{"id":647,"date":"2013-10-14T22:13:30","date_gmt":"2013-10-15T01:13:30","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=647"},"modified":"2017-11-02T14:08:17","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:17","slug":"sobre-a-possibilidade-de-colonizacao-de-venus","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/10\/sobre-a-possibilidade-de-colonizacao-de-venus\/","title":{"rendered":"Sobre a Possibilidade de Coloniza\u00e7\u00e3o de V\u00eanus"},"content":{"rendered":"<p>Recebi um coment\u00e1rio do Ant\u00f4nio Luiz Monteiro C. da Costa sobre o conto &#8220;Resi\u00addente em V\u00eanus&#8221;, no qual ele dizia que meu conto n\u00e3o poderia nem de longe ser con\u00adsiderado fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica &#8220;hard&#8221; por v\u00e1rias raz\u00f5es. Algumas das raz\u00f5es que ele apontou realmente s\u00e3o inquestion\u00e1veis, como o fato de que tal tipo de fic\u00e7\u00e3o se con\u00adcentra mais em tecnologias do que em intera\u00e7\u00f5es entre indiv\u00edduos ou sociedades. Mas existe uma raz\u00e3o que ele apon\u00adtou que me pareceu defens\u00e1vel: que a minha des\u00adcri\u00e7\u00e3o de V\u00eanus n\u00e3o \u00e9 realista e que seria imposs\u00edvel colonizar o planeta. Acre\u00addito que o Ant\u00f4nio pensou assim porque eu n\u00e3o expli\u00adquei o cen\u00e1rio suficiente\u00admente (afinal, trata-se de um conto apenas). Quando eu expandir a hist\u00f3ria at\u00e9 uma nove\u00adleta pelo menos, ficar\u00e1 mais f\u00e1cil admitir a plausibi\u00adlidade, espe\u00adcial\u00admente conside\u00adrando as ideias loucas que alguns cientistas t\u00eam para colonizar o pla\u00adneta. Uma das caracter\u00edsticas da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 nunca admitir algo como imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio em que se passa a hist\u00f3ria \u00e9 uma cidade &#8220;flutuante&#8221; \u2014 um conceito criado por Geoffrey Landis. A ideia \u00e9 simples na concep\u00e7\u00e3o, problema \u00e9 como executar.<\/p>\n<p>Landis afirma que, com o que hoje sabemos sobre V\u00eanus, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que encontra\u00adr\u00edamos, entre 50 km e 65 km acima da altitude m\u00e9dia da superf\u00edcie, press\u00e3o de aproxi\u00adma\u00addamente uma atmosfera e temperaturas m\u00e9dias acima de 0 \u00b0C e abaixo de 50 \u00b0C. A esta altitude se estaria, tamb\u00e9m, acima da camada de n\u00e9voa \u00e1cida e altamente refletiva que envolve o planeta (composta principalmente por \u00e1cido sulf\u00farico).<\/p>\n<p>Nessas condi\u00e7\u00f5es, e considerando que a atmosfera venusiana \u00e9 composta por 92% de di\u00f3\u00adxido de carbono, uma mol\u00e9cula mais pesada do que o ar, a exist\u00eancia de uma cidade per\u00adma\u00adnentemente flutuante seria uma possibilidade interessante: o pr\u00f3prio ar (oxig\u00eanio + nitrog\u00eanio) teria uma capacidade de flutua\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 do g\u00e1s h\u00e9lio. Alem disso, 7% da atmosfera venusiana \u00e9 nitrog\u00eanio, o que significa que somente o oxig\u00eanio precisaria ser produzido.<\/p>\n<p>Os problemas come\u00e7am pelo material utilizado na constru\u00e7\u00e3o, que deveria ser resistente ao \u00e1cido sul\u00adf\u00farico, uma das subst\u00e2ncias mais corrosivas que se conhece, e tamb\u00e9m com\u00adbinar resis\u00adt\u00eancia e leveza. Se tal elemento n\u00e3o tiver caracter\u00edsticas adequadas de resis\u00adt\u00eancia, ele poderia ser usado apenas para revestimento da estrutura, que seria feita de algo mais leve, como algum tipo de cer\u00e2mica de consist\u00eancia esponjosa.<\/p>\n<p>Tal h\u00e1bitat seria certamente muito problem\u00e1tico, e resultaria numa sociedade t\u00e3o infer\u00adnal quanto a que eu descrevo. A estrutura deveria ser hermeticamente fechada, n\u00e3o tanto para manter o ar dentro, visto que a press\u00e3o interna poderia ser mantida no mesmo n\u00edvel da externa, mas para evitar a entrada do \u00e1cido sulf\u00farico. Mesmo que os habitantes aca\u00adbas\u00adsem gostando do cheiro permanente de ovo podre, esta invas\u00e3o seria nociva a prati\u00adca\u00admente tudo dentro da cidade, inclusive a sa\u00fade de seus habitantes. Com 99% da massa da atmos\u00adfera abaixo da cidade, o c\u00e9u seria claro (amarelado) e dominado por intensa luz solar. As temperaturas poderiam ser relativamente amenas, mas o sol poderia ser, sim, &#8220;causticante&#8221;.<\/p>\n<p>Viver em tal cidade envolveria cont\u00ednua precau\u00e7\u00e3o. Servi\u00e7os de manu\u00adten\u00ad\u00e7\u00e3o preventiva deve\u00adriam ser feitos quase que diariamente, para detectar antecipada\u00admente qualquer ind\u00ed\u00adcio de poss\u00edvel futura falha estrutural (queimaduras de \u00e1cido onde o revestimento trin\u00adcou ou foi danificado por algum tipo de colis\u00e3o, rasgos no bal\u00e3o de ar, fadiga de mate\u00adrial em alguma pe\u00e7a importante de sustenta\u00e7\u00e3o etc.). A estrutura deveria ser constru\u00edda de forma a permitir a substitui\u00e7\u00e3o das pe\u00e7as de reposi\u00e7\u00e3o. Fazer estes servi\u00e7os seria, tam\u00adb\u00e9m, algo muito dif\u00edcil. Os oper\u00e1rios precisariam de roupa protetora (n\u00e3o neces\u00adsa\u00adria\u00admente pressurizada, mas uma esp\u00e9cie de roupa de mergulho), \u00f3culos especiais e bal\u00e3o de oxig\u00eanio. Qualquer cent\u00edmetro de pele exposto ao ar seria queimado pelo \u00e1cido sul\u00adf\u00fa\u00adrico em suspens\u00e3o. Sair e entrar da col\u00f4nia envolveria escotilhas.<\/p>\n<p>Todo habitante viveria em cont\u00ednuo terror da &#8220;queda&#8221; na atmosfera venusiana. N\u00e3o s\u00f3 da queda coletiva \u2014 caso os bal\u00f5es de flutua\u00e7\u00e3o explodam, furem ou se desprendam \u2014 mas da queda individual. Atirar algu\u00e9m de um parapeito seria o crime perfeito: o cad\u00e1ver seria destru\u00eddo quase instantaneamente, talvez antes de chegar ao solo. N\u00e3o havendo c\u00e2mera de seguran\u00e7a para detectar o feito, o crime n\u00e3o seria nunca descoberto. Certamente as leis da col\u00f4nia incluir\u00e3o penas inimaginavelmente cru\u00e9is para quem cometa um ato des\u00adtes. Atirar algu\u00e9m na atmosfera seria tamb\u00e9m uma forma de puni\u00e7\u00e3o capital muito eco\u00adn\u00f4mica: n\u00e3o gastaria energia e nem balas, bastando abrir um al\u00e7ap\u00e3o. N\u00e3o acredito, por\u00e9m, que a cidade fizesse isso com seus mortos de forma frequente (ape\u00adnas como algum tipo espetaculoso de puni\u00e7\u00e3o exemplar). Tendo de sobreviver com recur\u00adsos limitados, a cidade certamente reciclaria os cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia em um ambiente onde um r\u00edgido controle seria necess\u00e1rio \u00e0 pr\u00f3pria sobre\u00advi\u00adv\u00ean\u00adcia da comunidade seria determinante para dar \u00e0 cidade um sistema de governo des\u00adp\u00f3\u00adtico ou totalit\u00e1rio n\u00e3o muito diferente das sociedades orientais antigas, baseadas em gran\u00addes obras p\u00fablicas hidr\u00e1ulicas (Egito, Mesopot\u00e2mia, \u00cdndia, China etc.). A manuten\u00e7\u00e3o preventiva da estrutura for\u00e7aria quase todos os habitantes a um tipo de servid\u00e3o volun\u00adt\u00e1ria por longos per\u00edodos. No cen\u00e1rio por mim imaginado, a falta de m\u00e3o de obra levaria os governos a atrair jovens terr\u00e1queos com a promessa de estudos. Em troca de diplomas universit\u00e1rios gratuitos, tais estudantes teriam de se submeter as agruras da vida venu\u00adsiana, incluindo sal\u00e1rios baixos e longos per\u00edodos de servid\u00e3o. Mas s\u00f3 seria poss\u00edvel man\u00adter um fluxo cont\u00ednuo de estudantes se retornassem todos, ou boa parte deles. Uma taxa rela\u00adtivamente alta de mortalidade n\u00e3o demoveria interessados, ou ningu\u00e9m se alistaria no ex\u00e9rcito americano para estudar.<\/p>\n<p>O que faltou ao meu texto foi desenvolver melhor o cen\u00e1rio, explicando as circunst\u00e2ncias da coloniza\u00e7\u00e3o venusiana. Por se tratar de um conto, julguei que seria inadequado e desin\u00adteressante dar tanta informa\u00e7\u00e3o, mas se for expandi-lo eu fatalmente terei que gastar p\u00e1ginas e p\u00e1ginas explicando estas coisas que eu mal delineei aqui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recebi um coment\u00e1rio do Ant\u00f4nio Luiz Monteiro C. da Costa sobre o conto &#8220;Resi\u00addente em V\u00eanus&#8221;, no qual ele dizia que meu conto n\u00e3o poderia nem de longe ser con\u00adsiderado fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica &#8220;hard&#8221; por v\u00e1rias raz\u00f5es. Algumas das raz\u00f5es que ele apontou realmente s\u00e3o inquestion\u00e1veis, como o fato de que tal tipo de fic\u00e7\u00e3o se con\u00adcentra mais em tecnologias do que em intera\u00e7\u00f5es entre indiv\u00edduos ou sociedades. 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