s dezessete dias sem sobressaltos amanhecemos com a vis\u00e3o de um globo esverdeado claro diante de n\u00f3s, aparecendo nas escotilhas. Eu havia chegado a V\u00eanus, e ainda n\u00e3o tinha a mais remota ideia de como se vivia neste planeta. A \u00fanica coisa que sabia a respeito dele, das aulas de ci\u00eancias do prim\u00e1rio, era que se tratava de um mundo infernalmente quente, cuja rota\u00e7\u00e3o era lenta e retr\u00f3grada.<\/p>\n<h3>***<\/h3>\n<p>Preparo meu pr\u00f3prio desjejum na cozinha espartana de minha habita\u00e7\u00e3o, apesar do funcionamento do forno el\u00e9trico estar cada vez mais irregular. Caf\u00e9 artificial, p\u00e3o, queijo de soja, presunto sint\u00e9tico e biscoitos. Enquanto como, con\u00adtemplo as paredes cinzentas, salpicadas de gotas causadas pela minha pr\u00f3pria respira\u00e7\u00e3o, manchadas de mofo em alguns lugares, por culpa do defeito de meu desumidificador. Mas evitarei comprar outro aparelho desses, no m\u00e1ximo tentarei consertar pela d\u00e9cima vez este que me acompanha h\u00e1 tantos anos. Vou precisar de cada centavo do maldito dinheiro que ganho neste planeta. Ap\u00f3s a limpeza a seco, visto meu uni\u00adforme de residente e saio para o trabalho.<\/p>\n<p>Os corredores de acesso s\u00e3o soturnos como catacumbas, per\u00adcor\u00adrendo as entranhas do imenso bojo de metal e cimento que flutua muito alto na atmosfera densa. A \u00fanica ilumina\u00e7\u00e3o \u00e9 a luz externa, canalizada por tubos semitransparentes. \u00c9 pouca luz, mas economiza-se energia no que \u00e9 poss\u00edvel. Meu rel\u00f3gio venusiano de pulso marca seis da manh\u00e3. \u00c9 muito cedo, muito mesmo. Mas eu me propus a acordar duas horas mais cedo que todos os meus colegas de infort\u00fanio porque tenho de estudar.<\/p>\n<p>Trabalho na Cl\u00ednica de Recupera\u00e7\u00e3o Mental da cidade de Eros, a segunda menor dentre as oito. Faz parte da minha forma\u00e7\u00e3o prestar atendimento aqui, por um sal\u00e1rio miser\u00e1vel, at\u00e9 que consiga me formar, sonho que come\u00e7a a parecer poss\u00edvel, depois de tantos anos tantalizantes.<\/p>\n<h3>***<\/h3>\n<p>A minha chegada em V\u00eanus foi o despejo de um degredado numa praia de al\u00e9m-mar. Confesso que era razoavelmente ignorante sobre o que poderia encontrar aqui, n\u00e3o s\u00f3 por causa do meu desleixo em rela\u00e7\u00e3o aos estudos de Geografia e a Astronomia, desde menininho, mas tamb\u00e9m porque muito pouco se informa a respeito do que realmente se passa em V\u00eanus. Na verdade temos uma vis\u00e3o idealizada da Coloniza\u00e7\u00e3o, crescemos imaginando um mundo de incr\u00edveis aventuras em um cen\u00e1rio de liberdade e fartura, como os marinheiros do s\u00e9culo XVI. Liberdade! Fartura!<\/p>\n<p>A primeira experi\u00eancia desagrad\u00e1vel foi no espa\u00e7oporto orbi\u00adtal onde, em vez da saud\u00e1vel desordem terrestre, fui recep\u00adcionado por uma organiza\u00e7\u00e3o irretoc\u00e1vel. N\u00e3o havia nada colorido, em lugar algum, todas as coisas tinham as cores de seus materiais. Desde as paredes de a\u00e7o e cer\u00e2mica at\u00e9 as roupas dos funcion\u00e1rios, feitas desse algod\u00e3o artifi\u00adcial t\u00e3o \u00e1spero. Mas era um espa\u00e7oporto de uma col\u00f4nia rela\u00adtivamente prec\u00e1ria, que se mantinha gra\u00e7as \u00e0 sua excel\u00eancia no dom\u00ednio do deserto. Eu imaginei que a minha sensibilidade excessivamente \u00famida estava sendo rigorosa demais com V\u00eanus, e dei uma segunda chance ao planeta. Teria de dar muitas mais, e todas em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Estava de p\u00e9 no sagu\u00e3o, no meio de um grupo de doze rapazes e mo\u00e7as vestidos com o mesmo uniforme verde azulado p\u00e1lido. Nenhum de n\u00f3s sabia ainda falar esta espantosa l\u00edngua que inventaram aqui, ent\u00e3o ouv\u00edamos as pessoas que passavam con\u00adversando em torno de n\u00f3s, expelindo consoantes e mas\u00adti\u00adgando vogais, com a impress\u00e3o de que manifestavam uma hostilidade gratuita. O alfabeto diferente tamb\u00e9m n\u00e3o ajudava.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o Dr. Janus Nowak apareceu. Ele era um homem alto, de mand\u00edbula farta e olhos pequenos. Seu cabelo castanho parecia desbotado pelo encanecimento e seus dentes amarelados denunciavam h\u00e1bitos poucos saud\u00e1veis.<\/p>\n<p>Nowak n\u00e3o fez nenhuma men\u00e7\u00e3o de sorrir, ou de sequer tentar ser simp\u00e1tico. Chamou-nos apenas de &#8220;calouros&#8221; empregando um sotaque t\u00e3o horr\u00edvel que eu tive a certeza de que a nossa l\u00edngua era completamente estrangeira para ele. N\u00f3s o seguimos at\u00e9 os nossos alojamentos, estes mesmos em que ainda vivo.<\/p>\n<p>\u2014 Senhores, senhoras. Seu programa educacional somente ini\u00adciar\u00e1 em janeiro. At\u00e9 l\u00e1 voc\u00eas est\u00e3o matriculados em cursos de l\u00edngua e cultura venusianas. Sugiro que tenham seriedade nestes estudos iniciais, pois s\u00e3o essenciais para o sucesso de sua vida acad\u00eamica. Todas as aulas em todos os cursos, todas as obras de refer\u00eancia, tudo estar\u00e1 em venusiano e ser\u00e1 tamb\u00e9m em venusiano que dever\u00e3o apresentar seus trabalhos.<\/p>\n<p>Nenhum de n\u00f3s fora informado desse detalhe, conforme mais tarde apurei. Eu sequer sabia que existia uma l\u00edngua venusiana. De fato eu nunca encontrara algu\u00e9m que realmente estivera em V\u00eanus. Os membros da AIV eram, na verdade, as \u00fanicas pessoas que ouvira dizer que estiveram em V\u00eanus. N\u00e3o se fazia turismo aqui, como ainda n\u00e3o se faz.<\/p>\n<h3>***<\/h3>\n<p>Seis e dez da manh\u00e3. Tenho aproximadamente uma hora e qua\u00adrenta e cinco minutos antes de come\u00e7aram a chegar os outros funcion\u00e1rios. Tempo suficiente para revisar bastante mat\u00e9ria. Depois de bombar doze vezes na prova final do \u00faltimo semes\u00adtre, agora eu tenho a certeza de que vou passar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando cheguei em V\u00eanus tinha todas as ilus\u00f5es poss\u00edveis e me achava muito esperto. Estudaria com todas as despesas pagas, obtendo um diploma de grande prest\u00edgio, certeza de carreira promissora, em troca de meros oito anos-calend\u00e1rio de servi\u00e7os prestados a um dos governos de l\u00e1. Para um garoto pobre, que nunca pudera estudar em boas escolas e n\u00e3o tinha dinheiro para se preparar para os r\u00edgidos exames de sele\u00e7\u00e3o das melhores faculdades da Terra, parecia ser um trato excelente. Os formados em V\u00eanus praticamente formavam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[72,32],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/637"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=637"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/637\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5820,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/637\/revisions\/5820"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=637"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=637"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=637"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}